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Textos sobre Envelhecimento

versão impressa ISSN 1517-5928

Textos Envelhecimento v.2 n.2 Rio de Janeiro  1999

 

A GESTÃO DA EXPERIÊNCIA DE ENVELHECER EM UM PROGRAMA PARA A TERCEIRA IDADE: A UNATI/UERJ

 Marcelo Alves Lima*

 

RESUMO

O principal interesse desta investigação é descrever aspectos de uma instituição voltada para a terceira idade e, com isso, contribuir para a compreensão das representações da velhice e do envelhecimento que organizam a transformação da velhice em uma questão pública e a socialização da gestão da experiência de envelhecer. Parte-se do pressuposto de que "Terceira Idade" expressa uma nova sensibilidade em relação à velhice, que vem se transformando em reflexo e também sintoma das formas de sociabilidade que se desenvolvem contemporaneamente. O argumento central parte da observação de que no universo investigado, essa sensibilidade é vivida através de um código: de comportamento, de expressões corporais e, sobretudo, de expressões de subjetividade, através das quais as experiências individuais de envelhecimento podem ser partilhadas e negociadas, em um contexto marcado pelo declínio dos modelos tradicionais de gerir a experiência de envelhecer e pelo surgimento de um discurso científico sobre velhice e envelhecimento.
Palavras-chave: Terceira idade, programas para terceira idade, velhice, envelhecimento.

 

1. INTRODUÇÃO

O presente artigo se originou de uma investigação1 cujo objetivo era identificar aspectos de uma aparente contradição: ao mesmo tempo em que alcança uma dimensão pública, a velhice tende a ser vivida e apresentada como uma responsabilidade individual, resultado de um processo que Debert (1993 e 1997) chamou de reprivatização da velhice. O foco principal da análise incide sobre o discurso e as práticas corporificadas em uma instituição voltada para a "terceira idade" — a Universidade Aberta da Terceira Idade (UnATI) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) —, sobretudo porque permite a observação de relações que se estabelecem entre pessoas idosas e a produção de discursos sobre velhice e envelhecimento. Esta análise admite como pressuposto que tanto a percepção da velhice e do envelhecimento que os alunos dessa instituição têm, quanto aquela que expressam os estudiosos do tema, embora diferentes, se reduzem à condição de artefatos culturais. Ambas são modos de conceber a velhice, feitos da mesma matéria-prima, ou seja, dos significados e valores da cultura na qual se inserem.

Nos últimos anos, tem ocorrido um aumento significativo do número e da variedade de iniciativas voltadas para pessoas idosas. Da mesma forma, vêm crescendo em todo o país as discussões em torno das características e direitos desse grupo etário, em especial relacionados à aposentadoria e à sua qualidade de vida. Mesmo em um país como o Brasil, tradicionalmente identificado como um "país jovem", que dá pouca atenção aos seus idosos, a velhice vem se tornando, de forma particular, uma questão de ordem pública, não mais restrita à esfera privada e da família.

Frente ao Estado e à sociedade, que não podem mais ignorá-lo, o idoso se tornou ator na cena política e social, redefinindo imagens estereotipadas, nas quais a velhice aparece associada à solidão, doença, viuvez, morte, etc. e que enfatizam essa fase da vida como uma condição desfavorável, muitas vezes indesejada. No entanto, vem sendo divulgado pela mídia um número cada vez maior de matérias sobre pessoas idosas que de alguma forma estariam agindo como "não-velhos". São pessoas de idade avançada praticando esportes, ginástica, dançando e se divertindo, em atividades que demonstram uma vitalidade e uma alegria normalmente identificadas apenas com a juventude. Freqüentemente, essas matérias têm como objetivo mostrar a superação da velhice e de sua condição de degradação física e social. Em seu subtexto, ao apresentar essas pessoas como exemplos de vitória sobre o tempo, enfatizam a responsabilidade de cada indivíduo perante a forma como envelhece. Tais matérias atribuem a essas pessoas a categoria "terceira idade"2, enquanto para aquelas que não se comportam da mesma forma, porque não podem ou não querem, restaria o rótulo de "velhos" e toda a carga pejorativa que o acompanha.

O aumento da participação social dos idosos e o surgimento de novas representações sobre a velhice e envelhecimento não podem ser explicados unicamente pelo envelhecimento da população, pois são reflexo de mudanças que implicam redefinições das formas de periodização da vida, das categorias etárias que recortam a organização da sociedade e a revisão das formas tradicionais de gerir a experiência de envelhecimento. Um processo de "politização", com características próprias das sociedades contemporâneas, está alçando a velhice à dimensão pública, tornando mais evidentes os mecanismos e os agentes de sua construção social, bem como explicitando o papel desempenhado por cada um deles: o Estado, através de políticas sociais, o saber científico institucionalizado e as pessoas idosas.

Uma das características deste século seria, segundo alguns autores, a presença de um processo extremamente veloz de redefinições e reestruturação das fases da vida, bem como dos conteúdos específicos atribuídos a cada fase. Novas fases são criadas, como a meia-idade, a "terceira idade" e, recentemente, a "adultescência", em um processo que Featherstone (1994) chamou de colonização do curso da vida. A modernidade, ainda de acordo com este autor, teria criado uma periodização com fases bem definidas, enquanto, na pós-modernidade, as distinções entre as fases estariam se dissolvendo. Estaríamos vivendo um embotamento das fases do curso da vida, ao mesmo tempo em que, de forma contraditória, novas fases continuam sendo propostas (Stucchi, 1994; Debert, 1997). Nesse quadro, a rigidez e homogeneidade do curso da vida, padronizado pelo Estado e pelo conjunto de experts, cedem espaço para uma tendência à maior flexibilidade e variedade.

A "terceira idade" expressa essa situação, pois é uma sensibilidade em relação à velhice que vem se transformando, como reflexo e sintoma das formas de sociabilidade que se desenvolvem contemporaneamente nos grandes centros urbanos, numa operação que encontra nos "programas para a terceira idade"3 um espaço propício a sua realização. O que se pretende demostrar neste trabalho é que a "terceira idade" é um código: de comportamento, de expressões corporais e, sobretudo, de expressões de subjetividade, através do qual as experiências individuais de envelhecimento podem ser partilhadas e negociadas em um contexto marcado pelo surgimento de um discurso científico sobre a velhice e envelhecimento e por mudanças na forma como indivíduos, ao envelhecer, negociam com imagens estereotipadas da velhice.

A visão de que idade cronológica é fundamental, ou de que velhice seria apenas uma restrição imposta pelo envelhecimento biológico, é relativizada pela noção de "terceira idade" que, ao mesmo tempo, reforça a idéia de que é possível, com esforço individual, avançar na idade sem ficar velho. A velhice, à qual se opõe a terceira idade, é marcada por um repertório de signos que formam códigos de expressão corporal e de comportamento. Como conseqüência da visibilidade desses traços característicos, não é difícil manipular ou até mesmo "negar" a velhice, apagando seus sinais mais facilmente reconhecíveis, tanto em sua dimensão corporal, quanto em sua dimensão subjetiva. O indivíduo pode ler em seu corpo sinais do tempo, ao mesmo tempo em que nele pode escrever um projeto de envelhecimento. Maquiagem exagerada, roupas extravagantes e coloridas, muitas vezes vistas em pessoas de mais idade, bem como um comportamento lúdico e hedonista, são marcas que pretendem controlar a velhice, contrapondo-se à imagem do que seria o "velho".

Se, de certa forma, o corpo informa ao indivíduo os sinais do envelhecimento, essa condição física não esgota a experiência de envelhecer. A idéia da "máscara da velhice" (Featherstone, 1994) significa o estranhamento de uma pessoa diante das evidências físicas de que está envelhecendo, sem sentir subjetivamente essa realidade da mesma forma (Thompson, 1991). Isto somente ocorre em um contexto no qual indivíduos se representam como possuidores de uma subjetividade autônoma, quando o "eu" é visto como uma entidade capaz de administrar o processo de envelhecimento. Essa subjetividade se torna, do mesmo modo que o corpo, um texto onde se pode ler e escrever um projeto de envelhecimento. A velhice se torna "um estado de espírito", manifesto no comportamento e na capacidade de os indivíduos sinalizarem através dele a forma como envelhecem; e uma questão de autoconvencimento (Debert, 1993), quando se reconhece que ela é o resultado daquilo que o indivíduo fez de seu corpo e vida, numa relação mediada por sua autodeterminação, na qual os fatores sociais são pouco destacados, os fatores biológicos estão, de certa forma, controlados ou relativizados e a dimensão subjetiva posta em evidência.

O aumento da visibilidade e importância da velhice a que se assiste hoje tem como um de seus principais aspectos o surgimento de um discurso científico sobre o envelhecimento, em nome do qual aparecem experts que se apresentam como agentes legítimos para falar da velhice, em seus aspectos individuais, sociais e políticos. Com o aparecimento da Gerontologia (campo de estudos multidisciplinar que congrega profissionais de diversas áreas voltados para o estudo e tratamento da velhice, em seus vários aspectos), a experiência de envelhecer se torna alvo de prescrições e cuidados. Ao mesmo tempo, a velhice aparece no discurso dos gerontólogos como uma questão social, o que ocorre a partir de um intenso trabalho social de persuasão, e não como conseqüência natural do aumento dos idosos no conjunto da população (Lenoir, 1990).

Mais recentemente, frente à demanda por intervenções e um mercado crescente de pessoas idosas, um conjunto, muitas vezes contraditório, de representações e homogeneizações é acionado no sentido de demonstrar um envelhecimento adequado e uma transição bem-sucedida a essa fase da vida. Essa outra face do discurso sobre a velhice é parte de um processo crescente de socialização da gestão da experiência de envelhecer (Debert, 1992 e 1997), e se opera através de uma imagem mais positiva do envelhecimento, que tende a enfatizar a responsabilidade de cada indivíduo perante a forma como envelhece (ou deixa de envelhecer), divulgando que cada pessoa faça da sua experiência de envelhecer um projeto desenvolvido em meio a uma crescente quantidade de recursos e discursos, desde as UNATIs e programas de pré-aposentadoria até as tecnologias mais sofisticadas de "profilaxia" do envelhecimento, baseadas em drogas e hormônios.

No Brasil, a Gerontologia nasce do interesse de instituições e de pessoas que já trabalhavam, de alguma forma, no atendimento a idosos. Preocupados com a ausência de iniciativas para esse segmento da população e com a carência de pesquisa e estudos científicos no país, principalmente em comparação com outros países, importam o modelo produzido nos EUA e na Europa. Incentivando a formação dos primeiros gerontólogos brasileiros no exterior, a partir do anos 60, a Legião Brasileira de Assistência (LBA) e o Serviço Social do Comércio (SESC), pioneiros em atividades voltadas para idosos, começam a implantar no Brasil os primeiros trabalhos para idosos não-institucionalizados, baseados na percepção de que a condição marginal dos idosos poderia ser revertida com atividades de lazer, que contornassem a ausência de papéis e a solidão do idoso na sociedade contemporânea, tidas então como o principal problema de quem envelhece.

Com esse modelo de intervenção, aparecem, junto às formas tradicionais de assistência aos idosos — como os asilos e casas geriátricas —, outras que, a despeito da imagem negativa proposta pela Gerontologia neste contexto — um idoso pobre, doente e marginalizado pela sociedade —, apresentam a velhice como uma etapa privilegiada da vida, voltada para a satisfação pessoal e o prazer. Proliferam, hoje, nos principais centros urbanos do país, uma variedade de iniciativas que vão de cursos de teatro e dança, UNATIs, programas de pré-aposentadoria, programas de lazer e convívio, organizados por administrações municipais e estaduais, agências de turismo, programações específicas para idosos, como bailes e passeios, etc.

Até recentemente, os principais nomes da Gerontologia no Brasil saíam do SESC, que incentivava a formação de seus profissionais fora do país, ou através de cursos promovidos no Brasil com experts estrangeiros4. Nos anos 90, o surgimento de alguns cursos em instituições universitárias demonstram não só o aumento do interesse pela questão da velhice e do envelhecimento, mas uma significativa passagem do "controle" da formação dos experts da área "prática" do SESC para a área mais "acadêmica". Além de cursos formais (especialização, mestrado e doutorado), começam a surgir cursos de Gerontologia e de Geriatria, de curta duração, que se destinam a profissionais interessados na "terceira idade". Esses cursos são a evidência de um mercado emergente de idosos como consumidores potenciais de serviços e, de outro lado, de um metamercado, disputado entre os experts oriundos da academia e aqueles com formação "prática", no qual a Gerontologia aparece como "produto" cuja incumbência é qualificar/legitimar a atuação profissional junto aos idosos.

A mais recente e complexa investida do Estado em relação à velhice — a aprovação da lei que estabelece a "Política Nacional do Idoso" — tem como uma de suas principais características um maior reconhecimento da autonomia do idoso e de seu papel como sujeito social e político. Além disso, com ela, os programas para a terceira idade se tornaram um modelo aceito e implementado pela ação estatal, consolidando-se como uma alternativa de política social. Sua forma de intervenção é determinada e justificada pelos experts com conhecimentos "técnicos" sobre a velhice e envelhecimento. Ao mesmo tempo em que transfere responsabilidade a instituições como as UNATIs, o Estado opta pela profilaxia do envelhecimento. Os idosos deixam de ser clientes do Estado e passam a consumidores de serviços "terceirizados"5.

O campo6 do saber científico em uma cultura cientificista de biopolítica (Foucault, 1993) pode ser uma instância privilegiada para se observarem os investimentos culturais sobre o Homem e o corpo humano. Assim, a Geriatria e a Gerontologia, bem como as instituições voltadas para a velhice e o envelhecimento, podem, de determinada ótica, ser vistas como um locus privilegiado para se observar as transformações pelas quais vem passando a experiência de envelhecimento. Esse enfoque, apontado por Debert e Simões (1994) como uma alternativa, baseado sobretudo na obra de Foucault, tenderia a ver, nos programas para a terceira idade, e no conjunto de políticas sociais de assistência à velhice, estratégias típicas da época moderna de vigilância e controle social disciplinador sobre a população, através do controle sobre seus corpos. Esse controle não seria direto, repressivo, mas, a exemplo do controle sobre a sexualidade que Foucault (1990) identifica na proliferação de discursos tendo-a como objeto, teria no desenvolvimento de instituições e discursos sobre "terceira idade" um suporte para constituição de mecanismos de poder.

Se, por um lado, essa perspectiva permite visualizar estratégias de controle e dominação, por outro, incorre no risco de torná-la uma dominação abstrata. Mesmo considerando uma rede de micropoderes difusos, onde se revezariam psicólogos, assistentes sociais, geriatras e gerontólogos, evitando assim o erro de procurar "o poder" em um centro, esses dispositivos não possuem a capacidade normativa pressuposta por essa perspectiva, entre outras razões, porque seus esforços não se concentram de forma exclusiva sobre a velhice, mas antes têm de se voltar para a formação de sua legitimidade e identidade. Logo é importante estar atento aos conflitos que envolvem a constituição da velhice como uma questão legítima, e dos experts como agentes autorizados a normatizá-la, bem como o papel dos destinatários — as pessoas idosas — e suas estratégias frente aos discursos sobre eles produzidos.

Na primeira parte deste trabalho procuro apresentar, ainda que sumariamente, formações discursivas sobre velhice e envelhecimento, destacando contradições e pressupostos que condicionam práticas concretas. Esta análise, antes de responder em que medida o discurso dos experts pode influenciar, de modo "causal", as práticas sociais, serve para compor um pano de fundo que permita a inteligibilidade dessas práticas quando acionadas no universo empírico focalizado ao final do texto.

2. A GERONTOLOGIA E A GERIATRIA

A velhice, ou os fenômenos ligados ao envelhecimento do corpo, sempre foram alvo de reflexão e elaboração de teorias, uma vez que sempre houve pessoas envelhecendo, não importa até que idade ou em que quantidade. Desde os mais remotos registros da escrita —Beauvoir (1970) chega a citar textos egípcios de 2500 a.C. —, a velhice aparece como objeto de reflexão, algo que tem de ser explicado e, eventualmente, descrito. Todo discurso sobre a velhice é sempre condicionado pela visão de mundo da época e contexto em que é elaborado. Dela retira os argumentos, as imagens e elementos causais de que se serve para tornar visível, descrever e explicar a velhice. Mesmo a modalidade científica e disciplinar desse discurso, inicialmente ligado à medicina, que supostamente opera somente com dados da natureza, não pode prescindir da visão de mundo que, aliás, lhe confere legitimidade para falar sobre seu objeto (Guallimard, 1986).

Nos primeiros modelos que buscavam caracterizar a velhice, surgidos nessa fase científica disciplinar, a ênfase era posta no biológico como locus privilegiado, a partir do qual se poderia produzir conhecimento e intervir sobre a velhice. Era no corpo que envelhece que se buscava a velhice. Este, como um dado da natureza, se curvaria resignadamente ao olhar científico. Assim, a vinculação entre visão de mundo e explicação sobre o objeto do discurso estaria fora do processo de produção de saber, ao mesmo tempo em que estaria garantida, como conseqüência da homogeneidade fisiológica humana, a universalidade desse saber7. O conjunto de representações sobre a velhice e o envelhecimento acionado e difundido em nome da Ciência, desde então, tem encontrado limitações sempre que tenta dar conta das transformações da experiência de envelhecer que acompanham as mudanças da sociedade, pois sua forma de representar a velhice, em sua origem, se caracterizava por tomar o fato natural do envelhecimento biológico como dimensão privilegiada e daí derivar todas suas teorias.

A questão da velhice começa a ganhar visibilidade, e ser objeto de discursos e práticas específicas, com a criação de instituições especializadas no tratamento da população de mais idade na Europa no final do século passado e início deste (Benoit-Lapierre, 1979; Lenoir, 1979; Guallimard, 1986; Debert e Simões, 1994; Katz, 1996). Nesse contexto, marcado ao mesmo tempo pelo cientificismo e pelas transformações na estrutura social advindas da expansão do capitalismo, o discurso sobre a velhice entra no que se pode chamar sua fase científica disciplinar8. Sua especificidade é afirmada, e começa a se delinear um campo autônomo de estudos a partir de duas frentes, até pouco hegemônicas na produção de discursos sobre a velhice e envelhecimento: uma baseada na ciência médica e outra intimamente ligada às questões de políticas públicas e assistenciais, correspondendo, respectivamente, ao surgimento de duas disciplinas: a Geriatria e a Gerontologia.

Em 1868, Jean Martim Charcôt escreveu sobre a velhice em seu livro Lessons on the Maladies of the Age and on Chronic Diseases:

Esta faceta de la medicina, tan interesante, ha sido largamente descuidada, y sólo en nuestros tiempos ha logrado, con dificultad, lograr su autonomía. Antes, las enfermedades de la vejez apenas si se mencionaban. Si dejamos de lado las obras de Floyer (1724), de Ficher (1766) y la más reciente de Welsted, la mayor parte de los trabajos médicos, en el último siglo, que se refieren en especial al período senil, tienen un caráter especialmente literario o filosófico; ellos son de una u outra manera, distorsiones ingeniosas del famoso tratado De Senectude del orador romano Cicerón. (Charcôt, 1868, citado em: Motlis, 1988: 3-24. Grifos meus)

O diagnóstico de Charcôt revela sua percepção da ausência de caráter científico no estudo da velhice e do envelhecimento. Os termos usados sinalizam que esse autor compreende a necessidade de se tratar a velhice em um campo autônomo e apoiado unicamente na ciência, livre portanto de pressupostos não baseados na observação direta da realidade. No entanto, somente no início deste século essa autonomia ganha visibilidade e nome. Surgem aí os termos mais importantes ligados ao estudo da velhice. O termo "gerontologia" (Geras: velho, Logia: estudo, descrição) foi criado em 1908 pelo médico russo radicado em Paris, Élie Metchinikoff9, e significa o estudo do envelhecimento. Já o termo "geriatria" (Geras: velho, Iatrikos: tratamento) foi criado pelo médico austríaco radicado nos EUA, Ignaz Nascher, em 1909. Porém, as condições da emergência de um campo autônomo de estudo da velhice e do envelhecimento, do qual se ressente Charcôt, começam a aparecer um pouco antes.

Segundo Foucault (1993 e 1994), o hospital era, antes do século XVIII, uma instituição de assistência aos pobres, mas que também significava exclusão e separação. Nos hospitais abrigavam-se idosos e indigentes que não podiam se sustentar. Com o tempo, a problemática à qual ficou ligada a instituição hospitalar foi restrita ao corpo humano que precisava de algum tipo de cuidado, enquanto as funções asilares foram transferidas para entidades filantrópicas. A dissociação entre velhice e doença ocorreu paralelamente a um processo de tornar autônomas as doenças. No contexto do surgimento da clínica médica, a medicina começa a instaurar uma nova dimensão do visível, do invisível e do insondável. A partir daí, ela passaria a configurar quadros sintomáticos para constituir seu patrimônio de significados, delimitando doenças e patologias específicas.

Como demonstra Foucault, a lógica por trás do surgimento da clínica médica não é apenas instituir o singular, o individual, como foco da prática médica, mas tornar a doença algo mais significativo que o corpo onde esta se assenta e aí então formar uma nova percepção do conhecimento médico. No hospital, o médico se volta para o doente e nele descobre qual doença reside em seu corpo. Na clínica, ao contrário, o doente não é o sujeito para o qual se volta a prática médica, mas apenas um corpo que a doença toma emprestado (Foucault, 1994). Nesse contexto, a medicina propõe a distinção entre envelhecimento normal e patológico, possibilitada pela grande concentração de pessoas idosas nos hospitais, onde o saber se constrói e se transmite, e onde idosos ofereciam seus corpos à observação em troca de cuidados e assistência (Foucault, 1993). Assim como a doença, a velhice passa a ser vista como um fenômeno que se apodera do corpo dos homens. Essa dissociação gerou a possibilidade de o nascimento da Geriatria atuar, a partir de então, em duas frentes complementares: 1) a Geriatria, como especialidade clínica, voltada para o cuidado individual, tendo como objeto as manifestações particulares de um processo natural, ainda não completamente conhecido, em corpos particulares de pacientes específicos, através do acompanhamento de casos singulares com finalidades terapêuticas; 2) a Geriatria ligada ao estudo das causas do envelhecimento, tendo como área de atuação a pesquisa voltada para processos gerais do envelhecimento fisiológico.

Essa dualidade está assentada na dupla paternidade do estudo científico: Nascher seria o "fundador" da primeira, e Metchinikoff, e suas teorias sobre o envelhecimento, da segunda. À primeira vista, essa dualidade poderia ser identificada com a distinção feita por Foucault (1990) entre anátomo-política do corpo e biopolítica da população. No entanto, os dois processos arrastam a interpretação para uma ênfase sobre o exercício do poder. Se, por um lado, apontam para dois objetos distintos — o corpo individual e o corpo espécie (ou corpo social), estruturantes do discurso sobre o envelhecimento —, por outro, sua "unidirecionalidade" ofusca o que se pretende destacar aqui, ou seja, a interdependência entre ambas, e a forma como se faz presente no estudo científico sobre o envelhecimento até hoje. Essas duas faces complementares da área médica refletem uma dualidade que acompanha o discurso científico sobre a velhice em sua fase disciplinar: ser ao mesmo tempo um campo de saber e de intervenção.

O momento em que a questão da velhice começa a ganhar visibilidade e a ser objeto de discursos e práticas específicas é um período de grande atividade intelectual e de profundas transformações sociais. A Europa vive as conseqüências da expansão do Capitalismo e, nesse momento, os principais esforços intelectuais vão se voltar para a análise dos problemas daí decorridos, a partir de uma perspectiva secular. Ou seja, localizando na sociedade, sem referências transcendentais, as causas e respostas dos principais problemas vividos na época — entre eles as condições de pobreza e marginalidade envolvendo parte da população que, com o avanço da idade, enfrentava dificuldades para garantir uma subsistência mínima. Desde então, parte significativa do discurso sobre a velhice esteve relacionado às transformações na sociedade (Attias-Donfut, 1979a), e a velhice passou a ter uma presença crescente entre as preocupações sociais.

Se na Geriatria a construção da autonomia do discurso sobre a velhice e o envelhecimento se deu a partir do reconhecimento das especificidades do organismo envelhecido e da necessidade de se representá-lo cientificamente, na Gerontologia o mesmo processo pode ser compreendido em três aspectos: 1) reconhecimento da existência de aspectos biopsicossociais envolvendo o envelhecimento humano; 2) reconhecimento da dimensão social da velhice e sua tradução no discurso como um problema, ou seja, reconhecimento de que a velhice é algo mais que o envelhecimento fisiológico de indivíduos e representa, portanto, um problema não só para o indivíduo e sua família, mas para a sociedade; 3) reconhecimento de que as especificidades dos idosos justificam um tratamento diferenciado em relação às demandas de outros grupos sociais e, portanto, exigem uma "especialização" que substitua as práticas de assistência "leiga" por práticas "profissionais".

O reconhecimento — por parte daqueles empenhados em conhecer e descrever a velhice e o envelhecimento — de que a experiência humana responde não só a determinantes biológicos, mas também a fatores sociais e psicológicos, trouxe a necessidade de instrumental de outras disciplinas para enfrentar a complexidade desse objeto, e dos diferentes recortes que o condicionam. Outros domínios foram sendo incorporados sob a denominação de Gerontologia, como a Sociologia e a Psicologia. Ao se voltar para o estudo científico da velhice e do envelhecimento, uma característica que a Psicologia manteve em comum com a Medicina foi manter a perspectiva de tratar a velhice como um fato natural e universal, cujas variantes seriam patologias ou desvios individuais. As representações da velhice elaboradas a partir do olhar homogeneizador dessas disciplinas se impõem por, supostamente, refletirem uma verdade natural (Neri, 1991).

A partir do reconhecimento de que a velhice é algo além do envelhecimento fisiológico e psicológico de indivíduos, as práticas de intervenção puderam mudar significativamente, e a Gerontologia estendeu sua esfera de intervenção a uma dimensão social10, tornando os agentes especializados capazes de propor políticas públicas e novos modelos de intervenção. Desde então a Gerontologia tem espelhado, em suas práticas nas representações de seus profissionais e em seu corpo teórico, uma outra dualidade, o individual e o social.

Ao reconhecer a dimensão social como fator condicionante do envelhecimento, a Gerontologia de certa forma rompe com essa representação "natural" da velhice, sem, contudo, abandonar inteiramente a constituição de seu objeto como um "universal". A velhice sai dos limites do corpo sem que os pressupostos homogeneizadores da representação da velhice sejam desfeitos. Para a face sociológica da Gerontologia, por exemplo, até recentemente, os problemas decorrentes da velhice nas sociedades modernas seriam sempre os mesmos, e de tal forma intensos que se anulariam diferenças de gênero, etnicidade e classe social11. A linearidade e homogeneidade do processo de envelhecimento biológico se transfigura na linearidade e homogeneidade das fases do desenvolvimento psicológico, do status social (ou falta dele)12 e das etapas de vida definidas a partir de papéis sociais determinados pela inserção dos indivíduos no processo produtivo ou no ciclo familiar. Segundo Debert (1992), só recentemente esses pressupostos homogeneizadores começam a ser revistos em pesquisa nos EUA e Europa. Até então, o reconhecimento da dimensão social da velhice se vinculava a sua representação enquanto um problema e, a partir dela, dois eixos foram importantes para institucionalizar a Gerontologia: as condições de pobreza e marginalidade dos trabalhadores idosos e uma correlação negativa entre velhice e modernidade.

Na Europa do século XVIII, a expansão do trabalho assalariado tornou o trabalhador responsável por seu sustento, através da venda de sua força de trabalho, em um contexto no qual as condições de vida da classe operária não eram nada favoráveis, como as descreve Engels (1975). O envelhecimento das primeiras gerações de operários marcou a associação entre velhice, pobreza e incapacidade, pois se tratava de um segmento da população que não podia, devido ao avanço da idade ou incapacidade física, vender sua força de trabalho, constituindo-se como um grupo dependente de algum tipo de assistência. Ao mesmo tempo, o declínio da produção familiar, seja na agricultura, seja em pequenas empresas domésticas, reduziu um sistema de remuneração familiar que permitia aos filhos cuidar dos pais envelhecidos (Debert e Simões, 1994).

O processo de reconhecimento da velhice como uma questão social se inicia, justamente, com essas primeiras gerações de operários que envelhecem (Benoit-Lapierre, 1979). Como uma das primeiras medidas para responder a esse problema, a aposentadoria significou, em parte, a separação da velhice de outras categorias da população alvo de assistência social, pois não significava apenas mais um tipo de assistência, mas direito associado à condição de trabalhadores, que surgiu em substituição às intervenções pontuais de caráter filantrópico, dirigidas à população pobre de uma maneira geral (Debert e Simões, 1994; Benoit-Lapierre, 1979; Lenoir, 1979). Segundo Benoit-Lapierre (1979), essa dissociação progressiva entre a população pobre e os idosos assistidos por algum tipo de assistência previdenciária levou a uma especialização e profissionalização no atendimento aos idosos. A tentativa de superação da imagem de inválido associada à velhice levou a que fossem vistas como ilegítimas as práticas leigas assistenciais, e contribuiu para dar uma identidade própria aos trabalhadores velhos (Debert e Simões 1994; Benoit-Lapierre, 1979; Lenoir, 1979).

A partir do pós-guerra, com as transformações e grandes mudanças político-econômicas nos países capitalistas centrais, e com o advento do Estado de Bem-Estar, a saúde e assistência social foram deslocadas para o interior de dispositivos de seguridade social. Embora em alguns países já houvesse, desde o final do século XIX, políticas de proteção aos idosos, aos incapacitados e às mulheres, somente com a expansão e institucionalização do modelo do Welfare State, após os anos 50 — em um processo que, segundo Lenoir (1979), teria sido um dos fatores responsáveis pelo surgimento e expansão da "terceira idade" —, a aposentadoria e proteção aos idosos, assim como a saúde, tornam-se direitos de todos os cidadãos. Acompanhando a generalização dos sistemas de aposentadoria, surgiram novas instituições — como asilos e alojamentos — e os hospitais, como já mencionado, se especializaram apenas no tratamento médico à velhice, transferindo sua assistência de caráter filantrópico para instituições especializadas e promovendo uma conseqüente separação entre velhice e doença, que até então estavam intimamente associadas.

A partir do reconhecimento da população idosa como um segmento social com especificidades, foi possível torná-la uma variável e correlacioná-la, não só às diferentes sociedades e culturas, mas a diferentes estágios de desenvolvimento social. A Gerontologia vem estabelecendo, desde então, através de seus teóricos, uma correlação negativa entre velhice e modernidade13. Apesar do limitado conhecimento disponível da situação dos idosos, em períodos históricos distantes, ou mesmo em épocas relativamente próximas (Debert, 1997), o discurso da Gerontologia freqüentemente se utiliza de uma narrativa histórica que justifica essa correlação (Neri, 1991; Cohen, 1994). De acordo com essa visão, a urbanização, industrialização e modernização teriam levado ao declínio do status social do idoso e sua degradação nas sociedades contemporâneas. Os principais aspectos de mediação entre a modernização e a condição da velhice teriam sido: 1) a passagem da família extensa à família nuclear; 2) as mudanças no mundo do trabalho; e 3) o advento da "cultura de massas". Estes processos têm como pano de fundo uma comparação com épocas não-modernas (e, eventualmente, com contextos não-modernos contemporâneos), que torna possível destacar uma condição desfavorável da população idosa, por oposição a uma "idade de ouro", na qual os idosos seriam respeitados e valorizados14.

O discurso dos Gerontólogos no Brasil tem tido dificuldades em avançar no processo contraditório de socialização e reprivatização da experiência de envelhecimento. Esse processo tem levado as questões associadas à velhice para uma dimensão pública, ao mesmo tempo em que as novas imagens de envelhecimento enfatizam a velhice como autoconvencimento (Debert, 1993). A constituição da velhice como uma "problemática", da qual depende diretamente a Gerontologia, foi parcialmente abortada por essa contradição, pois ao mesmo tempo em que se enfatiza a velhice como um problema social (através de imagens negativas que apresentam o idoso como uma vítima), tem de se legitimar frente a seus clientes idosos, "vendendo" a idéia de que a velhice pode ser uma fase privilegiada da vida (através de imagens da velhice como uma época de lazer, auto-satisfação, prazer, etc.)15. Assim, surgem freqüentemente contradições entre as imagens geradas no discurso gerontológico e as experiências de pessoas idosas às quais se referem. Como conseqüência, ao mesmo tempo em que busca a constituição de um campo autônomo, sobre o qual pretende hegemonia, a Gerontologia cede espaço a um conjunto de intervenções "leigas", como cursos de teatro e dança, que não se sentem, necessariamente, comprometidos como a Gerontologia.

3. PROGRAMAS PARA TERCEIRA IDADE: DO LAZER AO PRAZER

A partir da década de 60, instituições seculares, originalmente destinadas ao abrigo de indigentes, se tornam institutos de Gerontologia. Essa vulgarização do termo Gerontologia ocorre ao mesmo tempo em que uma especialização progressiva de instituições asilares, a separação entre os idosos e a população carente em geral, bem como a superação do assistencialismo leigo baseado na caridade (laica ou religiosa) sinalizam a constituição de um campo autônomo de agentes e assistência especializada. No entanto, a história dessas instituições é fortemente marcada por um processo de questionamento do modelo asilar que, embora, como afirma Groisman (1998), seja menos acentuado no que se refere à velhice do que em relação aos "loucos" e aos "órfãos"16, ofusca o desenvolvimento da autonomia das questões do envelhecimento. São os programas para a terceira idade os principais responsáveis pelo desenvolvimento dessa autonomização, buscando uma identidade própria sem abrir mão do saber científico como inspiração.

O SESC foi responsável pela implantação dos primeiros programas para a terceira idade no Brasil, na década de 6017. O conjunto de representações sobre a condição do idoso nessa época, e os trabalhos que buscam explicar a condição de vida dessa população, bem como propor soluções, apontam para a "culpa" da civilização moderna quanto à condição de vida da população idosa. A sociedade industrial e de classes — com sua velocidade particular e a generalização do estatuto de descartável atribuído a tudo que não acompanhe essas mudanças — explicaria a marginalização a que os idosos são relegados no cotidiano. Valorização social e estratégias de (res)socialização apareceram assim como alternativas a essa condição marginal. Esta seria a origem e a razão de ser dos programas para a terceira idade.

Até o final da década de 60, duas teorias dominavam o cenário da produção gerontológica, cujo centro de influência se situava nos EUA: a "Teoria do Desengajamento" (Cumming e Henry, 1961) e a "Teoria da Atividade" (Cavan, 1965)18. O que ambas tinham em comum era que entendiam a velhice como um momento de perdas sociais, perda dos papéis específicos na família e no trabalho, perda de status e retração do network, e se tornavam opostas quanto à perspectiva de como deveria ser o ajustamento do indivíduo a essa situação. A "Teoria de Desengajamento" foi mais presente no início dos programas para a terceira idade. Sua influência junto ao SESC é assumida por seus técnicos, e sua principal característica, absorvida no país, é propor como chave para um envelhecimento adequado o abandono progressivo de atividades como o trabalho, que passaria a ser tido como ilegítimo na velhice, e sua substituição pelo lazer.

A centralidade do lazer na proposta do SESC tem levado a que, em diferentes momentos, essa entidade tenha promovido a discussão conceitual do que seria "lazer"19. Nessas discussões, parte-se de diferentes concepções para se eleger a mais próxima da realidade dos trabalhos com idosos. A observação dessas discussões indica a passagem de um modelo baseado na socioterapia para um modelo que incorpora os efeitos subjetivos das práticas de lazer e assinala a passagem de um modelo mais sociológico de individualismo (que supõe o indivíduo dado pelo social), para um modelo mais subjetivo (que supõe, na dimensão subjetiva, uma autonomia para autodeterminação). É como se os programas deixassem de representar apenas uma mediação entre o indivíduo e a sociedade para promover a mediação do indivíduo e seu self. A educação, apresentada através de conceitos como "educação permanente", foi eleita a principal ferramenta para isso. A partir dela, o SESC sofisticou suas práticas e, com assessoria de gerontólogos franceses da Universidade de Toulouse, inaugurou em Campinas, em 1977, sua primeira "Escola Aberta para a Terceira Idade", tendo como referência um modelo "universal" de velhice que torna possível o intercâmbio internacional.

As discussões sobre a importância da educação para idosos tem levado o SESC a patrocinar debates e publicar artigos de experts no assunto (Cunha, 1980; Pereira, 1980; Salgado, 1977; Washington, 1980). Nesses debates são vinculadas duas perspectivas teóricas: a primeira concebe a educação como estratégia de socioterapia, promovendo e estimulando a integração social. Nesta perspectiva, a educação é um instrumento de promoção social. A segunda concebe um envelhecimento melhor para aqueles que mantêm a mente ativa através de atividades educativas. Nesta perspectiva, a educação seria tanto uma espécie de ginástica mental — que evita a deterioração das atividades cognitivas — quanto um instrumento para aquisição de novos conhecimentos.

As discussões e desdobramentos da segunda perspectiva se tornaram um veículo para expressar uma concepção de envelhecimento fortemente derivada da Psicologia do Desenvolvimento e da "Teoria do Desengajamento". Daí resultam atividades nas quais o conteúdo psicológico ganha novo status. A ênfase no aspecto "social", que inspira o surgimento dos programas para a terceira idade, cede espaço para características mais recentes, que tendem a "psicologizar" as atividades. O lazer continua sendo, ao lado da educação, o principal instrumento para a promoção de um envelhecimento adequado. Porém, atualmente, aparece com freqüência justificado mais pelos efeitos subjetivos que promove, do que por seu papel social. O que antes era visto como um antídoto ao tédio e à falta de atividades, e um recurso de promoção e integração social, passa a ser valorizado pelo seu papel no desenvolvimento da personalidade individual.

A partir do início dos anos 60, na França, começam a surgir as primeiras atividades voltadas para idosos no meio universitário20, ou que mantivessem algum tipo de colaboração com as universidades. A generalização do termo "universidade" se justifica, ao que parece, por envolverem atividades que visam à formação por meio de conferências e palestras, produção de conhecimento através de pesquisas, ou por desenvolver suas atividades dentro do campus universitário. No entanto, quando essas iniciativas aparecem, seus objetivos não se caracterizavam unicamente pelo compromisso com algum tipo de aprimoramento intelectual. Com uma origem próxima à dos programas para a terceira idade, as UnATIs surgiram voltadas para promoção de sociabilidade através do lazer (Peixoto, 1997, p. 46). Em meio a outras justificativas, como promover a integração entre gerações, ou a divulgação de novas imagens da velhice, para sensibilizar a opinião pública e as autoridades, as UnATIs sempre estiveram marcadas pela ambigüidade de serem centros de produção de conhecimentos e espaços destinados ao lazer (Lenoir, 1979). No Brasil, as UnATIs aparecem nos anos 8021, evidenciando um interesse no atendimento à população idosa diverso daquele desenvolvido junto às práticas assistenciais tradicionais e das experiências do SESC.

4. A UnATI/UERJ: ENTRE O SABER E O LAZER

A UnATI iniciou suas atividades em agosto de 1993, vinculada à Sub-Reitoria de Extensão da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Embora sua origem esteja ligada à área médica, foi formada a partir de uma compreensão distinta da expressa na área médica tradicional, representada pela Geriatria. Dentro da área médica existem dois caminhos para a especialização no estudo e tratamento da velhice e envelhecimento: um mais ligado à medicina social, ou saúde coletiva, e outro mais próximo da prática clínica. A UnATI/UERJ surge desse primeiro caminho, da percepção de que o sujeito de intervenção não deveria ser o homem individual, mas sim a coletividade, e que os fatores causais determinantes da saúde e da doença, assim como do bem-estar geral, incorporam dimensões sociais. Outra singularidade da perspectiva que orienta a concepção da UnATI/UERJ é que, devido à sua origem acadêmica, entende que as UNATIs devam ser um fórum para a produção de conhecimento e pesquisa (Camargo e Veras, 1995).

Embora em muitos pontos haja convergência entre as propostas desta UNATI e alguns dos conceitos do discurso gerontológico, em nome do qual ela se apresenta, assim como convergências com as propostas de diversas outras instituições, na prática ela tem que se diferenciar, afirmando sua originalidade. Constrói, assim, uma identidade própria, justificando sua posição diferenciada em relação às instituições congêneres. Ao ser enfatizada a origem acadêmica e sua ligação orgânica com a universidade, a UnATI/UERJ se distingue, por um lado, do SESC e do modelo de atenção aos idosos lá desenvolvido e, por outro, se diferencia também da Geriatria e Gerontologia, corporificadas em suas respectivas entidades profissionais — a SBGG e a ANG. Essa identificação entre a UnATI/UERJ e a universidade se dá por uma analogia à academia, em função de seu papel comum na produção de conhecimento, ou através de uma identificação metonímica com a universidade, da qual ela seria um modelo em miniatura. Assim a UnATI/UERJ é estruturada e apresentada como uma "microuniversidade temática", resultado da união de ensino, pesquisa e extensão22.

Atualmente está sendo discutida a transformação da UnATI/UERJ em Instituto da Terceira Idade, criando uma graduação que viabilize uma carreira para os alunos, através de um curso formal de três anos, e uma pós-graduação que ofereça cursos de Gerontologia. No entanto, o que mais se espera da UnATI/UERJ, ao se transformar em Instituto, é consolidar-se como um centro nacional e internacional de referência nas questões de terceira idade, uma vez que já considera "o que há de mais moderno no país em ensino, pesquisa e assistência nas áreas de Gerontologia e Geriatria" (UnATI, 1996). No documento que define a proposta do Instituto da Terceira Idade, a UnATI/UERJ se apresenta como "centro irradiador do pensar gerontológico no Brasil" e, ainda nesse mesmo documento, afirma ser considerada pela OMS como Centro de Referência Mundial na área de atenção à terceira idade (UnATI, 1996).

5. ENTRE O SABER E O LAZER

Um dilema de difícil resolução cerca a identidade da UnATI/UERJ: ser um centro de convivência, ou um centro de ensino e pesquisa Esta dualidade atualiza, nesta instituição, outra que acompanha todo o discurso científico sobre a velhice em sua fase disciplinar: afirmar, ao mesmo tempo, um campo de saber e de intervenções. Para alguns de seus profissionais, a denominação "centro de convivência" chega a ser ofensiva, enquanto outros a utilizam normalmente. A principal característica dos centros de convivência (cujo modelo é o SESC), que leva alguns dos experts da UnATI/UERJ a rejeitar qualquer identificação com esse tipo de iniciativa, é o núcleo da sua proposta, em torno da "socioterapia", ou seja, ocupar o tempo livre, através de atividades de lazer, visando à promoção da sociabilidade e o desenvolvimento da personalidade individual, sem que isso seja feito através de reflexões teóricas e sem um compromisso com a "qualidade" acadêmica. Essa "qualidade" — que se revelaria na qualificação dos técnicos e na produção de pesquisas, artigos, participação em congressos, etc. —, ausente dos "centros de convivência", os tornaria mais próximos do assistencialismo das atividades "leigas".

A forma de se referir à UnATI/UERJ como uma "microuniversidade temática" a coloca como uma superação dos centros de convivência. Além disso, ao inserir a intervenção junto aos idosos no universo acadêmico, pretende ampliar o escopo de tais práticas, pois seus objetivos extrapolam os limites imediatos do atendimento direto (Camargo e Veras, 1995). Ao mesmo tempo, tem como objetivo contribuir para reduzir o isolamento e solidão dos idosos, e reintegrá-los à sociedade, resgatando sua cidadania e sua participação na produção de novos valores, bem como atuar na redefinição das imagens da velhice e do envelhecimento, e das relações entre as gerações, aproximando-se, com esses objetivos, das propostas mais gerais dos centros de convivência.

O tempo livre, o lazer, a educação, a pesquisa e a socioterapia, entre outras questões recorrentes que envolvem as instituições voltadas para idosos, são destacadas nas propostas da UnATI/UERJ como significativas ou secundárias, de acordo com o contexto em que são acionadas, tendo em vista a imagem com a qual a instituição pretende se apresentar, ou com a qual pretende se contrapor a outras instituições. Porém as defasagens entre essas imagens e o que de fato acontece nas atividades da UnATI/UERJ refletem contradições próprias a esse universo, freqüentado por pessoas muito diferentes entre si. Em relação às atividades, o mesmo dilema reaparece, tendo como eixo a dicotomia entre, por um lado, atividades de lazer e recreação (que a associam aos modelos de centro de convivência do SESC) e, de outro, atividades didáticas, que repassam algum tipo de "saber" aos alunos — e conferem uma identidade própria à instituição.

O "saber" é um fator constantemente acionado para diferenciar a UnATI/UERJ de outros programas para a terceira idade, simbolizado não somente por sua inserção em um meio universitário ou pela qualificação acadêmica de seus experts. Esse "saber" também aparece como um dos principais produtos oferecidos pela UnATI/UERJ, e aquele que torna suas atividades distintas das oferecidas por outras instituições. Embora, sobretudo ao se considerar a perspectiva dos alunos, muitas atividades não possam ser, com clareza, definidas como didáticas ou recreativas23.

A transformação da UnATI/UERJ em Instituto da Terceira Idade seria a coroação de sua identidade acadêmica e o fim das dúvidas sobre suas especificidades em relação aos centros de convivência. Tal transformação é vista pelos dirigentes como uma necessidade para a manutenção de suas atuais atividades e para a implementação de outras,. Por exemplo: aprimoramento e divulgação da Gerontologia através de pesquisas e publicações, além de cursos formais que ofereçam diplomas aos alunos. Seriam criadas assim atividades consideradas necessárias e inovadoras, que se destacam por "materializar" e instrumentalizar a formação dada aos alunos, ou seja, dar visibilidade ao "saber" repassado aos alunos.

6. A "TERCEIRA IDADE" COMO UM CÓDIGO

O perfil socioeconômico dos alunos da UnATI/UERJ aponta para algo mais próximo do universo de "classe média", mesmo que em seus níveis menos acentuados24. Se, por um lado, isso permite singularizá-los frente à população idosa em geral, e assim evitar generalizações apressadas, por outro, pode induzir ao simplismo de derivar da condição socioeconômica de seus alunos o conjunto de valores e significados presentes nesta instituição. Embora a autonomia que viabiliza a participação dos idosos, em programas como as UNATIs e a manutenção de seu estilo de vida possa, em parte, estar associados a fatores como melhores aposentadorias e condições de vida, alimentação e acesso a serviços de saúde, assim como aos melhores equipamentos urbanos e serviços, encontrados no universo tipicamente classificado como de "classe média", as representações da velhice e do envelhecimento, traduzidas pelo termo "terceira idade", extrapolam limites de estratos sociais e fronteiras definidas por fatores — como renda, escolaridade, ocupação, etc. Além disso, não podem ser inferidos, dos dados socioeconômicos, a diversidade de práticas e representações presentes na UnATI/UERJ e o modo como agem e pensam seus alunos.

No universo constituído pelos alunos da UnATI/UERJ, são muitas as experiências de vida e trajetórias individuais que articulam recortes mais "econômicos" com outros mais "sociológicos", como, por exemplo, identidade étnica, religião, ideário político, etc. Na faixa etária desses alunos encontram-se indivíduos de vários segmentos da sociedade, oriundos de diversos meios culturais diferentes. É preciso, portanto, estar duplamente atento à heterogeneidade da vida social contemporânea, pois nessa faixa etária a diversidade é vivida juntamente com outra experimentada ao longo dos anos. A sucessão de gerações atua cumulativamente sobre a heterogeneidade encontrada entre indivíduos que, em sua trajetória de vida, passaram por várias situações próprias à sua história pessoal — como a imigração, a inserção no mundo do trabalho, na família, etc. —, e da história social — como a guerra, o regime militar, entre outras.

Diante da heterogeneidade presente na UnATI/UERJ, seus alunos não poderiam ser considerados um grupo, a não ser pela violência do olhar do pesquisador, ou pela construção, reconhecidamente arbitrária, de recortes analíticos a partir da seleção de características comuns em um imenso universo de distinções. Uma das questões mais interessantes que tem percorrido a Antropologia diz respeito a laços simbólicos e suas implicações em problemas como: o tipo de características ou experiências que seriam significativas a ponto de operarem limites e distinções para um determinado grupo, de forma que este se reconheça enquanto tal e assim seja visto de fora (Velho, 1981). Para os grupos constituídos pela participação em um programa específico de determinada camada etária, como os programas para a terceira idade, a questão não é simples.

Por um lado, se a participação em um programa desse tipo sinaliza algum tipo de identificação do indivíduo com a "terceira idade", por outro, essa participação não esgota os conteúdos dessa identificação a ponto de torná-la analiticamente operável. Não se pode reduzir a questão a considerar que pertence à "terceira idade" quem participa de um programa para a terceira idade, mesmo porque o convívio dentro de um programa desse tipo tem mostrado que a participação responde a vários fatores, em muitos dos quais não pesa a questão etária como, por exemplo, a possibilidade de freqüentar uma universidade25. Uma forma possível de atribuir sentido à "terceira idade" como um grupo de pessoas que se reconhecem ou são reconhecidas como possuindo características comuns que as diferenciam, dos velhos em geral e dos adultos, seria através do recurso ao conceito de "geração".

O conceito sociológico de geração tem sido de inúmeras formas usado nas Ciências Sociais como imenso valor heurístico, mas sem uma definição comum. Escrevendo na década de 50, Mannheim criticava a falta de sistematicidade, debates e intercâmbios sobre o tema26. Para esse autor, o enfoque geracional é imprescindível para a compreensão dos movimentos sociais e intelectuais, sobretudo em contextos de mudanças constantes e cada vez mais velozes, como as que caracterizam este século:

A geração não é um grupo concreto no sentido de uma comunidade, isto é, um grupo que não pode existir sem os seus membros terem um conhecimento concreto uns dos outros, e que cessa de existir como uma unidade mental e espiritual assim que é abolida a proximidade física. Por outro lado, ela não é de modo algum comparável a associações, tais como as organizações formadas para um objetivo específico, pois estas se caracterizam por um ato deliberado de fundação, estatutos escritos, e uma maquinaria para desenvolver a organização — características que servem para manter coeso o grupo, mesmo no caso de inexistirem laços de proximidade espacial e de comunidade de vida (Mannheim, 1982, p. 69).

A característica do conceito de geração, que nos interessa reter aqui, é a identificação não de um grupo no sentido efetivo do termo, mas de alguma unidade dada pela experiência comum partilhada por indivíduos dentro de um universo comum de significados em uma dada época. Assim, antes de se pensar os idosos como constituindo uma geração, unicamente pelo pertencimento a uma camada etária, interessa pensá-los como uma geração, por partilharem uma experiência (envelhecer) em um meio cujas particularidades lhes permitem viver essa experiência de uma forma singular e com tal intensidade que, apesar da diversidade, se identificam na construção de um código comum para expressar e partilhar suas experiências. A terceira idade é o termo para designar essa experiência e os códigos que a definem.

7. PSICOLOGISMO E TERCEIRA IDADE

Sobre o universo "classe média", acumula-se na produção das Ciências Sociais brasileira, em particular na Antropologia, um volume cada vez maior de trabalhos27. Isto tem permitido reflexões sobre as condições particulares que assume a vida nos grandes centros urbanos brasileiros contemporaneamente, e uma descrição empírica de amplos aspectos dessa realidade. Porém, definir o que são classes médias urbanas, de forma a tornar o conceito operável, não é simples. Se, por um lado, a caracterização do que seria o meio urbano não é muito difícil — pela possibilidade de sua comparação com o meio rural e folk, e pela tradição das ciências sociais que vem de Weber, Simmel e da Escola de Chicago —, as "camadas médias" nos espaços urbanos não têm sido definidas sem alguma complexidade nas etnografias que começam a se acumular com rapidez.

Tem sido comum adotar como critérios para definir seus contornos e limites, não a sua particular posição no processo produtivo, nem a posição em termos de estratificação social ou ocupacional de seus membros. Definir classes médias urbanas por variáveis da estrutura social tem-se mostrado ineficaz para dar conta das descontinuidades de ethos e visões de mundo diferenciadas no interior das grandes cidades (Salem, 1986). Tem sido utilizado, para superar essa limitação, um critério mais próximo da classificação por fronteiras simbólicas, a partir de definidores tais como valores, que expressam não só as identidades com que se autodefinem indivíduos dessa camada, como também diferentes códigos associados à heterogeneidade de experiências no meio urbano — muito embora não estando ausentes critérios como renda, condições de moradia, trabalho, etc.

Dentro da estratégia acima, vários autores têm enfatizado as conseqüências, no contexto das classes médias brasileiras, da presença de uma "cultura psicanalítica" ou "cultura psi". Ou seja, uma visão de mundo fundamentada nos pressupostos da concepção da natureza do homem oriundo das ciências psicológicas (a Psicanálise, em particular), generalizada não somente pela extensão da prática psicanalítica no meio social, mas — apoiada pelo prestígio e fascínio que esta exerce — através revistas, jornais e outros meios da cultura de massa (Figueira, 1981 e 1985; Salem, 1989 e 1993; Velho, 1989 e 1994; Santos, 1991)28. Uma das manifestações dessa "cultura psicanalítica" é a presença de um discurso psicologizante e um vocabulário próprio (Figueira, 1985), que tem entre suas conseqüências a difusão de sua visão sobre a natureza do homem como uma representação do sujeito humano (ou uma "noção de pessoa", nos termos de Mauss, ou "ordens simbólicas de definição-pessoa", em Geertz) caracterizada por uma "Psicologização". Esta, segundo Salem (1989, p. 25):

... aponta para um movimento de individualização, interiorização e privatização dos sujeitos, de tal modo que estes se identificam como uma substância inteligível em seus próprios termos. Ou seja, o indivíduo se percebe fundamentalmente como um sujeito psicológico: despojado de qualquer transcendência; ele se justifica segundo uma lógica interna a ele próprio. Decorre daí não só uma retórica fortemente centrada no individual e no idiossincrático, como também uma intensa disposição cultural de escrutínio e cultivo de cada self por meio de uma alta sensibilidade para observar emoções, sentimentos e subjetividade29.

O vocabulário que expressa a presença dessa "cultura psicanalítica" e a visão de mundo que ela envolve se faz presente no universo dos programas para a terceira idade, sobretudo pela presença de profissionais da área de Psicanálise e Psicologia, mas não somente. Na UnATI/UERJ, muitas atividades, mesmo não sendo desenvolvidas por esses profissionais, têm um forte conteúdo psicológico ou estão respaldadas nessa visão de mundo psicologizante30. A principal característica dessas atividades, e que também se apresenta com menos ênfase em quase todas as outras, é a possibilidade de se discutir experiências de vida. Nelas os alunos podem falar de suas experiências e discuti-las com uma base mais ou menos elaborada de conceitos e pressupostos oriundos das ciências psicológicas. O mais significativo em relação a essas atividades é que, por um lado, seus objetivos não deixam dúvida quanto à tentativa de generalizar seus respectivos códigos para expressar vivências individuais; por outro, a receptividade dos alunos sugere tanto haver alguma eficácia no uso desses códigos, quanto existir, por parte deles próprios, uma predisposição.

O significado da presença dessa visão de mundo "psicologizante" na UnATI/UERJ tem conseqüências em duas direções. Em primeiro lugar, representam uma tendência a "subjetivar" a velhice para, em seguida, torná-la um dado controlável. Ou seja, expressam, ao mesmo tempo que estimulam, uma tendência a "identificar" a velhice com uma dimensão subjetiva que seria um espaço duplamente significativo, tanto para os experts quanto para os alunos. Para os primeiros, essa dimensão subjetiva devidamente mapeada por suas ferramentas teóricas possibilita uma leitura do tipo de velhice de cada pessoa, e se transforma no espaço de intervenção de seus diferentes "tratamentos" para a velhice. Paralelamente, os alunos veriam tal dimensão como constitutiva de suas identidades individuais e uma ferramenta a mais para a gestão da experiência de envelhecer.

O efeito imediato e de maior alcance dessa tentativa é a difusão de normas e critérios de validação da "terceira idade" e da negação que esta promove da velhice. O discurso "psicologizante" veiculado nessas atividades fornece uma matriz, cujo principal pressuposto é que, ao contrário do corpo, a psique humana não envelhece. Logo, sentir-se jovem é ser jovem, e ser jovem implica expressar constantemente um sentimento de juventude. Essa matriz dá coerência e consistência à "terceira idade", pois articula representações do que seria a velhice31 com a forma como os alunos vivem sua experiência de envelhecimento cotidianamente. O próprio formato das atividades — discussões sobre as experiências vividas pelos alunos — faz com que os pressupostos do discurso psicologizante apareçam como um ordenador dos sentimentos envolvidos nessas experiências.

Não se trata, no entanto, de afirmar que o discurso acionado durante essas atividades seja determinante do comportamento dos alunos, mas que ele fornece uma "gramática" de desempenho de comportamentos. O comportamento dos alunos não é uma determinação dessa gramática, mas resultado de sua manipulação. Essa matriz, ou "teia de significados", permite que determinadas ações dos alunos sejam "compreendidas" pelos colegas e pela equipe (e por cientistas sociais). O que aqui nos interessa ressaltar é o fato de que a matriz permite que o modo como os alunos se comportam rotineiramente na UnATI/UERJ seja manipulado como um veículo para construção/expressão de suas identidades individuais.

8. CONCLUSÃO

Com a idéia de "terceira idade", a velhice (categoria científica e fenômeno natural) se dissolve no comportamento de "novos velhos" e ganha coloridos e significados que destoam de seus estereótipos e das imagens construídas pelo discurso da Gerontologia. A idéia de que a velhice é um investimento cultural sobre um processo biológico faz parte dos novos modelos de gerir a experiência de envelhecimento que se "desnaturaliza" e, tornando-se maleável, passa a ser vivida como um estilo de vida. A experiência de envelhecimento tende a ser vista como uma opção individual frente a um leque variado de produtos e serviços, e não mais uma imposição inexorável do passar dos anos. Essa visão cada vez mais permeia as práticas dos que envelhecem, as disciplinas que se voltam para seu estudo e as iniciativas destinadas à população idosa. Ao mesmo tempo, surgem cada vez mais recursos e discursos para negação dos efeitos do envelhecimento.

Na Europa, no final do século passado e início deste, se inicia a modalidade científica e disciplinar recente de discurso sobre a velhice, inicialmente ligado à medicina, e que se consolida através de duas disciplinas: a Geriatria e a Gerontologia. A primeira, como especialidade médica, tem como objeto o envelhecimento fisiológico; e a segunda, que em vários países engloba a Geriatria como um de seus ramos, se propõe a entender e atender a velhice em seus diferentes aspectos: sociais, psicológicos, existenciais e políticos. Desde seu surgimento, esse discurso disciplinar possui pressupostos como o de que a velhice é uma experiência homogênea e universal, juntamente com uma tendência a alternar imagens positivas ou negativas da velhice, com as quais negociar com seus diferentes interlocutores, não apenas indivíduos idosos, mas o Estado, a sociedade, a academia e, recentemente, com um mercado de consumidores de bens e serviços relativos ao envelhecimento. Outra característica importante é esse discurso afirmar simultaneamente um campo de saber e de intervenções, cujos alvos são o indivíduo e a sociedade, o corpo individual e o homem espécie.

Tais pressupostos são atualizados de forma significativa na instituição onde se desenvolveu esta investigação, uma vez que ela fundamenta sua legitimidade por sua relação com a universidade e, portanto, como representantes do saber acadêmico e científico. Parte dos dilemas que enfrenta se refere a suas pretensões de ser uma instituição de caráter acadêmico, voltada à produção de conhecimentos, ao mesmo tempo em que tem que oferecer atividades que mobilizem um contigente significativo de idosos. Sua imagem externa preza a ênfase nesse aspecto acadêmico, mas seu papel junto à Universidade, e à comunidade, depende em grande parte de seu sucesso como um programa de prestação de serviços, ou, dito de outra forma, como fornecedor — na condição, ao mesmo tempo modesta e pretensiosa, de "centro de referência" — de uma "tecnologia" que responda aos problemas da velhice, em nível individual e coletivo.

Na época moderna, a produção sistemática de conhecimentos sobre a vida cotidiana a desloca dos eixos da tradição (Giddens 1991a, 1991b, 1993 e 1997). Conhecimentos de caráter técnico ou científico progressivamente substituem as tradições como definidoras dos comportamentos. O mundo do trabalho, primeiro e de modo mais intenso; depois a família, como demostra Lasch (1991), e finalmente a intimidade das pessoas passam a ser descritos e prescritos por esses saberes técnicos ou sistemas peritos (Giddens 1991a e 1991b). A modalidade científica moderna de reflexão sobre a velhice, corporificada especialmente na Gerontologia, estaria de certa forma desempenhando este papel em relação à velhice, ocupando o "vácuo" criado pelo declínio da influência da tradição sobre os modos de gerir a experiência de envelhecer, através dos programas para a terceira idade.

Na UnATI/UERJ, no entanto, seus experts, ao se utilizarem de um discurso que enfatiza o controle e a negação da velhice através de uma "tecnologia" gerontológica própria — ainda que apenas vagamente formulada e compreendida — vão ao encontro do uso que fazem os alunos de sua participação na instituição. O convívio com os alunos em sala de aula nos permite compreender que alunos buscam no "consumo" do saber que lhes é oferecido, ou mesmo que apenas na possibilidade de participar de um espaço caracterizado pelo "saber", não apenas uma "tecnologia" de "envelhecimento adequado", mas subsídios para construção auto-reflexiva de suas identidades. A mídia e o discurso científico sobre velhice e envelhecimento contribuem para desconstruir imagens e estereótipos sobre a velhice e coincidem ao propor uma representação da velhice como uma responsabilidade individual. Participar das atividades da UnATI/UERJ representa a escolha de um modo como gerir a experiência de envelhecer e o exercício dessa responsabilidade individual.

No universo investigado, essa sensibilidade é vivida através de um código: de comportamento, de expressões corporais e, sobretudo, de expressões de subjetividade, através do qual as experiências de envelhecimento individuais podem ser partilhadas e negociadas, em um contexto marcado pelo declínio dos modelos tradicionais de gerir a experiência de envelhecer e pelo surgimento de um discurso científico sobre a velhice e envelhecimento. Uma das manifestações mais visíveis do (des)encontro entre o que é oferecido pela instituição e seus profissionais, ora implicitamente, ora de forma explícita — o saber gerontológico (e suas pretensões sobre o que deveria ser um "envelhecimento adequado") — e o que buscam e esperam os alunos, é a repetição contínua, por parte dos alunos, de uma narrativa sobre o significado da UnATI/UERJ em suas vidas. Essas narrativas são um manifesto de adesão à UnATI/UERJ, enfatizando o valor e o significado positivo atribuído à participação em suas atividades sobre a forma como os alunos vivem sua experiência de envelhecer, em contraposição à forma como viviam antes da UnATI/UERJ, ou viveriam sem ela. Essas manifestações são "autenticadas" pelo conteúdo subjetivo que as acompanha. Os alunos tanto afirmam verbalmente quanto se esforçam por demonstrar em suas atitudes entusiásticas o nexo causal entre participar das atividades da UnATI/UERJ e poder experimentar um "envelhecimento adequado". E o fazem através de um código próprio que permite que seus enunciados sejam compreendidos e partilhados com os profissionais e demais alunos.

Ao utilizar o discurso da Gerontologia — bem como de outras disciplinas, em particular a Psicologia — para orientar sua concepção e suas práticas, os profissionais da UnATI/UERJ acionam uma visão de envelhecimento que dá ênfase à subjetividade como dimensão privilegiada do controle do envelhecimento. Guardadas as devidas proporções, a biologização da velhice, herança dos primórdios da reflexão científica disciplinar sobre a velhice, e atualizada recentemente em discursos como o da "medicina ortomolecular", teria como equivalente na UnATI/UERJ uma psicologização da velhice, que acaba por determinar uma "gramática" para esse código de comportamento. Ao expressar vitalidade, felicidade, satisfação, alegria, e tudo o mais que possa demonstrar algo como um "enfrentamento bem-sucedido da velhice", os alunos estão se servindo de um instrumento de reforço cotidiano de alianças e de confiança mútua com os profissionais da UnATI/UERJ. Ao mesmo tempo, reforçam o ideal "gerontofóbico" da instituição e a crença de que é possível envelhecer sem ficar "velho". Esse instrumento de confiança ativa (Giddens, 1997) faz com que os experts se sintam realmente experts e os idosos como "não-velhos".

Notas

*Mestre em Antropologia Social pela UNICAMP e Especialista em Envelhecimento e Saúde do Idoso pela ENSP/FIOCRUZ.

1Este texto corresponde a uma condensação dos principais aspectos discutidos na minha dissertação de mestrado, apresentada ao Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da UNICAMP.

2O termo "terceira idade", de acordo com diversos autores, surge no final dos anos 60, na França, para expressar novos padrões de comportamento de uma geração que se aposenta e envelhece ativamente. O conjunto de representações em torno do termo aponta para uma forma de envelhecer de modo ativo, associada ao lazer, à autonomia, e à auto-satisfação. Tende a ser vista – a "terceira idade" – tanto entre os experts no tema quanto entre os próprios idosos, ou como uma nova forma de viver a velhice, ou como uma nova etapa da vida que se intercalaria entre a idade adulta e a velhice propriamente dita.

3Os chamados "programas para a terceira idade", apesar das diferentes propostas voltadas para um público acima de 50 ou 60 anos (em alguns casos menos de 50), têm como principal característica a atenção ao idoso não-institucionalizado, baseada no lazer e na ocupação do tempo livre. São um espaço no qual o convívio e a interação com e entre os idosos permitem a construção de laços simbólicos de identificação, e onde é possível partilhar e negociar os significados da velhice, construindo novos modelos de envelhecimento. Sobre a adesão dos idosos e a possibilidade de constituição de novas identidades sociais, ver Debert (1994b e 1994c), Attias-Donfut (1976) e Rebouças (1996). Para um levantamento desses programas em São Paulo, ver Prata (1990).

4As primeiras iniciativas para a formação de gerontólogos no país datam da década de 70. O Instituto Sedes Sapientiae iniciou um curso para a formação de Gerontólogos Sociais em 1979, após ter realizado, em 1975, um seminário de Gerontologia que contou com a participação de 30 profissionais. Desse seminário surgiu o Centro de Gerontologia Social (Cunha, 1976). Em 1978, o SESC promoveu um seminário, que contou com a participação da socióloga francesa Claudine Attias-Donfut e que se repetiu no ano seguinte para técnicos do SESC (Assis, 1979). O objetivo desses cursos era suprir as deficiências de formação na área de Gerontologia no país.

5Estratégias de atenção à população idosa podem ser encontradas em um conjunto disperso de iniciativas, desde o início do Estado Brasileiro, se for considerada, por exemplo, a política previdenciária (Teixeira, 1990). Porém, falar em políticas sociais para a velhice, no mesmo sentido em que se fala de política de habitação, ou política de saúde, supõe uma integração e articulação que só recentemente parece se iniciar, resultado do esforço dos experts em transformar a velhice numa questão pública. Uma política social voltada para idosos, que considere que esse grupo etário possui especificidades que os faz distintos da população de modo geral, tem uma introdução recente no país, que se acelera a partir da década de 70, coincidindo com a intensificação do papel do Estado como agente promotor de bem-estar social. Embora o modelo de intervenção estatal, que se convencionou chamar de Estado de Bem-Estar ou Estado Protetor, não seja uma noção plenamente adequada à realidade brasileira (Draibe, 1989).

6Um campo científico é, de acordo com Bourdieu (1983, cap. IV; 1987, caps. II e IV; 1989, caps. I e III), um espaço de disputas onde são expressas relações de força. Essas forças provêm de posições conquistadas e capital acumulado, adquiridos em disputas anteriores. Nas palavras de Bourdieu (1983, p. 122-123): "O campo científico, enquanto sistema de relações objetivas entre posições adquiridas (em lutas anteriores), é o lugar, o espaço de jogo de uma luta concorrencial. O que está em jogo especificamente nesta luta é o monopólio da autoridade científica definida, de maneira inseparável, como capacidade técnica e poder social; ou, se quisermos, o monopólio da competência científica, compreendida enquanto capacidade de falar e agir legitimamente (isto é, de maneira autorizada e com autoridade), que é socialmente outorgada a um agente determinado".

7Esse processo se deu como parte de um movimento de representação científica do homem, sobre o qual afirma Duarte (1984b, p. 143-144): "Como veríamos, o Homem só se apresentou como objeto de um investimento científico a partir do momento em que se o encarou sob a forma — literalmente transposta das Ciências Naturais — de uma ‘espécie’ composta de ‘indivíduos’ desnudados das qualificações culturais tradicionais e assim apresentados à análise tão iguais entre si como são iguais dois sapos da mesma ‘espécie’ sob a lupa e o bisturi de um biólogo vivissecante".

8A distinção de uma "fase" científica e disciplinar é aqui utilizada de forma analítica e não histórica.

9Metchinikoff naquele ano recebeu o Prêmio Nobel de Medicina por seus estudos sobre fagocitose ao mesmo tempo em que idealizava uma teoria explicativa do envelhecimento, segundo a qual este seria uma conseqüência de intoxicação crônica do organismo causada por micróbios que produzem putrefação progressiva no interior do intestino. Ver Metchinikoff (1917).

10 Uma das passagens mais significativas no reconhecimento dessa dimensão social da velhice é a introdução de fatores sociais como elementos causais determinantes das condições e do modo como se envelhece em uma determinada sociedade. Um dos marcos dessa passagem pode ser localizado nos anos 40, no trabalho de Leo Simmons (1945), em que o autor, investigando os arquivos etnográficos da Universidade Yale (Human Relations Area Files), selecionou 71 sociedades, modernas ou da Antigüidade, classificadas por variáveis culturais e ambientais — como o clima e o meio ambiente físico, a economia, a organização social e política, crenças e rituais, entre outras — para depois agrupá-las em tipos de sociedades e correlacioná-los com o status dos idosos e o tratamento a eles dispensados em cada sociedade. O tipo de perspectiva exemplificado pelo trabalho de Simmons, ao incorporar elementos de ordem sociocultural, se esforça por demonstrar como a velhice deixa de ser uma questão apenas da esfera privada ou familiar, sendo conseqüência do modo de organização da sociedade, e permite, assim, que se postule uma dimensão pública de intervenção.

11Para uma resenha da mudança dessa perspectiva no discurso gerontológico, ver Debert (1993).

12Burguess (1960) apud Debert (1992), por exemplo, pensa a velhice nas sociedades modernas pela ausência de papéis (roless role).

13Dentre os desenvolvimentos mais significativos da perspectiva que correlaciona velhice e modernidade, um dos mais importantes foi a chamada "Teoria da Modernização", formulada por Cowgill e Holmes, em um congresso preparado por eles em 1966, para discutir o impacto da modernização em sociedades tradicionais. As discussões desse congresso foram publicadas por ambos em 1972 (Cowgill e Holmes, 1972). Nessa obra os autores fazem uma revisão das teorias então usuais em Antropologia e, a partir das conclusões do congresso, formulam suas próprias propostas teóricas. O objetivo dos autores era estabelecer generalizações sobre os processos de mudança que ocorreriam em todas as sociedades na medida em que vão se modernizando, e que teriam, invariavelmente, como conseqüência, a perda de status para os idosos. Com um enfoque evolucionista, esses autores aplicam a tipologia tradicional/moderno, emprestada das Ciências Sociais e Econômicas, para estudar as condições de vida dos idosos, a partir do seguinte cenário: à medida que os Estados anteriormente colonizados pelo Ocidente vão sendo incorporados ao mercado mundial, um processo de modernização, com profundas repercussões, altera as estruturas sociais tradicionais. Os autores então formulam suas próprias previsões, de que, apesar da melhora geral nas condições de vida da população, ou parte dela, o status social dos idosos declina na mesma proporção e velocidade que as sociedades se modernizam (Cowgill e Holmes, 1972 apud Cohen, 1994, e San Román, 1989).

14Nessa narrativa, frente ao declínio do padrão familiar baseado em unidades domésticas multigeracionais — dentro das quais os idosos, supostamente, teriam sido membros privilegiados, personalidades sociais importantes e de prestígio (ou pelo menos poderiam contar com seus familiares para assisti-los na velhice) — e sua substituição pelo padrão de organização doméstica baseado na família nuclear moderna, esse espaço de assistência e de manutenção de papéis específicos para os idosos teria se perdido. Além disso, invoca-se um passado mítico no qual a experiência de vida dos mais velhos permitia-lhes acumular grande sabedoria. Isto, diante dos limites da transmissão oral de conhecimento, fazia deles grandes "contadores de história", figuras assim centrais e de grande importância na comunidade. Com a decadência da forma oral de transmissão de conhecimentos, e sua superação pela moderna comunicação de massa, os idosos teriam perdido sua condição de guardiães do saber e deixaram de exercer a tarefa de transmitir conselhos aos mais jovens. Teria se perdido o elo de ligação entre o passado e o presente e, nesse novo universo sem lembranças, as estórias dos idosos, assim como eles mesmos, não interessariam a mais ninguém (Secco, 1992). Os idosos seriam associados à memória e tradição, e por isso marginalizados por um tipo de sociedade que opõe, de forma hierárquica, o novo ao velho, o moderno ao tradicional. Isto agravado pela perda do valor de uso dos corpos dos trabalhadores. Velhice, como sinônimo de incapacidade para o trabalho, significaria, nas modernas sociedades, inutilidade e marginalização.

15Desde de que surgiu, a Gerontologia tem espelhado em suas práticas e representações modos antagônicos de pensar a velhice e o envelhecimento. Um primeiro "modelo", que Lars Tornstam denominou "perspectiva da miséria" (apud Debert, 1993) desempenha um papel importante para a institucionalização da Gerontologia como um saber legítimo, capaz de propor a velhice e _ envelhecimento como uma questão social urgente, definindo demandas de políticas públicas. O mesmo autor identifica ainda outra perspectiva, na qual ele chama o idoso de "fonte de recursos" (apud Debert, 1993). Nessa perspectiva, partindo de pressupostos contrários ao da "perspectiva da miséria", os estereótipos negativos relacionados à velhice e envelhecimento são abandonados em favor de uma imagem mais positiva, na qual os idosos aparecem como pessoas ativas, criativas, capazes de responder às transformações na experiência de envelhecer.

16De acordo com esse autor, um processo de medicalização dos espaços institucionais determinou a substituição dos "asilos. Em relação à velhice, no entanto, segundo o mesmo autor, esse processo de medicalização não rompeu completamente como o modelo asilar, identificado com as instituições totais de Goffmam (1992), persistindo até hoje, ainda que com nomes como "lar dos idosos" ou "recanto para a terceira idade" (Groisman, 1998).

17 O SESC, instituição criada em 1946, para servir como o braço para-estatal de serviço social no Brasil, patrocinou sua primeira atividade destinada a idosos não-institucionalizados em 1963, em São Paulo (Assis, 1979).

18 Para considerações sobre ambas, ver: Debert (1993) e Attias-Donfut (1979a).

19 Como exemplo dessas discussões, ver: Attias-Donfut (1979a e 1980); Salgado (1982b). Nessas discussões, as referências básicas dos autores são: Kaplan (1960) e Dumazedier (1979).

20 A primeira UnATI teria sido criada por Pierre Vellas, em 1973, na Faculdade de Direito da Universidade de Toulouse. Para uma discussão geral sobre as UnATIs, ver Frutuoso (1996), Lenoir (1979) e Peixoto (1997).

21 Parece não haver consenso quanto à primeira UNATI a surgir no país. A UnATI da Universidade Federal de Santa Catarina iniciou suas atividades em 1983, a partir da criação do Núcleo de Estudos da Terceira Idade (NETI) e se apresenta como a pioneira no meio universitário brasileiro, sendo, porém, seu modelo distinto em vários aspectos. Para uma apresentação desse trabalho junto aos idosos, ver: Guedes (1991). Ainda na década de 80, em parceria com o SESC, a PUCCAMP realizou um levantamento do perfil dos idosos na região de Campinas, dos recursos e programas assistenciais disponíveis e, em 1990, criou a Universidade da Terceira Idade da PUCCAMP, que foi a primeira a ser divulgada na mídia em caráter nacional, servindo de exemplo, juntamente com o Plano de Ação Mundial da ONU, e os exemplos franceses, para a implementação de várias outras UNATIs.

22 A UnATI/UERJ é dividida em três módulos: Ensino e Desenvolvimento de Recursos Humanos; Pesquisa e Extensão. Cada módulo é coordenado por uma Gerência.

23 O aspecto simbólico da universidade tem um papel importante na dualidade: saber/lazer, não apenas para a instituição, mas também para seus alunos. Frutuoso (1996) e Guerreiro (1993) destacam o peso simbólico da Universidade como importante na opção por freqüentar uma UNATI. A valorização da universidade no universo sócio-simbólico ao qual pertencem os alunos é comum, não somente devido a uma parte desses alunos ter curso superior, mas também por terem filhos ou netos cursando, ou já tendo cursado, a universidade, normalmente associada ao saber e à possibilidade de ascensão social, profissional e mesmo existencial. Comparando as UnATIs francesas, predominantemente de classe média, com os Clubes para Terceira Idade, de caráter mais popular, Attias-Donfut (1976) identifica na distinção social um fator determinante da participação em um ou outro tipo de programa.

24 Para um perfil desses alunos, ver Peixoto (1997) e Santana (1997).

25 Assim, buscar uma demarcação para as fronteiras do grupo, unicamente, em critérios como auto-identidade, pode conduzir a distorções. Encontram-se na UnATI/UERJ alunos que se recusam a ser identificados, ou se identificarem, com a expressão "terceira idade". Outros assim se denominam unicamente por participarem de um programa desse tipo, e há aqueles que já se caracterizavam desse modo antes de freqüentá-lo.

26 Comentando o trabalho de Mannheim, Attias-Donfut (1991) critica-o principalmente quanto à efetividade do grupo geracional, que seria, para Mannheim, segundo a autora, uma unidade mítica. Ariès (1983) se utiliza de uma perspectiva de geração para dar conta das transformações sofridas pela experiência de envelhecer, onde estas aparecem relacionadas às transformações da sociedade, sobretudo em termos de condições de vida, e diante do confronto com as formas de viver a experiência de envelhecer das gerações anteriores. A formulação da perspectiva de geração que se segue inspira-se em Velho (1989).

27 Para resenha de alguns desses trabalhos, ver Salem (1986).

28 Sobre o prestígio da Psicanálise no Brasil, em termos comparativos com os Estados Unidos e a Inglaterra, ver Figueira (1985) e Nunes (1986). Ver também Berger (1985).

29 Sobre essa "psicologização" dos sujeitos, ver Velho (1989).

30 No segundo semestre de 1997, as atividades acima tiveram cerca de 125 inscrições. Se, por um lado, este número não pode ser um indicador preciso do interesse por essas atividades — uma vez que existem sempre menos alunos participando do que inscritos, assim como outros participam sem estar inscritos —, sua relação com o número de vagas oferecidas — 128 — indica uma taxa razoável de procura. A demanda pelas atividades mais procuradas, como dança de salão, por exemplo, sempre excede o número de vagas oferecidas, ficando uma "fila de espera". No entanto, a grande maioria da atividades não preenche totalmente suas vagas.

31 Representações que gozam de especial legitimidade, pois são apresentadas em nome de um saber consolidado e de grande prestígio: as ciências psicológicas. São representações oriundas da psicologia do desenvolvimento e da psicanálise, mas que também estão ligadas aos estereótipos associados à velhice.

 

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ABSTRACT

The main purpose of this investigation is to describe aspects of an institution concerned with the elderly, thus contributing to the understanding of representations of old age and ageing which transform old age in a public matter. It starts with the idea that "third age" expresses a new sensibility in relation to ageing, which became a reflex and symptom of present sociability forms. The central point is that, in a universe being investigated, this sensibility is experienced through codes: of behavior, of corporal expressions, and mainly of subjectivity expressions, through which individual ageing experiences can be shared and negotiated, within a context marked by the decline of traditional models and by the appearance of a scientific discourse about ageing and old age.
Keywords: Third age, programs for the third age, aging, olg age.