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Textos sobre Envelhecimento

versão impressa ISSN 1517-5928

Textos Envelhecimento v.8 n.1 Rio de Janeiro  2005

 

O executivo-empreendedor, sua aposentadoria e o processo de afastamento do trabalho
Executive-enterpriser, his retirement and the removal from works process

Cristina Bacigaluz Amarilho ¹
Sergio Antonio Carlos ²

 

Resumo

Este trabalho analisa o modo como o sujeito executivo-empreendedor-idoso, está se relacionando com a perspectiva de afastamento do trabalho e quais as implicações desta relação na construção de novos projetos de vida. O referencial teórico metodológico é a Análise de Discurso de linha Francesa apresentada por Michel Pêcheux. As seqüências discursivas referenciadas provêm de um corpus formado por quatro entrevistas realizadas com executivos - empreendedores na faixa de 60 (três sujeitos) e um com 88 anos. Os eixos delimitados no corpus foram: aposentadoria e afastamento do trabalho. A partir destes eixos foram analisados efeitos de sentido no discurso dos participantes, tomando como referência as noções de sujeito, discurso, interdiscurso e intradiscurso bem como algumas marcas lingüísticas nas seqüências discursivas selecionadas. Os resultados apontam que a aposentadoria não tem impacto relevante na subjetividade do empreendedor, pois não sinaliza ruptura com o mundo do trabalho. Outro sentido evidenciado é a formação ideológica presente no discurso dos executivos que atribui elevada centralidade ao trabalho. Revelam também dificuldade em pensar suas vidas sem o trabalho ao relacionar a possibilidade de afastamento com o processo de envelhecimento e com o fim da vida. Assim, o trabalho continua ocupando posição central nos projetos de vida do executivo-idoso.


PALAVRAS-CHAVE: envelhecimento; aposentadoria; acontecimentos que mudam a vida; psicologia social; trabalho.

 

Aposentadoria e o processo de afastamento do trabalho

Alguns estudos abordam a problemática da aposentadoria como sinônimo de ruptura com o mundo do trabalho e exclusão social. Entre eles, Carvalho e Serafim (1995) apontam que a perda do vínculo com a atividade na empresa, que ocupa boa parte do seu tempo, o status que algumas funções dão ao indivíduo e a dúvida do que fazer com parte do seu tempo livre, contribuem para que muitas pessoas não consigam separar a razão de viver da razão de trabalhar.

Santos (1990) estudando a relação entre identidade pessoal e aposentadoria, concluiu que existem duas maneiras de encarar a aposentadoria: como crise e como liberdade. Enquanto crise, através da recusa em aceitar a condição de aposentado ou pela necessidade de sobrevivência, os sujeitos continuam trabalhando geralmente na mesma atividade profissional ou em outra ocupação. Enquanto liberdade, podendo realizar assistência aos familiares ou buscar o prazer pelo lazer, sentindo-se livres, fazendo projetos para o futuro na busca de realização do que não tiveram oportunidade de fazê-lo anteriormente.

Em estudos sobre as representações sociais da aposentadoria Graeff (2002) identificou as seguintes representações:
“prêmio” que explicita a ligação dos anos de trabalho com uma recompensa em forma de descanso e remuneração;
“férias”, que demonstra uma forma de ancoragem e objetivação de uma nova vivência – estar aposentado – no universo conceitual dos sujeitos, na medida que há o paralelo entre uma referência anterior (as férias do trabalho) e a atual situação de ociosidade;
“segunda vida”, apontando para a necessidade subjetiva de pensar ou criar novas estratégias para o novo papel a ser assumido, considerando haver uma noção geral de perda da capacidade de trabalho bem como a demarcação clara de um novo período, onde o não trabalho predomina.

Quanto maior a satisfação do indivíduo com o trabalho e com o grupo, maiores as dificuldades encontradas no desligamento da atividade laborativa.(Zanelli; Silva, 1996). Esta etapa do desenvolvimento humano, segundo o autor, é uma etapa extremamente difícil de ser absorvida pelo sujeito pela falta de uma adequada preparação psicológica, social e econômica para enfrentar e superar esta fase.

A expectativa de vida do ser humano vem demonstrando um significativo crescimento desde o final do século passado, sendo o envelhecimento populacional um dos grandes desafios deste terceiro milênio. Desafio que faz repensar a condição do trabalhador num âmbito sócio político e econômico. Neste contexto, os estudos de Peixoto (2004) e Abreu e Bruns (1997), contrapõem a posição de que a aposentadoria significaria ruptura com a atividade profissional. O trabalho após a aposentadoria pode ser observado sob múltiplos pontos de vista que não se excluem, entre eles – trabalhar para manter as mesmas condições de vida e trabalhar para preencher o vazio social.

Peixoto (2004) relata que somente 58% das pessoas em idade de aposentadoria gozam plenamente desse privilégio. As estatísticas informam que atualmente mais de um terço desta população (seja aposentada ou não) ainda trabalha. Tomando o grupo dos aposentados que não está forçosamente em situação precária (minoria entre os aposentados brasileiros), que chegam à aposentadoria dotados de uma formação profissional mais qualificada e que por essas razões têm mais chance de permanecer no mercado de trabalho, é possível perceber, contudo, que as motivações determinantes se sua reinserção (ou permanência) no mercado não são tão diferentes daquelas que movem os aposentados menos favorecidos, tratando-se apenas de uma escala de valores invertida. De acordo com a autora, esses aposentados desejam, primeiro, continuar produtivos para manter um lugar de reconhecimento no núcleo familiar e na sociedade. A possibilidade de exercer a mesma atividade exercida anteriormente é maior para certas categorias profissionais como comerciantes, empresários, profissionais liberais ou executivos.

Outro aspecto relevante apontado por Abreu e Bruns (1997), ao tentar responder o que fazer após aposentadoria, está na relação estabelecida entre o aposentado e a posição social que ocupa. O poder aquisitivo possibilita o acesso a modos de relação diferenciados. As práticas sociais de homens velhos, pertencentes a uma classe social privilegiada são diferentes das de homens velhos de classe menos favorecida. As categorias profissionais que integram os primeiros, como profissionais liberais, empresários, políticos, em geral não se aposentam. No segundo caso identifica-se que os sujeitos também continuam trabalhando, fazendo “bicos”, para manter o mesmo nível sócio-econômico e/ou para complementar as despesas com os familiares.

Em pesquisa realizada pelos autores acima citados, foram identificados significados de aposentadoria diferentes para cada sujeito, evidenciando suas posições e os lugares de onde falam. Além de representarem de forma diferenciada esse momento de vida, também encontram dificuldades para olhar à frente da aposentadoria pensando projetos que estejam desvinculados da atividade profissional.

O afastamento do trabalho é um processo que implica fazer ajustes tanto a nível individual quanto familiar. O mesmo se inicia desde o momento em que a pessoa reconhece que algum dia se retirará. Sánchez (2000) refere que poucas pessoas planejam sua retirada e participam de programas de preparação para o afastamento. As pessoas que traçam planos concretos para o período subseqüente ao afastamento enfrentam este evento com expectativas mais positivas que aquelas que não se planejaram.

O envelhecimento associado à incapacidade, limitações e doenças é o principal determinante para o rompimento do vínculo com o trabalho, experienciado como uma vivência negativa associada à exclusão social. Conforme Carlos; Jacques; Larratea (1999), entre as muitas perdas decorrentes do envelhecimento, a ausência de trabalho é referida como de grande significação no sistema identitário, na trajetória e no cotidiano de vida do idoso.

Essas perdas são comumente associadas ao trabalhador assalariado mas elas fazem parte da situação de todos os trabalhadores, inclusive os executivos-empreendedores que são os sujeitos desta pesquisa.

A carreira do tipo empreendedor está ligada às atividades de uma empresa independente, traçadas por uma pessoa, em geral identificada com o empreendedor econômico. No decorrer do século XIX, ela foi particularmente valorizada, pois, era a ilustração da superioridade liberal sobre a sociedade aristocrática feudal. Já no século XX, este tipo de carreira, sem desaparecer, foi largamente substituída pela carreira burocrática e profissional. No entanto, há alguns anos, a carreira de empreendedor parece ressurgir de maneira interessante. Fatores como: (a) as dificuldades do setor público; (b) a crise do Estado – Previdência; (c) as dispensas maciças em certas indústrias; (d) a concorrência internacional, parecem ter conduzido os governos, as empresas e as sociedades a valorizarem novamente este tipo de carreira. Desta forma, a precarização cada vez maior do trabalho e uma taxa de desemprego elevada podem levar as pessoas a criarem seu próprio emprego.

Para o empreendedor, esta concepção de trabalho permite-lhe desenvolver características como criatividade, inovação, gosto pelo risco, além de independência nos cargos executivos e não-executivos. O trabalho é realizado com autonomia e é fonte de realização, gratificação e prazer. A necessidade de manter-se ativo em um mercado altamente competitivo, a identificação com um sistema em que o homem vale pelo cargo que ocupa, a necessidade em dar continuidade aos negócios como projeto de vida, são fatores que determinam a intensa relação destes sujeitos com sua atividade profissional.

É neste contexto que os executivos-empreendedores brasileiros assumem a posição de sujeito assujeitado pela ideologia que aponta o trabalho como central.

A perspectiva do envelhecimento e de afastamento do trabalho surge como possibilidade de vivenciar conseqüentemente a perda de poder e de valor associada à sensação de perda de potência. Estes sentimentos relacionam-se ao fato de que para o fundador da empresa, e neste caso, para o sujeito-executivo-empreendedor-idoso, o trabalho, personificado no negócio, representa, conforme Levinson, apud Garcia (2001, p. 232), “[ . . . ] uma extensão de si mesmo e, sobretudo um meio de satisfação e realização pessoal.” Daí o apego que tem pela empresa, alguns só aceitam deixá-la ao morrerem, outros nem assim, morrem, mas levam a empresa junto.

Para presidentes e executivos de sucesso, planejar a sucessão e o conseqüente afastamento do seu projeto de vida, da sua razão de viver, é uma das questões mais difíceis e emocionais a serem enfrentadas, pois na verdade ninguém gosta de planejar sua própria saída. Ela os leva a encarar a própria mortalidade.

Em uma sociedade em que se mensura o valor das pessoas pelo que fazem para ganhar a vida, o afastamento do trabalho decorrente do processo de envelhecimento pode também representar um retrocesso na posição social. Sem a oportunidade de trabalhar, algumas pessoas sentem-se esvaziadas e sem propósito na vida, podendo ocasionar uma ruptura identitária ou redimensionamento de seus projetos e objetos de identificação.

Em “Perdas e Ganhos”, Luft (2003) aponta que somos transição, somos processo, e isso nos perturba. Viver deveria ser até o último e o derradeiro olhar – transformar-se. O fluxo de dias e anos e décadas serve para crescer e acumular, não só perder e limitar. Somos seres humanos completos em qualquer fase, na completude daquela fase.

Envelhecemos ou nos aproximamos da morte desde que nascemos. A perspectiva gerontológica moderna, como aponta Moragas (1997) participa do significado existencial da morte de outras épocas em que era encarada de uma forma mais natural que as sociedades industriais, tecnologicamente avançadas, que a negam ocultam, ignoram.

Torres (1999) remete a Freud, que diz ostentarmos uma tendência para arquivar a morte, para eliminá-la da vida, para silenciá-la. No inconsciente todos estamos convencidos de nossa própria imortalidade. Em decorrência dessa afirmativa, a morte nos toma sempre de surpresa, mal preparados, e por essa razão a vemos sempre como um evento desnecessário, prematuro, deplorável, e com o qual nos defrontamos com muito medo e todo tipo de negação. Entretanto, mesmo quando o medo da morte parece ausente, sob as aparências, ele está universalmente e onipotentemente presente, vindo à tona em situações de crise ou em certas fases evolutivas quando a incidência direta da luz dos fatos nos impõe a realidade da morte.

Na velhice, a morte desempenha um papel como fator do desenvolvimento. Compartilhando desta mesma perspectiva existencialista, Johannes Doll (1999), aponta que o sentido da morte não existe nela mesmo, mas sim na valorização da vida.

Frente a todas as limitações impostas à velhice como seria o projeto existencial do idoso? Ao questionar como esta fase pode ser ainda assim uma oportunidade de crescimento e desenvolvimento, a própria Simone de Beauvoir (1976) coloca que uma das atitudes que o homem idoso desenvolve diante da proximidade da sua morte é a necessidade de fugir da passividade, mantendo assim o controle ativo da vida e da morte. Este domínio ativo da vida, que o leva ao abandono do poder, seria uma etapa construtiva para a aceitação realística de sua morte inevitável. Portanto, manter o domínio ativo da própria vida seria de fundamental importância para a solução da crise desta etapa.

Embora, em nossa sociedade, a possibilidade de domínio da própria vida seja negada ao velho na maioria das vezes, nos leva a refletir acerca da aposentadoria não mais como um marco na ruptura do sujeito com sua atividade, discutindo a forma com que se dá o afastamento do trabalho e a importância da construção de novos projetos no processo de envelhecimento destes sujeitos. Procura-se enfocar a peculiaridade do envelhecimento do sujeito-trabalhador empreendedor, cuja subjetividade foi constituída sob forte influência do tipo de trabalho que exerceu e ainda exerce, mesmo em idade avançada. O que leva a problematizar também a relação que se estabelece entre afastamento do trabalho e finitude.

Para muitos trabalhadores, o evento da aposentadoria não representa necessariamente o afastamento do mundo do trabalho. Em algumas categorias profissionais e entre os empreendedores, observa-se a existência de aposentados em plena atividade laboral. Para estes profissionais, é possível que o ato de aposentar-se não tenha o mesmo impacto na subjetividade do que para os demais trabalhadores.

Partindo desta perspectiva, busca-se refletir sobre as implicações que a aposentadoria e o processo afastamento do trabalho podem causar ao sujeito executivo-empreendedor-idoso.

Dos procedimentos metodológicos

Para a coleta das falas dos sujeitos de pesquisa foi utilizada entrevista semi-dirigida, tendo como eixos norteadores: (a) trajetória profissional; (b) planejamento de carreira; (c) significado do trabalho no percurso de vida; (d) preparação para o afastamento do trabalho; (e) processo sucessório; (f) projeto de vida.

Na ocasião de cada entrevista, foi esclarecido com detalhes o objetivo da pesquisa. Foi também comunicado que a entrevista seria gravada em fita de áudio para posterior transcrição, sendo mantido o caráter sigiloso no que concerne à identidade do entrevistado. O termo de Consentimento Livre Informado era apresentado aos entrevistados que após lido e aceito era assinado pelos mesmos.

Dos Sujeitos

A escolha do executivo – empreendedor – idoso como sujeito desta pesquisa se dá a partir de uma prática profissional de doze anos de trabalho junto a este público. Também ao fato de entender necessário a realização de pesquisas na área da Psicologia Social e Institucional que se ocupem também desta parcela da população, considerada uma minoria excluída dos estudos desenvolvidos na área da Psicologia Social e Institucional.

As entrevistas foram realizadas com quatro executivos-empreendedores-idosos – dois sujeitos com idade de 60 anos, um com 61 e outro com 88 anos – que estavam em pleno exercício de sua atividade profissional. A escolha dos sujeitos se deu por serem executivos-empreendedores de indústrias situadas na região de Grande Porto Alegre. Foram selecionados por indicações que facilitaram o acesso aos sujeitos.

Jair ³ tem 61 anos, Engenheiro Químico, é Diretor-Presidente de uma Indústria do segmento de tintas de impressão localizada na Região de Grande Porto Alegre. Casado, tem três filhos. Iniciou sua atividade profissional como Engenheiro Químico, fez carreira em uma empresa de tintas. Foi transferido para São Paulo, passando a Gerente Industrial e posteriormente a Diretor Industrial. Muito identificado com a sua atividade, percebe-se o orgulho que sente ao relatar sua trajetória. Na ocasião de sua aposentadoria lhe foi feita uma proposta para retornar para a Região Sul e assumir uma filial da empresa que se ocupava da produção de tintas de impressão. Assumiu o negócio como proprietário, juntamente com um colega que se tornou seu sócio. Sempre planejou sua carreira e refere em seu discurso a importância de ter planejado também o seu afastamento do trabalho. Revela seu projeto de vida, marcando mais uma vez a necessidade de planejar sua carreira e seus projetos.

Rui tem 60 anos e é Diretor-Presidente de uma Indústria do segmento alimentício na Região de Grande Porto Alegre. Casado, tem três filhos e um neto. Iniciou sua trajetória profissional ainda criança junto ao negócio do pai, devido à necessidade de subsistência familiar. Posteriormente, exerceu sua atividade profissional no segmento bancário onde fez carreira durante sete anos.No entanto, em 1969, vislumbrou a possibilidade de trabalhar novamente com o pai e um irmão que haviam expandido o negócio e constituído uma fábrica de alimentos. Acabou optando pela Indústria da família, que durante 36 anos passou por uma série de dificuldades financeiras e de ordem familiar, levando à cisão societária com os familiares e abertura do capital para um grupo que conta atualmente com uma participação de 40% das ações há, aproximadamente, quinze (15) anos. Seus filhos não trabalham nem têm, aparentemente, interesse em exercer atividades na empresa. Divide seu tempo entre a empresa, família, comunidade e lazer. Considera a possibilidade de afastamento do trabalho bastante “complicada” e “delicada”, pois gostaria de sair em um momento em que a empresa estivesse estabilizada, em que fosse possível pensar na sua continuidade.

Fábio tem 60 anos, é Administrador de Empresas e um dos sócios de uma indústria do segmento têxtil na região de Grande Porto Alegre, entre outras atividades que executa no ramo imobiliário. Casado, tem dois filhos. Iniciou sua carreira como representante comercial no Rio de Janeiro (experiência da qual muito se orgulha e valoriza). Não trabalhou nos negócios da família até conquistar a confiança do pai, que o classificava como “o malandro do Rio de Janeiro”. Conquistou a confiança quando realizou uma negociação para a empresa junto a advogados trabalhistas. Fábio não teve um planejamento de carreira. As oportunidades foram aparecendo e soube aproveitá-las, diversificando assim seus negócios e investimentos. Trabalhou nos diversos negócios da família. A partir de uma mudança na superintendência do grupo e negociações com uma multinacional Americana, negociou uma rede de lojas e assumiu, junto com a terceira geração, os negócios. Desta forma, definições quanto à gestão dos negócios e família foram feitas, ficando quatro sócios, dos sete herdeiros, com a gestão e o restante decidiu não trabalhar e investir em outras áreas. Atualmente é sócio da indústria, de um banco, de um shopping local e continua com seus negócios imobiliários. Acredita no afastamento gradativo do trabalho, buscando conciliar lazer, prazer, família e vida social.

Abel tem 88 anos e faz parte do Conselho Administrativo de uma Indústria do segmento alimentício localizada na região de Grande Porto Alegre. Viúvo, tem dois filhos e cinco netos. Iniciou sua vida profissional como padeiro. Ao casar assumiu a chefia de um atacado que vendia produtos diversos. Com o incentivo da esposa e auxilio financeiro de um cunhado, por volta do ano de 1945, abriu uma padaria em Hamburgo Velho. Através de muito trabalho conseguiram pagar a dívida, expandir o negócio e transferir a padaria para um ponto mais promissor. A trajetória profissional de Abel é marcada pelo incentivo de parentes próximos (esposa e filho) e pela sua capacidade e coragem de assumir riscos, cumprindo com os compromissos financeiros decorrentes dos investimentos. Após a formatura em Administração de Empresas, seu filho propôs a construção de uma fábrica de alimentos na região de grande Porto Alegre. Com o incentivo da prefeitura local, quanto à isenção de impostos por um período determinado, construíram a fábrica, localizada nesta região até os dias de hoje. Expandiram os negócios abrindo uma fábrica em São Paulo, centros de distribuição em Florianópolis, Joinville e Londrina. Com a morte da esposa, há nove anos, fez o inventário e desta forma a divisão dos bens e definições quanto ao processo sucessório na empresa. O filho assumiu a Presidência do grupo, ficando Abel como vice-presidente do Conselho Administrativo; a filha não participa dos negócios ficando com a Administração dos imóveis da família e o neto dirige a filial de São Paulo. No entanto, Abel exerce a função de Relações Públicas diariamente na empresa. O entrevistado tem planos de afastamento do negócio para o ano de 2006.

Demarcação do “corpus” e exercício de análise dos efeitos de sentido

A partir da noção de sujeito, dos conceitos de ideologia, discurso, interdiscurso e intradiscurso bem como dos efeitos de algumas marcas lingüísticas nas seqüências discursivas selecionadas, busca-se orientar e fundamentar teórica e metodologicamente esta pesquisa com os seguintes objetivos:

a) analisar os efeitos de sentido percebidos no discurso do sujeito trabalhador-executivo-empreendedor-idoso, identificando o modo como esse sujeito está se relacionando com a perspectiva de afastamento do trabalho e quais as implicações desta relação na construção de novos projetos de vida;
b) verificar o impacto da aposentadoria na subjetividade do trabalhador-executivo-empreendedor-idoso;
c) evidenciar os sentimentos despertados pela expectativa de afastamento do trabalho através da análise do modo como os sujeitos estão planejando e vivenciando este momento de vida;

De acordo com a escola francesa, a Análise de Discurso (AD) é considerada uma disciplina de interpretação. Pêcheux (2002) aponta:
Todo enunciado, toda seqüência de enunciados é, pois, lingüísticamente descritível como uma série (léxico-sintaticamente determinada) de pontos de deriva possíveis, oferecendo lugar à interpretação. É nesse espaço que se pretende trabalhar a análise de discurso. (p. 53)

Ao analisar um texto, segundo Maingueneu (2002), deve-se considerar que um texto não é um conjunto de signos inertes, mas o rastro deixado por um discurso em que a fala é encenada. Para Orlandi (1986), o discurso é o objeto que nos permite observar as relações entre ideologia e língua, bem como os efeitos do jogo da língua na história e os efeitos desta na língua. É através do discurso que se vai compreender como um material simbólico produz sentidos e como o sujeito se constitui. Ao situar-se como lugar privilegiado de observação entre a língua, a ideologia e o sujeito, o discurso propicia, como bom observatório, a visualização das propriedades do complexo dispositivo teórico –analítico.

Na análise das entrevistas identifica-se o material lingüístico obtido em sua heterogeneidade, buscando conduzir a análise por meio das marcas lingüísticas evidenciadas.

Tendo em vista a heterogeneidade enunciativa, Authier-Revuz (1990) refere:
[ . . . ] sempre sob as palavras, ‘outras palavras` são ditas: é a estrutura material da língua que permite que, na linearidade de uma cadeia, se faça escutar a polifonia não intencional de todo discurso, através do qual a análise pode tentar recuperar os indícios da ‘pontuação do inconsciente`.(p. 28).

As constatações desta autora auxiliam quanto ao encontro dos sentidos outros no corpus delimitado. Neste exercício, a leitura realizada sobre as entrevistas buscou evidenciar efeitos de sentido no discurso dos entrevistados no que se refere aos eixos de análise: aposentadoria e afastamento do trabalho. Inicia-se a análise de cada eixo-temático destacando palavras e expressões no fio do discurso para identificar e analisar o modo como o corpus delimitado faz sentido para os sujeitos. Posteriormente procura-se relacionar o discurso dos participantes com os constructos teóricos da análise de discurso de linha francesa e com o referencial que fundamenta teoricamente este trabalho.

Primeiro Eixo: APOSENTADORIA

Em relação ao eixo aposentadoria, dos quatro entrevistados, dois não fazem menção ao tema. Somente Rui e Jair referem a aposentadoria em suas trajetórias profissionais.
Rui, (S1): [ . . . ] Me aposentei, hoje tô com 600 e poucos pila de aposentadoria, foi um estímulo para o trabalho.

Jair, (S2): [ . . . ] Aí chegou a fase da aposentadoria, que para químico é 25 anos... e eu achei que tava na hora de eu aprender alguma outra coisa, de tentar fazer uma mudança, tal. Foi quando meus planos mudaram.
Para Jair, a aposentadoria aparece como possibilidade de reflexão, impulsionando-o para mudança no seu projeto de vida, mas não relacionada ao afastamento do trabalho. O aprender uma outra coisa e tentar fazer uma mudança aponta para uma tentativa de fazer algo diferente daquilo que vem fazendo. No entanto, constato que com a aposentadoria ocorreu uma mudança geográfica (mudou-se de São Paulo para Porto Alegre) e de negócio (constituiu sua própria empresa), porém não há mudança na sua atividade profissional (Diretor e Engenheiro Químico). Ao refletir sobre as representações sociais, Graeff (2002) aponta que a aposentadoria é muito mais do que a simples soma de representações individuais de um determinado grupo, tratando-se, na verdade, de uma matriz de pensamentos de senso comum inserida em um contexto sociocultural e econômico maior. Das representações sociais da aposentadoria apontadas pelo autor destaco a necessidade subjetiva de pensar novos papéis a partir da condição de aposentado, o que caracterizaria a idéia de uma “segunda vida”. Considerando, neste caso, não haver uma noção geral de perda da capacidade de trabalho bem como a demarcação clara de um novo período, onde o não trabalho não predomina, posso dizer que a aposentadoria não sinaliza ruptura com o trabalho, mas sim sinaliza uma mudança no direcionamento da carreira do sujeito, uma segunda vida de trabalho.

Já no fio do discurso de Rui identifico a presença de ironia ao referir que a aposentadoria serviu como um estímulo para continuar trabalhando. Percebo a ironia neste enunciado pela subversão e desqualificação do ato de aposentar-se no momento em que é proferida. No sentido comum, aposentadoria deveria permitir um afastamento tranqüilo, digno, mas tanto em Jair quanto em Rui, aposentar não significa parar. Eles já teriam direito, pela lei, de se aposentar, mas não querem deixar o trabalho profissional. Para Rui, “seiscentos e poucos pila” é um “estímulo” para trabalhar mais e não para pensar o afastamento. A palavra “estímulo” denota o tom de ironia, pois o valor é considerado insuficiente. Justifica ter de trabalhar ainda. Assim, compartilhando do ponto de vista de Peixoto (2004); Abreu e Bruns (1997), é possível evidenciar o sentido de que o evento da aposentadoria não é central para tratar a questão do afastamento do trabalho. O ato de aposentar-se, para os sujeitos, passa a ter um significado de continuidade marcando o início de uma nova fase.

É possível refletir aspectos como o fato de que a estimativa de vida do ser humano aumentou, sendo a idade de aposentadoria legal considerada uma idade em que o sujeito, não apresentando limitações de saúde, encontra-se em plenas condições de manter-se produtivo. Outro aspecto a ser discutido é o fato de que em nossa sociedade o sujeito é valorizado por manter-se ativo, pelo cargo que exerce e pela posição social que ocupa. A palavra aposentar remete ao sentido de retirar, por de lado o que não serve mais e, o parar, é percebido como sinônimo de exclusão social, perda de poder e de status. Portanto, aposentar, conforme Carlos; Jacques; Larratea (1999) significa não ser mais produtor de bens e serviços, significa a possibilidade de marginalização nos contextos sociais pautados pelo valor produtivo.

Não só para os empreendedores, mas para algumas categorias profissionais, a aposentadoria não tem o mesmo impacto na subjetividade, por não representar mais ruptura com o mundo do trabalho, Peixoto (2004).

Na maioria das vezes, o empreendedor é quem decide a hora de parar, diferentemente daqueles casos em que as empresas determinam o momento do afastamento para proporcionar a rotatividade no trabalho, garantindo assim espaço aos mais jovens e exercendo pressão social para que o idoso ativo libere lugar em prol de uma geração mais nova. A fim de melhor compreender a relação do executivo-empreendedor com a aposentadoria e com o afastamento do trabalho, cabe aqui caracterizar este sujeito-empreendedor-idoso retomando as características da carreira empreendedora que, de acordo com Chanlat (1995), é constitutiva de nossa sociedade capitalista liberal e de sua ideologia de sucesso individual. Neste tipo de carreira, o empreendedor econômico determina e direciona de forma estratégica e com autonomia as atividades da empresa. Desta maneira, ser o mentor do negócio e, como aponta Chanlat (1995), desenvolver características como criatividade, inovação, gosto pelo risco, além de independência nos cargos executivos e não-executivos, é, de certa forma, uma garantia quanto a manutenção de seu espaço na organização. Também a identificação com esse tipo de carreira e trabalho pode fazer com que esse profissional permaneça por mais tempo ligado à organização. Digo de certa forma, pois em muitos casos o processo sucessório e as gerações que viriam suceder o executivo-empreendedor-idoso também exercem pressão para o afastamento da geração mais antiga.

Concluindo a reflexão desse eixo-temático, é possível pensar que para o executivo-empreeendedor-idoso, a aposentadoria por idade e por tempo de serviço não seja significativa, pois não determina, nem prepara o momento do afastamento do trabalho. A aposentadoria, não sendo central na discussão afastamento do trabalho e projeto de vida, dá lugar à discussão que remete ao processo sucessório deste sujeito como forma de preparação para a ruptura com o mundo do trabalho.

Segundo Eixo: AFASTAMENTO DO TRABALHO

Rui [ . . . ] eu vejo assim que eu tenho muito potencial ainda, né, muita energia, e vontade de trabalhar, porque eu acho que ficar parado também é uma situação até constrangedora, como se diz, parece uma pessoa inútil... Então, dentro deste contexto, eu não tenho assim, vamos dizer, um plano de quanto tempo ficar. O que mais me preocupa sim é a forma de sair, né? Que eu consiga sair de forma honrosa, que eu consiga sair deixando as coisas em andamento, que as pessoas que trabalharam comigo continuem trabalhando, continuem... [ . . . ].

Rui [ . . . ] Pois é, eu vou ter que começar a mexer com isso. Eu já pensei, mas é que quando a gente começa a se envolver... da forma como a gente tem se envolvido no negócio, porque se tem exigido, a gente começa a colocar os problemas para...

Rui [ . . . ] A empurrar, né? Uma vez também, me falaram: “Pô, é bom tu ter um testamento e tudo, e...”. Eu me dou com o cara do cartório, eu já liguei no ano passado: “ah, quero sentar um dia...”, “não, vem aí conversar...”. É uma coisa que passa pela minha cabeça, mas “ah, isso aqui, não vou morrer agora, pára um pouquinho”. Pô, eu tenho coisa, tanta coisa para fazer, vou ter que sentar no mínimo uma tarde ou um dia...

Não está no planejamento de Rui o afastamento do trabalho nos próximos anos. Busca razões diversas para não sair, preocupando-se mais em como sair do que em quanto tempo ficar. Outro motivo que o faz não considerar a possibilidade de parar é o receio e constrangimento de sentir-se inútil sem uma atividade profissional. Conforme indica Maingueneau (2002), o indicativo de análise ON****, está presente no discurso pela marca a gente, denotando uma subjetividade fora da relação enunciativa (um ser humano, uma consciência) que apresenta uma grande polivalência e produz um apagamento das fronteiras entre as posições de primeira, segunda e terceira pessoas.

Rui considera o trabalho como missão a ser cumprida. Ao ressaltar que não gostaria de se ausentar num momento difícil, revela a não aceitação de um possível fracasso enquanto administrador. Diz sentir-se saudável e útil para a organização, evidenciando a dificuldade que tem em pensar sua vida sem o trabalho. O sujeito necessita do reconhecimento e da certeza de que o esforço de uma vida dedicada à empresa terá continuidade no trabalho e para além do trabalho. Porém, ao utilizar o modo subjuntivo, o sujeito expressa um fato considerado hipotético, duvidoso, incerto. “... Que eu consiga sair ... que as pessoas que trabalharam comigo continuem ... que eu possa ter...” Parece, desta forma, não ter convicção que conseguirá sair de forma honrosa e tranqüila, garantindo a permanência do negócio.

Uma outra voz se atravessa no discurso do sujeito apontando para a possibilidade da morte, “... me falaram: ‘pô, é bom tu ter um testamento e tudo, e...’. Eu me dou com o cara do cartório, eu já liguei no ano passado: ‘ah, quero sentar um dia...’ É uma coisa que passa pela minha cabeça, mas ‘ah, isso aqui, não vou morrer agora, pára um pouquinho’.” Ao analisar a seqüência discursiva acima, entendo que o entrevistado admite a necessidade de pensar, planejar os aspectos burocráticos que envolvem um possível afastamento decorrente do evento da morte. No entanto, na sua fala capto também a ambivalência em relação a temática. É preciso parar para pensar e Rui não quer perder tempo, pois acredita que a possibilidade de morrer está distante, postergando, assim, suas ações. “... Pô, eu tenho coisa, tanta coisa para fazer, vou ter que sentar no mínimo uma tarde ou um dia ...”

O sujeito demonstra dificuldade em mexer com estas questões que remetem à finitude da vida, admitindo sentir-se incomodado e mobilizado com o assunto. Esta dificuldade é reforçada ao ser questionado quanto aos seus projetos, planos para o futuro. Esta temática mobiliza muito o sujeito a ponto de não conseguir pensar projeto de vida.

Embora se reconheça a morte como natural, universal e inevitável, conforme Torres (1999), a morte pertence à categoria que Sartre chama de irrealizáveis em que o homem é, paralelamente, incapaz de imaginar a sua própria morte. No caso de Rui, pensar afastamento remete à morte de um projeto de vida e conseqüentemente ao fim. Em função de inconscientemente estarmos todos convencidos de nossa imortalidade, e portanto estarmos continuamente tentando silenciá-la, a morte acaba sempre nos tomando de surpresa, mal preparados, e por essa razão a vemos sempre como um evento desnecessário, prematuro, deplorável, e com o qual nos defrontamos com muito medo e todo tipo de negação.

A autora coloca ainda, que em situações de crise, ou em certas fases evolutivas quando a incidência direta da luz dos fatos nos impõe a realidade da morte, o medo de morrer se faz onipotentemente presente.

Prosseguindo com as seqüências discursivas, analiso o posicionamento de Jair quanto à perspectiva de afastamento do trabalho.
Jair [ . . .]Sim, as coisas tão planejadas para que isso aconteça, tão planejadas. Então eu sei que ... dois anos, talvez até um pouco antes eu já comece a me afastar um pouco mais. Porque eu não vou parar, eu tenho outras atividades.
Jair [ . . . ]Então, tu vê que na realidade, esse meu parar não é bem parar.
Jair [ . . . ] Enquanto for útil para alguém, para alguma coisa, esse negócio de botar pijama e ficar assistindo televisão, esse negócio não é comigo.
Jair [ . . . ] Talvez, por uma necessidade, sim, mas mesmo assim eu daria um jeito. Hoje com essa maquininha aí se faz coisas, né?
Jair [ . . . ] Eu, para mim, é uma passagem. O pessoal às vezes dá uma importância muito grande a isso que chamam de morte. Não existe morte, existe uma transição, existe uma passagem só, então... tudo aquilo que tu fizer, vai haver continuidade.

Nas seqüências discursivas acima, estão presentes marcas que levam a conotação de espiritualidade, em que a morte é encarada como um ritual de passagem. Parece que Jair não suporta pensar na morte como um fim tendo que pensá-la como passagem, transição, pois encará-la como tal seria admitir o fato de que sua vida dedicada ao trabalho de forma tão intensa e inteira não teria continuidade. Há uma negação da morte ao colocar: “ Não existe morte, existe uma transição, existe uma passagem só, então... tudo aquilo que tu fizer, vai haver continuidade”.

Também se faz presente a onipotência no interdiscurso de Jair, na medida que afirma que não irá parar, desafiando até mesmo as limitações físicas que aparecem com o envelhecimento. “... Porque eu não vou parar”, “Talvez, por uma necessidade, sim, mas mesmo assim eu daria um jeito ...”.

Em relação ao envelhecimento, Beauvoir (1976) aponta que o homem não vive nunca em estado natural e que na sua velhice, como em qualquer idade, seu estatuto lhe é imposto pela sociedade à qual pertence. A autora menciona ainda ter a velhice uma dimensão existencial, pois modifica a relação do indivíduo com o tempo, modificando também sua relação com o mundo e com sua própria história.
Abel [ . . . ] Eu, em novembro do ano passado eu disse pro meu filho, eu digo: “óia, eu acho que não tem mais sentido eu continuar, futuro é de vocês, [pausa] vou fazer 88 anos, e eu acho que eu vou me retirar”. A senhora sabe que uma empresa familiar é muito complicada [ . . . ].

No momento em que coloca não ter mais sentido continuar e que o futuro é dos filhos, faz uma pausa em seu discurso revelando sua emoção quanto ao fato de estar completando 88 anos e considerar a possibilidade de não ter mais um longo futuro pela frente. Revela lamentar este fato, mostrando dificuldade em se afastar de toda uma vida dedicada ao trabalho. No fio do discurso também identifico que a presença de uma outra geração na gestão do negócio é um complicador, pois denota diferenças de valores e de formas de gerir. Já que o futuro é de quem tem mais tempo para usufruir a vida, prefere o afastamento a ter que se incompatibilizar com o filho e assistir a decisões que não compartilha nem concorda. No entanto, ao mesmo tempo em que considera a possibilidade de afastamento, ao utilizar a palavra acho evidencia o sentido de que não tem certeza do episódio e da sua vontade de se retirar definitivamente.
Abel [ . . . ] Então quando eu falei pro meu filho em novembro, digo: “Filho, eu acho que eu me retiro, vou me mudar para Serra, não tem mais muito, tanto sentido eu continuar aqui”. Aí, eu não esperava isso, aí ele me pediu: “Pai, fica mais, você tem muito bom relacionamento com todos funcionários, você é amado pelos funcionários [ . . . ].”
Abel “[ . . . ] Fica mais um tempo.” Então assinei mais um contrato até 2006, como...[ . . . ].

No fio do discurso, Abel revela a expectativa de que o filho não quisesse mais a sua permanência na empresa após a definição do inventário, no entanto surpreendeu-se com a solicitação feita por ele para que permanecesse. Também parece que o filho percebe o quanto é importante para o pai fazer parte da empresa enquanto viver. É bom para a empresa no sentido de que os funcionários se sentem acolhidos, seguros, com a presença do fundador, é bom para o pai que encontra um sentido para continuar a viver após a morte da esposa, é bom para o filho que alivia a culpa de assumir o lugar do pai sem descartá-lo. Fica mais um tempo, evidencia o sentido de ficar durante o tempo que tem de vida.

Ainda quanto ao afastamento destaco para posterior análise os seguintes enunciados:
Fábio [ . . . ] Eu consigo conciliar. Eu..., como é que eu posso dizer... Apesar de eu não fazer muita coisa aqui, praticamente nada, certo? Mas eu me sinto bem aqui, então, a gente tem contato, conversa com um, conversa com outro, troca idéias...
Fábio [ . . . ] Porque..., eu não admitiria, vamos dizer, ficar em casa, certo?

O sujeito revela não se permitir ficar em casa pelo fato se sentir bem no ambiente de trabalho, estar em contato com outras pessoas, sentir-se útil dando conselhos, orientando a geração que está assumindo os negócios e é evidente para não ser considerado “o malandro do Rio Janeiro”. Assim, o trabalho tem uma conotação de fazer para tornar-se digno, sendo uma atividade fundamental para a compreensão do ser humano e da sociedade. É através do trabalho que o homem adquire reconhecimento, status e poder. Nem o sujeito, nem a sociedade integram e respeitam àquele que não trabalha. Quem pára, passa a fazer parte de um grupo segregado de inativos e improdutivos.

A formulação desta ideologia, que atribui elevada centralidade ao trabalho, está ancorada na Reforma Protestante (Lutero, 1483-1545), ideologias que deslocaram o sentido de penitência e/ou louvor ao Criador, oriundos da concepção católica, para virtude e/ou obrigação, ou seja, pelo trabalho o homem pode ter êxito e conseqüentemente realizar a vontade divina. De acordo com Weber (1967), o Luteranismo criou a noção de vocação que consistia um chamado de Deus para a realização de um trabalho secular ou missão. Por esse ângulo, o trabalho é visto como virtude, e o acúmulo de capital só é condenável eticamente se permitir o mergulho no ócio. O trabalho é vida, quem não o realiza está transgredindo uma lei natural, está praticando um pecado e, conseqüentemente, estará mais distante da salvação de Deus e da vida eterna.

No discurso dos sujeitos identifico o atravessamento desta ideologia marcada pela centralidade do trabalho, contrapondo a visão de Offe (1989) e Habermas (1990) que, criticando a centralidade, procuram realizar um distanciamento da noção de sucesso como conseqüência do trabalho duro. Fica evidente que para esta categoria de trabalhadores, o trabalho permanece como um dos mais importantes aspectos da existência humana, fonte de status social e bem – estar econômico, de estabilidade ou mobilidade social.

Para o executivo-empreendedor que fez do trabalho seu projeto de vida e construiu sua subjetividade por meio da relação estabelecida com sua atividade, parece ser complicado e delicado pensar a vida sem o trabalho, pois em muitos momentos esse sujeito assujeitado, conformando modos de agir, pensar, sentir e trabalhar fez do trabalho sua razão para viver.

Na velhice, a morte desempenha um papel como fator do desenvolvimento. De acordo com Torres (1999), o fator decisivo de mudança nesta etapa, não é somente a consciência da morte pessoal, mas a consciência da proximidade da morte e, conseqüentemente, da ausência de perspectiva de futuro.

Neste ponto considero importante discutir e relacionar as teorias sociológicas do desengajamento e da atividade com a ideologia já posta, a fim de facilitar a reflexão acerca desta temática. A teoria do desengajamento, de acordo com Sánchez (2000), propõe que o envelhecimento é um processo de afastamento, universal e inevitável, cuja funcionalidade reside em sua utilidade tanto para a sociedade como para o idoso, uma vez que possibilita a primeira criar espaço para pessoas jovens e eficientes, enquanto dá ao idoso tempo para se preparar para o total desengajamento – a morte. Considero esta teoria para compreender o caso de Abel, na medida que busca processualmente preparar seu afastamento e apresenta em seu discurso marcas que levam a crer na sua preparação para o total desengajamento, ...Contrato assinado como vice-presidente do conselho até 2006, se Deus permita que eu viver até lá, né?...

Fabio, Rui e Jair, através das evidencias em seus discursos referem manter-se em atividade sem considerar a possibilidade de parar com a atividade profissional. Manter a atividade posterga a exclusão social pela inatividade e dignifica o homem, conforme a ideologia vigente. Neste sentido é possível contrapor a teoria do desengajamento com a teoria da atividade, que tem como representantes Havighurst (1968), Weiss (1969). Esta teoria considera que estar ativo, resistindo ao desengajamento social e encontrando papéis sociais substitutivos é a possibilidade de manter status e manter-se em atividade, podendo ser considerada como uma perspectiva antienvelhecimento. Em função de Abel manter-se ativo, apesar de estar desempenhando outro papel que demanda um tempo de permanência na organização reduzido, é importante salientar que seu processo também pode ser compreendido através desta teoria.

Para ilustrar esta afirmação, retomo alguns recortes selecionados para a análise deste eixo temático. Inicio destacando o apontamento de Rui ... eu vejo assim que eu tenho muito potencial ainda, né, muita energia, e vontade de trabalhar, porque eu acho que ficar parado também é uma situação até constrangedora, como se diz, parece uma pessoa inútil... Outro recorte em que pode se apontar a influência desta teoria está no dito de Fábio ... Porque..., eu não admitiria, vamos dizer, ficar em casa, certo?... e no discurso de Jair ao colocar, ... Então, tu vê que na realidade, esse meu parar não é bem parar . . . Enquanto for útil para alguém, para alguma coisa, esse negócio de botar pijama e ficar assistindo televisão, esse negócio não é comigo.

O domínio ativo da vida que o leva ao abandono do poder seria uma etapa construtiva para a aceitação realística de sua morte inevitável.

Finalizando a discussão deste eixo, que objetiva identificar os sentimentos que a expectativa de afastamento do trabalho desperta nos sujeitos de pesquisa, através da análise do modo como estão planejando e vivenciando a perspectiva de afastamento, destaco fundamentalmente dois aspectos. O primeiro que identifico é a centralidade do trabalho como reprodução de uma ideologia constituída a partir da Reforma Protestante, que atravessa o discurso dos sujeitos dando sustentação ao sistema capitalista de quanto mais duro se trabalhava, mais se provava ser merecedor da graça divina. E, o segundo aspecto significativo ao abordar o afastamento do trabalho está na relação que os sujeitos estabelecem com o processo de envelhecimento e finitude. A expectativa de afastamento, o parar de trabalhar, está diretamente relacionado ao sentimento de fim da vida.

Para Jair o planejamento para o afastamento de sua atual atividade não implica no afastamento do trabalho. Este afastamento se dará de forma gradativa e a equipe já está preparada para o evento. Admitindo que não irá parar, admite também a existência de um projeto de vida planejado, assim como foi planejada sua carreira. A palavra planejar faz parte da posição que ocupa, em sua profissão. No discurso de Jair, há outros indicativos que remetem a formação discursiva do executivo-empreendedor nos termos e expressões planejadas, projetos, auto-suficiência, espírito de desbravamento, mudança e norte. Estas expressões, características da linguagem executiva, apontam a necessidade de replanificar, programar, pensar, estabelecer metas para alcançar os objetivos propostos.

O projeto existencial do idoso enfrenta as limitações impostas pelo processo de envelhecimento e parece ser por esse motivo que, para alguns sujeitos, é doloroso pensar projetos nessa fase do desenvolvimento. No entanto, autores como Torres (1999) e Seminerio (1999) identificam que há oportunidade de crescimento e desenvolvimento também nesta fase da vida, na medida que uma das atitudes desenvolvidas pelo homem idoso diante da proximidade da sua morte é, a necessidade de fugir da passividade, mantendo assim o controle ativo da vida e da morte.

No entanto, de acordo com a teoria da continuidade desenvolvida por Bernice Neugarten (1968 e 1981), os velhos são iguais e têm as mesmas necessidades psicológicas e sociológicas que na meia idade. No caso dos sujeitos entrevistados é possível evidenciar que seus projetos (novos ou mesmos) estão relacionados a atitudes, valores, metas, hábitos e comportamentos desenvolvidos nas etapas subjacentes à velhice.

Neste contexto é possível dizer do sujeito que durante toda vida encontra no trabalho a possibilidade de realização, durante a velhice esta condição seja mantida.

Jair remete, através de seu discurso, o posicionamento de Seminerio (1999) quando identifica ser importante perceber que em qualquer idade há sempre programas em aberto, pois a vida humana nunca está fechada. Compartilha também da crença de que programas existem sempre e a possibilidade de os realizar é o antídoto contra a finitude.

Tendo em vista projeto de vida, Rui revela sua dificuldade em lidar com estas questões demonstrando não estar preparado para pensar novos projetos que não incluam a empresa. Fábio vincula projeto de vida à realização profissional. Continuar o trabalho relacionado ao ramo imobiliário faz parte do seu projeto de vida. Já Abel não revela seus planos e projetos. Parece que não pensa novos projetos a não ser permanecer na empresa enquanto Deus permita que viva, dando continuidade ao seu projeto de vida, que sempre foi a construção de seu próprio negócio. No discurso de Abel parece que seu projeto de vida é permanecer na empresa enquanto viver.

Independente dos participantes terem ou não novos projetos frente a perspectiva do afastamento do trabalho, parece interessante refletir acerca da importância para os sujeitos em manter o domínio ativo da própria vida através do trabalho, seja ele voluntário ou profissional.

Para concluir esta etapa compartilho do pensamento de Seminerio (1999) ao referir que enquanto nós realizamos, enquanto nós estamos efetivamente construindo através do nosso imaginário algo que até se pode tornar real, enquanto nós tivermos essa condição de elaborar, a nossa vida é, naquele segmento, naquele momento, efetivamente imortal. É possível superar a finitude constantemente através do nosso imaginário, através dos nossos programas, através dos nossos progressos e de nossos projetos.

Considerações finais

Com a Reforma Protestante a idéia de trabalho, como atividade que acompanha o ser humano de forma central na maior parte de sua existência, ganha força e maior significado. As sociedades modernas são nele fundadas, e neste contexto, o trabalho conduz ao sucesso econômico e ascensão nas camadas sociais, transformando-se na garantia da integração e da coesão social. Nessa nova perspectiva, o “gestor” assume forte posição, influenciando significativamente a sociedade numa concepção gerencialista.

Tendo em vista essa concepção de trabalho e de sociedade, a carreira do empreendedor marcada pelo individualismo ressurge nas últimas décadas com força total. As características deste tipo de carreira fortalecem o estreitamento do vínculo com a atividade profissional, pois permitem, através da criatividade, da autonomia, da iniciativa, do gosto pelo risco uma maior apropriação e reconhecimento do trabalho como fundamental motivo de existência. É neste contexto que o sujeito de pesquisa se constitui, fazendo do trabalho seu projeto de vida.

Os sujeitos pertencem a formação discursiva do executivo-empreendedor e mostram que o trabalho é central em suas vidas, pois manifestam forte adesão à posição discursiva que diz: “é preciso trabalhar”, “o trabalho faz sentir-se útil”, “o trabalho dignifica o homem”, ”é preciso continuar”, ”não vou parar, não posso parar”. O sujeito é assim, atravessado pelas regras morais societárias ao construir sua forma de inserção social.

O evento da aposentadoria não tem um impacto relevante na subjetividade do empreendedor, pois não sinaliza ruptura com o mundo do trabalho. O ato de aposentar-se passa a ter um significado de continuidade marcando, em determinados casos, o início de uma nova fase que representa a possibilidade de refletir novos projetos que tomam o trabalho como central.

O prolongamento da estimativa de vida, a necessidade de manter-se em atividade para permanecer produtivo e inserido no sistema, a possibilidade de determinar a hora de parar pela autonomia em relação ao gerenciamento da própria carreira e a dificuldade na delegação do poder e do saber são fatores que determinam a continuidade da condição de trabalhador após a aposentadoria do executivo.Existe, entretanto, o reconhecimento, por parte dos entrevistados, da necessidade de preparação para o afastamento, acreditando e apostando em uma retirada gradativa. As posições assumidas evidenciam para alguns dificuldade em lidar com a questão, para outros a necessidade de planejar, controlar e conduzir projetos iniciando um processo de afastamento gradativo da organização, mas não do trabalho.

O sujeito, assujeitado pela ideologia que dá sustentação ao sistema capitalista de quanto mais duro trabalhava, mais se provava ser merecedor da graça divina evidencia a dificuldade em pensar sua vida sem o trabalho, relacionando a possibilidade de afastamento com o processo de envelhecimento e com o fim da vida. Busco evidenciar os múltiplos sentidos que surgem na atividade enunciativa dos sujeitos pertencentes a esta formação discursiva, tendo em vista captar, nas suas formulações, evidências de que o afastamento do trabalho aponta para o processo de envelhecimento e para as limitações decorrentes desta etapa do desenvolvimento. Trabalhar é viver. Parar é morrer. Trabalho é vida, a vida sem o trabalho denota finitude. No plano da constituição do sentido, o sujeito, ao se apegar à função executiva, quer apagar o sentimento de inutilidade e de morte gradativa frente a iminência de parar.

Identificando a impossibilidade de parar, constato também a dificuldade de pensar novos projetos a partir da perspectiva de afastamento. O trabalho, desta forma, continua ocupando posição central nos projetos de vida do executivo, sendo possível dizer do sujeito que, durante toda vida, encontra no trabalho a possibilidade de realização, a condição de trabalhador é mantida em seu processo de envelhecimento. Este posicionamento evidencia sua adesão a ideologia que se atravessa instigando a necessidade do sujeito manter-se permanentemente em atividade, na busca de novos desafios profissionais que garantam seu reconhecimento enquanto ser trabalhador, enquanto ser social que necessita do trabalho para sentir-se vivo e em sintonia com seus ideais.

Assim, a construção de novos projetos traz a marca do trabalho, identificando também que em qualquer idade há possibilidade de realização já que a vida humana é um processo contínuo em que sempre há espaço para elaborar, significar e ressignificar sentidos de existência ao manter o domínio ativo da própria vida.

O movimento de análise indica que as palavras podem permanentemente surpreender o analista, possibilitando que a cada novo olhar dirigido ao texto se possa encontrar novos sentidos. De acordo com a Análise de Discurso, as considerações descritas para a questão de pesquisa proposta neste estudo podem ser interpretadas a partir da posição ocupada pelo leitor, permitindo a produção de outros sentidos que não os aqui evidenciados.

Notas

¹Psicóloga, mestre em Psicologia Social e Institucional pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Social e Institucional da UFRGS, diretora do IDG – instituto de Desenvolvimento Global

²Assistente Social, Doutor em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Professor do Programa de Pós-graduação em Psicologia Social e Institucional da UFRGS.

³Conforme a ética da pesquisa, os nomes utilizados para identificação dos sujeitos, as cidades e as empresas mencionadas são fictícios.

4Optei em identificar a forma ON, uma vez que o objetivo do autor é fazer considerações acerca do uso da referida forma tal como ela se atualiza na língua francesa. Para Maingueneu (2002), a forma ON do francês, corresponde , em português, as seguintes opções: “[ . . . ] enunciados em que figuram, na posição de sujeito, as formas a gente, nós; enunciados com sujeito indeterminado.” (p.132).

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Abstract

This work analyses the way as the executive-enterpriser-senior subject is dealing with the perspective of removal from work and which are the implications of this relationship in the construction of new life projects. The methodological theoretic referential is the Discourse Analysis of French trend presented by Michel Pêcheux. The discursive sequences quoted come from a corpus formed by form interviews accomplished with enterpriser-executive around 60’s (three subjects) and one 88 years old. The focal points delimited in the corpus were: retirement, and removal from works. Starting from the delimited focal points meaning effects were analyzed in the participant’s discourse, taking as reference the concepts of subject, discourse, interdiscourse and intradiscourse as well as some linguistic marks in the selected discursive sequences. The results point out that the retirement does not have relevant impact in the entrepreneur’s subjectivity because it does not signalize a rupture with the world of work. Another evident meaning is the ideological formation present in the executive’s discourse which I granted to a high centricity in the work. They reveal a great difficulty in thinking their lives without working when relating the possibility of removal from work with the aging process and the end of life. Thus, the work continues to occupy a central position in the executive-senior’s projects of life.
KEYWORDS: aging; retirement; life change events; psychology social; work.

 

Recebido para publicação em: 28/3/2005
Aprovado em: 31/3/2005
Correspondência para:
Cristina Bacigaluz Amarilho
Av. Protásio Alves, 4345 apt. 501
91310-002 – Porto Alegre, RS
E-mail: crisamarilho@terra.com.br