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Textos sobre Envelhecimento

versão impressa ISSN 1517-5928

Textos Envelhecimento v.7 n.2 Rio de Janeiro  2004

 

Avaliação global de idosos em unidades de PSF

Elderlies’ global evaluation in units of the Family Health Program

 

Rosane Oliveira Pacheco ¹

Silvana Sidney Costa Santos ²

 

Resumo

O objetivo deste estudo foi identificar as condições cognitivas, afetivas e funcionais de idosos cadastrados nas Unidades de Saúde de Família de três municípios de Pernambuco. Trata-se de um estudo exploratório e descritivo, realizado em três Unidades de Saúde da Família dos municípios de Alagoinha, Bonito e Ipojuca. Como instrumento utilizou-se um formulário de avaliação de idosos, contendo: caracterização do idoso, avaliação cognitiva, avaliação afetiva, avaliação funcional e impressão do entrevistador, aplicado por meio da entrevista estruturada, seguida de observação. Como resultado constatou-se predominância de mulheres idosas, mais analfabetas que letradas, idade entre 60 e 69 anos, mais casadas e com a maior renda familiar do casal de idosos. Os idosos procuraram a Unidade de Saúde da Família (USF) com uma ou duas queixas, mas no interrogatório sintomatológico foram identificados até quatorze queixas. Dos 30 idosos investigados, um apresentou resultado sugestivo de distúrbio cognitivo; oito apresentaram escore indicativo de distúrbio afetivo, e quatro de distúrbios funcionais. Percebeu-se a necessidade de implantação e implementação de atendimento sistemático ao idoso, organizando-se formulário de avaliação global, considerando a sua viabilização nas ações do Programa de Saúde da Família, entre outras ações.

Palavras-chave: Programa Saúde da Família; Avaliação Geriátrica; Meia Idade; Idoso; Alagoinha (PE), Bonito (PE); Ipojuca (PE).

 

Introdução

O envelhecimento é hoje um fenômeno universal, tanto nos países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento. No Brasil, impressiona a rapidez com que tem ocorrido, visto que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), até o ano de 2025, a população idosa no Brasil crescerá 16 vezes, contra cinco vezes da população total. Isso classifica o país como a sexta população do mundo em idosos, correspondendo a mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais de idade (Esteves, 1998). Sendo assim, percebemos que não há mais sentido falar que o Brasil é um país de jovens.

Em 1900, a expectativa de vida no Brasil não ultrapassava os 33,7 anos; em 1940 alcançou 39 anos; em 1950 chegou a 43,2 anos; em 1960 já era 55,9 anos; entre as décadas de 60 e 80 alcançou os 63,4 anos. Atualmente, está em 68 anos e em 2025 será de 80 anos. Hoje, os idosos são cerca de 14 milhões de brasileiros, o que significa mais de 9% de uma população de mais de 170 milhões de habitantes (Câmara dos Deputados, 2001).

A mudança na composição populacional já começou a provocar conseqüências sociais, culturais e epidemiológicas preocupantes hoje, e talvez alarmantes no futuro. Consideramos que a conseqüência epidemiológica de maior expressão é a transição epidemiológica, fenômeno responsável pela mudança do perfil de doença, no qual as doenças infecto-parasitárias cedem lugar progressivamente às doenças crônicas não-transmissíveis, mais complexas e onerosas, típicas das faixas etárias mais avançadas.

Os idosos, por apresentarem características bastante peculiares das demais faixas etárias, requerem uma avaliação de saúde mais cuidadosa, a fim de identificar problemas subjacentes à queixa principal. Portanto, faz-se necessário priorizar, no seu atendimento, a avaliação multidimensional, geriátrica abrangente ou avaliação global.

Menezes (1994) sugere que, de uma forma simplista, a avaliação multidimensional significaria coletar dados capazes de medir conseqüências, deixando para um plano posterior a investigação das causas dos distúrbios na qualidade de vida do idoso "examinado". Portanto, a observação de uma capacidade funcional temporária, ou permanente, que por si só implica interferência sobre a autonomia e independência, mereceria condutas que tentassem reverter o processo para um estado de capacitação plena ou adaptada.

Rubenstein (1995) ressalta que a avaliação multidimensional visa a desenvolver um plano abrangente para a terapia e acompanhamento em longo prazo, e constitui um diagnóstico multidisciplinar, designado para quantificar os problemas e capacidades funcionais e psicossociais de um idoso. A avaliação multidimensional é essencial no cuidado ao idoso, porque: oferece uma abordagem sistemática para avaliar déficits do idoso que geralmente passam despercebidos; ajuda o profissional a identificar problemas e utilizar recursos adequados (tipo de tratamento); proporciona um meio para avaliar o progresso e a deterioração com o processo de envelhecimento; auxilia o profissional na avaliação da capacidade do idoso de viver sozinho e em segurança.

Na percepção de Maciel (2002), a avaliação global tem por objetivo desenvolver um plano adequado de tratamento e acompanhamento em longo prazo, mostrando, assim, que a avaliação multidimensional do idoso compreende uma forma de se avaliar seu nível de saúde ou de qualidade de vida, sendo instrumento de fundamental importância para os trabalhadores de saúde que atendem aos idosos.

No entendimento de Mota (1998), a falta de uma avaliação geriátrica correta está diretamente ligada ao retorno da internação e ao maior uso dos serviços de saúde. Isto pode ser observado na prática, quando nos deparamos com um idoso que já passou por diversos serviços de saúde e, como ele mesmo refere, "ninguém ainda conseguiu resolver o meu problema" – o que se deve ao fato de só se tratar a queixa principal, desmerecendo-se o idoso como um todo.

Costa et al. (2000), em trabalho publicado no informe epidemiológico do Sistema Único de Saúde (SUS), verificaram que os gastos proporcionais do SUS com as internações hospitalares de idosos foram superiores a 17% em todas as regiões brasileiras, exceto na Região Norte. Nas regiões Sudeste e Sul, os gastos com idosos foram superiores a 25%. Para esses autores, o envelhecimento tem sido associado a uma prevalência aumentada de doenças crônicas, incapacidade e morte. No entanto, pesquisas recentes indicam que doenças e limitações não são conseqüências inevitáveis do envelhecimento e que o uso dos serviços preventivos, eliminação de fatores de riscos e adoção de hábitos saudáveis são importantes determinantes do envelhecimento saudável.

Entendemos que a porta de entrada ao serviço de saúde, a que melhor contribuição dá à manutenção de hábitos saudáveis e melhor qualidade de vida ao ser humano, seja o Programa de Saúde da Família (PSF). Este é um serviço de atenção básica que trabalha buscando a promoção da saúde e prevenção da doença, para o ser humano, seja ele criança, adolescente, adulto ou idoso.

A partir de Araújo (2003), verificamos que o Programa de Saúde da Família teve inicio no Ceará em janeiro de 1994, no município de Quixadá. Seu objetivo principal era melhorar os indicadores de mortalidade infantil e materna, que eram elevados no Brasil e maiores ainda na Região Norte-Nordeste do país. O sistema de trabalho focalizava as ações básicas de saúde: acompanhamento pré-natal, imunização, planejamento familiar, prevenção do câncer de colo uterino, hipertensão e diabetes, além de outros.

O trabalho com a saúde do idoso, dentro do PSF de Fortaleza, já é desenvolvido em algumas unidades de saúde, por iniciativa das próprias equipes que, observando o crescimento dessa camada da população, definiram várias estratégias de trabalho, como os grupos de caminhadas semanais e grupos de auto-ajuda, além de visitas domiciliares, consultas médicas e de enfermagem aos hipertensos e diabéticos, preconizadas pelo Programa.

Concordamos com Araújo (2003), que defende que o trabalho com grupo de idosos é viável e importante, pois os profissionais de saúde da família têm acesso a todas as famílias adstritas à área de abrangência. Acreditamos que, se os profissionais de saúde que trabalham nas Unidades de Saúde da Família adotassem uma rotina bem estabelecida de atendimento ao idoso, abordando-os corretamente – não tratando apenas seus sintomas isoladamente, mas considerando suas características peculiares, vendo o idoso como um todo, através de uma avaliação global – conseguiríamos, concordando com a opinião de Palmer apud Mota (1999), que essas ações reduzissem muito dos índices de internação apresentados pelo SUS, que muitas vezes resultam em perda da independência e aquisição de novas incapacidades.

Programas de prevenção de doenças e de promoção à saúde do idoso, bem como a garantia de um atendimento adequado, não são ações para o futuro, mas necessidades para hoje. Ressaltamos que a Organização Mundial da Saúde (OMS, 1989 apud Mota, 1999, p. 50) "recomenda o desenvolvimento de estudos e pesquisas que subsidiem a tomada de decisão e dirijam as ações e prioridades ao nível de políticas públicas relativas ao idoso".

Diante do que preconiza a OMS e do fato de o SUS ser descentralizado – suas ações de saúde são de responsabilidade dos municípios –, e considerando que a Política de Nacional de Saúde do Idoso deva ser de responsabilidade também do município, surgiu como interesse deste grupo a necessidade de identificar as condições cognitivas, afetivas e funcionais de idosos cadastrados em Unidade de Saúde da Família dos municípios de Alagoinha, Bonitos e Ipojuca – este, objetivo do presente estudo.

Caminho metodológico

Trata-se de estudo do tipo exploratório e descritivo, cuja população foi constituída pelo somatório do número de idosos cadastrados nas unidades de Saúde da Família (USF) dos municípios de Alagoinha (339 idosos), Bonito (393 idosos) e Ipojuca (664 idosos), totalizando 1.396 idosos – todos municípios situados no estado de Pernambuco, Brasil. A amostra foi constituída de 30 idosos, selecionados a partir da demanda espontânea dos dez primeiros idosos que compareceram à Unidade de Saúde da Família (USF), para consulta no período de maio a julho de 2003 e que aceitaram participar da pesquisa.

O instrumento para coleta de dados foi um formulário com questões objetivas e subjetivas, com teste e escalas de avaliação, que apresentam certo grau de validação e confiabilidade, já validados e utilizados amplamente nas avaliações geronto-geriátricas. O instrumento foi constituído de cinco partes, assim apresentadas:

1ª Caracterização do idoso – elementos de identificação, questões sociais e história clínica.

2ª Avaliação cognitiva – Mini-exame do Estado Mental de Folstein, utilizado para avaliar idosos, podendo ser aplicado por qualquer pessoa treinada. Objetiva filtrar prejuízos cognitivos e medir a severidade das demências (GREEN, 2001). O teste avalia orientação temporal, orientação espacial, atenção (registro), capacidade para realização de cálculos simples, memória recente e linguagem. O escore vai de 0 a 30. Na opinião de Machado (2003), esse teste tem, em média, uma sensibilidade de 83% e uma especificidade de 82% para a detecção de demências. Para os idosos com mais de oito anos de escolaridade, considera-se (Vieira; Koenig, 2002): (a) escore de 30 a 26 – função cognitiva preservada; (b) escore de 26 a 24 – alteração não sugestiva de déficit; (c) escore de 23 pontos ou menos – sugestivo de déficit cognitivo (não é critério de diagnóstico para demência). Para idosos com baixa escolaridade, utilizam-se os seguintes pontos de corte (Bertolucci, 1994 apud Maciel): (a) analfabeto – 13; (b) baixa escolaridade (1 a 4 anos) – 13; (c) média escolaridade (4 a 8 anos) – 18; (d) alta escolaridade (acima de 8 anos) – 26. Priorizamos, em nosso estudo, o ponto de corte de Bertolucci, por termos tido maior número de pesquisados analfabetos e/ou de baixa escolaridade.

3ª Avaliação afetiva – Escala Geriátrica de Depressão de Yesavage, versão ampliada, com 30 itens com questões fechadas em "sim ou não". Pontuação total é 30. Pontuações maiores ou iguais a 11 são indicativas de transtorno afetivo (Reichel, 2001).

4ª Avaliação funcional – Escala de Atividade Física e Instrumental de Vida Diária, que pode ser utilizada em idosos que vivem na comunidade e em instituição (Bowling, 1994), e ainda que freqüentam grupos de convivência, procuram ambulatórios e postos de saúde, por si só (Cardoso; Gonçalves, 1996). É de fácil uso e se destina a medir a autonomia nas atividades de vida diária (AVD) no aspecto físico e instrumental. Sua aplicação pode ser feita tanto quantitativa quanto qualitativamente, e poderá detectar ou prever instalações de deficiência que favoreçam a intervenção preventiva ou retardamento das incapacidades (Cardoso; Gonçalves, 1996).

5ª Impressão do entrevistador – informações e/ou observações que o entrevistador julgar necessárias durante e/ou após a entrevista.

Para elaboração desse instrumento, seguimos os modelos do Instrumento de Avaliação Geronto-geriátrica do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC, 1999) e da Avaliação Multidimensional do Idoso (Santos, et al., 2003), instrumento utilizado nas atividades da disciplina Enfermagem e Saúde do Idoso, da FENSG, UPE. Nosso instrumento foi aplicado por meio da entrevista estruturada e da observação.

Antes de aplicar o instrumento proposto, foi entregue ao entrevistado o Termo de Consentimento e Livre Esclarecimento, que considera os aspectos éticos presentes na Resolução n.º 196/96 (Brasil, 1996), que normatiza a pesquisa em seres humanos.

Apresentação e discussão dos resultados

Quanto ao sexo, verificamos que mais mulheres foram identificadas no estudo (17 mulheres e 13 homens), o que comprova o fenômeno de feminização do processo do envelhecimento. Conforme nos aponta Berquó (1999), a feminização vem ocorrendo desde o final da década de 80, mas há muito tempo tem sido superior, no país, o número absoluto de mulheres idosas, quando comparado ao de homens idosos. Percebemos a importância de conhecer a distribuição dos idosos por sexo para se implantar e implementar as políticas públicas – em especial, as da saúde.

Em relação à faixa etária predominante dos idosos pesquisados, encontramos as de 60-69 anos (18 idosos); porém se espera que a população idosa se torne, a cada dia, mais envelhecida. Com o aumento da idade, os idosos necessitarão de cuidados mais específicos, sendo necessária a capacitação dos profissionais de saúde no seu cuidado e a adequação dos serviços de saúde para atender satisfatoriamente a esse contingente populacional.

Na situação conjugal, os idosos casados foram predominantes (18 idosos). Percebemos que mulheres ficam solteiras e permanecem viúvas mais do que homens e, em relação a isto, Veras (1994) afirma que é incomum o casamento nos maiores de 60 anos, porém os homens têm mais possibilidade de realizá-los do que as mulheres. A situação de viuvez mais acentuada nas idosas do que nos idosos é justificada porque as mulheres vivem mais do que os homens, o que foi explicado também por Veras (1994), pelos seguintes motivos: as mulheres se expõem menos a riscos ocupacionais, homicídios e suicídios; consomem menos álcool e fumo; procuram mais sistematicamente os serviços de saúde.

Quanto à renda do idoso, verificamos que a renda do casal, representada pelas aposentadorias, foi a mais informada: dos 30 idosos pesquisados, 26 prestam algum tipo de ajuda aos seus familiares, sendo que em 18 deles a ajuda é financeira. Não podemos deixar de tornar relevante a importância das aposentadorias na vida dos idosos, mesmo considerando que são muito baixos os valores das aposentadorias e pensões dos idosos brasileiros – estas muitas vezes constituem não só sua principal fonte de renda, mas a única fonte de renda de toda a família sob a responsabilidade do idoso. Chaimowicz (1998, p. 65) afirma que "em 1998, quase 90% dos idosos aposentados no Brasil recebiam contribuições de até 2,5 salários mínimos".

Em relação à escolaridade dos idosos pesquisados, verificamos que foram predominantes, entre eles, as condições de não saber ler nem escrever e de relativamente pouco tempo de escolarização (17 idosos). Fatos já esperados, considerando-se que décadas atrás as dificuldades de acesso à educação eram bem maiores que hoje, sobretudo para as mulheres. Como os idosos tendem a ter pouca escolaridade, muitas vezes buscam melhores condições de sobrevivência para compensar a baixa aposentadoria, e acabam frustrados e expostos a dificuldades diversas. Chaimowicz (1998, p. 64) afirma que "à medida que coortes mais jovens forem evoluindo através da pirâmide etária, a proporção de alfabetizados idosos deverá crescer". Porém, muitas iniciativas públicas e ações não-governamentais se voltam para a alfabetização dos maiores de 60 anos.

Quanto ao escore e classificação dos idosos originados da aplicação do Mini Mental Test (MNT), dos 30 idosos investigados, um se apresentou como sugestivo de déficit cognitivo. Dos 30 pesquisados, 20 apresentaram esquecimento e 8 desorientação no interrogatório sintomatológico, sintomas que direcionam a problemas de ordem cognitiva. Algo que impressionou o grupo foi a facilidade dos idosos pesquisados para cálculos.

Em relação à companhia de moradia, pudemos constatar que, no grupo investigado, são poucos os idosos que moram sozinhos e que 16 dos investigados mantêm filhos, filhas, noras, genros e netos em suas residências; dos 30 idosos entrevistados, 26 são proprietários de suas residências. A manutenção, pelos idosos, de filhos casados em suas casas, parece ter correlação com a situação de desemprego que atinge as pessoas adultas do país – momento em que esses adultos recorrem aos pais, cujas aposentadorias garantem sua sobrevivência e a de sua família.

Quanto ao número de filhos, percebemos o grande número de prole dos idosos investigados. Fato esperado, considerando-se que a taxa de fecundidade era bem alta décadas atrás. Chaimowicz (1998) afirma que "a taxa de fecundidade caiu mais de 50% entre 1970 e 1991 (de 5,8 para 2,7 filhos por mulher)".

Perguntando-se com quem o idoso conta em caso de doença, foram predominantes as respostas relacionadas aos filhos e esposos (18 idosos). Em estudo realizado em Recife, estado de Pernambuco, com 50 idosos internados em serviços do SUS, Santos (1997) comprovou que os idosos, quando doentes, contavam mais com os vizinhos do que com os familiares. Talvez se possa inferir que os idosos de cidades menores contem mais com os filhos de que os idosos das grandes cidades, porque, para os últimos, apesar de os filhos morarem na mesma cidade, muitas vezes enfrentam dificuldades de acesso: distância, falta de dinheiro para passagens e outras, fato que não ocorre com os idosos residentes em cidade menores.

Quanto à participação dos idosos pesquisados em atividades diversas, incluindo grupos, associações gerais e específicas (grupos de terceira idade) e outros, comprovamos, nos 30 investigados, que seis não realizam nenhum tipo de atividade. Dos 24 idosos que referiram atividades regulares, citam-se as participações em grupos religiosos, grupos de terceira idade, realização de caminhadas e ginásticas. As atividades sistemáticas, que incluem reuniões sociais, reuniões de grupos afins e a realização de atividades físicas são muito importantes na vida das pessoas, sobretudo dos idosos. As atividades lhes trazem vários benefícios, entre os quais: socialização, envelhecimento mais saudável, melhoria da auto-estima, estímulo à criatividade, combate à insônia e tantos outros.

As caminhadas são as atividades físicas que melhor se adaptam aos idosos. As orientações de Mazo, Lopes e Benedetti (2001, p. 157), são as seguintes:

"Caminhadas são atividades físicas [do tipo] aeróbica, que deve ser praticada regularmente, três a cinco vezes por semana, com duração de 30 minutos ou mais, conforme a condição física inicial [...]. Para se atingir ganhos com a caminhada, deve-se caminhar sempre, mas não em excesso. [...] a caminhada deve ser recomendada como parte dos programas de atividade física por ser um movimento natural, de fácil realização e de ótimos resultados na prevenção das doenças crônico-degenerativas e para um envelhecimento com autonomia e capacidade funcional".

Quanto às atividades de lazer, os idosos do estudo consideraram que assistir à TV e ouvir música em casa não são atividades de lazer. Para eles, a noção de lazer está relacionada a atividades que requerem dispêndio de dinheiro para sua realização e não, em ser uma atividade prazerosa, que muitas vezes não exige o gasto financeiro. Mazo, Lopes e Benedetti (2001) chamam a atenção dos órgãos governamentais para o estabelecimento de áreas físicas e atividades de lazer direcionadas aos idosos, em cumprimento à Política Nacional do Idoso. Também consideramos relevantes as questões de acessibilidade: presença de rampas, corrimões, piso antiderrapante e outras, nessas áreas físicas.

Perguntando-se aos idosos como eles comparavam seu estado de saúde, com outros idosos, percebemos que, dos 30 pesquisados, 20 disseram que seu estado de saúde era melhor do que de outros idosos. Considerando o número alto de idosos que realizam atividades físicas sistemáticas, inferimos que haja relação entre tais atividades e a condição melhor de saúde do idoso que a pratica.

Relacionamos a presença da tristeza, com o escore e a classificação do distúrbio afetivo do tipo depressão porque entendemos que esse sintoma é um scream para depressão no idoso. Quanto aos idosos pesquisados, verificamos que no grupo de idosos de Alagoinha (sete para dez idosos) houve maior número que referiu a tristeza; destes, três apresentaram escores maiores ou iguais a onze pontos na Escala Geriátrica de Depressão de Yesavege, pontuação sugestiva de distúrbio afetivo do tipo depressivo.

A depressão é uma doença séria e de alta incidência na população idosa; muitas vezes não é diagnosticada com antecedência porque os profissionais de saúde podem associar seus principais sinais sintomas – movimentos lentos, constipação, insônia, anorexia, isolamento – ao processo fisiológico de envelhecimento, adiando o diagnóstico preciso e agravando o caso da depressão.

Verificamos que o motivo de os idosos procurarem a unidade de saúde da família centrava-se em uma ou três queixas de saúde. Ao se investigarem sinais e sintomas diversos que podem acometer as pessoas que se encontram na fase de velhice, constatamos que os idosos têm, no mínimo, mais duas outras queixas e no máximo mais 14 outras queixas. Esse é um fato de grande relevância na avaliação global do idoso, considerando que, à medida em que se envelhece, as doenças crônicas não-transmissíveis tendem a surgir, trazendo maior tendência a polipatologias e polifarmacia. No entanto, dos 30 investigados, apenas dois fazem uso de mais de quatro medicamentos de uso constante e diário.

Pesquisas demonstram que as principais doenças que acometerão os idosos, além das mais conhecidas doenças crônicas não-tranmissíveis (hipertensão, diabetes e neoplasias), serão: demência – principalmente do tipo Doença de Alzheimer; depressão e osteoporose – as quais requerem cuidados especializados. Vê-se que os efeitos desse processo de envelhecimento acelerado serão muitos, uma vez que o Brasil não se encontra preparado para atender às necessidades biopsicossociais desses idosos (SILVESTRE et al.,1998).

Mota (1998) faz referência a um trabalho realizado no Rio Grande do Sul, e neste estudo verificou-se que a incontinência urinária não foi registrada em 78,2% dos prontuários; a instabilidade postural presente em 18,8% dos idosos não foi diagnosticada; a imobilidade, apesar de identificada em 31,8% dos casos, recebeu tratamento adequado só em metade dos idosos; a demência, presente em 51% dos idosos, não foi diagnosticada, e a depressão maior teve uma prevalência de 10,1%, sendo avaliada em somente um caso, sem ser instituído tratamento adequado. Este estudo concluiu que, apesar de o gasto no setor de saúde no atendimento aos idosos ser grande, ele ainda não representa benefícios reais para essa faixa etária.

Quanto à ingesta hídrica, comprovamos que 22 idosos têm ingesta hídrica inadequada, representada por menos de um litro de líquido diário. Sono e repouso foram considerados insatisfatórios em onze idosos, que referiram sono interrompido, acordam na madrugada e não conseguem mais conciliar o sono e demoram a adormecer; e seis idosos conciliam o sono às custas de ansiolíticos. Quanto aos sinais vitais, encontramos alterações na pressão arterial de apenas treze idosos. Consideramos pressão arterial alterada os valores ³ a 140 X 90 mm/Hg, conforme Manual de Hipertensão do Ministério da Saúde (BRASIL, 2001), que considera esses valores como sendo o primeiro estágio de hipertensão arterial (hipertensão leve).

Comprovamos que cinco, dos trinta idosos investigados, referiram necessitar de ajuda para as atividades de vida diária (AVD). Após a aplicação da Escala de Atividade Física e Instrumental de Vida Diária, quatro idosos apresentaram dependência quanto às atividades instrumentais, que são as de maior complexidade, como: uso de telefone, uso de transportes para locais distantes e outros. O processo de envelhecimento traz consigo limitações que muitas vezes fragilizam a capacidade funcional dos idosos – como tontura, instabilidade, diminuição da acuidade auditivo e visual, entre outros – e os leva à dependência, geralmente significando necessidade de cuidados permanentes. Portanto, torna-se importante considerar o nível de funcionalidade desses idosos e estimulá-los a manterem, o máximo de independência possível que eles consigam alcançar, dentro de suas limitações. Vale ressaltar que pesquisas têm demonstrado que o quantitativo de pessoas idosas dependentes das atividades de vida diária (AVD) dobrará na segunda e terceira década deste século (Paschoal, 1996).

Concordamos e deixamos em evidência o que é estabelecido pela Política Nacional de Saúde do Idoso (Brasil, 1999), apresentada pela Portaria nº 1.395, de 10 de dezembro de 1999. Essa política tem como principal propósito a promoção da saúde, a manutenção e a melhoria, ao máximo, da capacidade funcional dos idosos, a prevenção de doenças, a recuperação da saúde dos que adoecem e a reabilitação daqueles que venham a ter sua capacidade funcional restrita, de modo a garantir sua permanência no meio em que vivem, exercendo de forma independente suas funções na sociedade. No nosso entendimento, essa deve ser a máxima dos profissionais que atendem aos idosos, sobretudo aqueles que trabalham em programas de Saúde da Família (PSF), uma vez que buscam a promoção de saúde e a prevenção de doenças.

Considerações finais

As características básicas dos idosos pesquisados, quanto aos aspectos pessoais, sociais e história clínica, foram os seguintes: predominância de mulheres idosas sobre homens idosos, mais analfabetos, idade compreendida entre 60 e 69 anos, mais casados, e com a maior renda familiar do casal. Percebeu-se um grande número de filhos, alguns morando e dependendo dos pais idosos. O que parece ser um fator negativo, às vezes pode se tornar positivo, quando, por exemplo, o idoso adoece e passa a contar com os filhos para cuidar dele. Grande parte dos idosos realiza atividades diversas: lazer, religiosas, físicas, caminhadas, ginásticas e se acham em melhores condições de saúde quando comparados a outros idosos. Os idosos procuraram a unidade de saúde da família por conta de uma ou duas queixas, mas no interrogatório sintomatológico foram identificados mais duas e até 14 queixas.

Em relação às condições de saúde dos idosos verificadas através de teste e escalas avaliativos, levando em consideração os aspectos cognitivos, afetivos e funcionais, dos 30 idosos investigados, um apresentou resultado sugestivo de distúrbio cognitivo; oito apresentaram escores indicativos de distúrbios afetivos; e quatro, distúrbios funcionais. No entanto, há necessidade de se considerar o número acentuado de sinais e sintomas indicativos desses distúrbios, tais como: tristeza acentuada pode ser indicativa de depressão; esquecimento e desorientação podem sugerir distúrbios cognitivos; e tonturas, instabilidades, alterações visuais e outros podem direcionar a distúrbios funcionais. Portanto, torna-se necessário que tais idosos sejam monitorados em consultas subseqüentes, por meio de reaplicação do teste e das escalas, a fim de que se possa intervir e orientar cuidados, melhorando assim a qualidade de vida dos idosos.

Propomos como ações de saúde direcionadas aos idosos atendidos nas Unidades de Saúde da Família: implantação e implementação do atendimento sistemático ao idoso, organizando formulários de avaliação global, considerando sua viabilização nas ações do PSF; realização de treinamento para os profissionais envolvidos no PSF; sensibilização dos gestores sobre a necessidade de espaço físico adequado para o atendimento ao idoso; implementação do que estabelece a Constituição do país ("saúde é direito de todos e dever do Estado") e a Política Nacional do Idoso ("que sejam garantidos aos maiores de 60 anos os direitos constitucionais"); organização de grupos de caminhadas, grupos de danças típicas regionais, reuniões sistemáticas para discussões de questões de saúde e outras, comemorações (de datas importantes, como Páscoa, São João, Natal, aniversários e outros); estabelecimento de uma maior freqüência de visitas domiciliares aos idosos fragilizados ou dependentes, envolvendo toda a equipe nas orientações dos cuidadores e idosos e, principalmente, procurando dar suporte ao cuidador familiar.

Diante dos resultados, verificamos a necessidade de se implantar ações direcionadas aos idosos cadastrados nas Unidades de Saúde de Família, considerando o aumento desse contingente populacional, as necessidades específicas e multidimensionais que os idosos apresentam e, principalmente, as propostas do Programa de Saúde da Família centradas na promoção da saúde, prevenção de agravos, tratamento adequado e garantia de referência e contra-referência para os casos de maior complexidade.

Notas

¹ Enfermeira. Especialista em Desenvolvimento Humano e Reabilitação em Saúde do Idoso (Universidade Federal de Pernambuco-UFPE). Especialista em Programa de Saúde da Família (Faculdade de Enfermagem Nossa Senhora das Graças - FENSG/UPE). Enfermeira do PSF de Alagoinha, PE. Assessora da ILP Conviver Geriátrico.

² Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Especialista em Gerontologia (SBGG). Professora da Faculdade de Enfermagem Nossa Senhora das Graças (FENSG/UPE).

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Abstract

The objective this study was to identify cognitive, affective and functional conditions of elderly people registered in the Family Health Units in three cities in the state of Pernambuco, Brazil. It is an exploratory and descritive study that took place in those Units in the cities of Alagoinha, Bonito, and Ipojuca. The main tool was an elderly evaluation form containing: characterization of the elderly, cognitive evaluation, affective evaluation, functional evaluation and interviewer’s impression, by means of structured interview, followed by observation. Results showed predominance of women, illiterate more than learned, age between 60 and 69, most ones married, and with highest familiar income of the couple. The elderly arrived at the Health Family Unit with one or two complaints, but the symptomatic interwiew identified up to 14 complaints. From the 30 investigated elderlies, one presented a suggestive cognitive disorder; eight presented negative score for the affective disorder and four for the functinal disorder. The need for the implantation and implementation of a systematic care for the eldery, organizing an evaluating global form, considering its application in actions of the Family Health Program, among others.

Keywords: Family Health Program; Cognition; Geriatric Assessment; Middle Aged; Aged; Alagoinha (PE); Bonito (PE); Ipojuca (PE).

 

Recebido para publicação em: 20/6/2004
Aprovado em:23/8/2004
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