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Textos sobre Envelhecimento

versão impressa ISSN 1517-5928

Textos Envelhecimento v.4 n.7 Rio de Janeiro  2002

 

Representações Sociais da Aposentadoria

Social Representations of Retirement

Lucas Graeff *

 

RESUMO

Com o objetivo de verificar especificidades relativas à condição de aposentado, propôs-se uma pesquisa a partir do referencial das Representações Sociais. A amostra foi de oito homens com mais de 60 anos, aposentados por tempo de serviço e residentes em Porto Alegre, originários do projeto "Trabalho e Aposentadoria" (1998). Cada sujeito foi entrevistado conforme um roteiro previamente estruturado, com gravação consentida. As entrevistas foram transcritas, lidas e posteriormente categorizadas a partir das palavras-chave  "trabalho" e "aposentadoria", além de derivações, como "trabalhar" ou "aposentado". O conteúdo das entrevistas trouxe à tona representações sociais que foram dispostas em três categorias: "Prêmio", que explicita a ligação dos anos de trabalho com uma recompensa em forma de descanso e remuneração; "Férias", que demonstra uma forma de ancoragem e objetivação de uma nova vivência – estar aposentado – no universo conceitual dos sujeitos, na medida que é há o paralelo entre uma referência anterior (as férias do trabalho) e a atual situação de ociosidade; e "Segunda vida", apontando para a necessidade subjetiva de pensar ou criar novas estratégias para o novo papel a ser assumido. Identificou-se uma noção geral de perda da capacidade de trabalho bem como a demarcação clara de um novo período, onde o não-trabalho predomina.
Palavras-chave: aposentadoria; envelhecimento; trabalho; acontecimentos que mudam a vida.

 

INTRODUÇÃO

A população idosa no Brasil vem se expandindo significativamente nas últimas décadas. Segundo uma descrição de dados do IBGE feita por Granjão (1994), o índice de pessoas com mais de 60 anos no Brasil passaria de 6,5% da população total, em 1980, para cerca de 8%, no ano 2000.

No entanto, segundo os dados atuais, o contínuo processo de envelhecimento populacional fez com que a porcentagem das pessoas idosas passasse de 7,4%, em 1989, para 8,3% em 1995, alcançando 9,1% em 1999.

A partir da década de 90, verifica-se um acentuado crescimento na produção científica sobre velhice, além da expansão das universidades de terceira idade e formação de grupos de pesquisa em gerontologia  (Goldstein, 1999). Data também desse período a promulgação da Lei 8.842/ 94, que dispôs sobre a política nacional do idoso e instituiu o Conselho Nacional do Idoso. No que diz respeito à aposentadoria como problema de pesquisa, apesar de ser um dos assuntos recorrentes1,a utilização da Teoria das Representações Sociais para seu estudo é bastante restrita. O trabalho de Silva (2000) sobre representações sociais e ideologia da aposentadoria pode ser considerado pioneiro.

Uma das áreas de pesquisa da Gerontologia Social é o desenvolvimento de teorias acerca do processo de envelhecimento que integrem a preocupação com a qualidade de vida e com a própria compreensão dos idosos acerca desse fenômeno (Neri, 1993). O presente trabalho se propõe como mais uma contribuição, principalmente considerando a teoria das Representações Sociais como uma forma adequada para explorar o tema.

REPRESENTAÇÕES SOCIAIS E APOSENTADORIA: DISCUSSÕES

A teoria das Representações Sociais (RS), como apontou Celso Pereira de Sá (1998), foi inicialmente desenvolvida por Serge Moscovici em 1961 no seu trabalho La psychanalyse, son image et son public. Nele, o autor buscava identificar o que acontecia quando um novo campo de conhecimento – a Psicanálise – espalhava-se dentro de uma determinada população. O livro dava a conhecer a tese de doutorado de Moscovici, um trabalho de dez anos de investigações empíricas e elaborações teóricas sobre o conceito de representação.

As RS foram, segundo Ibañez (1994), uma espécie de reapropriação do conceito de Representação Coletiva de Emile Durkheim, acentuado seu caráter social, contextual e histórico. As Representações Coletivas designam o fenômeno social pelo qual se constroem as diversas representações individuais: "Son producciones mentales colectivas que transcienden a los individuos particulares y que forman parte del bagaje cultural de una sociedad" (Ibañez, 1994, p. 168). Além disso, o autor assinala a complexidade do conceito de representação social, afirmando se tratar de um saber dinâmico, de muitas faces e difícil de encerrar em poucas palavras.

Contudo, é exatamente o dinamismo que possibilita sua capacidade explicativa: "ao mesmo tempo pensamento constituído e pensamento constituinte, as RS são um processo de construção da realidade" (Ibañez, 1994, p. 175).

Denise Jodelet propõe um conceito de RS, afirmando ser "uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, tendo uma visão prática e concorrendo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social" (apud Oliveira & Werba, 1998, p. 106). São características fundamentais das RS, segundo Ibañez (1994): 

• Sua produção via comunicações e interações dos grupos sociais, refletindo assuntos que são objetos de seu dia-a-dia;

• Seu caráter compartilhado, coletivo;

• Contribuem fundamentalmente para a configuração e manutenção dos grupos sociais. 

As RS

são sociais tanto pela natureza de suas condições de produção, como pelos efeitos que engendram e pela dinâmica de seu funcionamento, sendo permanentemente influenciadas pelo conjunto de condições econômicas, sociais, históricas em uma determinada sociedade, pelos mecanismos de ancoragem e objetivação, e pelas diversas modalidades de comunicação social. (Ibañez, 1994, p. 182)

A objetivação e a ancoragem, como assinalou Jodelet (op. cit), revelam operações básicas do funcionamento geral do pensamento social. Ancorar  "permite o processamento rápido de novos dados, por justaposição a um protótipo já existente" (Arruda, 1992, p. 3) consistindo em integrar a informação sobre um objeto dentro do nosso sistema de pensamento. Objetivar, por sua vez, é "transformar algo abstrato em algo quase concreto, transferir o que está na mente em algo que existia no mundo físico" (Ibañez, 1994, p. 186). O processo de objetivação é a projeção reificante que nos faz materializar em imagens concretas o que é puramente conceitual.

Para a configuração de uma representação social, de todas as palavras que representam um determinado assunto, aquelas frações que melhor as descrevem por imagens constituem núcleos figurativos (Veloz, Nascimento- Schulze & Camargo, 1999). Nas próprias palavras de Moscovici:

Um enorme estoque de palavras, que se referem a objetos específicos, está em circulação em toda a sociedade (...) mas nem todas as palavras que constituem esse estoque podem ser ligadas a imagens, seja porque não existem imagens suficientes facilmente acessíveis, seja porque as imagens que são lembradas são tabus. As imagens selecionadas pela sua capacidade de ser representadas são integradas ao que denominamos ‘núcleo figurativo’, um complexo de imagens que reproduz visivelmente um complexo de idéias. (Moscovici apud Veloz, Nascimento-Schulze & Camargo, 1999, p. 36)

Este trabalho parte do pressuposto de que a aposentadoria, além de não constituir um campo de conhecimento novo, sofre deslocamentos em seu sentido no dia-a-dia das pessoas, implicando transformações nos modos de ser, pensar e agir coletivos. Além disso, a aposentadoria, como saber constituído e constituinte, é muito mais do que a simples soma de representações individuais de um determinado grupo. Trata-se, na verdade, de uma matriz de pensamentos de senso comum inseridos em um contexto sociocultural e econômico maior.

Devem-se, então, considerar alguns aspectos específicos da realidade brasileira. Nara Costa Rodrigues (2000, p. 26) afirma que "a aposentadoria, antes de mais nada, é uma instituição da sociedade industrial moderna", pois é resultado de um longo período de lutas da classe trabalhadora. Segundo a autora, na maioria das legislações trabalhistas a aposentadoria é concedida por idade, aspecto implica na não separação do binômio idade-trabalho, relacionando estreitamente a aposentadoria ao processo de envelhecimento.

A palavra aposentadoria está vinculada, segundo Carlos et al. (1998), a duas idéias centrais: a de retirar-se aos aposentos, de recolher-se ao espaço privado de não trabalho – contribuindo para o status depreciativo que envolve o abandono e a inatividade –, e a de jubilamento, acarretando uma perspectiva otimista, onde há uma conotação de prêmio, recompensa e contentamento. A proposta de Edith Motta ilustra essa idéia quando a autora refere a aposentadoria como

um direito [grifo da autora] adquirido pelo trabalhador após o término de um determinado número de contribuições para um determinado sistema previdenciário e que implica em receber uma importância mensal sem uma correspondente prestação de serviço. (Motta, apud Carlos et al., 1998, p. 24) 23

Segundo Rodrigues (2000), há dois pontos fundamentais nas definições de aposentadoria: a inatividade após um tempo de serviço e a remuneração por essa inatividade. Esses dois aspectos são decisivos para a compreensão das conseqüências acarretadas nas vidas daqueles que se aposentam, pois "a aposentadoria requer um condicionamento mental e social que a maior parte das pessoas não possui, e isso porque a cessação da atividade profissional constitui uma exclusão do mundo produtivo, que é a base da sociedade moderna." (Rodrigues, 2000, p. 27). A autora ainda destaca que a aposentadoria, como instituição social, apresenta características contraditórias: 

Se, de um lado, alguns a vivem como um tempo de "liberdade", de  "desengajamento profissional", de "possibilidade de realizações", de "fazer aquilo que não teve tempo de fazer" durante a vida ativa, de  "aproveitar a vida", de "não ter mais patrão, horários obrigatórios"  etc., de outro, outros a consideram como um "tempo de nostalgia", de "enfado" etc. (Rodrigues, 2000, p. 28)

É contraditório, ainda, em relação ao tipo de trabalho realizado: tratando-se de algo penoso, repetitivo, a aposentadoria pode representar uma libertação do sofrimento, do desgosto; ao contrário, sendo um trabalho gratificante e enriquecedor, a cessação da atividade aparece como um tormento e há aspiração para uma liberdade de escolha relativa à época e à idade para se aposentar.

A partir dessas idéias, este trabalho de pesquisa busca a identificar e discutir as representações sociais da aposentadoria de idosos aposentados por tempo de serviço, do sexo masculino e residentes em Porto Alegre (RS), colocando-se as seguintes questões norteadoras: 

• Como o idoso aposentado urbano representa a aposentadoria? 

• Qual o valor atribuído à aposentadoria como um novo momento de vida?

PROCEDIMENTOS

Os dados originais da pesquisa "Os Idosos do Rio Grande do Sul: estudo multidimensional de suas condições de vida" (1997) constituem um arquivo de informações sobre idosos urbanos, com 60 anos ou mais, de ambos os sexos, não institucionalizados e residentes no estado do Rio Grande do Sul. A partir desse arquivo, as universidades conveniadas ficaram responsáveis pela elaboração de sete relatórios, cabendo a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) e Universidade do Vale dos Sinos (Unisinos) o estudo da região metropolitana de Porto Alegre. Em seu cumprimento, os pesquisadores optaram por focalizar o segmento dos aposentados, circunscrito ao total de 1.440 sujeitos.

De acordo com as finalidades do projeto "Trabalho e Aposentadoria"  (1998), a partir dos 1.440 sujeitos selecionou-se a amostra referente ao município de Porto Alegre, totalizando 495 aposentados urbanos. Seguindo as questões norteadoras do projeto, buscou-se a reverificação das características socioeconômicas da amostra, através de questionário com questões fechadas, semifechadas e abertas. Realizadas a visitação domiciliar e a aplicação do questionário, cerca de 2/3 dos sujeitos não foram encontrados ou não se disponibilizaram a participar da pesquisa, totalizando, ao final da coleta, 166 questionários completos.

Os dados foram digitados e processados através do software SPHINX, proporcionando estatísticas descritivas e inferenciais, que possibilitaram a identificação de 42 homens aposentados por tempo de serviço. Destes, 25 dispuseram-se a participar de entrevistas de profundidade, em que foi utilizado um roteiro previamente estruturado em três eixos principais: a história de trabalho do indivíduo, a decisão e preparação para a aposentadoria e o trabalho após a aposentadoria.

As entrevistas de profundidade foram gravadas sob consentimento escrito dos sujeitos, sendo posteriormente transcritas. Os procedimentos utilizados seguiram os critérios estabelecidos pela Comissão de Ética na Pesquisa da UFRGS para a realização de pesquisas que envolvem seres vivos.

Para este trabalho, foram selecionadas as oito primeiras entrevistas integralmente realizadas e transcritas, conforme sua disponibilidade no Centro de Documentação sobre Envelhecimento da UFRGS. As características socioeconômicas dos entrevistados são destacadas no Quadro 1.

 

Quadro 1

Características socioeconômicas dos sujeitos. Porto Alegre (RS) – 2001

Sujeito

Local de Nascimento

Idade

Estado Civil

Com quem mora

1º trabalho

Idade da Aposentadoria

Escolaridade

Atividade principal

Renda Mensal Atual

1

Interior RS

65 anos

Casado

Companheira e filhos

Aos 15 anos

56 anos

Secundário Completo

Comércio

R$ 1.500,00

2

Capital RS

68 anos

Casado

Companheira e filhos

Aos 12 anos

62 anos

Secundário Completo

Militar

(Setor Materiais)

Não quis informar

3

Litoral SC

65 anos

Casado

Companheira e filhos

Aos 14 anos

53 anos

Ginasial Incompleto

Funcionário Público

(Enfermeiro)

R$ 2.500,00

4

Interior RS

74 anos

Viúvo

Amigos

Aos 16 anos

58 anos

Ginasial Incompleto

Operador de máquinas no Porto

R$ 800,00

5

Interior RS

78 anos

Casado

Companheira

Aos 19 anos

45 anos

Ginasial Completo

Militar

(Radiotele-grafista)

R$ 2.100,00

6

Interior RS

74 anos

Casado

Companheira

Aos 18 anos

60 anos

Ginasial Incompleto

Zelador

R$ 510,00

7

Interior RS

73 anos

Casado

Companheira e filhos

Aos 23 anos

58 anos

Superior Incompleto

Comércio

R$ 1.000,00

8

Capital RS

72 anos

Casado

Companheira e filhos

Aos 14 anos

48 anos

Ginasial Incompleto

Industriário

R$ 590,00

Fonte: dados obtidos durante a pesquisa  

 

Os sujeitos têm em média 71 anos, são provenientes do interior do Rio Grande do Sul, começaram a trabalhar entre 12 e 23 anos e aposentaram- se cerca de 39 anos depois. Em maioria, são casados e moram com a companheira e os filhos. Sua escolaridade está circunscrita entre ginasial e secundário, à exceção de um sujeito com nível superior incompleto. Atualmente suas rendas mensais estão em torno de R$ 1.300,00, com máximo de R$ 2.500,00 e mínimo de R$ 510,00.

Para a análise dos dados, cada entrevista foi lida separadamente, inicialmente através de uma leitura flutuante (Bardin, 1977). Em um segundo momento, com a utilização da ferramenta de busca de um software de editoração de textos, localizaram-se parágrafos que contivessem uma ou mais das palavras-chave "trabalho" e "aposentadoria", além de derivações, como "trabalhar" ou "aposentado". Para a sistematização dos dados, organizou- se um quadro de exploração do material, com trechos transcritos e observações. Com isso, foi possível reunir as falas dos sujeitos e tecer comentários a partir da literatura enfocada, visando à constituição dos núcleos figurativos, que foram dispostos em três categorias:

– "Prêmio", que explicita a ligação dos anos de trabalho com uma recompensa em forma de descanso e remuneração;

– "Férias", que demonstra uma forma de ancoragem e objetivação de uma nova vivência – estar aposentado – no universo conceitual dos sujeitos, na medida em que há o paralelo entre uma referência anterior (as férias do trabalho) e a atual situação de ociosidade;

– "Segunda vida", apontando para a necessidade subjetiva de pensar ou criar novas estratégias para o novo papel a ser assumido.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Em princípio, todos os sujeitos retrataram uma perspectiva positiva frente a cada categoria. Contudo, como será visto a seguir, existem dissensos em suas falas, evidenciando ansiedades implícitas que contribuem para a construção das representações, pois elas "englobam, de forma complexa, fluida e entrecruzada, numerosos e diversos assuntos de conhecimento e numerosos grupos ou conjuntos de sujeitos conhecedores", como assinalou Celso Pereira de Sá (1998, p. 24).

PRÊMIO: RECOMPENSA OU CONSOLAÇÃO?

Esta representação social reflete a expectativa de um descanso justo e sustentado financeiramente pelo Estado, em virtude de trinta anos ou mais de produção de bens e serviços. A aposentadoria é percebida como recompensa na medida em que o sujeito está liberado do trabalho, vê diminuídas suas responsabilidades e recebe um prêmio financeiro por sua  "luta" como trabalhador:

A aposentadoria é um prêmio que a pessoa ganha. (...) E eu acho que a aposentadoria vem premiar aquelas pessoas que trabalharam, que lutaram, que deram alguma coisa pro nosso país, né. (Sujeito 2)

Em alguns casos, emerge a justificativa meritocrática: o sujeito receberá o prêmio se tiver realmente se esforçado em prol de algo maior, distinguindo-se dos demais. O trabalho, percebido como um período de  "luta", é recompensado com uma aposentadoria satisfatória do ponto de vista pecuniário. Isto é importante, pois contribui para justificar os infortúnios alheios.

Me aposentei com nove, nove salários, e hoje devo ter, ganhar, oito salários, nem isso, um pouquinho menos, sete ou oito, porque cada vez vai defasando mais. A correção não acompanha o custo de vida. (Sujeito 1) 

A aposentadoria não dá pra viver. Porque se eu tivesse me aposentado com os quatro salários mínimo, hoje eu tava bem (...) É incrível isso que esse governo tá tirando da gente. Se ele ficar mais um tempo aí, nós vamos ganhar um salário mínimo, do jeito que vai. Uma judiaria. Eu descontei um monte de dinheiro a vida... trinta e seis anos, pra agora tá tirando tudo da gente, isso... Ah, pára com isso, pára com isso... (Sujeito 6)

E que nem sempre é uma aposentadoria, falando na parte financeira, que é boa né, tchê, poderia ser melhor. (Sujeito 2)

A percepção começa a demonstrar-se contraditória a partir da resignação com o sistema de Previdência Social do Brasil. Aposentados por tempo de serviço, os sujeitos recebem integralmente uma renda mensal, maior que a maioria da população no país, mas os anos gradativamente restringem seu poder de compra – e acentuam a velhice – dos entrevistados.

Assim, mesmo de uma perspectiva meritocrática, na medida em que é assumida a percepção de injustiça, emergem sentimentos de ingratidão ao sistema. A privação econômica resultante da aposentadoria acarreta em uma atitude negativa frente ao processo, como já apontaram Moragas (1997) e Sánches Salgado (1999). Além disso, a perda do status social e a supressão do poder de trabalho são decisórios para a quebra das expectativas positivas e conseqüente desilusão:

É, eu fiquei zanzando, sem fazer nada, né, caminhando aí, enjoava, caminhava pra um lado, caminhava pro outro, acostumado sempre embaixo do mau tempo feliz, não se fazia nada, né, aí então... (Sujeito 8)

Os sujeitos percebem sua identidade correlacionada com seu status de trabalhador. Perdendo sua capacidade produtiva, sua competência, vêem-se obrigados ao retiro. A própria característica compulsória da aposentadoria proporciona sentimentos de apatia e impotência, trazendo a impressão de que lhes escapa a autonomia conquistada em anos e anos de trabalho. Torna-se patente, então, que a condição de aposentado não está circunscrita somente à questão financeira, mas a todo um conjunto de sentimentos novos que são comuns a este grupo de entrevistados.

Experienciando tais ambivalências, impõe-se a necessidade de suportar as desilusões que vão de encontro aos benefícios do processo de aposentadoria. Há um novo papel em jogo – o de aposentado – e seus aspectos positivos e negativos confundem-se, sendo refletidos nas categorias seguintes.

FÉRIAS: DESCANSO OU DESOCUPAÇÃO?

Através dos mecanismos de ancoragem e objetivação, os sujeitos apontaram a aposentadoria como um período de ócio ou férias permanentes. Talvez pela ausência de horário ou de rotina, conforme as afirmações a seguir:

não precisava levantar às seis, não precisava colocar uma farda ou terno, então me preparei pra tudo isso (...) eu vim pra casa, mas só que – expressão como a gente diz, militar – vim pra casa. Terminou o tempo. (...) (Sujeito 2)

Ou ainda pelo retorno a casa – o recolhimento aos aposentos –, preenchendo o tempo com o dia-a-dia caseiro. Nesta representação, a ausência de obrigações possibilita um período onde o indivíduo tenta fazer coisas que antes não podia fazer, aproveitando amplamente seu tempo. O que Atchley (1980) denominou "lua-de-mel", uma primeira etapa da aposentadoria em que há a motivação para experimentar, ocupando-se com novas atividades ou descansando tranqüilamente.

Mudou, porque eu já não tinha um horário, eu não era... Preenchido por trabalho, né. Eu optava pelo que eu ia fazer. (...) Faço uma série de coisas que só o aposentado pode fazer. (Sujeito 1)  

Quer dizer, eu me habituei, que ficava mais em casa que no trabalho. Então eu já cheguei àquela rotina, né? Até hoje, hoje eu me levanto, solto os cachorro na rua pra passearem um pouco o casal, dou comida pros pombos, venho, leio o meu jornal ou faço palavrinha cruzada. Aí, quando tenho que sair, saio, quando não saio, me deito um pouco depois do almoço, tiro a minha sesta depois que vejo o jornal das notícias, vejo esporte e depois vejo filme. (Sujeito 3)

A metáfora de um tempo preenchido pela labuta diária assinala o vazio experenciado pelo aposentado em sua nova rotina. As falas evidenciam uma necessidade de novas práticas que tomem o lugar das atividades anteriores, ocupando um tempo que é sinônimo de ausência. Há uma distância entre a desocupação e descansar: a primeira é um reflexo da inatividade ou incapacidade do sujeito, ao passo que a segunda é uma opção pessoal. O aposentado descansa um período, mas ocupa-se noutro, pois disso depende seu bem-estar:

Terminou o embalo aquele da aposentadoria e comecei a me sentir meio, meio parado. (...) A inatividade da aposentadoria se fez, se acentuou, eu achei que podia fazer uma coisa, ainda tinha vitalidade pra fazer alguma

coisa. (Sujeito 1)

Mas tem que ter uma ocupação, porque se eu não tivesse uma ocupação, eu acho que já teria complicado a vida. O idoso, hoje, se não tiver ocupação ele vai logo (...). A ociosidade deixa o camarada tonto, deixa ele maluco. Tá trabalhando, pára de trabalhar, e não tem ocupação tá com isso, tá com aquilo... (Sujeito 7)

Me sinto muito bem. Muito bem porque eu não paro. (...) Eu tô sempre fazendo alguma coisa, entende? Eu tô sempre fazendo alguma coisa. (Sujeito 5)

O "embalo" da aposentadoria é a euforia proporcionada pela expectativa construída na vida de trabalho do descanso e da opção pelos afazeres. Ele se esvai na medida em que os sujeitos sentem-se "parados", improdutivos, sem reconhecimento social por seu novo status. Escolher novamente o movimento e realizações objetivas proporciona o próprio sentido de continuar vivendo. Daí a afirmação de que a ociosidade "deixa o camarada tonto" ou que "se não tiver ocupação, ele vai logo". Além disso, as falas "e não tem ocupação, tá com isso, tá com aquilo..." e "Me sinto muito bem. Muito bem porque eu não paro" assinalam a correlação entre saúde e capacidade de produzir, bem como a contrapartida doença e improdutividade. A sensação de férias emerge pela ausência de obrigações com o trabalho. A autonomia é experienciada positivamente, como apontou também o estudo de Silva (2000), pois, para o aposentado, escolher como preencher o tempo livre é uma vantagem, seja através de uma nova ocupação ou de descanso. Não obstante, passar por desocupado, estar excluído do mundo produtivo – a base da sociedade moderna – contribui para uma percepção pejorativa da condição de aposentado.

SEGUNDA VIDA: FIM OU RECOMEÇO?

A idéia de uma segunda vida também suscita o processo de ancoragem. Os entrevistados representaram a aposentadoria como uma segunda vida: o fim de sua capacidade produtiva é efetivamente sentida como uma morte. A postura perante esse novo papel, como Sánches Salgado (1999) apontou, depende da habilidade em enfrentar-se o novo. Interessante notar que tanto uma perspectiva otimista – a de um novo começo – quanto a pessimista – a de sobreviver – apontam a importância de uma preparação. Na fala de alguns entrevistados, preparar-se é pensar na decisão de aposentadoria, atitude de responsabilidade individual do sujeito:

Quando chega na época, mais ou menos, da aposentadoria, que parece que agora é sessenta anos, então... Eles preparam, tem um cursinho, pra pessoa não sair traumatizada. Então, eu não precisei disso, e acho que outros cole / mas outros precisaram, ficaram sentindo – sentiram. Não sei... Cada um, né? (...) Eu sempre me preparei psicologicamente para o segundo passo, ou a segunda vida. (Sujeito 1)

Só me preparei. Sabia que ia parar o serviço e ia modificar o meu modo de viver e tinha que me adaptar, só isso (...) só me adaptei ao novo sistema. (Sujeito 4)

O caráter irreversível da aposentadoria emerge sob a ótica da segunda vida. Nela, o aposentado não pode mais retornar em sua decisão, devendo buscar alternativas de continuidade que signifiquem sua vida, como voltar ao trabalho informalmente ou adquirir um hobby. O aprendizado de alguma habilidade que interrompa o não fazer nada e, se possível, reconhecido economicamente, é de fundamental valor para uma segunda vida saudável.

É bom tu aprender a fazer carimbo porque quando tu termi/ quando tu te aposentar é um bico que você pode seguir. (Sujeito 5)

Não, a mudança é a seguinte: é que eu, graças a Deus, eu procurei aprender um hobby. Essa coisa que eu tô fazendo agora é que realmente tá me mantendo. Eu tenho que ter uma ocupação, compreende, então realmente isso aí me ‘interte’. (Sujeito 7)

Observando-se a fala do sujeito 5, o corte em sua fala denota, de certa forma, que a aposentadoria é um término ("quando tu termi/"), algo que representa o cessar de um trabalho, de uma rotina ou da própria vida produtiva. Através da fala do sujeito 7, está patente que a perseveração da saúde, do "continuar se mantendo", é uma condição relacionada com a utilidade: o aposentado que não tem nada a fazer morre, "vai logo". 

A morte não se dá apenas no campo produtivo. O caso do sujeito 6 expressa como a aposentadoria pode representar o cessar de todo um círculo social, que articula e dá sentido à vida do indivíduo.

Porque eu era naquele edifício uma... a gente... (...) Sabe que, quando eu fui sair, eu até fiquei de mal com uma pessoa que não queria que eu saísse de jeito nenhum (...). Mas eu não tinha mais força, não tinha mais competência pra desenvolver o meu trabalho. (Sujeito 6)

Eu sonhava com o trabalho, passei, olha, uns quatro ou cinco anos sonhei com aquele edifício, barbaridade... É porque naquela rua, naquela zona ali, eu tinha muita amizade. (Sujeito 6)

A segunda vida apresenta-se tanto como um campo de possibilidades como um fardo a ser carregado. Aposentar-se é um divisor de águas que sinaliza a morte produtiva e, em alguns casos, social? Parece que o senso comum aponta para uma resposta afirmativa à pergunta. Contudo, a condição de aposentado reflete, através das falas, estratégias que atribuem perspectivas otimistas ao processo de aposentadoria.

CONCLUSÕES

Neste estudo, foram identificados três núcleos figurativos referentes à representação social da aposentadoria, categorizados como prêmio, férias e segunda vida. Cada um apresentou tanto aspectos negativos quanto positivos, expressando a complexidade do assunto no âmbito do senso comum. As categorias férias e segunda vida revelaram a possibilidade de uma postura ativa frente à condição de aposentado, ao passo que a de prêmio apresentou-se passiva, mesmo se encarada positivamente, uma vez que o aposentado só pode esperar e receber o que for concedido a cada mês.

Se considerados os três núcleos figurativos, é possível identificar uma noção geral de perda da capacidade de trabalho bem como a demarcação clara de um novo período, onde o não-trabalho predomina, remetendo ao estudo "Representações Sociais do Envelhecimento", de Veloz, Nascimento-Schulze & Camargo (1999).

Sobre o valor atribuído à aposentadoria como um novo momento de vida, os homens aposentados por tempo de serviço mostraram-se irresignáveis com o status de aposentado. São homens que passaram a maior parte de sua vida trabalhando, assumindo papéis que os representavam socialmente.

Os núcleos figurativos aqui encontrados estão longe de ser homogêneos e sua abrangência é restrita. Apesar do reduzido número de sujeitos e das limitações deste estudo, buscou-se uma aproximação inicial ao tema a partir da ótica das Representações Sociais, que imprime a necessidade de pensar, interpretar e re-interpretar cada fala. Ao possibilitar inferências diversas sobre um mesmo conteúdo, esta teoria dinamiza e amplia discussões, indicando caminhos futuros para investigações acerca de temas cotidianos como a aposentadoria.

NOTAS

*Estudante de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Instituto de Psicologia – Departamento de Psicologia Social e Institucional. Bolsista de iniciação científica CNPq/PIBIC. Trabalho realizado para a disciplina de Métodos e Técnicas da Pesquisa Psicológica, sob a orientação do Prof. Sergio Antonio Carlos, em 2001. Apoio financeiro: CNPq/PIBIC

1 Segundo o estudo de Lucila L. Goldstein (1999), as tendências gerais de trabalhos científicos sobre a velhice da década de 90 foram: aposentadoria (20 ocorrências), institucionalização, idoso no asilo (17 ocorrências), mulheres, identidade feminina (13 ocorrências) corpo, imagem corporal (8 ocorrências), cuidado, cuidador (8 ocorrências), idoso hospitalizado (9 ocorrências); demência, Alzheimer (6 ocorrências); memórias, reminiscência (6 ocorrências); relacionamentos (7 ocorrências, sendo: avós-netos 4, casal 2, social 1); cognição, memória (5), luto, morte, viuvez (4 ocorrências); stress (4 ocorrências); atitudes (3 ocorrências); psicoterapia, psicanálise (3 ocorrências); construção e validação de instrumentos (4 ocorrências).

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ABSTRACT

Based on the construct of Social Representations, this study investigates 8 men over 60 years old, living in the metropolitan area of Porto Alegre, Brazil, who had participated in a previous project called "Work and Retirement" (1998), and retired after attaining the necessary number of years of employment based on Brazilian. Data were collected through tape-recorded, semi-structured interviews. After the interviews were transcribed, the content of the interviews was categorized according to two keywords, "to work" and "retirement", and cognates such as "work", "retiree", etc. Analysis of content revealed social representations that fell into three categories "Reward", which links the years spent working to the idea of obtaining a reward in the form of relaxation and a guaranteed pension; "Vacation", which reveals the occurrence of anchorage and objectivation of the new experience as there is a parallel between a previous reference, namely vacation from work, and the present situation of leisure; and "Second life", which signals the need to think about the new role that retirees assume, creating corresponding new strategies for a new style of life. Findings show a general acknowledgment of the loss of ability to work, in addition to a clear perception of the beginning of a new stage in life, where not working is perceived as normal.
Keywords: retirement; aging; work; life change events.

 

 

 

Recebido para publicação em 05/02/2002
Aprovado em 24/04/2002
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