SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.1 número1SAÚDE E CONDIÇÕES DE VIDA DO IDOSO NO BRASIL índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Textos sobre Envelhecimento

versão impressa ISSN 1517-5928

Textos Envelhecimento v.1 n.1 Rio de Janeiro nov. 1998

 

SAÚDE E QUALIDADE DE VIDA NA TERCEIRA IDADE

Maria Inez Padula Anderson, Mônica de Assis, Liliane Carvalho Pacheco, Efigenia Aparecida da Silva, Isis Simões Menezes, Therezinha Duarte, Flávio Storino e Luciana Motta*

 

RESUMO

Este texto apresenta os primeiros resultados da pesquisa Saúde e Qualidade de Vida na Terceira Idade, realizada com idosos que participam do Projeto de Promoção da Saúde1, desenvolvido pela equipe interdisciplinar do Núcleo de Atenção ao Idoso (NAI), da Universidade Aberta da Terceira Idade – UnATI/UERJ.

O objetivo é apresentar um perfil de saúde desses idosos e as interfaces com o trabalho educativo a eles destinados. A partir desta primeira etapa, serão delineadas linhas de pesquisa setoriais e/ou interdisciplinares que aprofundem questões relevantes no campo da saúde e envelhecimento, ao mesmo tempo em que contribuam para o aprimoramento das ações educativas.

Palavras-chave: Epidemiologia do envelhecimento, avaliação multidimensional, condições de vida do idoso, serviços de saúde para idosos.

 

1.O PROJETO DE PROMOÇÃO DA SAÚDE

A saúde e a qualidade de vida dos idosos, mais que em outros grupos etários, sofrem a influência de múltiplos fatores físicos, psicológicos, sociais e culturais. Assim, avaliar e promover a saúde do idoso significa considerar variáveis de distintos campos do saber, numa atuação interdisciplinar e multidimensional.

Baseada nessa premissa, a equipe do NAI vem desenvolvendo o Projeto de Promoção da Saúde, que nasceu do interesse em conhecer melhor as inter-relações entre saúde, qualidade de vida e envelhecimento, assim como desenvolver ações especificamente voltadas à prevenção e promoção da saúde, como estratégia fundamental de ampliação do envelhecimento bem-sucedido.

O projeto constitui-se de trabalho educativo com idosos, através dos grupos Encontros com a Saúde, e da pesquisa intitulada Saúde e Qualidade de Vida na Terceira Idade.

Os grupos Encontros com a Saúde são espaços de informação e reflexão sobre aspectos relacionados à prevenção e promoção da saúde na terceira idade. A programação consiste de doze encontros, de periodicidade semanal e duração de duas horas, que abordam temas básicos, tais como aspectos sociais do envelhecimento, alimentação, atividade física, estresse, sexualidade, arte de envelhecer e patologias comuns, como hipertensão arterial, diabetes, alterações ósteo-articulares e depressão.

A pesquisa Saúde e Qualidade de Vida na Terceira Idade é realizada através de questionário de avaliação multidimensional, aplicado individualmente aos participantes dos grupos Encontros com a Saúde. Este instrumento aborda aspectos relacionados com diversas temáticas incluídas na programação educativa dos grupos, objetivando uma visão ampla da pessoa e de seu meio. Na entrevista de coleta dos dados, os idosos são também submetidos a um exame físico sumário e orientados quanto à realização de exames laboratoriais.

Além da produção de conhecimento, a avaliação objetiva incrementar e retroalimentar as ações educativas voltadas à promoção da saúde. Inicialmente, ela permite identificar os idosos com maior risco de adoecimento e/ou agravamento das suas condições de saúde e orientá-los, individualmente, quanto às suas necessidades assistenciais. Por outro lado, através da produção e socialização periódica dos dados, é possível exemplificar e redirecionar os temas abordados, de modo a refletir sobre as questões mais relevantes da população envolvida.

O Projeto de Promoção da Saúde constitui-se, tanto nas atividades educativas como de pesquisa, num espaço de exercício e construção da interdisciplinaridade, otimizado através da inserção de alunos da graduação e pós-graduação de diversas áreas profissionais (medicina, enfermagem, serviço social, nutrição, psicologia, fisioterapia e terapia ocupacional).

A realização deste projeto no ambulatório da UnATI torna-se oportuna por ser este um espaço eminentemente de promoção da saúde e produção de conhecimento.

 

2. AVALIAÇÃO MULTIDIMENSIONAL: ASPECTOS METODOLÓGICOS

Para realizar a avaliação multidimensional, a equipe optou pela elaboração de um questionário, tendo como referência o BOAS (Brazilian Old Age Schedule), que por sua vez foi desenvolvido a partir de outros instrumentos e adaptado para a investigação da velhice no Brasil (Veras, 1994). No entanto, foi necessário adaptá-lo às delimitações da pesquisa, bem como incluir outros aspectos relevantes identificados na prática assistencial.

O questionário contém 94 perguntas e abrange os seguintes aspectos: perfil socioeconômico, alimentação, atividade física, sexualidade, avaliação das atividades de vida diária, morbidade referida, queda, tabagismo e etilismo, autopercepção do estado de saúde, satisfação em viver, uso de medicamentos, utilização de serviços de saúde e resultados dos exames.

Os dados estão sendo consolidados no programa estatístico informatizado - EPIINFO. A perspectiva é consolidar uma pesquisa de caráter permanente, que permita estudar a prevalência de fatores de risco ou de proteção relacionados com a qualidade de vida, adoecimento e manutenção da saúde do idoso e relativos às dimensões físicas, psicológicas e socioculturais.

A pesquisa permitirá também, a médio e longo prazos, realizar estudo longitudinal de população, de modo a verificar o comportamento dos fatores de risco enfocados e sua relação com diferentes desfechos como, por exemplo, a mortalidade.

 

3. RESULTADOS

No período de março de 1996 a julho de 1997 foram entrevistados 93 idosos, sendo a maioria (89,2%) mulheres, de cor branca (75,3%), brasileiras (90,3%), naturais do Rio de Janeiro (59,1%). Cerca de 40% dos idosos são oriundos de outros estados, especialmente das regiões Nordeste e Sudeste.

A faixa etária predominante é a considerada idosos jovens - 60 a 69 anos (52,7%) - seguida de 70 a 79 anos (38,7%). Aproximadamente 9,0% dos entrevistados possuem 80 anos ou mais.

Alguns dos principais dados obtidos nesta primeira fase da pesquisa serão a seguir apresentados e comentados.

3.1 Aspectos sociais

a) Família

A grande maioria dos idosos entrevistados, cerca de 68%, não tem vínculo conjugal: são viúvos (41,9%), solteiros (14%), separados ou divorciados (11,8%). O percentual restante é de casados (41,9%). Nota-se que aqui foi considerado o estado civil, de fato, e não de direito, com vistas a contemplar a situação atual com mais adequação.

Em relação à estrutura familiar, observa-se que a maioria possui vínculos de primeiro grau: 82,8% dos idosos possuem filhos; 73,1% possuem netos ou bisnetos e 75,3% possuem irmãos vivos.

Questionados sobre o apoio do grupo familiar, 64,1% referem que são muito apoiados. Apesar desse expressivo percentual, chama a atenção o fato de que cerca de 10,9% referiram não ser em nada apoiados, enquanto 16,3% responderam que são pouco apoiados. Além disso, aproximadamente 8,7% não responderam a esta pergunta, percentual de não-resposta superior ao de outras questões, e possivelmente indicativo de relação insatisfatória de apoio familiar.

Quanto ao relacionamento familiar, 42% estavam muito satisfeitos, enquanto 14% classificaram sua relação com os seus familiares como sofrível ou ruim.

b) Habitação

Ter moradia própria constitui um dos aspectos centrais da condição de vida e bem-estar dos idosos. No grupo pesquisado, 62,4% dos idosos referiram ter moradia própria, enquanto 18,3% residem em imóveis alugados e 12,9% em casa de parentes.

Na análise do perfil dos alunos da UnATI (Peixoto, 1997), a predominância do imóvel próprio é ainda maior (79,2%), o que resulta, segundo a autora, de condições mais favoráveis de financiamento habitacional em épocas passadas.

O saneamento básico foi referido como disponível e adequado por todos os entrevistados, em sua maioria moradores de bairros próximos à Universidade e providos de infra-estrutura urbana básica.

A composição no domicílio mostra que 35,5% moram sozinhos, percentual acima da faixa entre 6 e 28%, estimada por Videla (1994) na análise sobre as políticas de serviços para idosos na América Latina. Aproximadamente 24% moram apenas com o cônjuge, e o restante apresenta as mais diversas composições familiares no domicílio. Predominam núcleos pequenos, com quase 90% das moradias possuindo até quatro habitantes.

A relação entre morar só e sexo é apresentada na tabela 1. Como se pode observar, a totalidade dos idosos que moram sozinhos é de mulheres. Esta predominância é apontada no estudo de Anderson (1997) sobre saúde e condições de vida do idoso no Brasil. Segundo dados de 1989, no grupo com 70 anos ou mais, há no país cerca de 15% de idosas morando sozinhas para cerca de 6% de homens em igual condição.

 

 

Morar sozinho não significa um problema em si, já que pode ser uma opção, além de uma condição somente possível, via de regra, com níveis financeiro e de saúde satisfatórios. Entretanto, é considerada uma situação de risco pela Organização Mundial da Saúde, tendo em vista a possibilidade de perda da autonomia e inadequado suporte familiar. O risco de solidão e sentimento de vulnerabilidade e falta de apoio podem portanto estar presentes, tornando necessário o aprofundamento específico desse aspecto do grupo estudado.

c) Escolaridade

O nível educacional dos idosos, como afirma Anderson (1997), tem papel importante no planejamento de programas e ações de saúde, tanto no nível coletivo quanto no individual.

No grupo estudado, a escolaridade apresentou-se diversificada e mais alta que a média da população idosa. Apenas 2,2% dos idosos referiram não ter instrução alguma, enquanto cerca de 23% chegaram a cursar o colegial (atual 2° grau) e 11% o curso superior. O nível predominante é o primário: 46,2% declararam ter cursado até a 4a série do primário, dado ainda assim bem abaixo da média de 80% encontrada para o Brasil (Anderson, 1997).

A heterogeneidade educacional dos participantes do Projeto é um aspecto relevante a ser considerado na ação educativa, de modo a adequar linguagem e conteúdos ao perfil de cada grupo, tendo em vista alcançar o melhor nível possível de comunicação e de interação entre os participantes.

d) Trabalho e recursos econômicos

A inserção em atividade ocupacional remunerada, mesmo que por um período inferior ao tempo necessário à aposentadoria, foi uma experiência vivida por cerca de 84% dos idosos participantes do Projeto. Como mostra a tabela 2, predominou a atividade de costura, seguida das funções administrativas e ligadas ao comércio.

Quanto à idade em que começaram a trabalhar, verifica-se que 18,3% dos idosos iniciaram algum tipo de atividade laborativa antes dos 14 anos, em geral como ajudantes dos pais em funções ligadas ao trabalho por eles desempenhado.

A situação previdenciária mostra que 53 idosos (57%) conseguiram se aposentar. Este percentual, somado ao dos que recebem pensão, sobe para 81,7%. Aproximadamente 18% dos idosos não recebem benefício previdenciário, porém cerca de 40% referiram receber algum tipo de ajuda financeira regular, basicamente de familiares.

Aproximadamente 21,5% dos idosos ainda exercem atividade remunerada no momento, sobretudo no mercado informal. As atividades mais comuns são ligadas à tarefas domésticas, tais como: costurar, fazer trabalhos manuais, passar roupas, fazer doces ou salgados, entre outras.

A distribuição dos rendimentos mensais em salários mínimos, apresentada na tabela 3, mostra um padrão acima da média da população idosa. Somente cerca de 12% recebem até um salário mínimo, enquanto 31% referem renda acima de 5 salários mínimos.

 

 

 

 

Dado o baixo valor do salário mínimo no Brasil, os rendimentos, apesar de acima da média, são percebidos por cerca de 37% dos idosos como satisfazendo mal (19,4%) ou muito mal (17,2%) as suas necessidades. Igual percentual (36,6%) aponta um grau de satisfação razoável, situação definida como intermediária entre percepções positivas ou negativas. Aproximadamente 24% declaram que seus rendimentos satisfazem bem (18,3%) e muito bem (5,4%). 

e) Atividades no tempo livre

O aumento do tempo livre na terceira idade decorre, de modo geral, da desobrigação do trabalho e do cuidado com os filhos, atividades que tendem a se tornar, significativamente, menores nesta etapa da vida. Segundo Dumazedier (apud Ferrari, 1997):

"O lazer é o conjunto de ocupações as quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se, e entreter-se, ou ainda, para sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou livre capacidade criadora após se livrar ou desembaraçar das obrigações profissionais, familiares e sociais, reunindo as três funções do lazer: descanso; divertimento, recreação e entretenimento; desenvolvimento pessoal".

Dentre as atividades realizadas no lar, as mais comuns foram assistir televisão (93,5%), ouvir rádio (78,5%), ler (67,7%) e costurar (53,8%). As atividades realizadas fora do lar mais freqüentes foram: sair para encontros sociais (74,2%), visitar parentes e/ou amigos (» 60%), ir à igreja (65,6%) e a passeios e excursões (39,8%).

A inserção em trabalho comunitário foi referida por 28% dos idosos e caracterizou-se majoritariamente por ações assistenciais ligadas a obras religiosas e/ou beneficentes. Apesar da grande maioria não ter esse tipo de atividade, um número expressivo de idosos (51,6%) responde afirmativamente quando questionado sobre o interesse em desenvolver trabalho comunitário, o que demonstra a necessidade de ampliar e diversificar espaços de atuação nesse campo2.

3.2 Aspectos nutricionais

Com relação aos resultados encontrados quanto à ingestão dos diversos grupos alimentares, não foi identificado nenhum dado significativo de ingestão deficiente, já que a grande maioria ingere alimentos de todos os grupos sete vezes por semana. Tal resultado se confirma com o baixo percentual encontrado de pessoas com baixo peso (IMC < 18,5 Kg/m2): apenas 1%, bem abaixo dos resultados encontrados na Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição (PNSN), realizada em 1989 com a população brasileira, que foram 7,8% para homens e 8,4% para mulheres (Tavares, 1997).

Em contrapartida, foram encontrados percentuais elevados de sobrepeso I (49% com IMC entre 25-29,9 Kg/m2), e sobrepesos II e III (17% com IMC > 29,9 Kg/m2 ), o que aponta para alimentação com qualidade e variedade, porém não balanceada quantitativamente. Tais percentuais de sobrepeso apresentam uma diferença bem menor quando comparados aos que foram encontrados na PNSN: 24,7% e 32,0% com Grau I, e 5,7% e 18,1% com Graus II e III, para homens e mulheres, respectivamente. Índices elevados de sobrepeso podem estar intimamente relacionados com incapacidades em idosos, significando perda de autonomia, o que resultaria em piora da qualidade de vida. O enfrentamento dessas questões passa pela educação nutricional e pela prática de atividade física regular.

 

 

Em relação aos resultados encontrados nos exames de sangue, observa-se, no gráfico a seguir, que 41% das pessoas possuem colesterol sangüíneo entre 200 a 250 mg/dl, 40% encontram-se acima de 200 mg/dl e apenas 13% abaixo de 200 mg/dl. Os valores de triglicerídeos sangüíneos apresentaram índices de normalidade (<150 mg/dl) em 55% das pessoas; em 20%, os valores encontrados estavam entre 150 a 200 mg/dl (pouco elevados), e em 25% os valores foram acima de 200 mg/dl, considerados elevados. A maioria (72%) apresentou valores normais para glicose sangüínea (<115 mg/dl), 18% entre 115 a 200 mg/dl e apenas 3% acima de 200 mg/dl.

 

 

Quanto ao HDL Colesterol, também conhecido como o "bom" colesterol, já que atua extraindo o LDL Colesterol das paredes das artérias e o transporta para ser metabolizado no fígado, observou-se: níveis baixos (até 35 mg/dl) em apenas 7,5% dos idosos, o que é considerado um fator de risco tão grave quanto índices elevados de colesterol total; níveis normais (>35 a 65 mg/dl) em cerca de 69% dos idosos; e em 16%, níveis acima de 65 mg/dl, o que constitui excelente fator de proteção, sendo fundamental para este equilíbrio a dieta balanceada e a prática de atividade física regular.

Os altos índices encontrados de sobrepeso, além das dislipidemias, principalmente de colesterol, têm íntima relação com a faixa etária e com o sexo predominantes na população estudada: 53% encontram-se na faixa entre 60 e 69 anos, e 89% são do sexo feminino. Além disso, houve uma relação positiva entre sobrepesos II e III e hiperglicemia. Dentre os 26 idosos que foram classificados como tendo o peso normal, apenas três (11,5%) apresentavam hiperglicemia, ao passo que seis (37,5%), dos 16 classificados como tendo sobrepeso II e III, apresentavam glicemias acima de 115 mg/dl. 

3.3 Atividade física

A atividade física regular traz benefícios diversos à saúde, tais como: aumento do tônus e trofismo musculares, ganho de massa óssea, diminuição dos níveis de pressão arterial, glicose e colesterol, normalização do peso corporal e diminuição do stress.

No grupo estudado, mais da metade dos idosos (56%) referiram realizar atividade física regular.

Quanto ao tipo de atividade, as mais comuns foram a caminhada (19,4%), a ginástica (14%) e a yoga (5,4%), e as demais dividiram-se entre pedalar, nadar, dançar e outras atividades.

Como mostra a tabela 5, cerca de 55% dos idosos que praticam atividade física o fazem duas ou menos vezes por semana, o que pode ser considerado aquém do desejado para o condicionamento físico dos mesmos. Os demais exercitam-se três ou mais vezes por semana, destacando-se aí cerca de 27% que referem boa freqüência semanal, de 5 ou mais vezes.

 

 

Correlacionando-se os dados de quem pratica atividade física regular com a pergunta sobre satisfação em viver, encontra-se uma sugestiva associação. Como mostra a tabela 6, dos 52 idosos que realizam atividade física, 45 (86,5%) declararam ter boa satisfação em viver, percentual superior ao encontrado para os que não a realizam - 63,4% (26 em 41).

 

 

 

Nos grupos Encontros com a Saúde, a atividade física é abordada como temática em dia específico e correlacionada a outros temas, como alimentação, estresse e prevenção e controle de diversas patologias. Além da importância da atividade física regular, procura-se abordar também as dificuldades para tal prática, na busca de reflexão sobre possíveis alternativas. Dentre as mais comuns encontram-se a falta de oportunidade, de companhia e de tempo, além da "preguiça", como também referem, para a realização deste tipo de atividade.

 

3.4 Morbidade Referida e fatores de risco

a) Problemas afetando a saúde

Em conformidade com os dados da literatura, a grande maioria dos idosos (90%) referiu ter problemas de saúde. Na tabela 7 observa-se que, em comparação ao número de problemas referidos no passado, houve um aumento importante do número de agravos à saúde.

 

Dentre as queixas atuais, destacam-se: hipertensão arterial (29%), artrose (25%), dificuldade visual (20,4%), dificuldade auditiva (10,8%) e diabetes (9,7%). Estes percentuais são menores do que os habitualmente observados nos ambulatórios geriátricos, possivelmente pelo fato de que nesses locais a população é mais adoecida, diferentemente dos idosos que freqüentam a UnATI. Entretanto, em relação à hipertensão arterial, e dificuldades visuais e auditivas, as prevalências observadas guardam relação com as referidas por idosos não-institucionalizados, que responderam ao inquérito domiciliar de abrangência nacional realizado em 1991 (Anderson, 1997).

Três dessas patologias mais comuns são temas abordados nos grupos Encontros com a Saúde. A informação cumpre, nesse caso, não só objetivo relativo à prevenção, como também contribui para o autoconhecimento dos idosos que já possuem o problema, capacitando-os para o autocuidado.

b) Níveis de Pressão Arterial

A pressão arterial foi aferida três vezes para cada participante, duas na posição sentada e uma de pé. A tabela 8 apresenta a classificação da pressão arterial dos idosos, evidenciando que na posição de pé o número de idosos classificados como hipertensos sobe de 34 para 39.

 

 

O cruzamento dos níveis pressóricos com os níveis sangüíneos de colesterol e triglicerídeos sugere uma associação positiva, de tal modo que 46% (12) dos idosos cuja pressão arterial estava elevada apresentavam colesterol acima de 250 mg/dl, contrastando com os 37,8% que apresentaram níveis pressóricos normais. Em relação à dosagem de triglicerídeos, valores acima de 250mg foram encontrados em 15,4% (26) dos idosos que apresentavam níveis pressóricos elevados, e em 9,8% (61) dos que apresentavam níveis tensionais normais. Cabe ressaltar entretanto que não é possível, através deste estudo, realizar o diagnóstico de hipertensão arterial, nem tampouco afastá-lo.

c) Incontinência Urinária

A incontinência urinária é a perda involuntária de urina. Sendo queixa comum entre os idosos, pode, dependendo da dimensão, produzir, além de um problema higiênico, um sério problema social, podendo levar o seu portador ao isolamento ou até mesmo à institucionalização.

Os resultados obtidos neste estudo revelam que 37,6% dos idosos referiram já ter perdido urina involuntariamente, sendo 27% de forma eventual e 7,5% de forma freqüente. Estes dados coincidem com Robledo (1994) e Vasconcellos (1994), que referem, respectivamente, percentuais de 15 a 50% e 14 e 51% entre idosos da comunidade, sendo a prevalência maior entre as mulheres, numa proporção de 2:1 em relação aos homens.

d) Insônia

Transtornos do sono ocorrem em 45% da população idosa (Ayala, 1994). Estes são definidos como a dificuldade para iniciar ou manter o sono, ou a falta de um sono reparador. Entre os idosos entrevistados, 36,6% referiram insônia; dentre eles a média de horas dormidas em 24 horas era de cerca de 6,4, diferindo pouco da média dos que não referiram insônia, que foi de 7 horas.

Atualmente, considera-se que para o idoso saudável a duração do sono é similar à do adulto (Galindo, 1994). Os dados encontrados são concordantes, de tal modo que os que julgavam seu sono suficiente dormiam em média 7,6 horas, contrastando com as 6,6 horas dos que consideravam não dormir o necessário.

e) Quedas

A maior conseqüência das quedas para o idoso é o risco de fraturas, que pode levar à imobilidade, com conseqüente perda da autonomia e independência.

A queda ocorre pela perda do equilíbrio postural, o qual está relacionado à insuficiência súbita dos mecanismos neurais e ósteo-articulares envolvidos na manutenção da postura. É sempre resultante do somatório de fatores, tais como efeitos adversos de medicamentos, perigos ambientais e/ou modificações nos sistemas envolvidos com o equilíbrio, a postura e a marcha – ou seja, sistema muscular, ósseo, nervoso, labiríntico e outros (Umphed, 1994).

Estima-se que aproximadamente 30% de pessoas com idade acima de 65 anos caem pelo menos uma vez por ano. Esta porcentagem cresce para 40% nas pessoas com mais de 75 anos (Hera e Molino, 1994).

No grupo estudado, 35,5% referiram queda no último ano, enquanto 64,5% relataram não cair. Dos idosos que caíram, a maioria (29%) teve apenas uma queda; 4,3% duas quedas e 2,2% cinco quedas.

A prevenção de quedas é abordada no grupo Encontros com a Saúde, junto ao tema alterações ósteo-articulares e atividade física. Quando identificada a ocorrência de quedas entre os participantes do projeto, investiga-se a etiologia das mesmas e são tratadas as alterações.

f) Tabagismo e uso de bebida alcoólica

Somente 4,3% (dois idosos e duas idosas) relataram hábito de fumar, contrastando com o uso de tabaco no passado (20,4%). Estes resultados são semelhantes aos encontrados entre os idosos atendidos no antigo ambulatório de idosos do Hospital Universitário Pedro Ernesto (Anderson, 1996), sendo entretanto bastante inferiores aos da média observada entre os idosos brasileiros (Anderson, 1997), o que pode ser atribuído às diferenças socioculturais que reconhecidamente influenciam o hábito de fumar: quanto menor o poder aquisitivo e o nível cultural, maior a incidência e a prevalência de tabagismo.

Por outro lado, 27% dos idosos avaliados referiram fazer uso de bebida alcoólica em pequenas quantidades. Algumas idosas adquiriram este hábito mais recentemente, talvez pela liberação de costumes anteriormente proibitivos para as mulheres.

3.6 Atividades de vida diária

O resultado da avaliação das atividades de vida diária (AVD) reflete a capacidade ou não para o autocuidado básico; ou seja, com base nesses dados, pode-se estabelecer o grau de autonomia e independência do idoso para a execução de atividades básicas, fundamentais no suprimento de suas necessidades .

Foram estabelecidos níveis de dificuldades enumerados de 1 a 5, em ordem crescente de complexidade nas atividades.

Os resultados obtidos no estudo revelam que a maioria dos idosos entrevistados - 71% (66) - alcançaram o nível 5, que representa independência total para execução das AVD; em seguida, 10,8% alcançaram o nível 4, dependência parcial para execução de atividades complexas, como cortar as unhas dos pés, sair para longas distâncias e tomar ônibus. Os níveis 3 e 2 contemplaram, ambos, 3,2%, perfazendo um total de 6,4% e representam dependência parcial para execução de atividades como subir escadas, sair para perto de casa, tomar remédios, usar o banheiro em tempo, caminhar em superfície plana e tomar banho. Finalmente, 5,4% limitaram-se ao nível 1, que representa dependência para execução de atividades simples, como vestir-se, deitar-se e levantar-se da cama e alimentar-se sozinho.

Apesar de a maioria ser independente para execução das AVD, chama a atenção o número dos que apresentam alguma dependência. Contudo, não se pode desprezar a relação existente entre incapacidade de execução e bem-estar. Menezes (1994) afirma que uma incapacidade funcional temporária ou permanente que interfere sobre a autonomia e independência merece condutas que revertam o processo para um estado de capacitação plena ou adaptada, usando todos os recursos disponíveis para propiciar bem-estar ao idoso, apesar de suas limitações.

3.7 - Atividade sexual

A sexualidade, como afirma Perez (1994), é um elemento presente e importante na boa qualidade de vida dos idosos e muitos estudos mostram que não há uma idade específica para que ela termine, em que pesem as alterações fisiológicas do envelhecimento e os aspectos psicossociais e culturais que influenciam em especial as mulheres idosas, na sua maioria religiosas e de educação rígida.

A prática de atividade sexual, neste estudo, foi referida por cerca de 25% dos entrevistados. A grande maioria - 75% dos idosos - respondeu que não possui vida sexual ativa, o que guarda correspondência com o estado civil, em que sobressai a ausência de vínculo conjugal. De fato, o grupo que respondeu afirmativamente a esta questão é constituído por uma maioria absoluta de pessoas casadas.

Contribui para a falta de parceiros entre as mulheres nessa faixa etária, além do excedente de população feminina, a tendência dos homens viúvos reconstituírem suas vidas com mulheres mais jovens.

Como mostra a tabela 9, em relação ao sexo o número de respostas afirmativas entre os homens – 70% - foi proporcionalmente bem superior ao das mulheres - 18%. 

 

 

A abordagem deste tema no trabalho educativo visa a oferecer informações acerca das mudanças fisiológicas que alteram o comportamento sexual no processo de envelhecimento e, sobretudo, promover reflexão e debate sobre os tabus e expectativas que cercam a vivência da sexualidade nessa etapa da vida.

3.8 Utilização de Serviços de Saúde

a) Consultas e internações

Os resultados obtidos revelam que 89,2% dos idosos entrevistados não estiveram internados no ano anterior, enquanto 10,8% internaram-se pelo menos uma vez. Neste caso, o motivo predominante para internação foram os procedimentos cirúrgicos eletivos, excetuando-se um caso apenas, de depressão.

Ao serem indagados se tiveram consulta médica nos últimos seis meses, 85% responderam afirmativamente, enquanto que 15% afirmaram não ter tido consulta no período. Dos que se consultaram, a maioria (48,2%) utilizou a rede pública, enquanto 36,8% recorreram à rede privada.

Na análise dos resultados, observa-se que a população estudada, em sua grande maioria, possui algum vínculo assistencial, o que sugere cuidados preventivos e/ou de controle de agravos à saúde, retratado pelo reduzido número de internações.

A importância da prevenção de doenças na terceira idade constitui um dos principais objetivos nessa faixa etária, no sentido de se evitar o adoecimento, em sua forma múltipla e de longa duração, que irá requerer maiores recursos para tratamento. Portanto, a prevenção deve ser estimulada, objetivando melhorar a saúde e a qualidade de vida dos idosos, para que eles tenham suas atividades menos afetadas por doenças crônicas (Veras et al., 1995).

b) Uso de medicamentos

Cerca de 85% dos idosos referiram estar usando regularmente pelo menos um tipo de medicação, sendo que 36,6% usavam três ou mais medicações concomitantemente. Dentre as medicações mais utilizadas estavam as indicadas para patologias do sistema cardiovascular (38,7%), as vitaminas (24,7%), os "tranqüilizantes" (16,1%) e os antiagregantes plaquetários (9,7%). Aproximadamente 30% faziam uso de medicação sem prescrição médica.

3.9 Autopercepção do estado de saúde

A percepção do estado de saúde pelo próprio idoso tem sido considerada um bom marcador de risco de mortalidade, independentemente da carga objetiva de morbidade. Os idosos entrevistados avaliaram seu estado de saúde como bom (49,5%) ou razoável (39,8%). Os demais (11%), entretanto, classificaram o seu estado de saúde como ruim.

Comparativamente ao estado de saúde de outras pessoas da mesma idade, 73% julgaram estar em melhores condições, o que é esperado, dado o perfil dos idosos que freqüentam a UnATI. Ainda assim, 7,5% consideravam seu estado de saúde pior que o de outros da mesma idade.

3.10 Satisfação em viver e projetos de vida

A maioria dos idosos (76%) informou ter boa satisfação em viver e 66% disseram ter pelo menos um projeto para sua vida futura. Deve-se ressaltar que os idosos entrevistados, por freqüentarem uma universidade aberta, devem ser mais saudáveis e motivados do que os que não freqüentam esse tipo de instituição, além de terem melhores condições econômicas do que a média da população.

Ainda assim, um percentual expressivo - 33% - revelou não ter nenhum projeto para o futuro, o que talvez reflita a visão habitual do envelhecimento como uma fase da vida em que não há grandes expectativas.

 

4. COMENTÁRIOS FINAIS

O perfil dos idosos participantes do Projeto de Promoção da Saúde, aqui apresentado, mostra uma heterogeneidade quanto ao nível de saúde e qualidade de vida, prevalecendo um padrão positivo, se comparado à população idosa de modo geral.

Contribuem para este perfil o fato de grande parte já serem alunos da UnATI - clientela constituída predominantemente de idosos independentes e de razoável nível sociocultural - e a própria característica dos encaminhamentos para o Projeto, em grande parte feitos a partir de reorientação da demanda de prevenção trazida por idosos saudáveis que procuravam atendimento no Hospital Universitário Pedro Ernesto.

A partir dessa avaliação exploratória dos dados, são esboçadas algumas linhas de pesquisa a serem desenvolvidas no contexto panorâmico oferecido pela avaliação multidimensional. São elas: perfil de idosos que moram sós; trabalho e vivência da aposentadoria; alterações posturais e inatividade; perfil dos idosos com risco de quedas; índice de massa corporal e dislipidemias; fatores psicossociais e morbidade.

A pesquisa sobre a saúde e qualidade de vida dos idosos, associada ao trabalho educativo de promoção da saúde, tem significado para a equipe uma experiência fértil em diversos sentidos. O primeiro é o espaço propício à construção da interdisciplinaridade, através do intercâmbio de conhecimento das diferentes áreas, favorecendo a constituição de um núcleo comum. Além disso, tem permitido reorientar e retroalimentar as ações de saúde, tendo por base o conhecimento adquirido no próprio desenrolar do projeto.

 

NOTAS

*Os autores pertencem à equipe multidisciplinar do Núcleo de Atenção ao Idoso, vinculado à UnATI-UERJ.

1Projeto de Promoção da Saúde conta ainda com a participação do médico Antônio Carlos Bertholasce, além de residentes e estagiários de Serviço Social, Nutrição, Enfermagem, Medicina, Fisioterapia e Psicologia

2Essa demanda vem sendo recentemente trabalhada pelo Serviço Social da UnATI, através do desenvolvimento do Programa de Valorização do Conhecimento do Idoso, que visa à inserção de alunos da UnATI em trabalho voluntário na comunidade

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ANDERSON, M. I. P. Saúde e Condições de Vida do Idoso no Brasil. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva). Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1997.

[ lilacs ]

AYALA, M. I. S. Depresión, Ansiedad e Insomnio. In: LLERA ,F. G. , MARTÍN, J. P. M.) Síndromes y Cuidados en el Paciente Geriátrico. Barcelona : Masson, 1994.

BRASIL. Ministério da Saúde. Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição. Condições nutricionais da população brasileira : Adultos e Idosos. Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição. Brasília : INAN, 1991.

FERRARI, M. A C. Lazer e Ocupação do Tempo Livre na Terceira Idade In: NETO, M.P. (Org.) Gerontologia. São Paulo : Atheneu, 1997.

[ lilacs ]

GALINDO, G. E. Transtornos del sueño. In: Pérez E. A et al (Org) La Atención de los Ancianos : um desafio para los años noventa. Washington : OPS, 1994.

HERA, F. G. , MOLINO, J. .P. Síndromes y Cuidados En El Paciente Geriátrico. Nason, 1994. KATZ, S. et al . Studies of illness in the aged. Jama , v. 185 , n. 12, Sept. 1963.

MENEZES, A K. Avaliação funcional do idoso versus avaliação clínica tradicional. In: Caminhos do envelhecer. Rio de Janeiro : Revinter, 1994.

NAJAS, M. S. , SACHS, A avaliação nutricional do idoso. In: NETO, M. P. (Org.) Gerontologia. São Paulo : Atheneu, 1997.

PEIXOTO, C. De volta às aulas ou de como ser estudante aos 60 anos. In: VERAS, R. P. (Org.) Terceira Idade: desafios para o próximo milênio. Rio de Janeiro : Relume- Dumará, 1997.

PEREZ, E. A - Sexualidad en los ancianos. In: Pérez, E. A et al (Org) La atención de los ancianos: um desafio para los años noventa. Washington : OPS, 1994.

ROBLEDO, L. M. G. - Incontinencia urinaria y fecal. In: Pérez E. A et al (Org) La Atención de los Ancianos.: um desafio para los años noventa. OPS, 1994.

TAVARES, E. L. Antropometria nutricional em idosos: considerações metodológicas e situação da população brasileira em 1989. Dissertação (Mestrado em Saúde Pública) – Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 1997.

[ lilacs ]

VASCONCELLOS, D. C. de Incontinências: um problema para o paciente, o cuidador e o médico. In: Caminhos do envelhecer. Rio de Janeiro : Revinter, 1994.

VERAS, R. P. et al. Terceira Idade: um envelhecimento digno para o cidadão do futuro. Rio de Janeiro : Relume- Dumará, 1995. Cap. 1 : Idoso e universidade: parceria para a qualidade de vida, p.11-27.

________________ Diseño de Investigaciones Epidemiológicas. In: Pérez E. A et al (Org) La atención de los ancianos: um desafio para los años noventa. Washington : OPS, 1994.

VIDELA, J. T. Los ancianos y las politicas de servicios en América Latina y el Caribe. In: Pérez E. A et al (Org) La Atención de los Anciano: um desafio para los años noventa. Washington : OPS, 1994.

 

ABSTRACT

This work presents the first results of the research entitled Health and Life Quality in the Third Age, on the aged who took part in the Health Promotion Project, carried out by the multidisciplinary staff of the Nucleus of Attention to the Elderly – NAI, within UnATI-UERJ. It aims at offering a general view of the health conditions of the aged ones and the links with their education process. Then it will delineate sectorial and/or interdisciplinary research lines which analyse questions on health and ageing, and also contribute for the betterment of educational actions

Key-words: epidemiology of the aged, multidimensional evaluation, life conditions of the aged, health services for the aged