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Textos sobre Envelhecimento

versão impressa ISSN 1517-5928

Textos Envelhecimento v.6 n.2 Rio de Janeiro  2003

 

Os programas de pós-graduação em Geriatria e Gerontologia no Brasil
Brazilian graduation programs in geriatrics and gerontology

 

Shirley Donizete Prado1
Jane Dutra Sayd2

 

Resumo

Descrevemos os programas de pós-graduação em geriatria e gerontologia no Brasil. A coleta de dados realizou-se no Centro de Referência e Documentação sobre Envelhecimento da Universidade Aberta da Terceira Idade, programa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a partir das páginas eletrônicas das universidades brasileiras e da CAPES. Para cada programa foram levantados dados referentes à área do conhecimento, áreas de concentração, linhas de pesquisa, corpo docente, ano de início e avaliação. Identificamos 19 cursos lato sensu, dos quais 68,4% voltam-se para geriatria e gerontologia e os demais para temas mais específicos como atendimento domiciliar, atividade física, saúde mental. Encontram-se em atividade três programas stricto sensu em gerontologia e mais três em medicina, educação e enfermagem que contam com áreas de concentração voltadas para geriatria, gerontologia e atenção à saúde do idoso, respectivamente. São cursos muito recentes, estabelecidos nas áreas da saúde e humanas e, mesmo considerando que alguns contam com boa posição nas avaliações realizadas pela CAPES, ainda há um longo percurso para que a maioria venha a alcançar essa condição.
Palavras-Chave:
Envelhecimento. Idoso. Programas de pós-graduação. Especialização. Mestrado. Doutorado. Pesquisa. Brasil.

 

Introdução

Em 2001, o Centro de Referência e Documentação sobre Envelhecimento (CRDE, 2002) da Universidade Aberta da Terceira Idade (UnATI, 2002) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) publicou o primeiro Catálogo de Cursos de Especialização, Mestrado e Doutorado em Geriatria, Gerontologia e Áreas Afins (Prado e Lima, 2001), elaborado em função da acentuada demanda por essas informações, trazidas por usuários de diferentes estados brasileiros.

Nesse Catálogo, para cada curso de especialização, mestrado ou doutorado, há informações que possibilitam acesso às instituições através de serviços de correio, telefone e Internet. Os dados foram colhidos no ano de 2000, diretamente das respectivas páginas institucionais na Internet; alguns dados não disponíveis por esse meio foram buscados por contato telefônico ou por correio eletrônico com a própria instituição. Foram, então, identificados 45 Programas de Pós-Graduação.

Quatro desses programas correspondiam exclusivamente a cursos de especialização, todos vinculados a projetos de extensão especificamente voltados para pessoas idosas, seu esteio maior.

Quanto à listagem dos programas de pós-graduação stricto sensu, sua construção se deu, primordialmente, a partir da Base Teses. Desenvolvida pelo CRDE, essa base é composta por informações bibliográficas referentes a dissertações e teses sobre envelhecimento concluídas no Brasil ou defendidas por brasileiros no exterior. O critério adotado para a inclusão de um programa no catálogo correspondeu à conclusão, em seu interior, de pelo menos três dissertações ou teses dentro do nosso campo de interesse.

Desses 41 programas stricto sensu, cinco eram Cursos de Mestrado, exclusivamente, firmados em áreas diversas, a saber, Nutrição, Farmácia, Serviço Social, Psicologia e Sexologia.

Todos os 36 programas restantes estavam inseridos em estruturas de pós-graduação mais complexas, com cursos de mestrado e doutorado integrados e, em muitos casos, com várias áreas de concentração. Dentre esses, em primeiro lugar, é necessário destacar a identificação de sete cursos de mestrado e/ou doutorado que – integralmente ou por meio de área de concentração – formavam profissionais em Geriatria e/ou Gerontologia; em um caso, havia curso de especialização articulado em seu bojo.

Quanto aos demais 29, correspondiam a programas stricto sensu voltados para um amplo leque de campos do conhecimento: Administração de Empresas; Antropologia; Artes; Ciências Biomédicas; Ciências Farmacêuticas; Educação; Educação Física; Enfermagem; Filosofia e Letras; Medicina; Nutrição e Ciências dos Alimentos; Odontologia; Psicologia e Psiquiatria; Saúde Pública, Saúde Coletiva e Medicina Preventiva; Serviço Social; e Sexologia. Aí eram encontrados orientadores e linhas de pesquisa que vinham atraindo aqueles interessados em desenvolver estudos sobre o envelhecimento, a velhice ou objetos afins.

Essa temática parecia constituir-se em objeto de interesse para um vasto conjunto de instituições, o que sugeria não só o crescimento da produção acadêmica nesse campo, mas, principalmente, a ampliação de enfoques e abordagens, trazendo um enriquecimento qualitativo expressivo, certamente inimaginável há poucas décadas.

Os programas de pós-graduação sobre envelhecimento no Brasil

Os dados do Catálogo publicado no ano de 2000 foram atualizados em 2001. Durante os meses de agosto a outubro de 2002, procedemos à etapa inicial de nova revisão com ampliação do conjunto de informações da base de dados intitulada Programas de Pós-Graduação sobre Envelhecimento no Brasil (2002).

Consultamos, mais uma vez, as páginas eletrônicas mantidas pelas instituições que constam de nossos registros e agregamos informações disponíveis no site da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES, 2002). Foram mantidos os programas stricto sensu sobre Geriatria ou Gerontologia e incluídos novos cursos que informam manter área de concentração claramente vinculada ao processo de envelhecimento. E também foram identificados novos cursos lato sensu que mencionam essa área de interesse como objeto de seu desenvolvimento.

Os primeiros resultados desta última atualização correspondem aos programas especificamente voltados para a formação de recursos humanos com vistas a sua atuação no campo do envelhecimento humano. Trata-se do mais abrangente levantamento realizado no Brasil.

Os cursos de especialização

Esse recente levantamento possibilitou importante ampliação do universo conhecido de cursos de especialização voltados para a temática do envelhecimento. Enquanto os dados anteriores, de 2000, davam-nos conta da existência de sete cursos lato sensu no Brasil, dispomos agora de informações acerca de 19 programas. Essa diferença pode ser compreendida por diversos caminhos.

Em primeiro lugar, é necessário considerar que, para três cursos, não mais encontramos informações: em um caso, a respectiva instituição optou por seu encerramento definitivo; nos outros dois cursos, as atividades encontram-se temporariamente paralisadas, o que é relativamente comum para cursos que implicam ônus para os alunos, ou seja, o programa somente é viabilizado quando há um número mínimo de alunos inscritos. Não havendo como sustentar financeiramente as atividades, elas ficam suspensas até uma próxima oportunidade, geralmente o ano seguinte.

Por outro lado, no último levantamento, fomos mais abrangentes, buscando informações sobre cursos em outras áreas (como Enfermagem, Educação Física, Serviço Social, por exemplo), o que na primeira investigação restringiu-se apenas à Geriatria e Gerontologia. Finalmente, é necessário considerar a abertura de novos programas de formação profissional ao nível da especialização, o que guarda coerência com o incremento registrado especificamente nas atividades voltadas para a temática do envelhecimento humano no interior da universidades, particularmente acentuado a partir dos anos 90. O Quadro 1 nos traz informações sobre as instituições que abrigam esses cursos.

Quadro 1

Cursos de especialização referentes ao envelhecimento humano
por instituição de ensino superior e unidade da federação. Brasil, 2002.

Unidade da Federação
Curso

Instituição de ensino superior

São Paulo

 

Gerontologia

Universidade Federal de São Paulo
Departamento de Medicina

Geriatria

Universidade Federal de São Paulo
Departamento de Medicina

Enfermagem Gerontológica e Geriátrica

Universidade Federal de São Paulo
Departamento de Enfermagem

Fisiologia do exercício e treinamento resistido na saúde, na doença e no envelhecimento

Universidade de São Paulo
Faculdade de Medicina

Atendimento domiciliário "home care"

Universidade de São Paulo
Escola de Enfermagem

Gerontologia

Universidade de São Francisco
Coordenadoria de Cursos de Pós-Graduação Lato Sensu e Extensão

Rio de Janeiro

 

Geriatria e Gerontologia

Universidade Veiga de Almeida

Geriatria e Gerontologia

Universidade Estácio de Sá

Psicogeriatria

Universidade Federal do Rio de Janeiro
Instituto de Psiquiatria

Gerontologia e Geriatria Interdisciplinar

Universidade Federal Fluminense
Centro de Ciências Médicas

Minas Gerais

 

Gerontologia

Fundação Mineira de Educação e Cultura
Faculdade de Ciências Humanas

Geriatria e Gerontologia

Centro Educacional São Camilo de Minas Gerais
Núcleo de Pós-Graduação

Rio Grande do Sul

 

Geriatria

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - Instituto de Geriatria e Gerontologia

Gerontologia Social

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - Faculdade de Serviço Social

Santa Catarina

 

Gerontologia

Universidade do Estado de Santa Catarina

Coordenadoria de Programas de Pós-Graduação

Gerontologia

Universidade Federal de Santa Catarina
Núcleo de Estudos da Terceira Idade

Bahia

 

Gerontologia

Universidade Federal da Bahia

Alagoas

 

Desenvolvimento humano: criança, adolescente e idoso

Universidade Federal de Alagoas
Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa

Amazonas

 

Educação Física em Gerontologia Social

Universidade Federal do Amazonas
Faculdade de Educação Física

Fonte: Programas de Pós-Graduação sobre Envelhecimento no Brasil,
CRDE UnATI UERJ.

É bem estabelecida a forte presença do parque científico-tecnológico na Região Sudeste (Guimarães et al, 2001). No que se refere a sua distribuição geográfica, os programas de pós-graduação lato sensu acompanham esse padrão, estando concentrados na Região Sudeste, que conta com 63,2% dos cursos oferecidos por instituições de ensino superior instaladas nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Segue-se a Região Sul com 21,1% dos cursos em universidades sediadas nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Os demais encontram-se na Bahia, Alagoas e Amazonas.

O setor público conduz 62,3% das iniciativas referentes à formação de recursos humanos para atuar no campo do envelhecimento humano: nove cursos são implementados em universidades federais e três em instituições de ensino superior mantidas por governos estaduais.

A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp, 2002) oferece três cursos e a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS, 2002) mantém dois cursos, o que coloca essas instituições em posição de destaque no cenário nacional no campo geronto-geriátrico. Os investimentos em ensino, pesquisa e extensão nessas universidades, com vistas à constituição de espaços especificamente voltados para as questões atinentes ao idoso, à velhice e ao processo de envelhecimento humano, vêm sendo registrados (Cachione, 1999) e nos confirmam o papel de liderança que vem sendo, por elas, construído nesse setor.

Ao buscar informações, tendo um universo mais ampliado como referência, encontramos abordagens diferenciadas. Em outras palavras, no primeiro levantamento identificamos apenas cursos cujos títulos nos remetiam à Geriatria e/ou a Gerontologia, o que se mantém predominante no presente estudo, correspondendo a 68,4% dos programas lato sensu (Gerontologia, Geriatria, Gerontologia e Geriatria, Gerontologia Social ou Gerontologia e Geriatria Multidisciplinar). Porém, surgem indicações de que há cursos mais específicos em suas proposições: é o caso daqueles focados em campos profissionais como a Enfermagem (Enfermagem Geriátrica e Gerontológica ou Atendimento Domiciliário "home care"), a Educação Física (Educação Física em Gerontologia Social) ou especialidades da Medicina (Psicogeriatria). Uma outra situação corresponde àquela em que o idoso ou o processo de envelhecimento são tratados no interior de fenômenos como a atividade física ou o desenvolvimento humano (Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido na Saúde, na Doença e no Envelhecimento ou Desenvolvimento Humano: Criança, Adolescente e Idoso). Assim, mais que oferecer cursos introdutórios abertos a profissionais de diversas formações, esSe estudo indica um caminhar em direção a novos e mais específicos olhares sobre a complexidade do envelhecer.

Mestrado Doutorado

O levantamento de 2000 mostrou-nos a existência de três categorias de programas de pós-graduação stricto sensu voltados para as questões relativas ao envelhecimento humano. A primeira correspondia àqueles que tinham o envelhecimento como objeto central de suas atividades. Um segundo grupo era formado por programas de cunho mais amplo que contavam com área de concentração especificamente voltada para o estudo do envelhecimento humano. E, finalmente, os programas que contavam com produção de dissertações e teses abordando questões ligadas à velhice, aos velhos ou ao processo de envelhecimento, porém de forma pontual, por estarem inseridas em linhas de pesquisa voltadas para outras áreas de interesse. No presente trabalho, tratamos apenas das duas primeiras categorias.

Temos, hoje, no Brasil, três programas stricto sensu especificamente voltados para as questões relativas ao envelhecimento humano e três com área de concentração nesse campo, compondo um total de oito cursos: cinco de mestrado e três para formação de doutores, conforme mostra o Quadro 2.

 

Quadro 2

Programas de pós-graduação stricto sensu em Geriatria e/ou gerontologia. Brasil, 2002.

Programa

Instituição

Nível

Gerontologia Biomédica

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Instituto de Geriatria e Gerontologia

Mestrado

Doutorado

Gerontologia

Universidade Estadual de Campinas
Faculdade de Educação

Mestrado

Gerontologia

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

Mestrado

Educação
Área de concentração:Gerontologia

Universidade Estadual de Campinas
Faculdade de Educação

Doutorado

Clínica Médica e em Ciências da Saúde
Área de concentração: Geriatria

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Faculdade de Medicina

Mestrado

Doutorado

Enfermagem
Área de concentração: Enfermagem na Atenção à Saúde do Adulto e do Idoso

Universidade Federal da Bahia
Escola de Enfermagem

Mestrado

Fonte: CAPES, 2002

 

Esses programas estão situados nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo e Bahia. A PUC-RS destaca-se no cenário nacional em suas iniciativas de formação de mestres e doutores na área do envelhecimento.

De acordo com a classificação das áreas do conhecimento adotada pela CAPES, os programas de pós-graduação em Gerontologia encontram-se situados na Grande Área denominada Outras e, em seu interior, na Área designada Multidisciplinar. Poderíamos considerar que se trata de um nível de especificidade de denominação um tanto insuficiente. Entretanto, mais proveitoso seria talvez discutir aspectos relativos à consolidação dos programas em tela, que contam com reduzida expressão numérica e certamente ainda têm pela frente um longo caminho até a possível constituição da Gerontologia/Geriatria como uma das áreas básicas na taxonomia do conhecimento científico utilizada no Brasil. Quanto ao demais programas, encontram-se situados, principalmente, na Grande Área das Ciências da Saúde e, em seu interior, nas Áreas de Medicina e Enfermagem e na Grande Área das Ciências Humanas, na Área de Educação.

O Programa de Pós-Graduação em Gerontologia Biomédica do Instituto de Geriatria e Gerontologia (IGG, 2002) da PUC-RS teve início em 2000 oferecendo vagas em turmas de mestrado e doutorado. Os professores-orientadores empreendem as seguintes linhas de pesquisa: (a) investigação do fenômeno biológico do envelhecimento; (b) prevenção, manejo e mecanismos relacionados às doenças associadas ao envelhecimento; (c) investigação sócio-demográfica e epidemiológica do envelhecimento; (d) promoção de longevidade com qualidade de vida. Consta do site do IGG (2002a) que esse programa obteve conceito 4 por parte da CAPES em sua última avaliação.

São intensos os vínculos estabelecidos entre o IGG e a Faculdade de Medicina da PUC-RS. O Curso de Mestrado em Clínica Médica iniciou-se em 1994 e o Doutorado em 2000. Em outubro do mesmo ano, passou a denominar-se Programa de Pós-Graduação em Clínica Médica e em Ciências da Saúde, com os dois níveis – mestrado e doutorado – admitindo médicos e outros profissionais da saúde. Tem conceito 4 na avaliação da CAPES (Faculdade, 2002). São suas áreas de concentração Clínica Médica, Geriatria, Nefrologia e Neurociências. Em Geriatria são informadas as disciplinas oferecidas, cujo núcleo central corresponde à Biologia Geriátrica, Geriatria Clínica, Envelhecimento Ósteo-muscular, Geriatria e Saúde Mental, Geriatria Preventiva, Epidemiologia das Doenças Geriátricas e Gerontologia Social. As linhas de pesquisa implementadas nessa área de concentração guardam grande proximidade com aquelas presentes no IGG. O corpo docente nos dois programas é praticamente coincidente e sua formação situa-se predominantemente nos campos da Medicina e da Biologia.

O Programa de Pós-Graduação em Gerontologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, 2002) teve suas atividades iniciadas no ano de 1997 oferecendo cursos de mestrado e doutorado. Estabelecido junto à Faculdade de Educação, esse programa passou recentemente por mudanças estruturais, e o curso de doutorado veio a constituir-se em uma das áreas de concentração do Curso de Doutorado em Educação na mesma unidade acadêmica (UNICAMP, 2002 a). O Curso de Mestrado do Programa de Gerontologia obteve conceito 3 na avaliação da CAPES e o Curso de Doutorado em Educação tem conceito 5. Situados na Grande Área das Ciências Humanas estes cursos contam com corpo docente formado, principalmente, em Educação, Antropologia, Ciências Sociais, Psicologia e professores colaboradores da área da saúde.

O Curso de Mestrado oferecido pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP, 2002) foi implementado em 1997. A partir de pesquisa acerca de sistemas de apoio ao idoso na cidade de São Paulo, realizada pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social e concluída em 1986, foi criado o Núcleo de Pesquisa do Envelhecimento (NEPE). Esse Núcleo deu origem ao atual Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia, que conta com conceito 3 na avaliação da CAPES (PUC-SP, 2002). Suas linhas de pesquisa encontram-se articuladas por um eixo que relaciona estado, família e comunidade e estão assim apresentadas: (a) as condições de vida dos idosos e as instituições asilares da cidade de São Paulo; (b) as políticas referentes ao segmento idoso. Como um curso situado na Grande Área das Ciências Humanas, seu corpo docente é marcadamente formado por doutores em Filosofia, Ciências Sociais, Antropologia, Ciência Política, Serviço Social e, em menor grau, professores da área da saúde.

Finalmente, o Curso de Mestrado em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia (Programa, 2002), que iniciou em 1979 e conta com as seguintes áreas de concentração: Administração de serviços de enfermagem; Enfermagem na atenção à saúde da criança e do adolescente; Enfermagem na atenção à saúde da mulher; Enfermagem na atenção à saúde do adulto e do idoso. A linha de pesquisa relativa ao idoso recebe a mesma denominação da respectiva área de concentração. Curso situado na Grande Área das Ciências da Saúde registra em seu site conceito 3 na CAPES.

Considerações finais

O envelhecer humano, como fenômeno multifacético, vem sendo abordado por meio de diversas áreas do conhecimento. Nesse amplo leque de aproximações, as ciências da vida e as humanidades vêm se constituindo em caminhos privilegiados para a geração desse conhecimento. No Brasil, o interesse acadêmico por essa temática é algo novo e crescente, o que se deve não apenas às mudanças demográficas, marcadamente o envelhecimento populacional mundial e nacional (Kalache, et al., 1987), mas também a fenômenos de grande repercussão social, como distinção da velhice como uma etapa particular da vida, a instituição das aposentadorias, o estabelecimento das instituições asilares, os interesses políticos e comerciais (Neri e Debert, 1999, Groisman, 1999 e 2002). Um cenário que nos conduziria a pensar no correspondente crescimento de recursos humanos voltados para atender às demandas colocadas por esse novo fenômeno social.

Entretanto, dados mencionados por Veras (2002) relativos à formação de médicos geriatras nos dão conta de imensa insuficiência quantitativa de recursos humanos especializados na atenção a idosos: a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia informa a existência de algumas poucas centenas de médicos geriatras para uma população estimada em mais de 15 milhões de idosos em 2002 (FIBGE, 1991 e 2002); dos mais de cem cursos de graduação em Medicina, não chega a uma dezena os que contam com disciplina voltada para temas geriátricos e gerontológicos em sua estrutura curricular.

Como pudemos constatar neste estudo, os programas brasileiros de pós-graduação voltados para a temática do envelhecimento passaram a ser criados, principalmente ao final da década de 1990. O número de programas de especialização, mestrado e doutorado, ainda que crescente, é pequeno. A formação efetiva de mestres e doutores começou a acontecer "quase ontem". Em que pese o fato de alguns cursos estarem em boa posição na avaliação dos organismos governamentais voltados para a formação de recursos humanos em nível de pós-graduação, a maioria ainda tem bastante que investir para galgar essa condição.

Evidencia-se, portanto, a necessidade premente de formulação e implementação de políticas voltadas para a formação de recursos humanos no âmbito do envelhecimento humano. Esse movimento poderia acontecer, em curto prazo, através de investimentos no fortalecimento dos programas já existentes e na constituição de novas áreas de concentração em programas bem consolidados; em médio prazo, na criação de novos cursos de mestrado e doutorado. Daí seria possível contar com quadros docentes para a formação no plano dos cursos de graduação, não só em Medicina, mas nas várias disciplinas afins ao processo de envelhecimento humano.

No espaço da pós-graduação stricto sensu, inversões financeiras na constituição de cursos implicam diretamente o apoio à pesquisa e publicações científicas no campo em questão. Em estudo que realizamos recentemente acerca da produção científica nacional sobre envelhecimento (Prado, 2002), procuramos identificar as instituições que aparecem com maior freqüência como geradoras dos trabalhos presentes na Base SciELO. E aqui é necessária uma ressalva importante. É tradição de algumas áreas do conhecimento, como as das ciências biológicas e da saúde, a divulgação dos trabalhos produzidos por meio de artigos publicados em revistas; já as ciências humanas e as sociais aplicadas publicam mais livros (Guimarães et al., 2001 e Coimbra, 1999); como a Base SciELO divulga periódicos – vale dizer, por meio de critérios bastante rigorosos – os achados mencionados a seguir nos dão conta apenas de setores que se manifestam através desse padrão de disseminação de informações científicas.

Foi, portanto, possível identificar núcleos com qualificada geração de conhecimento, especialmente na área da saúde, apontados a seguir. Cabe destacar que nos artigos aí produzidos há menção freqüente a trabalhos derivados de dissertações e teses ou gerados no interior ou em articulação com programas de pós-graduação.

Em São Paulo, dois focos institucionais se destacam: o primeiro articulando o Hospital das Clínicas / Faculdade de Medicina, incluindo o Projeto Terceira Idade (PROTER) e a Faculdade de Saúde (USP); o segundo envolvendo a Escola Paulista de Medicina e o Centro de Estudos do Envelhecimento da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Pesquisadores e profissionais de saúde de diversas áreas aparecem em artigos desenvolvidos em uma ou mais dessas instituições. Participam, com menor freqüência, outras faculdades de Medicina do interior e organismos governamentais, além de instituições hospitalares particulares. Há em São Paulo presença de articulações internacionais nesse campo.

No Rio de Janeiro, contam com produção destacada a Escola Nacional de Saúde Pública (FIOCRUZ), o Centro de Doença de Alzheimer (IPUB-UFRJ), o Instituto de Medicina Social (IMS) e a Universidade Aberta da Terceira Idade (UnATI), os dois últimos da UERJ. Intercâmbios entre pesquisadores e profissionais dessas instituições e também de organismos governamentais estão presentes.

No Rio Grande do Sul, o Instituto de Geriatria e Gerontologia e a Faculdade de Medicina da PUC-RS formam um outro importante pólo gerador de conhecimento. E, em Minas Gerais, o Núcleo de Estudos sobre Epidemiologia e Antropologia do Envelhecimento do Centro de Pesquisas René Rachou (FIOCRUZ) mais a Faculdade de Medicina da UFMG correspondem à outra referência nessa temática.

Até que ponto essas articulações são fruto de iniciativas individuais ou formalmente institucionalizadas, não temos agora como saber. Suspeitamos que a primeira possibilidade seja a mais provável, talvez pela "juventude" dessa produção científica.

Consideramos razoável pensar que do conjunto desses novos programas de pós-graduação e de grupos de pesquisadores das área da saúde, das ciências biológicas e das humanidades é que poderá constituir um corpo de conhecimento que venha a responder algumas importantes demandas colocadas pelo grande fenômeno social que é o envelhecimento da população brasileira. Isso, como manifestação nacional, na esteira também das próprias iniciativas internacionais de constituição de uma área de conhecimento de domínio próprio: a Geriatria/Gerontologia (Groisman, 1999 e 2002).

A constituição de uma área do conhecimento é questão complexa. A formação de um parque científico sólido dotado de força política suficiente para atrair recursos que garantam sua continuidade corresponde a empreitada de grande monta. Assim, o fato de estarem cursos de Gerontologia inseridos numa Grande Área denominada Outros e numa Área intitulada Multidisciplinar (CAPES, 2002) é indicativo do longo percurso a ser trilhado dentro da perspectiva de consolidação desse campo; acrescentemos a co-existência de inserções de programas nas áreas da saúde e humanas e se, por um lado, encontramos a bem-vinda ampliação de olhares para o processo do envelhecer, por outros, é necessário considerar a dispersão de forças no momentos de negociações com vistas a incrementos para esses cursos e grupos de pesquisa.

Tal a situação, o que visualizamos hoje no Brasil é: demandas intensivamente crescentes de recursos humanos e de produção de conhecimento, um reduzido e promissor parque científico e a necessidade urgente de formulação e implementação de políticas para voltadas a graduação, para a pós-graduação e para a pesquisa no campo do envelhecimento.

Notas

1Nutricionista, Mestre em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP-FIOCRUZ), Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS-UERJ), Professora Assistente do Instituto de Nutrição da mesma universidade (INU-UERJ), Gerente de Pesquisa e Coordenadora do Centro de Referência e Documentação sobre Envelhecimento da Universidade Aberta da Terceira Idade (UnATI-UERJ).

2Médica, Professora Adjunta do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS-UERJ) e Orientadora.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO (UNIFESP). Disponível em: <http://www.unifesp.br>. Acesso em: 28 ago. 2002.

 

ABSTRACT

We describe Brazilian graduation programs in geriatrics and gerontology. Data was collected at the Reference and Documentation Center on Aging, at the Open University for Studies on the Elderly, a program of Rio de Janeiro State University, on homepages of Brazilian universities and of CAPES. From each program, data on knowledge area, concentration area, research lines, teaching staff, year of creation and evaluation was collected. We identified 19 specialization courses: 68.4% on geriatrics and gerontology, and the other ones concerned more specific themes, such as homecare, physical activities, and mental health. There are three graduation courses in gerontology and also three in medicine, education and nursery, whose concentration areas are geriatrics, gerontology and attention to the elderly, respectively. These are very recent courses, in the fields of health and humanities and, although some ranked high in CAPES’s evaluations, the majority is still far from being high-ranked as well.
Keyword:
Aging. Elderly. Graduation programs. Specialization.
Mater’s Degree. Ph.D. Research. Brazil

 

 

Recebido para publicação em: 05/08/2003
Aprovado em: 29/09/2003
Correspondência para:
Shirley Donizete Prado
E-mail: pradosd@uerj.br