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Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia

versión impresa ISSN 1809-9823

Rev. Bras. Geriatr. Gerontol. v.10 n.3 Rio de Janeiro  2007

 

9 a 12    n     

 

anos

13 ou

mais

Total   

%

a) Hipertensão                 33

  46%      10

 14%     12

  17%        02

    3%     15

  20%

100

b) Infarto do miocárdio   68

  94 %     04

   6%     00

     0%         00

     0%     00

   0%

100 c)Acidente vascular cerebral 71

  98%      01

   2%     00

     0%         00  

     0%     00

   0%

100

d) Angina                        65

  91%      05

   7%     01

    1%        01

     1%     00

   0%

100

e) Diabetes                   

60

  83%      04

   6%     02

    3%        01

     1%     05

   7%

100

f)Artrite/reumatismo  61  85%       04    6%     03     4%        01      1%    03    4% 100

 

A presença de doenças crônicas nessa faixa da população concorre para a necessidade, na maioria dos casos, da utilização de mais de um medicamento. Em geral, as doenças dos idosos (crônicas e múltiplas) perduram por vários anos e exigem desses indivíduos acompanhamento constante da saúde,36 especialmente no que se refere ao uso contínuo de medicamentos. Eles conseqüentemente praticam elevado consumo de medicamentos,32 e, ao serem questionados sobre a quantidade de medicamentos utilizados no período da realização da pesquisa, verificou-se que apenas oito dos entrevistados (11%) não estavam usando medicamentos, enquanto que a maioria significativa (89% dos entrevistados) fazia uso de algum tipo de medicamento.

Nesta pesquisa, foi verificado que o número de medicamentos consumidos pelos idosos variou de um a mais de seis medicamentos por indivíduo, tendo como maior prevalência 39% com o uso de um a dois medicamentos (n=28), 35% de três a quatro medicamentos (n=25); 8%, cinco a seis medicamentos (n=6) e, 7% com mais de seis medicamentos (n=5). O número médio de medicamentos utilizados pelos idosos foi de um a quatro, valor que, embora esteja na faixa usual de dois a cinco medicamentos/pessoa e está próximo ao encontrado por Bernstein,2 cuja média foi de três a 7,3 diferentes medicamentos por idosos. Os resultados desta pesquisa apontam para a necessidade de avaliação de racionalidade do uso desses medicamentos, a fim de prevenir ou minimizar a ocorrência de reações adversas e interações medicamentosas, comuns aos usuários de múltiplos medicamentos, pois os idosos chegam a constituir 50% dos multiusuários de medicamentos.25

Quando avaliado o uso de medicamentos com prescrição médica (tabela 3), 53 idosos (73% dos entrevistados) afirmaram que “sempre” ou ”quase sempre” fazerem uso de medicamentos prescritos por médicos. Achados semelhantes foram encontrados por Chischilles et al.,7 com relação ao consumo de medicamentos prescritos.

Tabela 3 - Consumo exclusivo de medicamentos prescritos

por médico pelos idosos do centro de convivência, Umuarama, Pr, 2005.

 

n

%

Nunca (0)

1

2%

Raramente (1a 25%)

4

6%

Regularmente (26 a 50%)

14

19%

Quase sempre (51 a 75%)

24

33%

Sempre (76 a 100%)

29

40%

Total

72

100%


 

O consumo de medicamentos sem prescrição, prática cada vez mais freqüente entre populações, independentemente dos diferentes contextos socioeconômicos e culturais em que estejam inseridas, pode levar ao aparecimento da possibilidade de se mascarar ou retardar o diagnóstico de condições mais sérias, dificultando a atuação do médico, pois nem sempre o paciente menciona essa prática durante a consulta médica. Desse modo, impõe-se um duplo ônus aos serviços de saúde: além dos gastos decorrentes de consultas médicas, novas despesas originam-se do atendimento a enfermidades relacionadas ao uso inadequado de fármacos.23

A automedicação pode ser praticada ao se adquirir o medicamento sem receita, mas também compartilhando medicamentos com outros membros da família ou do círculo social, utilizar sobras de prescrições e reutilizar antigas receitas.22

Quando questionados, 19 entrevistados (27%) revelaram que praticavam o uso de medicamentos não-prescritos. Destes, 9% (n=7) dos idosos seguiram orientação de terceiros, amigos, familiares, vizinhos; 6% (n=4) recorreram à farmácia e 1% (n=1) foram influenciados por rádio/TV. Foi observada, também, a reutilização de receitas por 20% (n=14) dos idosos pesquisados. A prevalência da automedicação por idosos variou de 27 a 76%, em diferentes estudos realizados por Veras,37 Rozenfeld,30 Antunes,1 e Chischilles et al.7

Nesta pesquisa, os grupos de medicamentos mais citados utilizados por automedicação foram os antiinflamatórios não-esteroidais, vitaminas, grande variedade de fitoterápicos, laxantes, antiácidos, medicamentos para alívio da gripe, antitussígeno e outros. Foi também citado o uso de vasodilatador (cinarizina) e ainda o diazepam, medicamentos raramente citados em trabalhos sobre a automedicação e que devem ser dispensados apenas mediante receita médica, já que podem causar reações adversas graves nos idosos, como sedação excessiva, comprometimento cognitivo e aumento no risco de quedas.8

Observou-se nesta pesquisa, ainda,, que dos 231 medicamentos que estavam sendo utilizados pelos idosos participantes da pesquisa, 193 medicamentos (83%) foram corretamente indicados. Situações como o uso de cinarizina como hipnótico/sedativo, diclofenaco para problemas cardíacos e sulfametoxazol para dores na coluna foram relatados nas entrevistas, e caracterizados como uso incorreto.

O processo de envelhecimento predispõe grandemente a população geriátrica aos riscos da prática de polifarmácia e aos efeitos adversos dos medicamentos,26 sendo responsáveis por cerca de 10% a 20% das admissões hospitalares agudas por causa do elevado uso de medicamentos.34 A possibilidade da ocorrência de efeitos adversos foi observada em 4,4% dos medicamentos utilizados. A avaliação da posologia e o modo de utilização dos medicamentos estavam corretos em 87% e 95,2%, respectivamente. No entanto, com relação ao tempo de utilização, 43,3% dos medicamentos estavam sendo utilizados inadequadamente (tabela 4). Foi constatado o uso de medicamentos como o diclofenaco, omeprazol e diazepam por períodos acima do indicado.

TABELA 4

Tabela 4 - Utilização de medicamentos pelos idosos do centro de convivência, Umuarama, Pr, 2005.

 

 

Para que usa?

 

n

%

 

Correto

193

83,5

 

Incorreto

38

16,5

 

 

Total

231

100%

 

 

Dose/diária

 

n

%

 

Correto

201

87

 

Incorreto

30

13

 

Total

231

100%

 

 

MODO DE UTILIZAÇÃO

 

n

%

 

Correto

220

95,2

 

Incorreto

11

4,8

 

Total

231

100%

 

 

ASSOCIAÇÃO COM outros MEDICAMENTOs

 

n

%

 

Correto

221

95,6

 

Incorreto

10

4,4

 

Total

231

100%

 

 

TEMPO DE USO

 

n

%

 

Correto

131

56,7

 

Incorreto

100

43,3

 

Total

231

100%

 

Nas entrevistas realizadas foram citados 231 medicamentos sendo administrados na maioria das vezes, simultaneamente, em função das múltiplas patologias ou da necessidade terapêutica.

Os anti-hipertensivos foram os medicamentos mais citados (20% do total), com destaque ao captopril, seguido dos antiinflamatórios não-esteroidais (19%), sendo o diclofenaco mais utilizado. Os diuréticos representavam 10% dos medicamentos relatados na pesquisa, sendo o principal representante a hidroclorotiazida. Os fitoterápicos corresponderam a 9% dos medicamentos utilizados, ou seja, uma grande variedade de medicamentos citados, com maior ocorrência do Ginko biloba (Figura 1).

Figura 1 - Freqüência da utilização de medicamentos utilizados por idosos do centro de convivência, Umuarama, Pr, 2005. Os nomes em maiúsculo representam o grupo farmacológico e os nomes em minúsculo, o representante mais freqüente dentro de cada grupo de medicamento

 

 

Conclusão

Os dados obtidos indicaram elevado consumo de medicamentos pelos idosos entrevistados, principalmente na forma de politerapia / multimedicamentos, e também o uso incorreto. A associação de medicamentos pode ocasionar efeitos indesejáveis decorrentes de interações medicamentosas, promovendo danos à saúde do idoso.

O conhecimento do perfil de utilização de medicamentos pelos idosos é fundamental para o delineamento de estratégias, por parte dos profissionais de saúde, na prescrição racional de medicamentos, contribuindo, assim, para o uso adequado de medicamentos nesse segmento etário.

 

Notas

 

a Mestre em Ciências da Saúde, Universidade Estadual de Maringá-UEM.

 

b Professor Doutor, Instituto de Ciências Biológicas, Médicas e da Saúde-Universidade Paranaense de Umuarama - UNIPAR. Praça Mascarenhas de Moraes s/n, -

87502-000, Umuarama, PR, Brasil. E-mail: takemura@unipar.br

c Professor Doutor, Departamento de Farmácia e Farmacologia-Universidade Estadual de Maringá-UEM. Av. Colombo, 5790 - 87020-290, Maringá, PR, Brasil

 e-mail: rkncuman@uem.br

d Professor Doutor, Centro de Tecnologia – Universidade Estadual de Maringá – UEM

Rod. PR 489, 1400 – Jd Universitário CEP 87508-210, Umuarama, PR, Brasil

e-mail: favseixas@uem.br

e Professor Doutor Departamento de Enfermagem-Universidade Estadual de Maringá-UEM. (in memoriam)

 

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  •  

    Recebido em: 27/7/2007

    Aceito: 29/8/2007

     

    ^rND^sBernstein^nLR^rND^sFolkman^nS^rND^sLazarus^nRS^rND^sBraunwald^nE^rND^sAntman^nEM^rND^sCamaro^nAA^rND^sChaimowicz^nF^rND^sChrischilles^nEA^rND^sFoley^nDJ^rND^sWallace^nRB^rND^sLemcke^nJH^rND^sSemla^nTP^rND^sHanlon^nJT^rND^sGlynn^nRJ^rND^sOstfeld^nAM^rND^sGuralnik^nJM^rND^sChutka^nDS^rND^sTakahashi^nPY^rND^sHoel^nRW^rND^sCoelho Filho^nJM^rND^sMarcopito^nLF^rND^sCastelo^nA^rND^sCoelho Filho^nJM^rND^sRamos^nLR^rND^sFanhani^nHR^rND^sCorrea^nMI^rND^sLourenço^nEB^rND^sTakemura^nOS^rND^sFernandes^nED^rND^sBilló^nVL^rND^sLorenson^nL^rND^sFleck^nMPA^rND^sChachamovich^nE^rND^sTrentini^nCM^rND^sFonseca^nJE^rND^sCarmo^nTA^rND^sFried^nLP^rND^sLebrão^nML^rND^sLebrão^nLM^rND^sLaurenti^nR^rND^sLima-Costa^nMF^rND^sBarreto^nSM^rND^sGiatti^nL^rND^sLoyola Filho^nAI^rND^sUchôa^nE^rND^sGuerra^nHL^rND^sFirmo^nJOA^rND^sLima-Costa^nMF^rND^sLoyola Filho^nAI^rND^sUchoa^nE^rND^sAraújo^nJOF^rND^sLima-Costa^nMF^rND^sLyra Junior^nD^rND^sAmaral^nRT^rND^sAbriata^nJP^rND^sPelá^nIR^rND^sMosegui^nGBG^rND^sRozenfeld^nS^rND^sVeras^nRP^rND^sVianna^nCMM^rND^sNóbrega^nOT^rND^sKarnikowski^nMGO^rND^sPedroso^nERP^rND^sSantos^nAGR^rND^sRubenstein^nLZ^rND^sNasr^nSZ^rND^sTamblyn^nR^rND^sTasca^nRS^rND^sSoares^nDA^rND^sCuman^nRKN^rND^sTeixeira^nJJVT^rND^sLefèvre^nF^rND^sTorres^nTGZ^rND^sVeras^nR^rND^sVeras^nRP^rND^sAlves^nMIC^rND^sBernstein^nLR^rND^sFolkman^nS^rND^sLazarus^nRS^rND^sBraunwald^nE^rND^sAntman^nEM^rND^sCamaro^nAA^rND^sChaimowicz^nF^rND^sChrischilles^nEA^rND^sFoley^nDJ^rND^sWallace^nRB^rND^sLemcke^nJH^rND^sSemla^nTP^rND^sHanlon^nJT^rND^sGlynn^nRJ^rND^sOstfeld^nAM^rND^sGuralnik^nJM^rND^sChutka^nDS^rND^sTakahashi^nPY^rND^sHoel^nRW^rND^sCoelho Filho^nJM^rND^sMarcopito^nLF^rND^sCastelo^nA^rND^sCoelho Filho^nJM^rND^sRamos^nLR^rND^sFanhani^nHR^rND^sCorrea^nMI^rND^sLourenço^nEB^rND^sTakemura^nOS^rND^sFernandes^nED^rND^sBilló^nVL^rND^sLorenson^nL^rND^sFleck^nMPA^rND^sChachamovich^nE^rND^sTrentini^nCM^rND^sFonseca^nJE^rND^sCarmo^nTA^rND^sFried^nLP^rND^sLebrão^nML^rND^sLebrão^nLM^rND^sLaurenti^nR^rND^sLima-Costa^nMF^rND^sBarreto^nSM^rND^sGiatti^nL^rND^sLoyola Filho^nAI^rND^sUchôa^nE^rND^sGuerra^nHL^rND^sFirmo^nJOA^rND^sLima-Costa^nMF^rND^sLoyola Filho^nAI^rND^sUchoa^nE^rND^sAraújo^nJOF^rND^sLima-Costa^nMF^rND^sLyra Junior^nD^rND^sAmaral^nRT^rND^sAbriata^nJP^rND^sPelá^nIR^rND^sMosegui^nGBG^rND^sRozenfeld^nS^rND^sVeras^nRP^rND^sVianna^nCMM^rND^sNóbrega^nOT^rND^sKarnikowski^nMGO^rND^sPedroso^nERP^rND^sSantos^nAGR^rND^sRubenstein^nLZ^rND^sNasr^nSZ^rND^sTamblyn^nR^rND^sTasca^nRS^rND^sSoares^nDA^rND^sCuman^nRKN^rND^sTeixeira^nJJVT^rND^sLefèvre^nF^rND^sTorres^nTGZ^rND^sVeras^nR^rND^sVeras^nRP^rND^sAlves^nMIC^rND^nMaria Gabriela Valle^sGottlie^rND^nDenise^sCarvalho^rND^nRodolfo Herberto^sSchneider^rND^nIvana Beatrice Manica da^sCruz^rND^nMaria Gabriela Valle^sGottlie^rND^nDenise^sCarvalho^rND^nRodolfo Herberto^sSchneider^rND^nIvana Beatrice Manica da^sCruz^rND^nMaria Gabriela Valle^sGottlie^rND^nDenise^sCarvalho^rND^nRodolfo Herberto^sSchneider^rND^nIvana Beatrice Manica Da^sCruz

    Aspectos genéticos do envelhecimento e doenças associadas: uma complexa rede de interações entre genes e ambiente

    Genetics aspects of aging and related diseases: a complex network of interactions between genes and environment

     

    Maria Gabriela Valle Gottliea

    Denise Carvalhob

    Rodolfo Herberto Schneiderc

    Ivana Beatrice Manica da Cruzd

     

    Resumo

    O envelhecimento é um processo dinâmico, no qual ocorrem modificações do nível molecular ao morfo-fisiológico, logo após a maturidade, que induzem ao declínio orgânico, aumentando a susceptibilidade e vulnerabilidade a doenças e à morte. A genética do envelhecimento dedica-se ao estudo da contribuição hereditária da espécie e sua interação com o ambiente, que incidem no aumento de modificações biológicas ao longo do tempo. Fez-se uma revisão sobre estudos realizados na área e que sugerem que o envelhecimento está sob um controle genético-ambiental. Exceto em síndromes, a contribuição genética, tanto para o tempo de vida quanto algumas doenças crônicas (Alzheimer, doenças cardiovasculares e diabetes mellitus tipo 2), é relativamente baixa. Este fato demonstra que fatores ambientais, como estilo de vida e dieta, desempenham papel fundamental no fenótipo do envelhecimento. Ou seja, a genética não é uma rota determinística, e cada vez mais pode ser “manipulada” em benefício da saúde. Além disso, o conhecimento da genética do envelhecimento e doenças associadas proporciona, cada vez mais, a elaboração de instrumentos clínicos para o benefício das pessoas idosas.

    Palavras-chave: envelhecimento; processos fisiológicos; suscetibilidade;  vulnerabilidade; genética médica; estilo de vida; dieta; fenótipo; revisão [tipo de publicação]    

    Abstract

    Aging is a dynamic process, when changes occur from the molecular to the morfo-physiological level, after maturity, leading to the organic decline, increasing susceptibility and vulnerability to diseases and to death. The genetics of aging studies the hereditary contribution of species and interaction with environment, causing biological modifications along time. It is a review of studies on this subject, suggesting that aging is under a genetic-environmental control. Except for syndromes, the genetic contribution such as life span and some cronic diseases (Alzheimer, cardiovascular diseases and diabetes mellitus type 2) is relatively low. This shows that environmental factors, such as life style e diet, play a fundamental role on aging phenotypes. Genetics is not a deterministic route, and more and more it can be “manipulated” on behalf of health. Moreover, knowledge on the genetic of aging and associated diseases will provide more clinical instruments to benefit elderly people.

    Key words: aging; physiological processes; susceptibility; vulnerability; genetics, medical; life style; diet; phenotype; review [publication type]  

    EXISTE DIFERENÇA ENTRE DESENVOLVIMENTO E ENVELHECIMENTO? 

    O organismo humano, desde sua concepção até a morte, passa por diversas fases: desenvolvimento, puberdade, maturidade ou estabilização e envelhecimento. E de maneira semelhante às outras fases do desenvolvimento, o envelhecimento também é marcado fundamentalmente por uma série de mudanças que vão desde o nível molecular até o morfofisiológico. Essas mudanças têm início relativamente cedo, ao final da segunda década da vida, perdurando por longo tempo pouco perceptível, até que surjam, no final da terceira década, as primeiras alterações funcionais e/ou estruturais atribuídas ao envelhecimento.3

    Em animais complexos, incluindo os seres humanos, o processo de envelhecimento é inexorável. Tal processo condiciona a um progressivo decréscimo na capacidade fisiológica e na redução da habilidade de respostas ao estresse ambiental, levando a um aumento da suscetibilidade e vulnerabilidade a doenças.24

    A par dessas evidências, somente na segunda metade do século passado é que o estudo do envelhecimento e doenças associadas abandonou a província das especulações, e os estudos experimentais e clínicos multiplicaram-se. Em seguida, muitos aspectos do envelhecimento e do idoso passaram a ser discutidos e mais bem conhecidos, permitindo, então, que o estudo aprofundado do fenômeno envelhecimento passasse para ramo central do desenvolvimento científico. A fisiologia celular e a compreensão da imensa rede interconectada do genoma humano têm demonstrado que o fracasso em manter a eficácia de toda a maquinaria que constitui o organismo vivo é um fator inerente ao seu desenho evolutivo, mas não impossível de ser manejado.

    Neste sentido, um questionamento feito freqüentemente é se existiria diferença entre desenvolvimento e envelhecimento? Considerando que no momento da fecundação o organismo passa a se autodeterminar, em termos de crescimento e morfo-diferenciação, e assim continua ao longo do seu amadurecimento e reprodução, o envelhecimento seria a última etapa do desenvolvimento.

    Entretanto, muitas vezes o termo desenvolvimento é utilizado para identificar todas as mudanças que parecem conduzir a um aumento e eficácia do funcionamento de um organismo. O termo envelhecimento, embora seja difícil estabelecer uma definição conceitual, é freqüentemente empregado para descrever as mudanças morfofuncionais ao longo da vida, que ocorrem após o período reprodutivo sexual e que progressivamente comprometem a capacidade de resposta dos indivíduos ao estresse ambiental e à manutenção da homeostasia.18 Finch7 ressalta que o envelhecimento apresenta, como única característica universal, a observação dessas mudanças ao longo do tempo, independentemente de terem ou não efeito deletério sobre a vitalidade e longevidade. O termo envelhecimento também é usado para descrever virtualmente todas as mudanças dependentes do tempo às quais as entidades biológicas, das moléculas aos ecossistemas, são sujeitas, embora os mecanismos e conseqüências para a função possam ser bastante diferentes.18

    Em revisão sobre a biologia do envelhecimento, Troen24 descreveu que existiriam dois tipos de envelhecimento: o biológico normal e o usual. O envelhecimento normal envolve as mudanças biológicas inexoráveis e universais, características do processo, tais como cabelos brancos, rugas, menopausa, perda da função renal, etc. Entretanto,  no envelhecimento usual, além destas alterações biológicas, observamos o aumento da prevalência de doenças crônicas. Essas doenças se originam do acúmulo de danos, ao longo da vida, oriundos sobretudo da interação entre fatores genéticos com hábitos não-saudáveis, como uma dieta desbalanceada, tabagismo, etilismo e sedentarismo. Um estilo de vida inapropriado acaba aumentando a ineficiência metabólica, que contribui substancialmente para a quebra da homeostasia corporal. Tal fato torna o indivíduo pouco a pouco mais suscetível a lesões orgânicas, culminando no desencadeamento de patologias associadas. Adicionalmente, a alteração da homeostase em indivíduos idosos é provavelmente o resultado de um programa genético que determina uma maior ou menor suscetibilidade e vulnerabilidade a doenças, e em última instância, a morte. Dentre as patologias associadas à idade, a doença cardiovascular é uma das principais representantes do cenário usual de doenças associadas ao envelhecimento. Esta constatação pode ajudar na identificação de causas intrínsecas (genes) e extrínsecas (ambiental) que afetam de maneira singular e diferencial o processo de envelhecimento em cada indivíduo.

     

    A GENÉTICA DO ENVELHECIMENTO

     

    O estudo da genética do envelhecimento surge como mais uma ferramenta imprescindível para ajudar a montar o quebra-cabeça complexo e intricado que é o processo de envelhecimento e morte de um organismo. O estudo abrange a análise de padrões de herança que determinam a variação na amplitude de tempo de vida e o desenvolvimento de doenças crônico-degenerativas associadas.

    Dentro da genética do envelhecimento existem três importantes focos de estudo com abordagens inter-relacionadas, as quais podemos citar:

    1. estudo da herança genética familiar: os estudos em genética humana são mais difíceis de serem realizados do que em animais inferiores e em plantas, devido a uma série de questões éticas e metodológicas envolvidas, mas em estudos familiares, sobretudo com gêmeos, tanto monozigóticos quanto os dizigóticos, é possível verificar que os princípios da hereditariedade também têm validade com relação ao modo de transmissão de inúmeros caracteres humanos. A hereditariedade é uma força conservadora que confere estabilidade a sistemas biológicos. Contudo, nenhum mecanismo composto de moléculas e sujeito aos impactos e interferências do ambiente pode ser perfeito. Com isso é possível produzir seqüências alteradas de DNA-Mutações que são perpetuadas.5

    Entre os princípios mais importantes da hereditariedade estão os de que o fluxo de informações do genótipo para o fenótipo é unidirecional e que as unidades hereditárias transmissíveis mantêm sua identidade de geração para geração. Contudo, o ambiente pode interferir na transmissão dos caracteres hereditários e induzir a variação. Assim, a não-linearidade da resposta de alguns genótipos à mudança de ambiente resulta na existência de fenótipos distintos como produtos dessa interação. Isso explica por que muitas doenças crônicas (Alzheimer, doenças cardiovasculares e diabetes mellitus tipo 2) têm herdabilidade relativamente baixa, menos de 40%.6,25 Os estudos com gêmeos e de história familial fornecem informações valiosas em relação ao padrão de herança de determinada característica (ligada ao sexo, autossômica dominante ou recessiva, etc.), a distribuição das freqüências alélicas e genotípicas dentro de uma população, mas, acima de tudo, contribui imensamente para o entendimento das doenças crônico-degenerativas que afetam o segmento idoso.

    2. estudo das modificações epigenéticas do envelhecimento: refere-se ao estudo de mudanças na expressão gênica que ocorrem sem uma mudança na seqüência de DNA. Pesquisas têm mostrado que mecanismos epigenéticos proporcionam um controle transcricional extra, que regulam o modo como os genes são expressos. Esses mecanismos são componentes críticos no crescimento e desenvolvimento normal das células. O genoma humano contém 23.000 genes que devem ser expressos em células específicas em tempo precisos. Mudanças estruturais da cromatina influenciam a expressão gênica: genes são inativados quando a cromatina está condensada (silenciosa); genes são ativados quando a cromatina está aberta (ativa). Estes estados dinâmicos da cromatina são controlados por padrões epigenéticos reversíveis, como metilação do DNA e modificações em histonas.21,4 Diversos estudos têm mostrado que anormalidades epigenéticas estão envolvidas no câncer, desordens genéticas e síndromes pediátricas, bem como contribui para doenças auto-imunes e envelhecimento.20

     

    3. estudo da expressão de genes associados ao envelhecimento: em humanos, o estudo da expressão de genes associados ao envelhecimento está amplamente direcionado para genes mutados, que são responsáveis pela aceleração do processo de envelhecimento, do que genes que podem retardar esse processo. A existência de doenças geneticamente herdáveis que manifestam vários fenótipos do envelhecimento são conhecidas há bastante tempo. Tais distúrbios genéticos são denominados de síndromes progeróides, porque elas aceleram alguns, mas não todos, os sinais do envelhecimento normal (Tabela 1). As síndromes progeróides são causadas por mutações em um gene que está envolvido em um ou mais processos de manutenção e integridade do genoma (replicação, reparo, transcrição e recombinação) para a manutenção somática durante o envelhecimento. Alguns genes são importantes candidatos associados ao envelhecimento, como mostra a tabela 1. 

    Tabela 1 - Características gerais de síndromes progeróides e as patologias associadas ao envelhecimento precoce em humanos.12,13,14,15

     

    Síndrome Progeróide

    Herança

    Defeito genético

    Expectativa de Vida Máxima (anos)

    Patologias Associadas ao Envelhecimento

    Alterações Celulares

    Alterações Moleculares

    Síndrome de Werner

    Autossômica Recessiva

    Mutação no Gene WRN (família das helicases)

    60

    Atrofia da pele, perda de cabelo, atrofia muscular, osteoporose, aterosclerose, catarata, diabetes, hiperlipidemia, hipogonadismo e câncer.

    Rearranjo cromossômico, capacidade reduzida de replicação celular, desenvolvimento lento,

    Aumento da taxa de mutação,rápido encurtamento dos telômeros, replicação e reparo do DNA defeituosos.

    Hutchinson-Gilford-Progeria

    Autossômica Dominante

    -

    25

    Atrofia da pele, perda da gordura subcutânea, perda da massa óssea, aterosclerose, hipogonadismo

     

     

    -

    Reparo do DNA defeituoso

    Síndrome de Down

    Esporádica

    Trissomia do 21

    70

    Amiloidose, Alzheimer, doença vascular, leucemia, diabetes, catarata, hipogonadismo

     

    Elevada síntese do precursor da proteína amilóide (APP), reparo do DNA defeituoso.

    Síndrome de Cockayne

    Autossômica Recessiva

    Mutação no gene Cs-B uma ATPase da famíla Swi2. Mutações em genes da famíla das helicases.

    40(?)

    Perda da gordura subcutânea, fotosensibilidade na pele, neurodegeneração, hipogonadismo.

    Sensível aos raios UV.

    Falha na transcrição e no reparo de nucleotídeos excisados.

    Ataxia

    Telangietacsia

    Autossômica Recessiva

    Perda da ATM, uma proteína kinase do PI-3

    40-50

    Neurodegeneração, imudeficiência, câncer, alterações oculocutâneas, telangiectasias,  hipogonadismo.

     

    Interrupções no reparo ciclo celular, rearranjo cromossômico, sensibilidade a radiação ionizante, reduzida capacidade replicativa.

    Encurtamento telomérico, defeitos no reparo do DNA.

     

    No ser humano é muito difícil separar a genética do envelhecimento, da genética da longevidade. Isto porque os diferentes genes envolvidos para uma maior ou menor longevidade podem responder a diversos estímulos ambientais, que quando somados podem afetar diretamente no fenótipo, podendo acelerar ou retardar o processo de envelhecimento. Deste modo, estudos que estabeleçam as relações e interações entre polimorfismos genéticos, ambiente, envelhecimento e resposta adaptativa são fundamentais para o entendimento da determinação dos diferentes fenótipos ligados ao envelhecimento.  

    GENES DA LONGEVIDADE 

    Uma variedade de evidências indica que o envelhecimento e a longevidade estão sujeitos à regulação gênica, porém somente na década passada a identidade desses genes começou a ser desvendada. As investigações em modelos experimentais, principalmente em invertebrados (C. elegans e Drosophila melanogaster), têm proporcionado grandes avanços na descoberta de “genes da longevidade”. Alguns autores denominam os genes responsáveis pela manutenção funcional dos níveis organizacionais de vitagenes ou gerontogenes.19  Quadro 1 

    Quadro 1 - Diferentes níveis organizacionais corporal responsáveis pela manutenção funcional no envelhecimento e longevidade dos seres humanos de acordo com Rattan.16 

    Níveis Organizacionais

    Componentes

    Molecular

    Manutenção e reparo do genoma (DNA)

    Fidelidade na Transferência da informação genética

    Turnover de macromoléculas

    Síntese de proteínas de estresse

    Controle de radicais livres

    Celular(morfo-bioquímico)

    Manutenção da diferenciação celular

    Controle e regulação da manutenção celular

    Estabilidade das condições homeostáticas da célula incluindo: manutenção do pH, viscosidade, balanço iônico, controle hídrico

    Estabilidade das membranas celulares

    Manutenção das funções celulares

    Histológico e de Órgãos

    Neutralização e remoção de substâncias químicas tóxicas\

    Regeneração tecidual

    Morte Celular

    Físiológico

    Resposta neuronal

    Resposta hormonal

    Resposta imune

    Resposta ao Estresse

    Termoregulação

    A convicção de que genes, bem como o ambiente e fatores comportamentais podem influenciar a taxa de envelhecimento dentro de uma espécie, se consolidou a partir da demonstração de que é possível selecionar linhagens de Drosophila com longevidade aumentada ou curta. Com relação à mosca-das-frutas Drosophila, cientistas têm identificado uma variedade de mutações que aumentam a expectativa de vida ou modificam a extensão da expectativa de vida, através de outras mutações ou por interações genético-ambientais.12 Tais genes são denominados genes da longevidade. Entretanto, camundongos também são ótimos modelos experimentais muito utilizados em estudos sobre o desenvolvimento e envelhecimento, devido a sua anatomia mais complexa e ao conhecimento a respeito de seu metabolismo e fisiologia. Alguns genes já foram identificados, e mutações nos mesmos, afetando a sua função, influenciam no desenvolvimento e na longevidade. Os genes da longevidade podem influenciar na expectativa de vida de várias formas: 19,12

    1. a total ou parcial ablação do gene pode aumentar ou diminuir a expectativa de vida;

    2. a superexpressão do gene ou um alelo particular pode aumentar ou diminuir a expectativa de vida;

    3. a interação com o ambiente pode interferir na extensão da expectativa de vida.

    Mas afinal, que genes seriam estes e em que rotas metabólicas estariam atuando? 

    GENES QUE “CAUSAM” O ENVELHECIMENTO: esta categoria inclui genes que desencadeiam o processo de envelhecimento precoce. Os exemplos clássicos destes genes que levam ao acúmulo acelerado das modificações biológicas associadas ao envelhecimento e à morte precoce dos seus portadores são: o gene da Síndrome de Hutchinson-Gilford e da Síndrome de Werner (WRN).12 Tabela 1 

    GENES QUE ALTERAM A LONGEVIDADE ASSOCIADOS A DOENÇAS: genes que causam ou aumentam o risco de doenças podem levar a uma diminuição dramática da expectativa de vida. Entretanto, apesar de existirem evidências de que determinados genes estejam associados à longevidade, é muito difícil que todos os genes candidatos ao aumento ou encurtamento da mesma o sejam para todas as populações humanas. Sendo o envelhecimento e, portanto, a longevidade, uma característica multifatorial, a não ser nos casos das síndromes de Werner e progeria, as demais mutações associadas à longevidade dependem provavelmente da interação de outras variáveis. Exemplos de genes associados à longevidade têm sido descobertos com relativa freqüência nos últimos anos: apolipoproteína E (APO E), enzima conversora da angiotensina (ECA), PAI-1, MnSOD (superóxido dismutase dependente de manganês), genes do complexo de histocompatibilidade (MHC), entre outros.12 Tabela 2 

    GENES QUE DETERMINAM O TIPO DE IDOSO QUE SEREMOS: existem muitos genes envolvidos com o processo de envelhecimento e com o surgimento de doenças crônicas não-transmissíveis. Contudo, as diferenças na genética de cada ser humano podem ajudar a determinar como e quando teremos cabelos brancos ou desenvolveremos algumas patologias, como: osteoporose, diabetes tipo II, declínio cognitivo, senescência imune ou outras complicações. Alguns autores têm descrito mutações que produzem uma ou mais mudanças em diversos níveis (molecular, fisiológico e bioquímico) em idosos, que podem acelerar processos patológicos.12 Alguns exemplos estão listados na tabela 2. 

    Tabela 2 - Genes que desempenham papel protetor contra o aparecimento de doença associadas ao envelhecimento em humanos

     

    Gene

    Função/Características

    Comentários

    Referências

    APO E

    Metabolismo das lipoproteínas

    O alelo E2 é frequentemente encontrado em centenários, enquanto que o alelo E4 está associado a estados demênciais e DCV.

     

    Schachter et al. 199422

     

    ECA

    Enzima conversora de Angiotensina

    Desempenha um papel importante na pressão sanguínea.

     

    Schachter et al. 199422

     

    PAI1

     

     

    Ativador do Inibidor de Plasminogênio

    Desempenha um papel importante na coagulação sanguínea, afetando assim o risco de infarto.

     

    Mannucci et al. 199716

     

    HLA-DR

     

    Complexo Maior de Histocompatibilidade

     

     

    A variante DR é frequente em centenários; resistentes a infecções e inflamações?

     

    Ivanova et al. 199813

     

    WRN

     

    Síndrome autossômica dominante

    Gene responsável pela síndrome de Werner; mutação leva ao envelhecimento precoce e uma série de doenças associadas, como: câncer, cataratas, osteoporose etc.

    Yu et al. 199626

    Huang et al. 199811

    Martin and Oshima 200017

     

     

    EPIDEMIOLOGIA DO CURSO DE VIDA: modificações do programa genético do desenvolvimento 

    Evidências científicas mais recentes sugerem que não é só o estilo de vida do indivíduo adulto que interfere na evolução de doenças na velhice. As condições de vida pré-natal e pós-natal também são importantes e precisam ser controladas, a fim de diminuir a prevalência dessas doenças na população. Estudos mostraram que condições de desnutrição detectadas pelo baixo-peso ao nascer tornam esses indivíduos mais suscetíveis a doenças cardiovasculares na fase adulta, bem como a deficiência de alguns compostos nutricionais, como é o caso do folato.

    Estudos recentes têm demonstrado que, ainda que a deficiência do folato na gestação não chegue a gerar fetos malformados, a mesma modifica padrões do desenvolvimento (principalmente do cérebro) que aumentam a suscetibilidade da criança para desenvolver, na fase da adolescência e do adulto jovem, distúrbios neuropsiquiátricos como a esquizofrenia, etc. A influência da nutrição materno-infantil nas doenças adultas é explicada através da hipótese de que a deficiência do folato faz com que as células que estão sendo formadas no embrião precisem se adaptar metabolicamente à falta do composto. Tal adaptação, que não é esperada no desenvolvimento normal, é transmitida a todas as células que se originarão e, assim, permanecem na fase adulta e idosa da pessoa.23

    As evidências de que as condições intra-uterinas podem afetar a suscetibilidade a doenças crônicas não-transmissíveis nos idosos impulsionaram a construção de um novo conceito da “epidemiologia do curso de vida”.15

    Segundo a hipótese de Baker et al.1, fatores ambientais, principalmente a nutrição, atuam em estágios iniciais do desenvolvimento, programando os riscos para o surgimento precoce de doenças cardiovasculares e distúrbios metabólicos, bem como morte prematura (adultos jovens). A hipótese gerada por Baker et al.1 propunha que alterações na nutrição e no estado endócrino do feto resultariam em adaptações de desenvolvimento que modificariam permanentemente sua estrutura, fisiologia e metabolismo.

    Talvez este seja o mais dramático exemplo de que a interação gene-ambiente afete o envelhecimento e a longevidade. Isto porque o desenvolvimento, em todos os estágios, obedece a um programa genético bem estabelecido, ainda que tenha alguns períodos mais flexíveis a respostas ambientais. Sendo assim, a interferência na programação genética do desenvolvimento cria uma cascata de eventos metabólicos que atuam na vida tardia do indivíduo. Talvez esta seja uma das explicações da razão pela qual muitas vezes indivíduos sem risco genético ou ambiental aparente acabam desenvolvendo tais morbidades.

    A idéia de que os estados nutricionais da fase intra-uterina e do início da infância podem afetar a prevalência de doenças crônico-degenerativas atinge o Brasil de modo dramático, já que a população mais pobre, além de ser mais suscetível às doenças transmissíveis, tende a concentrar grupos mais suscetíveis a doenças crônico-degenerativas como obesidade, hipertensão, dislipidemia, doenças cardiovasculares, entre outras.

    Nestes termos, o lançamento de programas de prevenção baseados no repasse de informações a indivíduos adultos ou idosos também deve ser feito de modo paralelo à implementação de um programa de educação para a saúde, a partir da idéia de que os educadores de todos os níveis e especializações precisam ser capacitados com conhecimento que permita desenvolver metodologias educacionais voltadas à formação de uma nova consciência, tanto nas novas gerações quanto nas mais idosas, com vistas a uma vida saudável.  

     

    CONCLUSÃO 

    Os conhecimentos sobre genética, biologia molecular e evolutiva do envelhecimento, aliados aos fatores ambientais, tais como nutrição, estilo de vida e características biopsicossociais, são o caminho para se começar a desvendar a rede de complexidade biológica que envolve os processo de saúde, doença, envelhecimento e longevidade humana. A partir desses conhecimentos, será possível desenvolver drogas mais eficazes e com menos efeitos adversos, bem como construir estratégias que permitirão “a personalização da prevenção” de múltiplas doenças ligadas ao envelhecimento, desde as fases mais precoces da vida. 

    NOTAS 

    a Bióloga, Mestre em Ciências da Saúde pelo Programa de Pós-Graduação em Medicina e Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Pesquisadora Associada no Laboratório de Genômica do Desenvolvimento, Departamento de Morfologia, Universidade Federal de Santa Maria. E-mail: vallegot@hotmail.com. 

    b Farmacêutica, Doutora em Gerontologia Biomédica pelo Instituto de Geriatria e Gerontologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Professora no Departamento de Biologia e Farmácia da Universidade de Santa Cruz. Pesquisadora Associada no Laboratório de Genômica do Desenvolvimento, Departamento de Morfologia, Universidade Federal de Santa Maria. E-mail: dcpuc@terra.com.br 

    c Médico Geriatra, Mestre e Doutor em Clínica Médica – área de concentração em Geriatria, professor no Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS, chefe do Serviço de Geriatria do Hospital São Lucas da PUCRS. 

    d Bióloga, Doutora em Genética e Biologia Molecular pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professora Adjunta e Pesquisadora no Departamento de Morfologia, Centro de Ciências da Saúde. Laboratório de Genômica do Desenvolvimento, Universidade Federal de Santa Maria. E-mail: ibmcruz@hotmail.com

     

    AGRADECIMENTOS

    Agradecemos especialmente à professora doutora Carla Schwanke, pelo auxílio prestado aos autores deste artigo.  

    REFERÊNCIAS: 

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    Recebido em: 25/5/2007

    Aceito: 1/8/2007

    ^rND^sBarker^nDJ^rND^sOsmond^nC^rND^sGolding^nJ^rND^sKuh^nD^rND^sWadsworth^nME^rND^sBohr^nVA^rND^sDianov^nG^rND^sBalajee^nA^rND^sMay^nA^rND^sOrren^nDK^rND^sCarvalho Filho^nET^rND^sFeinberg^nAP^rND^sTycko^nB^rND^sFinch^nCE^rND^sTanzi^nRE^rND^sFinch^nCE^rND^sRuvkun^nG^rND^sFry^nM^rND^sLoeb^nLA^rND^sGoto^nM^rND^sHuang^nS^rND^sLi^nB^rND^sGray^nMD^rND^sOshima^nJ^rND^sMian^nIS^rND^sCampisi^nJ^rND^sIvanova^nR^rND^sHenon^nN^rND^sLepage^nV^rND^sJohnson^nB^rND^sSinclair^nDA^rND^sGuarente^nL^rND^sKuh^nD^rND^sBen-Shlomo^nY^rND^sLynch^nJ^rND^sHallqvist^nJ^rND^sMannucci^nPM^rND^sMari^nD^rND^sMerati^nG^rND^sMartin^nGM^rND^sOshima^nJ^rND^sOliveira^nKA^rND^sDA Cunha^nGL^rND^sDA Cruz^nIBM^rND^sRattan^nSI^rND^sRodenhiser^nD^rND^sMann^nM^rND^sRountree^nMR^rND^sBachman^nKE^rND^sHerman^nJG^rND^sSchachter^nF^rND^sFaure-Delanef^nL^rND^sGuenot^nF^rND^sStover^nPJ^rND^sGarza^nC^rND^sTroen^nRB^rND^sWillitt^nWC^rND^sYu CE^rND^sOshima^nJ^rND^sFu^nFH^rND^sBarker^nDJ^rND^sOsmond^nC^rND^sGolding^nJ^rND^sKuh^nD^rND^sWadsworth^nME^rND^sBohr^nVA^rND^sDianov^nG^rND^sBalajee^nA^rND^sMay^nA^rND^sOrren^nDK^rND^sCarvalho Filho^nET^rND^sFeinberg^nAP^rND^sTycko^nB^rND^sFinch^nCE^rND^sTanzi^nRE^rND^sFinch^nCE^rND^sRuvkun^nG^rND^sFry^nM^rND^sLoeb^nLA^rND^sGoto^nM^rND^sHuang^nS^rND^sLi^nB^rND^sGray^nMD^rND^sOshima^nJ^rND^sMian^nIS^rND^sCampisi^nJ^rND^sIvanova^nR^rND^sHenon^nN^rND^sLepage^nV^rND^sJohnson^nB^rND^sSinclair^nDA^rND^sGuarente^nL^rND^sKuh^nD^rND^sBen-Shlomo^nY^rND^sLynch^nJ^rND^sHallqvist^nJ^rND^sMannucci^nPM^rND^sMari^nD^rND^sMerati^nG^rND^sMartin^nGM^rND^sOshima^nJ^rND^sOliveira^nKA^rND^sDA Cunha^nGL^rND^sDA Cruz^nIBM^rND^sRattan^nSI^rND^sRodenhiser^nD^rND^sMann^nM^rND^sRountree^nMR^rND^sBachman^nKE^rND^sHerman^nJG^rND^sSchachter^nF^rND^sFaure-Delanef^nL^rND^sGuenot^nF^rND^sStover^nPJ^rND^sGarza^nC^rND^sTroen^nRB^rND^sWillitt^nWC^rND^sYu CE^rND^sOshima^nJ^rND^sFu^nFH^rND^nAlessandra Barbosa^sLopes^rND^nJuliana Maria^sGazzola^rND^nNaira Dutra^sLemos^rND^nNatalia Aquorini^sRiccid^rND^nAlessandra Barbosa^sLopes^rND^nJuliana Maria^sGazzola^rND^nNaira Dutra^sLemos^rND^nNatalia Aquorini^sRiccid^rND^nAlessandra Barbosa^sLopes^rND^nJuliana Maria^sGazzola^rND^nNaira Dutra^sLemos^rND^nNatalia Aquorini^sRiccid

    Independência funcional e os fatores que a influenciam no âmbito de assistência domiciliária ao idoso

    Functional independence and factors that influence it in the scope of home care to elderly people    

    Alessandra Barbosa Lopesa

    Juliana Maria Gazzolab

    Naira Dutra Lemosc

    Natalia Aquorini Riccid

    Resumo

    Objetivo: Verificar os fatores associados à independência funcional de idosos em assistência domiciliária. Método: Estudo clínico quantitativo, descritivo-analítico com corte transversal realizado por meio de investigação de 80 prontuários de idosos atendidos em programa de assistência domiciliária. Resultados: A amostra de idosos foi composta por uma maioria feminina (76,3%), viúva (57,5%), idade avançada (83,36 ± 7,67) e acamada (50%). Os idosos em geral apresentaram baixa pontuação na MIF total (61,08 ± 33,10), MIF motora (41,03 ± 24,38) e MIF cognitiva (20,05 ± 10,77), revelando uma dependência funcional. A presença de várias co-morbidades associadas e polifarmácia tiveram correlação positiva fraca significante com a piora na pontuação da MIF cognitiva. A presença de doenças da pele e/ou tecido subcutâneo, transtornos mentais e estar acamado foram fatores associados à piora na pontuação da MIF total, motora e cognitiva. A presença de doenças do sistema nervoso esteve associada ao declínio da MIF total e motora. Conclusões: O reconhecimento dos fatores associados ao declínio funcional (classes específicas de doenças, polifarmácia e tipo de locomoção) pode conduzir os profissionais a uma intervenção que assista aos principais problemas, antes mesmo que eles se instalem e venham a prejudicar a qualidade de vida dos idosos.

    Palavras-chave: saúde do idoso; idoso débil; pacientes domiciliares; assistência domiciliar  

    Abstract

    Introduction: To verify the factors associated to functional independence of elderly in home care assistance. Method: Analytical description of a cross-sectional study was accomplished through 80 handbooks of elderly people assisted in a Home Care Program. Results: The elderly sample was composed of a majority feminine (76,3%), widows (57,5%), advanced age (83,36 ± 7,67) and bed rest (50%). They presented a low punctuation in total FIM (61,08 ± 33,10), motor (41,03 ± 24,38) and cognitive (20,05 ± 10,77), developing a functional dependence. The presence of several disease associated and high consumption of drugs had a significant weak positive correlation with a decrease in the punctuation of cognitive FIM. The presence of skin disease and/or subcutaneous tissue, mental problems and to be rest are issues associated with the decrease in punctuation of total FIM, motor and cognitive. The presence of nervous systems disease was associated with functional decline of total FIM and motor. Conclusions: The acknowledgement of factors associated to functional decline (specific classes of disease, high consumption of drugs and kind of locomotion) can lead to a professional assistance of the main problems, before they are installed and come to impair elderly people’s quality of life.

    Keywords: health of the elderly; frail elderly; homebound persons; home nursing    

    Introdução

    A modalidade de assistência domiciliária (AD) foi criada como uma alternativa aos atendimentos hospitalares e ambulatoriais tradicionais, com o intuito de prestar assistência de saúde àqueles que necessitavam de cuidados, intensivos ou não, com condições de serem realizados no próprio domicílio.1,3,17,30,33,34

    Dentre os pacientes que utilizam esse tipo de atendimento, destacam-se aqueles com doenças crônicas não-transmissíveis. Noventa e quatro por cento dos idosos apresentam ao menos uma doença crônica, o que acarreta a necessidade de um controle clínico-funcional em longo prazo.21 A falta desse controle predispõe ao desenvolvimento de limitações e incapacidades permanentes.1,3

    Kuo et al.11 destacaram vantagens no atendimento domiciliar específico ao idoso, como a melhora na saúde mental, estado funcional e nenhum aumento nos custos. Os autores ainda ressaltam que esse tipo de programa não visa somente à sobrevida, mas também promove o retardamento da institucionalização, redução de custos e melhoria da qualidade de vida.11 A fim de alcançar os objetivos supracitados, os programas de AD em Gerontologia preocupam-se em maximizar a autonomia e independência dos idosos3, uma vez que a qualidade de vida destes é afetada diretamente pela capacidade funcional.34

    Por esta razão, o tratamento do idoso requer o empenho de uma equipe multiprofissional que utiliza uma avaliação abrangente multidimensional, para traçar a forma mais adequada de assistência. Nessa avaliação abrangente, é essencial a análise da capacidade funcional por meio das atividades de vida diária (AVD) e atividades instrumentais de vida diária. Esse tipo de avaliação pode ser realizado por meio da aplicação de instrumentos como a Medida de Independência Funcional (MIF).

    A MIF avalia o grau de independência funcional durante a realização das tarefas de vida diária, quantificando o que indivíduo é capaz de realizar de forma independente ou com auxílio de terceiros. A versão brasileira da MIF foi validada, apresentando boa reprodutibilidade e confiabilidade na sua aplicação.8,9,10,22,23,26

    Apesar de reconhecido, por meio da MIF, que essa modalidade pode manter ou retardar o nível funcional dos idosos no período de um ano,25 ainda não se sabe quais são os fatores relacionados ao grau de capacidade funcional dos idosos atendidos no domicílio para que se possam instaurar medidas de tratamento e prevenção, possibilitando não somente a manutenção, mas também a promoção da melhora funcional.

    Por esta razão, atualmente estão sendo desenvolvidos estudos que investigam os fatores associados à capacidade funcional. No âmbito hospitalar, verificou-se que entre as variáveis que influenciaram na piora da capacidade funcional dos idosos internados, destacaram-se o baixo grau de escolaridade, o pronto-socorro como via de entrada, histórico de quedas, dias de internação, estado cognitivo, estado de confusão aguda e complicação clínica.31 Em idosos residentes na comunidade, a dependência moderada/grave esteve associada às características de ser analfabeto, aposentado, pensionista, dona-de-casa, não ser proprietário de moradia, ter mais de 65 anos, ter composição familiar multigeracional, ter sido internado nos últimos seis meses, ser “caso” no rastreamento de saúde mental, não visitar amigos, ter problemas de visão, ter história de derrame, não visitar parentes e ter avaliação pessimista da saúde ao se comparar com seus pares.28 Embora esses estudos auxiliem a detectar problemas relacionados à capacidade funcional da população idosa em geral, é necessário compreender as especificidades relacionadas a cada modalidade de assistência à saúde, já que é reconhecido que o grau de dependência se relaciona com o serviço em que o idoso está inserido.

    Devido à necessidade de desenvolvimento de melhorias no atendimento e qualidade de vida ao idoso, considerando haver poucos estudos na área, o presente estudo tem como objetivo verificar os fatores associados à independência funcional dos idosos no âmbito da assistência domiciliária. 

    Material e Método

                       Foi realizado estudo clínico quantitativo do tipo descritivo-analítico com corte transversal, por meio de investigação de fontes indiretas de dados (prontuários). O estudo foi previamente aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da instituição, sob protocolo nº1.569/06.

    A amostra foi constituída por 80 prontuários de idosos atendidos no Programa de Assistência Domiciliária ao Idoso (PADI), vinculado à Disciplina de Geriatria e Gerontologia da Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (UNIFESP-EPM), no período de outubro de 2003 a outubro de 2006. 

    O PADI é formado por uma equipe multidisciplinar composta por médico, enfermeiro, assistente social, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, dentista e nutricionista.

    Na admissão do idoso no programa é realizada uma avaliação multidimensional, da qual foram selecionados os dados deste estudo. Os prontuários cuja avaliação inicial se apresentava incompleta foram excluídos da amostra.                                                Foi realizado roteiro estruturado para a coleta dos dados sociodemográficos, clínicos e funcionais da primeira avaliação multidimensional que constava no prontuário do idoso.

                      Os dados sociodemográficos analisados incluem idade, gênero, estado civil, escolaridade, vínculo do cuidador e tempo de cuidado. Os dados clínicos coletados foram: número de doenças, classificação das doenças de acordo com os capítulos que compõem o Código Internacional das Doenças – CID,20 tipo de locomoção e o número de medicamentos utilizados.

    A locomoção foi subdividida em três categorias (bengala, andador e acamado). A categoria bengala incluiu os idosos que possuíam marcha independente e os que necessitavam do dispositivo bengala para realizar a deambulação. A categoria andador incluiu os indivíduos que necessitavam deste dispositivo para locomoção. A categoria acamado era composta pelos pacientes que não eram capazes de realizar a deambulação, podendo ou não fazer uso da cadeira de rodas por terceiros.

    No PADI os dados funcionais são avaliados por meio da MIF, que é aplica por profissional da área da saúde, sendo realizada no domicílio do paciente por meio de entrevista com o cuidador. Segundo o estudo de Ricci et al., esta forma de medida pela percepção do cuidador é tão confiável quanto a observação direta do desempenho das tarefas, com a vantagem de ser mais rápida e reduzir o viés de déficits cognitivos.24

    A MIF apresenta propriedades psicométricas comprovadas e sensibilidade para detectar as mínimas alterações funcionais, mensurando tanto o que indivíduo é capaz de realizar de forma independente ou com auxílio de terceiros.9,10,23

    O instrumento avalia 18 tarefas, pontuadas de acordo com o grau de dependência, que varia de um (dependência total) a sete (independência total), sendo que seu escore total mínimo é de 18 e o máximo de 126 pontos. As tarefas são agrupadas em seis dimensões: autocuidados, controle de esfíncteres, transferências, locomoção, comunicação e cognição social. O escore total da MIF, também conhecido como MIF total, pode ser dividido em duas subescalas: a MIF motora (engloba as dimensões autocuidados, controle de esfíncteres, transferências, locomoção), com pontuação de um a 91 pontos, e a MIF cognitiva (engloba as dimensões comunicação e cognição social), que varia de um a 35 pontos.19,23,25,27 

    Análise Estatística

    A análise estatística foi feita por meio de estatística descritiva simples para caracterização dos resultados, e análise inferencial para verificar as associações do escores da MIF com as demais variáveis. As associações entre o escore da MIF total, MIF motora e MIF cognitiva (variáveis quantitativas dependentes) e as variáveis qualitativas categóricas dicotômicas foram calculadas por meio do teste t-Student. As associações entre o escore da MIF total, MIF motora e MIF cognitiva e as variáveis qualitativas com três ou mais categorias foram verificadas por meio da análise de variância (ANOVA) e realização do teste de Tuckey, para os casos em que ocorreu significância (p≤0,05). As associações entre o escore da MIF total, MIF motora e MIF cognitiva e as variáveis quantitativas numéricas foram calculadas por meio do coeficiente de correlação de Pearson (r).

    Todos os testes foram realizados com nível de significância fixado em 0,05, e os cálculos executados com auxílio do software SPSS 10.0 for Windows (Statistical Package for Social Sciences, versão 10.0).

     

    Resultados

    Foram analisados 80 prontuários de idosos assistidos pelo PADI. A amostra foi constituída por uma maioria do gênero feminino (76,3%), com estado civil de viuvez (57,5%) e com grau de escolaridade de até oito anos de estudo (72,5%). A média etária dos idosos foi de 83,36 ± 7,67 anos, com idade mínima de 62 e máxima de 99 anos.

    Os cuidados diários aos idosos eram prestados por cuidadores com idade entre 19 a 86 anos, apresentando uma média etária de 56,38 ± 14,76 anos. A média do tempo de cuidados aos idosos foi de 5,41 ± 6,36 anos, sendo o tempo mínimo de um mês e o máximo de 45,00 anos. Houve predomínio, entre os cuidadores, de mulheres (90,0%), sem vida conjugal (56,3%) e com escolaridade até oito anos de estudo (51,3%). No vínculo do cuidador estabelecido com os idosos, destacou-se a relação de cuidados oferecidos pela filha (43,8%), empregatício (22,5%) e esposa (10,0%), com classificação de convivência predominantemente boa (53,8%). A caracterização dos idosos e de seus cuidadores está exposta na tabela 1.

     

     Tabela 1 - Caracterização dos 80 idosos assistidos pelo PADI e de seus cuidadores

                               Categorias

        N

        %

    Idoso

         Estado conjugal

    Solteiro

    9

    11,2

    Casado

    25

    31,3

    Viúvo

    46

    57,5

         Grau de escolaridade

    Analfabeto

    12

    15,0

    Até 8 anos de estudo

    58

    72,5

    Acima de 8 anos de estudo

    10

    12,5

    Cuidador

         Estado Conjugal

    Com vida conjugal

    35

    43,8

    Sem vida conjugal

    45

    56,2

         Grau de escolaridade

    Analfabeto

    2

    2,4

    Até 8 anos de estudo

    41

    51,3

    Acima de 8 anos de estudo

    37

    46,3

         Vínculo

    Esposa

    8

    10,0

    Marido

    5

    6,2

    Filha

    35

    43,8

    Filho

    3

    3,8

    Cunhada

    3

    3,8

    Irmã

    3

    3,8

    Nora

    3

    3,8

    Sobrinha

    2

    2,4

    Empregatício

    18

    22,5

         Convivência

    Excelente

    23

    28,8

    Boa

    43

    53,8

    Regular

    11

    13,7

    Ruim/Péssima

    3

    3,7

     


     

    Os idosos apresentaram em média 6,63 ± 2,54 co-morbidades com valores no mínimo de três, e máximo de 17 doenças associadas. Das doenças classificadas pelo CID, as mais prevalentes foram as do aparelho circulatório (82,5%), transtornos mentais (76,3%) e doenças do sistema osteomuscular e/ou tecido conjuntivo (67,5%), como observado na tabela 2, em ordem decrescente de prevalência. Quanto ao número de medicamentos utilizados, a média foi de 5,23 ± 2,57 medicamentos, com valor de uso mínimo de nenhuma medicação e o máximo de 12.

     

    Tabela 2 - Prevalência das doenças classificadas pelo CID dos 80 idosos assistidos pelo PADI.

     

    Classes de doenças do CID

    N

    %

    Doenças do aparelho circulatório

    66

    82,5

    Transtornos mentais

    61

    76,3

    Doenças do sistema osteomuscular e/ou tecido conjuntivo

    54

    67,5

    Doenças endócrinas, nutricionais e/ou metabólicas

    44

    55,0

    Doenças do sistema nervoso

    32

    40,0

    Doenças do aparelho digestivo

    28

    35,0

    Doenças do aparelho geniturinário

    27

    33,8

    Doenças da pele e/ou tecido subcutâneo

    15

    18,8

    Doenças do olho e anexo

    14

    17,5

    Doenças do aparelho respiratório

    11

    13,8

    Neoplasias

    10

    12,5

    Doenças do ouvido e apófise mastóide

    8

    10,0

    Doenças do sangue, órgãos hematopoéticos e/ou transtornos imunitários

    1

    1,3

    Doenças infecciosas e/ou parasitárias

    - -

    - -

     

    Em relação à locomoção, a maioria dos idosos se encontrava acamada (50,0%), e a seguir vinham a deambulação com bengala (28,8%) e andador (21,3%). Os resultados referentes à capacidade funcional avaliada pela MIF estão expostos na tabela 3, conforme a divisão pelas subescalas.

     

    Tabela 3 - Valores mínimo e máximo, mediana, média e desvio-padrão dos resultados da MIF total, motora e cognitiva dos 80 idosos assistidos pelo PADI.

     

    MIF

    Variação da Pontuação

               Valor

    Média

    Desvio Padrão

    Mínimo

    Máximo

    Total

    18 - 126

    18              117

    61,08

    33,10

    Motora

    1 - 91

    13              84

    41,03

    24,38

    Cognitiva

    1 - 35

    5                35

    20,05

    10,77

               

     

    Em relação aos escores da MIF total, motora e cognitiva com as demais variáveis do estudo, não foram encontradas associações com os dados sociodemográficos (gênero, estado civil e grau de escolaridade) dos idosos e cuidadores. Também não houve associação das subescalas da MIF com os dados relativos ao cuidado (vínculo do cuidador e convivência).

    As classes do CID de doenças da pele e/ou tecido subcutâneo, doenças do sistema nervoso e transtornos mentais apresentaram associação com pelo menos uma das subescalas da MIF; os pacientes que apresentaram estas doenças tiveram pontuação significativa menor quando comparados aos que não apresentaram. Os pacientes que apresentaram doenças do ouvido e apófise mastóide tiveram pontuação da MIF motora significativa maior em relação aos que não as apresentaram. Os pacientes com doenças do sistema osteomuscular e/ou tecido conjuntivo tiveram pontuação significativa maior na MIF (total, motora e cognitiva), quando comparados aos que não as apresentaram (tabela 4).

     

    Tabela 4 - Médias, Desvio-padrão e análise comparativa dos resultados da MIF total, motora e cognitiva e as classes de doenças do CID dos 80 idosos assistidos pelo PADI.

    CID

    MIF

    Presença

    Média

    Desvio-Padrão

    Teste T

    (p-valor)

    Doenças da pele e/ou tecido subcutâneo

    Total

    sim

    40,53

    30,95

    0,004

     

     

    não

    68,28

    32,76

     

    Motora

    sim

    28,87

    23,38

    0,005

     

     

    não

    47,12

    24,96

     

    Cognitiva

    sim

    11,67

    9,45

    0,006

     

     

    não

    21,17

    10,01

    Doenças do sistema nervoso

    Total

    sim

    51,09

    28,56

    0,011

     

     

    não

    71,06

    35,29

     

    Motora

    sim

    33,09

    21,18

    0,005

     

     

    não

    50,77

    25,96

     

    Cognitiva

    sim

    18,03

    10,14

    0,242

     

     

    não

    20,29

    10,80

    Transtornos mentais

    Total

    sim

    56,02

    31,27

    <0,001

     

     

    não

    85,74

    33,36

     

    Motora

    sim

    39,28

    23,47

    0,003

     

     

    não

    57,89

    27,40

     

    Cognitiva

    sim

    16,75

    9,80

    <0,001

     

     

    não

    27,84

    8,26

    Doenças do ouvido e apófise mastóide

    Total

    sim

    80,38

    36,21

    0,130

     

     

    não

    61,15

    33,49

     

    Motora

    sim

    59,88

    27,60

    0,059

     

     

    não

    41,90

    24,88

     

    Cognitiva

    sim

    20,50

    9,15

    0,755

     

     

    não

    19,26

    10,73

    Doenças do sistema osteomuscular e/ ou tecido conjuntivo

    Total

    sim

    73,04

    32,99

    <0,001

     

     

    não

    42,38

    26,31

     

    Motora

    sim

    51,22

    24,77

    <0,001

     

     

    não

    28,08

    19,67

     

    Cognitiva

    sim

    21,83

    10,02

    0,003

     

     

    não

    14,31

    9,90

      

    As demais classes de doenças do CID não tiveram pontuação significativa com os pacientes que as apresentavam.

                      Das variáveis quantitativas do estudo, os números de co-morbidades e de medicamentos apresentaram correlação significativa com a MIF (subescala MIF cognitiva), enquanto os demais dados (idade cuidador, idade paciente e tempo de cuidado) não tiveram correlação significativa (tabela 5).

     

    Tabela 5 - Correlação entre MIF total, motora e cognitiva e as variáveis quantitativas número de co-morbidades, número de medicamentos, tempo que cuida do idoso e idade dos 80 idosos assistidos pelo PADI.

     

    Variáveis

    MIF

    CC*

    p-valor

    Número de Co-morbidades

    Total

    0,154

    0,173

     

    Motora

    0,113

    0,317

     

    Cognitiva

    0,217

    0,053

    Número de Medicamentos

    Total

    0,187

    0,096

     

    Motora

    0,165

    0,143

     

    Cognitiva

    0,250

    0,025

    Tempo de cuidado do Idoso

    Total

    - 0,057

    0,613

     

    Motora

    - 0,021

    0,856

     

    Cognitiva

    - 0,164

    0,147

    Idade do Paciente

    Total

    0,077

    0,499

     

    Motora

    0,068

    0,547

     

    Cognitiva

    - 0,033

    0,769

    Idade do Cuidador

    Total

    - 0,031

    0,786

     

    Motora

    - 0,027

    0,812

     

    Cognitiva

    - 0,087

    0,443

     * CC: Coeficiente de Correlação

     

     

     

    A MIF cognitiva apresentou correlação positiva fraca significativa com o número de co-morbidades e medicamentos, ou seja, quanto melhor a pontuação cognitiva, menor a presença de doenças associadas e menor o uso de medicação.

    A variável locomoção apresentou associação significativa com a MIF total, motora e cognitiva, como mostra a tabela 6.

    Tabela 6 - Valores mínimo e máximo, média, desvio-padrão, mediana e análise comparativa dos resultados da MIF total, motora e cognitiva e o tipo de locomoção dos 80 idosos assistidos pelo PADI.

    MIF

    Categorias

    Média (DP)

    ANOVA

    (p-valor)

    Tuckey

    (p-valor)

    Total

    Bengala

    86,96 (27,69)

    <0,0001

    Bengala - Andador: 0,696

     

    Andador

    80,82 (20,55)

     

    Bengala - Acamado: < 0,0001

     

    Acamado

    37,80 (22,20)

     

    Andador - Acamado: < 0,0001

    Motora

    Bengala

    62,39 (20,36)

    <0,0001

    Bengala - Andador: 0,389

     

    Andador

    55,76 (15,01)

     

    Bengala - Acamado: < 0,0001

     

    Acamado

    22,48 (12,67)

     

    Andador - Acamado: < 0,0001

    Cognitiva

    Bengala

    24,61 (8,88)

    0,001

    Bengala - Andador: 0,991

     

    Andador

    25,00 (8,24)

     

    Bengala - Acamado: 0,001

     

    Acamado

    15,33 (10,81)

     

    Andador - Acamado: 0,030

    DP: Desvio-Padrão

     

     

     

     


     

    Houve associação entre todas as subescalas da MIF e os tipos de locomoção, com piora para os idosos acamados em relação aos demais. Não foram verificadas diferenças estatísticas entre os idosos que faziam uso de bengala e andador na pontuação das subescalas da MIF. 

    Discussão

    Entre os idosos atendidos em programas de AD, há predomínio de mulheres, casados ou viúvos, e com escolaridade de ensino fundamental completo1,30,34. A idade é avançada (acima dos 80 anos) e com necessidade de cuidados há mais de seis anos18,35, sendo as filhas as responsáveis mais freqüentes pelos cuidados4,18,35. Os resultados sociodemográficos do presente trabalho assemelham-se aos dados dos demais estudos, acima citados, realizados no âmbito de AD.

    A maioria dos idosos do PADI apresentou dependência funcional com baixa pontuação nos escores da MIF. Em estudo realizado com 28 idosos internados em unidade de clínica médica hospitalar10, verficou-se que, na admissão, a média de pontos da MIF motora foi de 76,8, da MIF cognitiva, 32,4, e da MIF total, 109,2. No momento da alta hospitalar, todas as dimensões da MIF sofreram diminuição na pontuação (MIF motora, 67,0; MIF cognitiva, 30,8; e MIF total, 97,8). Por outro lado, os idosos apresentaram aumento no escore da MIF ao retornar ao domicílio (MIF motora, 77,9; MIF cognitiva, 33,5; e MIF total, 111,4). Quando comparados os momentos da admissão, da alta hospitalar e do retorno ao domicílio, encontrou-se diferença significativa com relação aos escores da MIF, entre a admissão e alta hospitalar (MIF total, p=0,0441; MIF motora, p= 0,0245; e MIF cognitiva, p=0,0345) e entre a alta hospitalar e o domicílio (MIF total, p=0,0013; MIF motora, p= 0,0049; e MIF cognitiva, p=0,0034). Os dados revelam que durante o tempo de hospitalização o idoso fica mais suscetível à deterioração funcional e que o retorno ao domicílio promove uma recuperação dessas funções.10

    Mann et al.14 acompanharam dois grupos de idosos fragilizados da comunidade: o grupo de tratamento (recebeu intervenção em casa e acompanhamento de AD em gerontologia) e o grupo controle (não recebeu nenhum tipo de intervenção). Após os 18 meses de estudo, ambos os grupos apresentaram dependência funcional, avaliada por meio da MIF. O grupo tratamento apresentou média da MIF total 104,8±16,7, MIF motora 71,6±16,2, MIF cognitiva 33,2±1,8. O grupo controle apresentou média da MIF total 97,9±23,2, MIF motora 66,4±19,1, MIF cognitiva 31,5±6,2; entretanto, os idosos do grupo controle apresentaram maior declínio funcional, durante os 18 meses. Isso demonstra que, apesar de ser uma população de idosos fragilizados, assim como a amostra da presente pesquisa, a assistência específica na saúde em cuidados no domicílio pode retardar o declínio funcional dos idosos.

    Nos dois estudos supracitados, as pontuações na MIF foram consideradas baixas e referentes a idosos fragilizados; no entanto, os escores da presente amostra foram ainda menores, o que revela a alta dependência funcional dos idosos que necessitam de atendimento domiciliar.

    A alta dependência da amostra dos idosos atendidos no PADI não esteve associada pelos escores da MIF (total, motora e cognitiva) com os dados sociodemográficos (gênero, estado civil e grau de escolaridade) dos idosos e dos cuidadores, e com os dados relativos ao cuidado (vínculo do cuidador e convivência). Entretanto, no estudo de Rosa et al.,28 os dados sociodemográficos apresentaram diferença estatística com a dependência moderada/grave. No referido estudo, os idosos com idade superior a 65 anos, analfabetos, aposentados, pensionistas, donas-de-casa, não proprietários da moradia, com composição familiar multigeracional, história de hospitalização e acidente vascular cerebral (AVC), “caso” no rastreamento de saúde mental, que apresentacam problemas de visão, não visitavam amigos e parentes, e tinham avaliação pessimista da saúde ao se comparar com seus pares, apresentaram dependência moderada/grave28. A diferença entre os estudos deve-se, provavelmente, por ser este último um grupo heterogêneo que abrange todos os idosos da comunidade e não somente uma classe específica que atende aos critérios de inclusão, como é o caso dos pacientes estudados no PADI.

                      Rozenfeld29 revelou que a maioria dos idosos da comunidade consome, pelo menos, um medicamento, e a média por pessoa oscilou entre dois a cinco medicamentos em uso. Estes valores são inferiores ao dos idosos do presente estudo, o que revela a maior necessidade de cuidados à saúde da população em atendimento domiciliar.

                      Segundo Markle-Reid et al.,15 aproximadamente 50,0% dos medicamentos são utilizados inapropriadamente, e por volta de 25,0% das admissões hospitalares de pessoas idosas são devidas a problemas de medicações. Para Garcia,5 o uso excessivo e inadequado de medicamentos pode provocar quedas, perda de memória, lentidão motora, tremor e confusão mental, uma vez que a capacidade funcional do idoso pode ser mais comprometida por um tratamento inadequado do que pelas doenças de base que levaram ao uso do medicamento. Justifica-se, assim, o achado do presente estudo, que encontrou uma correlação positiva fraca significativa (p=0,025; r= 0,250) entre a subescala cognitiva da MIF e o maior número de medicamentos em uso.

                      A capacidade funcional também pode ser influenciada pela associação com doenças crônicas. O estudo realizado por Giacomin et al.6 mostrou que os idosos dependentes, que necessitavam de cuidador, apresentaram associação positiva e independente com as variáveis “doença crônica” e “uso de medicamentos prescritos”6. Para os autores, a polimedicação é freqüentemente acompanhada de várias co-morbidades associadas, sendo estes fatores de risco para a iatrogenia, que influenciam negativamente na capacidade funcional. Os achados corroboram os resultados dos idosos do PADI, em que houve alta prevalência de co-morbidades e alto consumo de medicamento. É importante ressaltar que estas duas variáveis também apresentaram correlação positiva fraca significativa com a MIF cognitiva (p=0,053; r= 0,217 e p=0,025; r=0,250, respectivamente), o que revela um comprometimento da função cognitiva levando a uma diminuição da autonomia do indivíduo.

                      Entre as doenças que acometiam os idosos, destacaram-se as doenças do aparelho circulatório (82,5%), transtornos mentais (76,3%) e doenças do sistema osteomuscular e/ou tecido conjuntivo (67,5%). Dados semelhantes foram encontrados em dois estudos nos quais as doenças crônicas mais freqüentes foram a hipertensão arterial e a artrite.12,13 Essas doenças aumentam progressivamente com a idade, devido a alterações próprias do envelhecimento, tornando o idoso mais propenso a apresentá-las.

                      As classes do CID de transtornos mentais, sistema nervoso e pele e anexos apresentaram associação com a MIF, o que pode ser devido ao fato de essas classes estarem intimamente relacionadas a doenças como a úlcera por pressão, demências, AVC, entre outras que causam debilidade física e mental a seus portadores, sobretudo quando instaladas há longo tempo. A exemplo do estudo de Rosa et al.,28 segundo o qual mesmo para idosos da comunidade, entre as co-morbidades, a ocorrência de AVC era causadora de dependência moderada-grave, conforme o CID de doenças do sistema nervoso.

                      Lebrão e Laurenti12 observaram que entre as co-morbidades mais prevalentes, destacaram-se as doenças artrite/artrose/reumatismo (31,7%), e que a grande maioria dos idosos não apresentou dificuldades nas atividades básicas de vida diária (80,7%). Da mesma forma, as doenças do ouvido e apófise mastóide e doenças do sistema osteomuscular e/ou tecido conjuntivo também tiveram pontuação significativamente maior com a MIF, em pelo menos uma das subescalas, quando comparadas aos idosos que não apresentaram essas doenças.

    Essa aparente incoerência, vista de forma semelhante nos resultados do presente estudo, pode ser justificada pelo fato de os idosos estarem mais adaptados ao ambiente, o que facilita a realização das AVD, pois a AD requer adaptações na estrutura física do domicílio, visto que os fatores ambientais são críticos para pessoas com problemas ou incapacidades crônicas na determinação dos resultados de esforços de reabilitação.7,26,32 Em acréscimo, os idosos do PADI estão mais restritos ao domicílio e por isso não encontram com tanta freqüência barreiras externas como os idosos que vivem na comunidade.

                      Mathieson et al.,16 em estudo sobre a manutenção da independência funcional em idosos, verificaram que a adaptação funcional (modificações na casa e/ou uso de bengala ou andador) minimizou as limitações durante a realização das AVD. Segundo a análise do presente estudo, a variável locomoção apresentou associação significativa com todas as subscalas da MIF (p< 0,001), com a categoria acamado tendo menor escore nas subescalas, quando comparada ao uso de bengala e andador. Apesar da limitação na locomoção com o uso de bengala e andador (diminuição da velocidade, restrição em lugares mal adaptados, instabilidade), o indivíduo ainda consegue se locomover independentemente em seu meio; já os idosos acamados ficam dependentes do cuidado de terceiros para a mobilidade e ainda sofrem os efeitos deletérios da restrição no leito.

                      Assim, se explica a menor pontuação da MIF pelos idosos acamados, uma vez que esse estado de confinamento no leito leva a alterações fisiológicas, como a redução do volume de ejeção, tempo de batimento cardíaco, percepção de oxigênio, fluxo sangüíneo, volume de hemácias, capilarização e enzimas oxidativas, aumento da fadiga muscular, perda de massa muscular e da densidade óssea, redução da força muscular e aumento do risco de lesões ósseas e articulares2. Essas alterações fisiológicas levam a uma redução da capacidade funcional, além de causarem ao indivíduo maior suscetibilidade a complicações, como a ocorrência de úlceras por pressão, infecções do trato respiratório, contraturas e deformidades, propiciando  um estado de imobilidade e fragilidade.  

    Considerações finais

                 Os resultados apresentados por este estudo permitem conhecer os fatores que influenciam negativamente na independência funcional de idosos em AD. Apesar dos resultados satisfatórios, algumas variáveis não puderam ser estudadas quanto a sua associação com a capacidade funcional (cognição, depressão, entre outros).

                      No entanto, esta abordagem inicial para o assunto já reconhece alguns fatores associados ao declínio funcional (classes específicas de doenças, polifarmácia e tipo de locomoção) que podem auxiliar os profissionais numa intervenção que assista aos principais problemas da demanda atendida por assistência domiciliar, antes mesmo que eles se instalem e venham a prejudicar a qualidade de vida dos idosos.

     

    NOTAS

    a Fisioterapeuta, Especialista em Gerontologia pela UNIFESP-EPM.

    E-mail: allefisio@yahoo.com.br 

    b Fisioterapeuta, Especialista em Gerontologia pela UNIFESP-EPM, Mestre em Ciências Otorrinolaringológicas pela UNIFESP/EPM.

    E-mail: juliana.gazzola@terra.com.br 

    c Assistente Social da Disciplina de Geriatria da UNIFESP/EPM. Especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Mestre em Ciências da Saúde (Programa de Reabilitação) pela UNIFESP/EPM. Coordenadora do Programa de Assistência Domiciliar ao Idoso da UNIFESP/EPM.

    E-mail: nairadutra@uol.com.br 

    d Fisioterapeuta, Especialista em Gerontologia pela UNIFESP-EPM, Mestre em Gerontologia pela UNICAMP.

    E-mail: natalia_ricci@hotmail.com

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    Recebido em: 15/5/2007

    Aceito: 1/8/2007

    ^rND^sAlbuquerque^nSMRL^rND^sConvertino^nVA^rND^sBloomfield^nSA^rND^sGreenleaf^nJE^rND^sConvertino^nVA^rND^sDiogo^nMJD^rND^sFeliciano^nAB^rND^sMoraes^nAS^rND^sFreitas^nICM^rND^sGarcia^nJT^rND^sGiacomin^nKC^rND^sUchôa^nE^rND^sFirmo^nJOA^rND^sLima-Costa^nMF^rND^sGitlin^nLN^rND^sWinter^nL^rND^sDennis^nMP^rND^sCorcoran^nM^rND^sSchinfeld^nS^rND^sHauck^nWW^rND^sHamilton^nBB^rND^sLaughlin^nJA^rND^sGranger^nCV^rND^sKayton^nRM^rND^sKawasaki^nK^rND^sCruz^nKCT^rND^sDiogo^nMJD^rND^sKawasaki^nK^rND^sDiogo^nMJD^rND^sKuo^nHK^rND^sScandrett^nKG^rND^sDave^nJ^rND^sMitchell^nSL^rND^sLebrão^nML^rND^sLaurenti^nR^rND^sLima-Costa^nMF^rND^sBarreto^nSM^rND^sGiatti^nL^rND^sMann^nWC^rND^sOttenbacher^nKJ^rND^sFraas^nL^rND^sTomita^nM^rND^sGranger^nCV^rND^sMarkle-Reid^nM^rND^sWeir^nR^rND^sBrowne^nG^rND^sRoberts^nJ^rND^sGafni^nA^rND^sHenderson^nS^rND^sMathieson^nKM^rND^sKronenfeld^nJJ^rND^sKeith^nVM^rND^sNetto^nMP^rND^sTieppo^nA^rND^sNeufeld^nS^rND^sLysack^nC^rND^sRamos^nLR^rND^sToniolo^nJN^rND^sCendoroglo^nMS^rND^sGarcia^nJT^rND^sNajas^nMS^rND^sPerracini^nMR^rND^sRiberto^nM^rND^sMiyazaki^nMH^rND^sJorge Filho^nD^rND^sSakamoto^nH^rND^sBattistella^nLR^rND^sRiberto^nM^rND^sMiyazaki^nMH^rND^sJucá^nSSH^rND^sSakamoto^nH^rND^sPinto^nPPN^rND^sBattistella^nLR^rND^sRicci^nNA^rND^sKubota^nMT^rND^sCordeiro^nRC^rND^sRicci^nNA^rND^sLemos^nND^rND^sOrrico^nKF^rND^sGazzola^nJM^rND^sRogers^nCJ^rND^nHolm^sBM^rND^sRosa^nTEC^rND^sBenício^nMHD^rND^sLatorre^nMRDO^rND^sRamos^nLR^rND^sRozenfeld^nS^rND^sSerra Rexach^nJA^rND^sRexach Cano^nL^rND^sCruz Jentoft^nAJ^rND^sGil Gregorio^nP^rND^sRibera Casado^nJM^rND^sSiqueira^nAB^rND^sCordeiro^nRC^rND^sPerracini^nMR^rND^sRamos^nLR^rND^sTamm^nM.^rND^sZhao^nL^rND^sTatara^nK^rND^sKuroda^nK^rND^sTakayama^nY^rND^sYuaso^nDR^rND^sSguizzatto^nGT^rND^sAlbuquerque^nSMRL^rND^sConvertino^nVA^rND^sBloomfield^nSA^rND^sGreenleaf^nJE^rND^sConvertino^nVA^rND^sDiogo^nMJD^rND^sFeliciano^nAB^rND^sMoraes^nAS^rND^sFreitas^nICM^rND^sGarcia^nJT^rND^sGiacomin^nKC^rND^sUchôa^nE^rND^sFirmo^nJOA^rND^sLima-Costa^nMF^rND^sGitlin^nLN^rND^sWinter^nL^rND^sDennis^nMP^rND^sCorcoran^nM^rND^sSchinfeld^nS^rND^sHauck^nWW^rND^sHamilton^nBB^rND^sLaughlin^nJA^rND^sGranger^nCV^rND^sKayton^nRM^rND^sKawasaki^nK^rND^sCruz^nKCT^rND^sDiogo^nMJD^rND^sKawasaki^nK^rND^sDiogo^nMJD^rND^sKuo^nHK^rND^sScandrett^nKG^rND^sDave^nJ^rND^sMitchell^nSL^rND^sLebrão^nML^rND^sLaurenti^nR^rND^sLima-Costa^nMF^rND^sBarreto^nSM^rND^sGiatti^nL^rND^sMann^nWC^rND^sOttenbacher^nKJ^rND^sFraas^nL^rND^sTomita^nM^rND^sGranger^nCV^rND^sMarkle-Reid^nM^rND^sWeir^nR^rND^sBrowne^nG^rND^sRoberts^nJ^rND^sGafni^nA^rND^sHenderson^nS^rND^sMathieson^nKM^rND^sKronenfeld^nJJ^rND^sKeith^nVM^rND^sNetto^nMP^rND^sTieppo^nA^rND^sNeufeld^nS^rND^sLysack^nC^rND^sRamos^nLR^rND^sToniolo^nJN^rND^sCendoroglo^nMS^rND^sGarcia^nJT^rND^sNajas^nMS^rND^sPerracini^nMR^rND^sRiberto^nM^rND^sMiyazaki^nMH^rND^sJorge Filho^nD^rND^sSakamoto^nH^rND^sBattistella^nLR^rND^sRiberto^nM^rND^sMiyazaki^nMH^rND^sJucá^nSSH^rND^sSakamoto^nH^rND^sPinto^nPPN^rND^sBattistella^nLR^rND^sRicci^nNA^rND^sKubota^nMT^rND^sCordeiro^nRC^rND^sRicci^nNA^rND^sLemos^nND^rND^sOrrico^nKF^rND^sGazzola^nJM^rND^sRogers^nCJ^rND^nHolm^sBM^rND^sRosa^nTEC^rND^sBenício^nMHD^rND^sLatorre^nMRDO^rND^sRamos^nLR^rND^sRozenfeld^nS^rND^sSerra Rexach^nJA^rND^sRexach Cano^nL^rND^sCruz Jentoft^nAJ^rND^sGil Gregorio^nP^rND^sRibera Casado^nJM^rND^sSiqueira^nAB^rND^sCordeiro^nRC^rND^sPerracini^nMR^rND^sRamos^nLR^rND^sTamm^nM.^rND^sZhao^nL^rND^sTatara^nK^rND^sKuroda^nK^rND^sTakayama^nY^rND^sYuaso^nDR^rND^sSguizzatto^nGT^rND^nAdelson Luiz Araújo^sTinôco^rND^nWilson César de^sAbreu^rND^nMônica de Souza Lima^sSant’Anna^rND^nLarissa Froede^sBrito^rND^nAmanda de Carvalho^sMello^rND^nSylvia do Carmo Castro^sFranceschini^rND^nMargarida Maria Santana da^sSilva^rND^nConceição Angelina dos Santos^sPereira^rND^nAdelson Luiz Araújo^sTinôco^rND^nWilson César de^sAbreu^rND^nMônica de Souza Lima^sSant’Anna^rND^nLarissa Froede^sBrito^rND^nAmanda de Carvalho^sMello^rND^nSylvia do Carmo Castro^sFranceschini^rND^nMargarida Maria Santana da^sSilva^rND^nConceição Angelina dos Santos^sPereira^rND^nAdelson Luiz Ara£jo^sTin“co^rND^nWilson C‚sar De^sAbreu^rND^nM“nica De Souza Lima^sSant’anna^rND^nLarissa Froede^sBrito^rND^nAmanda De Carvalho^sMello^rND^nSylvia Do Carmo Castro^sFranceschini^rND^nMargarida Maria Santana Da^sSilva^rND^nConcei‡æo Angelina Dos Santos^sPereira

    Caracterização do padrão alimentar, da ingestão de energia e nutrientes da dieta de idosos de um município da Zona da Mata Mineira 

    Characterization of the alimentary pattern, of energy and nutritients intake in the diet of seniors in a municipality in Zona da Mata, state of Minas Gerais, Brazil 

     

    Adelson Luiz Araújo Tinôcoa

    Wilson César de Abreub

    Mônica de Souza Lima Sant’Annac

    Larissa Froede Britod

    Amanda de Carvalho Melloe

    Sylvia do Carmo Castro Franceschinif

    Margarida Maria Santana da Silvag

    Conceição Angelina dos Santos Pereirah

     

    Resumo

    O objetivo deste estudo foi avaliar o consumo alimentar, identificar a ingestão de energia e nutrientes da dieta, bem como os hábitos alimentares dos idosos cadastrados no Programa Municipal da Terceira Idade (PMTI), no município de Viçosa-MG. O consumo alimentar foi avaliado em 183 idosos com idade entre 60 e 90 anos, por meio da soma do consumo encontrado entre o Recordatório 24 horas e o questionário de Freqüência Alimentar Semiquantitativo. Para a adequação do consumo de nutrientes e energia, foi utilizado um cálculo baseado na Ingestão Dietética de Referência (DRI). A ingestão energética ficou abaixo da necessidade estimada para quase todos os idosos, observando-se elevada ingestão de energia de fontes lipídicas (52,5%). Verificou-se alta freqüência de inadequação no consumo de vitaminas (vitaminas C, A, B1, B2 e B6). O consumo de cálcio foi 1/3 do valor recomendado. Dos idosos estudados, quase todos apresentaram ingestão energética abaixo da necessidade energética estimada (EER). Observou-se um desbalanceamento na dieta, havendo alta prevalência de inadequação no consumo de proteínas, vitaminas e minerais na alimentação dos idosos estudados.

    Palavras-chave: nutrição do idoso; consumo de alimentos; dieta; ingestão de energia; hábitos alimentares; idoso; idoso de 80 anos ou mais; Viçosa, MG

    Abstract

    This study aims to evaluate food consumption, to identify the ingestion of energy and dietary nutritients of the diet, as well as eating habits of elderly registered in the Municipal Program of the Third Age (PMTI), in the municipal district of Viçosa-MG. Food consumption was evaluated in 183 seniors aged from 60 to 90 years, through the sum of consumption found between the 24hour-Recall and the Semi-quantitative questionnaire of Alimentary Frequency. To adapt consumption of nutrients and energy, we used a calculation based on the Dietary Ingestion of Reference (DRI's). Energy ingestion was below the estimated need for almost all seniors, and a high ingestion of energy of lipidic sources (52.5%) was observed. Highly inadequate frequency was verified in the consumption of vitamins (vitamins C, THE, B1, B2 and B6). Calcium consumption 1/3 of the recommended value. Unbalance in the diet was observed, with a high prevalence of inadequate in the consumption of proteins, vitamins and minerals in the diet of the elderly people studied.

    Key words: elderly nutrition; food consumption; diet; energy intake ; food habits; aged; aged, 80 and over ; Viçosa, MG 

    Introdução

    Em diversos países em desenvolvimento, inclusive no Brasil, o aumento da população idosa vem ocorrendo de forma muito rápida, sem a correspondente modificação nas condições de vida.7

    O envelhecimento vem acontecendo concomitantemente ao surgimento de doenças como diabetes, hipertensão, obesidade e hiperlipidemias. Tais doenças se originam devido à influência de diversos fatores, dentre os quais se destaca a alimentação.35,8,10,7

                Os idosos apresentam condições peculiares que comprometem seu estado nutricional, dentre os quais as alterações fisiológicas do próprio envelhecimento, as enfermidades presentes e fatores relacionados com a situação familiar e socioeconômica.33,6,13,29

    Entre os fatores mais importantes relacionados à condição de vida do idoso estão os socioeconômicos, podendo-se citar a renda e a escolaridade, muitas vezes mais importantes que os fatores fisiológicos. Cabe ressaltar os fatores psicossociais, como depressão, isolamento social, integração social, dificuldade de deslocamento, pobreza e capacidade cognitiva comprometida. 29,13,6 Também deve-se considerar o uso freqüente de medicamentos e a morbidade auto-referida, seu estado nutricional e hábitos alimentares.

    Para melhor entender as relações existentes entre a alimentação e a doença, é fundamental investigar os hábitos alimentares e o consumo de nutrientes, bem como a ocorrência e distribuição de doenças numa população.

    A alimentação, sob o ponto de vista nutricional, visa aos constituintes dos alimentos (carboidratos, proteínas, lipídeos, vitaminas, minerais e fibras) que são essenciais à saúde e a qualidade de vida dos indivíduos.34 Já consumir vitaminas e minerais em proporções adequadas é importante para a ocorrência de várias reações químicas do organismo.41

    Nas últimas décadas, a população brasileira vem mostrando importantes mudanças em seus hábitos alimentares e estilo de vida. Diante das mudanças e da escassez de informações sobre a situação alimentar dos idosos, esses conhecimentos constituem um material fundamental para elaboração de estratégias que melhorem o quadro de saúde dos idosos.

    Viçosa é uma cidade de médio porte, localizada na Zona da Mata Mineira. Possui 64.957 habitantes17 e, em 1970, sua população idosa (60 anos e mais) correspondia a 5,56% da população total (1.430 hab), passando, em 2000, a 8,16% (5.296 hab).17 Estudos realizados em âmbito nacional abordam as principais áreas metropolitanas, mas deixam de fora as cidades de pequeno e médio portes.39

    As informações contidas neste artigo são oriundas de dissertação de mestrado, na qual foram avaliadas as condições socioeconômicas, de saúde e nutrição dos idosos cadastrados no Programa Municipal da Terceira Idade (PMTI) situado em Viçosa-MG. 

    Objetivos

                  O presente trabalho teve como objetivos avaliar o consumo alimentar, caracterizar as condições alimentares, avaliar a prevalência de inadequação de ingestão de energia e nutrientes da dieta e conhecer os hábitos alimentares da população idosa. Essas informações podem ser úteis para estabelecer ações de monitoramento do estado nutricional na terceira idade, promovendo, por meio de um processo educativo-preventivo, a melhoria da qualidade de vida dos idosos. 

    Metodologia

    Trata-se de um estudo epidemiológico de corte transversal cuja unidade amostral foi o idoso (60 anos e mais) cadastrado no Programa Municipal da Terceira Idade (PMTI). O tamanho da amostra foi definido por meio da equação proposta por Lwanga & Lemessow28 Þ N = P x q / (E / 1,96)², onde: n = tamanho mínimo da amostra necessária; P = taxa máxima de prevalência; q = 100 – p; E = margem de erro amostral tolerado.

    Participaram do estudo 183 idosos com idade entre 60 e 90 anos, selecionados aleatoriamente pelo número de cadastro, correspondendo a 13,1% do número total de indivíduos cadastrados no programa, sendo que, para todas as variáveis estudadas, a amostra mínima foi de 163 idosos.

    Os dados do consumo alimentar foram coletados a partir de um questionário aplicado durante atendimento realizado no Ambulatório Nutricional do Núcleo de Saúde Pública do Departamento de Nutrição e Saúde da Universidade Federal de Viçosa.

    Foi avaliado o consumo alimentar de macronutrientes (carboidratos, lipídios e proteínas), micronutrientes (vitaminas C, A, B1, B6, Fe e Ca) e a ingestão de energia através de uma média entre dois tipos de inquéritos dietéticos: o Questionário de Consumo Alimentar Semiquantitativo (QFCA-s) e o Recordatório de 24 horas.

    O QFCA-s é freqüentemente utilizado para avaliar o consumo e o tamanho das porções consumidas pelos idosos.27,16  O recordatório de 24 horas permite coletar informações sobre os alimentos ingeridos nas 24 horas que precedem a entrevista.9

    Avaliou-se o padrão alimentar por meio da freqüência de consumo dos alimentos. O padrão alimentar foi estabelecido considerando-se como ponto de corte a ingestão diária do alimento por 70% ou mais dos idosos avaliados.32

    O cálculo utilizado para adequação de ingestão de energia foi baseado na Necessidade Energética Estimada (Estimated Energy Requirement - EER), proposta pelo Institute of Medicine/Food and Nutrition Board. 22

    A adequação da ingestão de macronutrientes foi calculada tendo como base uma ingestão calórica proveniente de proteínas 12 a 14%, 20 a 25% de lipídios e 60 a 70% de carboidratos, utilizando-se as recomendações da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição.40

    Para a ingestão de micronutrientes, a adequação foi calculada com base nas Ingestões Dietéticas de Referência (Dietary Reference Intakes - DRI’s) do Institute of Medicine/Food and Nutrition Board, 19, 20, 21,23 tendo como ponto de corte a Necessidade Média Estimada (Estimated Average Requirement-EAR), com exceção do cálcio, para o qual se utilizou como parâmetro a Ingestão Adequada (Adequate Intake - AI). A metodologia de avaliação da ingestão de nutrientes para grupos foi utilizada de acordo com as preconizações do Institute of Medicine/Food and Nutrition Board.18 

    Os dados do consumo alimentar foram inseridos no Microsoft Access 2000. Antes de serem analisados pelo programa, os dados foram transformados em peso (gramas) ou volume (ml), convertidos em energia e nutrientes a partir da adoção da tabela de composição de alimentos de Philippi 36 e do software Diet Pro versão 3.0 - Monteiro & Steves. 31

                Para a análise estatística foram utilizados os softwares Epiinfo versão 6.0211 e Sigma Stat versão 2.0.15 O teste da Qui-quadrado (x²) foi aplicado para analisar as variáveis categóricas. Para o cálculo da odds ratio (razão de chances), utilizou-se a tabela da contingência para avaliar a probabilidade de risco em relação a algum fator, sendo que o nível de significância adotado foi inferior a 5%.

    Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Viçosa, onde foram cumpridos os princípios éticos contidos na Declaração de Helsinque, além do atendimento da legislação vigente.

    Resultados e discussão

                Dos idosos cadastrados no Programa Municipal da Terceira Idade (PMTI) que participaram do estudo, 55 (30,1%) eram do sexo masculino e 128 (69,9%) do feminino. Segundo o IBGE,17 dos 14,5 milhões de idosos brasileiros, 55% são mulheres e 45% homens. O maior número de mulheres pode ser explicado devido às mesmas apresentarem maior preocupação com o estado de saúde, maior longevidade e maior solidão. 5,2,14,1,25,37,38,7

    No PMTI, a distribuição por faixa etária foi semelhante entre homens e mulheres, sendo que mais da metade dos idosos tinha idade inferior a 70 anos e apenas 7,7% apresentaram mais de 80 anos. A idade variou de 60 a 90 anos e a mediana foi igual a 68 anos (tabela 1).

    Tabela 1 - Idosos do PMTI, de acordo com sexo e faixa etária, Viçosa-MG, 2002

    Sexo

    Faixa Etária

    (anos)

    Masculino

    Feminino

    total

     

    n

    %

    n

    %

    n

    5

    60 a 69

    28

    50,9

    73

    57,0

    101

    55,2

    70 a 79

    22

    40,0

    46

    35,9

    68

    37,1

    ³80

    5

    9,1

    9

    7,0

    14

    7,7

    Total

    55

    100

    128

    100

    183

    100

                A ingestão adequada de nutrientes é fundamental para a manutenção da saúde, uma vez que a deficiência ou o excesso de nutrientes desencadeiam diversas patologias.41

                Foi avaliada a inadequação da ingestão de proteínas, vitaminas e minerais (vitamina C, vitamina B2, vitamina B6, ferro e cálcio), de acordo com o sexo (tabela 2), sendo que entre os homens a prevalência de inadequação de vitamina C, vitamina A, vitamina B2 e proteína foi maior. Já entre as mulheres, as prevalências de inadequação de vitamina B1, B6 e ferro foram maiores quando comparadas aos valores médios de referência.

                O estudo realizado com os idosos do PMTI revelou uma importante falha na alimentação dos indivíduos que apresentaram ingestão deficiente de vários nutrientes. Essas falhas podem estar relacionadas à aplicação de apenas um recordatório 24 horas. Segundo Kachani et al.,24 o recordatório 24 horas é um método de investigação alimentar que consiste na descrição de todos os alimentos e bebidas consumidos no dia anterior. Apesar de ser um recurso amplamente utilizado, não é muito acurado tanto no estabelecimento de quantidades e porções ingeridas no dia anterior como por avaliar um único dia, possivelmente não representativo do consumo habitual.

                Bingham4 recomenda a utilização do recordatório 24 horas por três dias para avaliar o total da ingestão de alimentos e nutrientes, sendo esse método capaz de estimar as diferenças entre grupos de indivíduos em pesquisas epidemiológicas.

                De acordo com o estudo realizado por Velazques-Melendez et al.,41 foram encontrados níveis de ingestão de ferro e cálcio menores em idosos em relação aos indivíduos mais jovens. O mesmo ocorreu com o estudo realizado com os idosos do PMTI. A mediana para ferro foi de 10,1 mg/dia e para o cálcio foi de 1/3 da ingestão recomendada.

    Tabela 2 - Inadequação da ingestão de nutrientes de idosos do PMTI, de acordo com o sexo, Viçosa-MG, 2002 

    Nutrientes

    Sexo*

    EAR

    Mediana

    Inadequação

    n          %

    OR ( IC )

    P

    Vit. C

    H

    75 mg/d

    78,4mg/d

    21

    47,7

    1,83

    0,09

     

    M

    60 mg/d

    85,1mg/d

    40

    33,3

    (0,85-3,91)

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Vit. A

    H

    625 mg/d

    364 mg/d

    33

    75,0

    1,50

    0,30

     

    M

    500 mg/d

    384 mg/d

    80

    66,6

    (0,65-33,53)

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Vit. B1

    H

    1,0 mg/d

    1,0 mg/d

    20

    45,4

    1,80

    0,09

     

    M

    0,9 mg/d

    0,8 mg/d

    72

    60,0

    (0,85-3,83)

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Vit. B2

    H

    1,1 mg/d

    0,9 mg/d

    31

    70,4

    1,76

    0,13

     

    M

    0,9 mg/d

    0,8 mg/d

    69

    52,5

    (0,79-3,96)

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Vit.B6

    H

    1,4 mg/d

    1,1 mg/d

    34

    77,2

    1,67

    0,24

     

    M

    1,3 mg/d

    0,8 mg/d

    102

    85,0

    (0,64-4,28)

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Ferro

    H

    6 mg/d

    8,8 mg/d

    3

    6,8

    1,95

    0,40

     

    M

    5mg/d

    7,6 mg/d

    15

    12,5

    (0,49-8,99)

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Proteína

    H

    0,66 g/kg/d

    0,57mg/d

    27

    61,3

    1,26

    0,50

     

    M

    0,66 g/kg/d

    0,62mg/d

    67

    55,8

    (0,59-2,70)

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Cálcio

    H

    1200 mg/d

    364 mg/d

     

     

     

     

     

    M

    ó

     

     

     

     

     

     

     

    1200 mg/d

    406 mg/d

     

     

     

     

    *n homens = 44 e n mulheres = 120

    **valores referentes a ingestão adequada ( A ).

                Verificando-se as razões de chances apresentados na tabela acima, não houve diferença estatisticamente significante na inadequação do consumo de nutrientes entre os sexos feminino e masculino.

                Calculou-se a adequação da ingestão de carboidratos, proteínas e lipídios, considerando-se o percentual de energia por cada macronutriente (tabela 3).

                Em estudo realizado por Lasheras et al.,26 os autores encontraram uma ingestão deficiente de carboidratos (<55% do total calórico) em 95% dos homens e 84,7% das mulheres. Dos idosos que ingeriam mais que 30% de energia provenientes de lipídios, 40,3% eram homens e 86,7% mulheres. Em relação à ingestão de proteínas, somente 7,3% dos homens e 1,0% das mulheres ingeriam menos que 10% da energia sob a forma de proteína, valores superiores aos encontrados no PMTI.

                Como o cálculo da necessidade de energia estimada (EER) é diferente para homens e mulheres, a adequação da ingestão de energia foi avaliada de acordo com o sexo, sendo que as idosas (94,2%) ingeriam energia abaixo da EER e, entre os idosos, todos ficaram abaixo da EER.

    Tabela 3 - Adequação da ingestão de macronutrientes, de idosos do PMTI, de acordo com o percentual de energia fornecido, Viçosa-MG, 2002 

    Sexo

                     Carboidratos

    Lipídios

     

    Proteínas

                             ( % )

    ( % )

     

    ( % )

    60-70

    <60

    >70

    20-25

    <20

    >25

    >30

    12-14

    <12

    >14

    Homens

    n=44

    54,6

    29,5

    *

    15,9

    25,0

    25,5

    50,0

    18,2

    38,6*

    27,3*

    34,1

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Mulheres

    n=120

    41,8

    46,6

    11,6

    31,7

    15,0

    53,3

    24,1

    21,6

    16,7

    61,7

    *

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Total

    n=164

    45,2

    42,0

    12,8

    29,9

    17,6

    52,5

    22,5

    26,3

    19,5

    54,2

    *c2  = 3,87, p < 0,05

    Um bom estado de saúde está associado à qualidade e variedade dos alimentos ingeridos no dia-a-dia. É evidente que a ingestão de dietas ricas em gorduras de origem animal se associa à maior incidência de doenças cardiovasculares e câncer, e que as dietas ricas em frutas e hortaliças associam-se com menor incidência de alguns tipos de câncer.30,12 É importante conhecer a realidade alimentar de um povo, já que seus hábitos alimentares são resultantes de variáveis demográficas, econômicas, sociais, culturais e ambientais.3

    No presente estudo, nota-se a influência da cultura alimentar mineira no consumo alimentar dos idosos, principalmente em relação aos alimentos fontes de lipídeos, dos quais houve consumo considerável de carnes, principalmente aquelas que contêm um alto percentual de gordura (frango com pele, vísceras, carne de porco) e também leite integral.

    Os alimentos energéticos citados como os mais consumidos pelos idosos foram o arroz e o pão, sendo que o consumo diário do arroz atingiu 80% dos indivíduos. No grupo dos alimentos protéicos, 88% dos idosos relataram ingerir feijão diariamente. Apesar de predominar a baixa renda entre a população estudada (54,7% dos idosos possuem renda menor que um salário mínimo), 57,2% dos idosos do PMTI afirmaram consumir algum tipo de carne. O consumo diário de leite e derivados foi de aproximadamente 70%.

    Comparando-se os resultados deste estudo com os apresentados na Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) no período de 2002-2003 (IBGE, 2004), observaram-se algumas diferenças. Por exemplo, no presente estudo, o consumo de arroz, feijão e leite foi mais significativo do que o consumo apresentado pela POF, pois o consumo desses alimentos, nesta pesquisa, sofreu uma queda comparada às pesquisas anteriores.

    As principais fontes de vitaminas e minerais são representadas pelos alimentos reguladores presentes na dieta, em que as frutas foram as mais citadas pelo grupo – resultado semelhante ao encontrado por NAJAS et al.,32 chegando alcançar 60% dos idosos, principalmente as mulheres. As frutas mais acessíveis foram as mais consumidas, como banana (42,5%), laranja (26,3%) e maçã (14,4%). Cinqüenta e sete por cento dos idosos consumiam hortaliças do grupo A diariamente. Assim como as frutas, as hortaliças foram consumidas conforme a renda. A alface (46%), a couve (42%) e o tomate (32%) foram as mais consumidas pelos idosos, pelo menos três ou quatro vezes por semana.

                Do grupo das bebidas, o café mostrou-se fortemente inserido no hábito desses indivíduos. Mais de 90% dos idosos consumiam café diariamente (tabela 4).

    Tabela 4 - Freqüência relativa de consumo diário de alimentos em idosos do PMTI, de acordo com o sexo, Viçosa-MG, 2002 

    Grupos

    Alimentos

    Homens

    Mulheres

    Total

     

     

     

     

     

    Energéticos

    Arroz

    Pães/Biscoitos

    81,4

    53,5

    78,8

    69,9*

    79,5

    65,0

     

     

     

     

     

    Protéicos

    Carnes

    Feijão

    Leite/Derivados

    62,8

    86,0

    58,1

    55,3

    88,6

    70,7

    57,2

    87,9

    67,4

     

     

     

     

     

    Reguladores

    Frutas

    Hortaliças A

    51,1

    48,8

    68,3*

    60,9

    63,8

    57,8

     

     

     

     

     

    Bebidas

    Café

    97,7

    91,8

    93,4

    *p £ 0,05.

     

    A margarina foi mais consumida do que a manteiga – 20 e 2% respectivamente. Nas últimas décadas houve aumento na prática de substituição de gorduras de origem animal por óleos vegetais, decorrente principalmente pelo abandono do uso da banha e pela substituição da manteiga pela margarina.30

               

    Conclusão

    Dos idosos estudados, quase todos apresentaram ingestão energética abaixo da necessidade energética estimada (EER). Observou-se um desbalanceamento na dieta, havendo alta prevalência de inadequação no consumo de proteínas, vitaminas e minerais na alimentação. Encontrou-se também uma alta freqüência de idosos com alto consumo de energia de fontes lipídicas (52,5%) e uma elevada freqüência de idosos com baixo consumo de energia proveniente de carboidratos (42%).

    Os alimentos mais consumidos foram o arroz, feijão, café, frutas e hortaliças do grupo A, o que mostra que o padrão alimentar da população estudada não se diferencia da dieta básica da população brasileira. O consumo de cálcio na dieta foi quantitativamente insuficiente, mesmo que 70% dos idosos tenham afirmado consumir leite e derivados diariamente.

    Apesar dos resultados encontrados, pode-se acrescentar dignidade e qualidade de vida aos anos vividos, bem como aumentar a longevidade deste grupo, por meio da integração de ações (médicas, nutricionais) de socialização do idoso no decurso de oficinas de trabalho e lazer, que são desenvolvidas pelo Programa Municipal da Terceira Idade.

    Notas

    a PhD em Saúde Coletiva. University of Kentucky, UK, EUA. Professor Adjunto do Departamento de Nutrição e Saúde, Universidade Federal de Viçosa.  E-mail: altinoco@ufv.br 

    b Mestre em Ciência da Nutrição. E-mail: wilson.fuom@ig.com.br 

    c Nutricionista, mestranda em Ciência da Nutrição, Departamento de Nutrição e Saúde, Universidade Federal de Viçosa. E-mail: mslsantana@yahoo.com 

    d Nutricionista, mestranda em Bioquímica Agrícola, Universidade Federal de Viçosa. E-mail: larissafroede@yahoo.com.br

    e Nutricionista, estudante especial do Programa de Pós Graduação em Ciência da Nutrição, Universidade Federal de Viçosa. E-mail: amandanutuerj@yahoo.com.br

    f Doutora em Nutrição, Universidade Federal de São Paulo. Professora Adjunto do Departamento de Nutrição e Saúde, Universidade Federal de Viçosa. E-mail: sylvia@ufv.br 

    g Doutora em Alimentos e Nutrição, Universidade Estadual de Campinas. Professora Adjunto do Departamento de Nutrição e Saúde, Universidade Federal de Viçosa. E-mail: msilva@ufv.br 

    h Doutora em Ciências e Tecnologia de Alimentos, Universidade Federal de Viçosa. Professora Adjunto do Departamento de Nutrição e Saúde, Universidade Federal de Viçosa. E-mail: casantos@ufv.br

     

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    Recebido em: 12/4/2007

    Aceito: 09/7/2007

    ^rND^sAlmeida^nOP^rND^sRatto^nL^rND^sGarrido^nR^rND^sTamai^nS^rND^sBarreto^nSAJ^rND^sCyrillo^nDC^rND^sBingham^nSA^rND^sCarvalho^nF^rND^sTelarolli Jr^nR^rND^sMachado^nJCM^rND^sCampos^nMTFS^rND^sMonteiro^nJBR^rND^sOrnelas^nAPRC^rND^sCervato^nAM^rND^sDerntl^nAM^rND^sLatorre^nMRO^rND^sMarucci^nMFN^rND^sChaimowicz^nF^rND^sCintra^nIP^rND^sCosta^nMFFL^rND^sGuerra^nHL^rND^sBarreto^nSB^rND^sGuimarães^nRM^rND^sDonkin^nAM^rND^sJohnson^nAE^rND^sLilley^nJM^rND^sFerriolli^nE^rND^sFilho^nJMC^rND^sRamos^nLR^rND^sHuang^nY^rND^sKachani^nAT^rND^sLamy^nM^rND^sLasheras^nC^rND^sLazarus^nR^rND^sMathey^nMAM^rND^sMondini^nL^rND^sMonteiro^nCA^rND^sNajas^nMS^rND^sNogués^nR^rND^sOliveira^nSP^rND^sThebaud-Mony^nA^rND^sSilva^nSRC^rND^sFernandes^nRAC^rND^sTeixeira^nJJV^rND^sLefeuvre^nF^rND^sVelásquez-Meléndez^nG^rND^sAlmeida^nOP^rND^sRatto^nL^rND^sGarrido^nR^rND^sTamai^nS^rND^sBarreto^nSAJ^rND^sCyrillo^nDC^rND^sBingham^nSA^rND^sCarvalho^nF^rND^sTelarolli Jr^nR^rND^sMachado^nJCM^rND^sCampos^nMTFS^rND^sMonteiro^nJBR^rND^sOrnelas^nAPRC^rND^sCervato^nAM^rND^sDerntl^nAM^rND^sLatorre^nMRO^rND^sMarucci^nMFN^rND^sChaimowicz^nF^rND^sCintra^nIP^rND^sCosta^nMFFL^rND^sGuerra^nHL^rND^sBarreto^nSB^rND^sGuimarães^nRM^rND^sDonkin^nAM^rND^sJohnson^nAE^rND^sLilley^nJM^rND^sFerriolli^nE^rND^sFilho^nJMC^rND^sRamos^nLR^rND^sHuang^nY^rND^sKachani^nAT^rND^sLamy^nM^rND^sLasheras^nC^rND^sLazarus^nR^rND^sMathey^nMAM^rND^sMondini^nL^rND^sMonteiro^nCA^rND^sNajas^nMS^rND^sNogués^nR^rND^sOliveira^nSP^rND^sThebaud-Mony^nA^rND^sSilva^nSRC^rND^sFernandes^nRAC^rND^sTeixeira^nJJV^rND^sLefeuvre^nF^rND^sVelásquez-Meléndez^nG^rND^nNayara de Paula^sFaleiros^rND^nJosé Sterza^sJusto^rND^nNayara de Paula^sFaleiros^rND^nJosé Sterza^sJusto^rND^nNayara De Paula^sFaleiros^rND^nJos‚ Sterza^sJusto

    O idoso asilado: a subjetividade intramuros

    The institucionalized elderly: the subjectivity on the other side 

    Nayara de Paula Faleirosa
    José Sterza Justob

    Resumo 

    O processo de envelhecimento humano desperta interesse como objeto de estudo desde o século VI a.C., quando os filósofos da Antigüidade já utilizavam um sistema periódico para descrever a vida. Porém, ainda há poucos estudos sobre idosos asilados. Esta pesquisa se propôs a investigar como os idosos residentes em uma instituição asilar de Assis/SP representavam a si mesmos e o lugar em que viviam. Procuramos também mapear as possíveis relações entre essas representações e o processo de institucionalização. Para tanto, entrevistamos 21 idosos (13 homens e oito mulheres). A análise das entrevistas mostrou que a percepção que idosos asilados têm de si mesmos e da instituição asilar é heterogênea. Apesar de reconhecerem o processo de institucionalização pelo qual passam, poucos o apontaram claramente, nomeando os aspectos positivos e negativos. Em geral, utilizaram assertivas curtas ou a contraposição da vida anterior à entrada no asilo à vivida atualmente no mesmo para demarcar as diferenças que sentiram.

    Palavras-chave: envelhecimento; idoso;   auto-imagem; percepção social ; institucionalização  instituição de longa permanência para idosos; Assis/SP

    Abstract 

    The process of human aging has been considered an interesting study subject since the 6th century BC, when ancient philosophers used a periodical system to describe life. However, there are few studies on elderly living in nursing homes. This research aimed to investigate how elders living in a nursing home in Assis/SP (Brazil) feel about themselves and about the place they live. We have also tried to find potential relationships between those portrayals and the institutionalization process. To do so, 21 elderly were interviewed (13 men and eight women). When the interviews were analyzed, we came up to the conclusion that the elderly living in nursing homes have a heterogeneous perception of themselves and of the institution. Although aware of the institutionalization process they are subjected to, few of them were able to describe it clearly, stating the positive and negative aspects. In general, they used short assertions or comparisons against the life they used to live before being admitted to the nursing home, in a way to point out the differences they felt.

    Key words: aging ; aged;  self concept; social perception; institutionalization  ; homes for the aged ; Assis/SP

     

    INTRODUÇÃO 

    As pesquisas desenvolvidas atualmente nas áreas geriátrica, gerontológica e da Psicologia do desenvolvimento têm, em sua grande parte, procurado desinstitucionalizar o conceito de envelhecimento populacional conhecido até então, seja pela reafirmação deste como processo integrante da experiência vivencial dos indivíduos, seja pela desconstrução dos estereótipos a ele imprimidos.

    A descrição da vida humana por meio de períodos delineados é uma prática utilizada desde o século VI a.C. pelos filósofos jônicos. Ariès1 comenta que este sistema das “idades da vida” foi posteriormente adotado nos escritos bizantinos da época medieval e nos primeiros livros científicos datados do século XVI. Nestes últimos, a periodização da vida esboçava praticamente todas as características afirmadas já no século XIV: era representante das diferentes etapas biológicas e das funções sociais a elas atribuídas.

    A partir do século XVIII, baseada na associação do cientificismo evolucionista e da modernização ocidental, as concepções de juventude e velhice como pólos opostos foram constituídas dentro de um campo de valores “de acordo com suas possibilidades para produção e reprodução de riqueza (...) não tendo mais a possibilidade de produção de riqueza, a velhice perderia também o ser valor simbólico”.4

    Em conseqüência dessa lógica maquínica, a juventude e o processo de escolarização, o adulto e as relações de trabalho e a velhice e o momento da aposentadoria foram fixadas como três categorias socialmente funcionais, parte da segunda etapa de investimento sensível na idade cronológica dentre as três sucessivas investigadas por Moody (apud Debert).9  A primeira se refere à pré-modernidade, em que o status familiar é mais relevante que a datação cronológica para atuar como ratificador do nível de maturidade e gerenciamento de poder. A terceira é a pós-modernidade, que procura desconstruir a obrigatoriedade do vínculo geracional do curso de vida dos indivíduos com a criação de “um estilo unietário”, em que “o curso de vida transforma-se em um espaço de experiências abertas e não de passagens ritualizadas de uma etapa para a outra”, conforme Giddens (apud Debert).9  

    Nessa perspectiva, promete-se a possibilidade de novas normas, expectativas e comportamentos em determinada idade e a descaracterização de estereótipos, fomentando redefinições nas categorias etárias vigentes.

    Apesar de essas novas imagens existirem como parte de um momento de reformulação do discurso científico sobre o processo de envelhecimento, a realidade vivida pelos idosos residentes em instituições asilares parece estar a margem desse contexto, na continuidade de uma dinâmica que aparenta lhes ser própria. “Talvez a visibilidade das instituições asilares se deva a isso, em parte, visto que os velhos institucionalizados dificilmente se encaixam nas imagens da terceira idade”.13

    No Brasil, a primeira instituição voltada para os cuidados da velhice foi o Asilo São Luiz para a Velhice Desamparada, em 1890, na Cidade do Rio de Janeiro/RJ, conforme Groisman.13 Essa instituição asilar não abrigaria apenas os idosos pobres, prosseguindo numa óptica filantrópico-assistencialista do início do século XIX, mas também àqueles que tinham recursos financeiros. Para estes, foi criada uma ala especial na referida instituição em 1909, onde residiam mediante pagamento de mensalidade.

    A prática da institucionalização no Brasil do século XIX perpassou mudanças nos valores socioculturais vigentes, sendo agrupadas por Groisman13 em três momentos. Num primeiro, o indigente, visto como incapaz para o trabalho, era considerado parte da sociedade e, por isso, “protegido” pela caridade das famílias abastadas. Os idosos já se encontravam em meio a esses pobres, porém não como população diferenciada. O segundo momento é marcado pelo fortalecimento do discurso higienista da medicina social que, associada à filantropia, interveio sobre a organização do espaço urbano por uma “sociedade sadia”, controlando, separando e categorizando os pobres, além de criticar a caridade realizada até então. O terceiro momento pode ser caracterizado pela “laicização”, quando as instituições se tornaram especializadas: “(...) os mendigos considerados inválidos eram encaminhados ao Asilo São Francisco de Assis (novo nome do Asilo de Mendicidade), os loucos ao Hospício Nacional, os menores aos institutos correcionais”. 13

    O espaço asilar parece não ter sofrido grandes transformações...

     O INTRAMUROS 

    Desde seu início, a função do espaço asilar não era promover a recuperação do indivíduo ali residente e incentivar sua volta ao convívio social mais amplo, como acontece nos hospitais, por exemplo. Era, e continua sendo, uma instituição depositária, tuteladora de indivíduos idosos, oferecendo apenas os cuidados “suficientes às pessoas que estejam em seus últimos dias de vida”. 8

    Em geral, a instituição asilar possui uma estrutura, tanto física quanto dinâmica, que pouco oferece espaços de lazer e promoção de saúde para os residentes, entendendo-se como promoção de saúde uma proposta de cuidados que procure capacitar o idoso a viver com qualidade de vida e de forma autônoma.

    Além disso, raramente possui um grupo de cuidadores que não associem doença e velhice, resultando em práticas infantilizadoras e exacerbantes. “(...) o mais comum é que, sob muitos aspectos, o idoso seja tratado com aquele misto de condescendência e impaciência característico de grande parte das relações adulto-criança”. 14

    Outro fato preponderante é a relação que os idosos residentes mantêm entre si. Fornós10 descreve bem esse quadro: “En general, el contacto entre ellos era escasso, apenas si conocían los unos a los otros, se comunicaban muy poco entre si cada cual parecía vivir aisladamente”.

    A manutenção rígida do cotidiano asilar em detrimento de estímulos à sociabilização entre os internos, a indisposição dos indivíduos, a condição física dificultadora que diminui a freqüência dos contatos interpessoais e a evitação de relações identificatórias com o outro que representa “a minha velhice”, são alguns motivos que reforçam a continuidade dessa situação. 3,14

    Dentro desse contexto e apoiados na literatura concernente, desenvolvemos uma pesquisa com idosos residentes numa instituição asilar na cidade de Assis/SP. Nosso objetivo foi verificar, através da fala dos próprios idosos, as representações que tinham a respeito de si mesmos e da instituição em que viviam – por meio de imagens, idéias e sentimentos. Procuramos também mapear as possíveis relações entre essas representações e o processo de institucionalização pelo qual passam.  

    MÉTODO 

    Para tanto, atuamos como observadores participantes e utilizamos a entrevista semi-estruturada como principal instrumento para a coleta dos dados, compreendendo-a como importante técnica investigativa e facilitadora da emergência de fatos fundamentais da situação do entrevistado. Por meio dela, pode-se estabelecer uma relação afim entre este e o entrevistador.11 Entrevistamos 21 sujeitos, oito mulheres e 13 homens, com idades entre 55 e cem anos, moradores efetivos da instituição asilar – que, naquele momento, abrigava cerca de 45 residentes – que atendiam ao critério de pleno domínio de fala e cognição e concordaram em participar da pesquisa nos termos da Resolução CNC nº 196/96.

    Formulamos as questões das entrevistas com o intuito de promover um conhecimento e uma compreensão adequada da pessoa entrevistada e da situação que pretendíamos estudar, dividindo-as em dois momentos: no primeiro, primamos pela identificação e caracterização dos sujeitos, questionando-os sobre a composição familiar originária, rotina e convivência social. No segundo momento, os questionamos sobre a trajetória de vida, buscando apreender seus conceitos de vida/morte e sociabilidade/solidão enquanto indivíduos asilados. As entrevistas foram gravadas em fita para que detalhes verbais como hesitações, por exemplo, não fossem omitidos no decorrer da pesquisa.

    Conseguimos realizar cada entrevista com um interstício de três dias, que se mostrou bem adequado por permitir a retomada do encontro anterior sem prejuízo da motivação, além de evitar situações contraproducentes provocadas por acontecimentos próprios da rotina institucional como cultos religiosos, visitas de voluntários e familiares, consultas médicas e outros.

    O contato inicial e o estabelecimento do rapport foram bastante facilitados pelo fato de conhecermos a instituição e seus usuários há certo tempo. Desde o ano de 2003, desenvolvemos um projeto de estágio nesse espaço, onde, por meio de intervenções semanais, realizamos oficinas de expressão com recursos diversos: pintura, escultura, fotografia, atividades físicas, entre outros.

    Tivemos cuidado de esclarecer o melhor possível que as entrevistas individuais que faríamos eram uma atividade diferente daquelas que realizávamos habitualmente com eles, apesar de estarem ancoradas em toda nossa experiência anterior de contato com os idosos.

                Mantivemo-nos atentos aos aspectos éticos da pesquisa e acompanhamos as emergências emocionais deflagradas em algumas entrevistas. Cumpre esclarecer que alguns tópicos abordados, como o momento de internação, reacendem conteúdos emocionais fortes; mas foi possível fornecer suporte a todos os sujeitos que se mostraram mais emotivos sem a necessidade de recorrer a outros profissionais.

    A análise de conteúdo dos dados coletados foi baseada em Bardin2 que propõe três etapas para sua realização. Na primeira, a pré-análise, fizemos uma leitura prévia para conhecimento dos conteúdos das entrevistas, organizamos os dados coletados e sistematizamos as idéias iniciais com vistas a um plano de análise. Elaboramos também, orientados pelos objetivos da pesquisa, os indicadores, fazendo os recortes necessários para que os dados pudessem ser categorizados. Na segunda etapa, a exploração do conteúdo, transformamos os dados brutos colhidos nas entrevistas em representações claras do conteúdo destas e, a partir de suas características principais, procuramos categorizá-los, ou seja, agrupá-los por analogia segundo o campo de significação delimitado em cada categoria. Por último, no tratamento dos resultados, fizemos a interpretação dos dados, com o objetivo de mapear as representações expressas pelos sujeitos.

    O presente estudo foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências e Letras/UNESP Assis, por meio do processo 02162/2004 e registro nº 003/2004. Os dirigentes da instituição asilar estudada e os idosos residentes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Preservou-se a identidade da organização.

    RESULTADOS E DISCUSSÃO 

    A partir da análise das entrevistas e tomando-se por unidade mínima para a análise as palavras e segmentos de palavras dos sujeitos que compunham um tema, construímos as categorias abaixo relacionadas:  

    1.      Motivos e iniciativa para o asilamento

    Nesta categoria, agrupamos as unidades que diziam respeito não só às razões que os idosos apresentaram para sua institucionalização, mas também à indicação do sujeito dessa iniciativa: familiares, amigos, ex-patrões etc.

    Dos 21 entrevistados, apenas dois disseram ter ido para o asilo por vontade própria, sendo que 11, dentre os outros 19 entrevistados que foram encaminhados para lá por outras pessoas, apontaram um familiar como o agente da iniciativa para a institucionalização.

    “(...) Fiquei cinqüenta dias no (...) no (...) hospital. E (...) que que eu ia falar? [então os filhos da senhora a trouxeram para cá?] Aí (...) eu (...) a (...) eles trouxeram porque, pra eu não dar trabalho mais (...)” (D.Marília)

    “O meu sobrinho. [por que ele trouxe a senhora?] (...) não sei (...) [repeti a pergunta] pra passear (...) e agora não quer me levar (...) [risos]” (D. Malvina)

    O contato dos idosos residentes com esses familiares em geral é escasso. Poucos idosos mencionaram serem visitados assiduamente por eles. Percebemos que mesmo aqueles que possuem familiares próximos – na mesma cidade ou em cidades contíguas – se sentem extremamente dependentes dos cuidados do asilo, abandonados pela sociedade, pela família e a caminho da morte. Junto com as perdas sociais já sofridas pelo envelhecer, o rompimento dessa rede relacional – de forma abrupta ou não – acentua a tendência ao isolamento psicossocial dos internados, que têm poucas trocas afetivas também em relação aos outros moradores. 8,14  

    As visitas de voluntários, amigos e curiosos costumam ser a maioria no caso da instituição em estudo, conforme nossa experiência de trabalho lá desenvolvida. Os motivos do afastamento familiar, após a institucionalização de boa parte dos entrevistados, não foram evidenciados em nenhuma das respostas dadas. Segundo nosso ponto de vista, seria necessário um acompanhamento sistemático dos envolvidos – idosos e familiares – para melhor compreensão dessa dinâmica e motivações, o que requeriria um estudo específico.

    Quatorze entrevistados apontaram o adoecimento como principal motivo para suas internações. A doença tira-lhes a autonomia pessoal e exige maiores cuidados, o que a família não pode proporcionar pela falta de recursos financeiros, pela falta de tempo ou por seus membros não se acreditarem qualificados o suficiente frente às exigências. 10,14  

    2.      Mudanças sentidas pelo asilamento

    Esta categoria se refere à confrontação da vivência após a institucionalização e a anterior a esta, ponderando-se as distinções sentidas e percebidas.

    A maioria dos idosos entrevistados desenvolvia alguma atividade laborativa antes de ingressar no asilo, geralmente relacionada à agricultura, serviços domésticos, serviços gerais – pedreiro, pintor etc. – e outras áreas diversificadas. Esta passagem da situação de labor, na qual eram agentes, à de “descanso”, quando são considerados inativos, foi apontada por alguns como a grande diferença percebida entre a vivência asilar e a anterior a esta.

    “Não, ai (...) ara (...) eu achava bão eu que tava trabaiando, né. Eu andava pra qui, pra li (...) eu ia passeá e (...) aqui é parado, né (...) aqui, parece que fica mais doente do que quando tá trabaiando (...) ” (Sr. Oswaldo)

    Ao consolidar o trabalho como meio de subsistência humano, o capitalismo o constituiu como uma das atividades que nos é característica. Nessa ótica, a vida não tem valor se não é completamente dedicada ao trabalho, à produção de riquezas. Chegado o momento da aposentadoria, de desligar-se dessa “linha de montagem” a que se reduziu a vida, o idoso sente-se pesaroso, uma vez que este sistema de vida mutilador se tornou, praticamente, a única maneira de se viver. 3,7

    Uma outra parte dos idosos entrevistados considerava a vivência asilar melhor que a anterior, seja porque agora, no asilo, têm uma condição de vida mais favorável, seja porque a vivência anterior era conflituosa.

    “Aqui [no asilo] parece que tá mió, né. Porque eu não preciso fazer nada, num (...) eu fazia comida, lavava roupa, tudo, né (...)” (Sr. Leopoldo)

    “Aqui tá melhor. [por que?] porque tá melhor porque eu tô sozinho (...) livra de eu passar nervoso junto com a minha fia lá (...) que ela brigava muito” (Sr. Mauro) 

    3.      Relacionamento estabelecido com a estrutura asilar 

    Nesta categoria, evidenciamos os sentimento de pertença ou não-pertença dos idosos à instituição asilar e os possíveis vínculos afetivos que lá são desenvolvidos entre os residentes e entre estes e os funcionários.

    Em geral, grande parte dos entrevistados apontou apenas os positivos do asilo, nomeando como parâmetros de análise os recursos médicos disponibilizados, a alimentação oferecida, as pessoas, o repouso etc. Destes, três entrevistados relacionaram os pontos positivos ao fato de terem se acostumado com a institucionalização.

    “O que a senhora poderia dizer que é bom no asilo?

    Ah (...) só (...) as coisas que a gente tem (...) tem recurso, né, tem médico, tem enfermeiro que dá insulina (...) são muito bonzinhos, né, então (...) a gente vai aceitando, né.

    O que a senhora acha que é ruim no asilo e gostaria que mudasse?

    (...) não tem não (...) não tem problema não (...)” (D. Nélia) 

    Quando questionados quanto à vontade de sair do asilo, nove entrevistados disseram já ter pensado em fazê-lo, sendo que oito gostariam de retornar às condições de habitação que possuíam antes da internação. Pudemos verificar que entre aqueles que afirmaram não terem pensado em se mudar, o motivo preponderante é terem adquirido o costume de permanecer no lugar em que já estão, deixando subentendido, muitas vezes, um sentimento de impotência.

    “Ah? [O senhor já pensou em sair do asilo?] (...) eu já entrei aqui memo (...) o que é que eu faria (...) já acostumei (...) tem é que acostumar mais, né (...)” (Sr. Venâncio)  

    Essa situação é semelhante à encontrada por Jordão Netto14 em sua pesquisa realizada em São Paulo/SP, em 1973, quando boa parte dos sujeitos estudados por ele também afirmou estar satisfeita com a instituição, apesar das diversas condições negativas então relacionadas pelo autor.

    Vimos que mesmo com as mortificações do Eu12 sofridas durante o processo de asilamento, esses idosos apresentam poucas queixas em relação a isso. Quanto aos vínculos relacionais, a maioria dos idosos comentou ter uma boa relação com os demais internos e com os funcionários da instituição, principalmente pelos cuidados assistenciais prestados. 

    4.      Contato mantido com o mundo externo 

    Nesta categoria, apresentamos as atividades que direta ou indiretamente aproximam os residentes do cotidiano exterior à instituição.

    Uma das atividades é a visitação no asilo, que ocorre durante o período comercial todos os dias da semana. Apenas dois residentes disseram não receber visitas, seja de parentes, amigos, voluntários ou curiosos.

    Consideramos a participação nas atividades promovidas pelo núcleo de estágio da Universidade Aberta à Terceira Idade da Unesp/Assis, instituição à qual somos vinculados, citadas anteriormente, como uma segunda forma de contato com o exterior. Três idosos comentaram que não participam dessas atividades. Os demais afirmaram participar e gostar das oficinas realizadas, por estas lhes proporcionarem momentos de diversão e distração.

    Quanto a passeios pela cidade, 12 idosos disseram não fazê-lo por dificuldades físicas para locomoção, cansaço, possibilidade de atraso nos horários da alimentação ou simplesmente por não se sentirem à vontade em sair. 

    5.      Perspectivas futuras 

    Reunimos nesta categoria as representações que os idosos fizeram em relação ao porvir. Percebemos que foi aquela que obteve maior variedade e conseqüente distribuição de unidades expressivas.

    Sete entrevistados não apresentaram qualquer projeto de vida para o futuro, restringindo suas expectativas à cotidianidade. Quatro entrevistados disseram que gostariam de voltar a trabalhar. Seis entrevistados gostariam de sair da instituição asilar e “voltar para casa”, e três manifestaram a vontade de morrer o mais breve possível, percebendo a morte como resolução dos sofrimentos vivenciados.

    “Ah (...) [pausa longa] Eu já tô muito desanimado da vida, vixi (...) desanimado da minha doença (...) não sara a dor na perna (...) que o probrema da perna qui é (...) treme direto. Já fui no médico, o médico disse é (...) causa de derrame que eu tive (...) [pausa longa] [O que o senhor pensa em fazer daqui para frente?] Ah, não tenho por enquanto não (...) não tenho não, não tenho não [a voz foi baixando até sussurrar].” (Sr. Mauro)

    “Futuro? Ficar bom e trabaiá.” (Sr. Juvenal)

    “(...) No futuro? Eu espero só que Deus me leve. Quanto mais perto (...) porque eu tenho que pensar na minha alma, senão eu já tinha (...) terminado com a vida.” (D. Amanda)

    A partir do exposto, acreditamos que a concepção da velhice asilada como um processo de constantes perdas, que traz ao indivíduo a sensação de não poder mais viver suas potencialidades de forma plena e relacionar-se com o porvir, é uma representação da maioria dos residentes. Apesar de a velhice estar ainda vinculada às construções das idéias de morte e declínio das funções vitais, vimos a importância de não reduzirmos o envelhecimento à homogeneização, pois há aqueles que percebem o asilo como mais um local de passagem, assim como outros já vividos. E, embora saibam das dificuldades – físicas, financeiras, entre outras – a que estão expostos, nutrem a esperança de saírem de lá em algum momento.

    Um fato que nos intrigou bastante foi que a maioria dos idosos afirmou não ter recordações dos primeiros tempos na instituição. Alguns disseram apenas que se acostumaram rapidamente e que agora estava “tudo bem”. Segundo Goffman,12 todos nós temos uma “cultura aparente” fomentada pela convivência familiar, em que adquirimos hábitos e maneiras próprias de agir que são aceitas por esse grupo que nos acolhe. Porém, quando se chega a uma instituição total, se é despojado dessa vida comum e, pelas “boas-vindas”, novas regras e condutas são ditadas, impondo-se um “rearranjo do eu”. Os primeiros dias na instituição asilar representam esse momento de passagem, quando o já residente passa a conhecer o cotidiano e o funcionamento institucional: as regras, as atitudes esperadas e os pequenos privilégios que se pode obter mediante a obediência.

    Essa falta de comentários, e mesmo o silêncio proposital, nos sugeriu duas possibilidades de compreensão: ou realmente eles se esqueceram desse momento, seja pelos sofrimentos trazidos ou pelo tempo já passado – o tempo médio de asilamento varia entre dois a três anos, chegando a dez anos em alguns casos – ou se sentem de alguma forma pressionados a não fazerem qualquer reclamação sobre o ocorrido, por medo de punições por parte da equipe dirigente. 

    CONSIDERAÇÕES FINAIS 

    Pelas considerações prévias, podemos dizer que os idosos entrevistados percebem o processo de institucionalização a que são expostos e procuram demonstrá-lo em suas repostas utilizando assertivas curtas ou a contraposição das cotidianidades – anterior e posterior à institucionalização.

    Um dos fatos que mais chamou nossa atenção foi uma grande parte dos idosos ter afirmado estar satisfeita com a instituição asilar, com os recursos e serviços lá oferecidos, com os funcionários e com os outros residentes, sendo que, em contrapartida, demonstram apatia durante a realização de atividades como alimentação ou conversas. Comentaram ainda o ressentimento que têm frente ao afastamento do mundo externo, visível pelas poucas visitas que recebem e passeios que fazem. Em geral, observamos que procuram se isolar das coisas que estão ao redor, ao mesmo tempo em que enfatizam suas supostas passagens pela fase terminal de suas doenças – que em muitos casos não apresentam tal gravidade.

    Esses discursos de aparente satisfação ou resignação podem ser problematizados a partir dos questionamentos de Jordão Netto,14 que propõe as seguintes disposições de idéias, não excludentes entre si: ou o idoso sente-se receoso em criticar a instituição por crer que isto poderá prejudicá-lo, de alguma forma, junto aos dirigentes; ou o fato de terem sido, em geral, pessoas social, política e economicamente pouco participativas faz com que percebam o asilo como um prolongamento dessa situação, onde possuem ainda estabilidade e segurança.

    Acreditamos que o processo de institucionalização se relaciona intimamente com essa representação conflituosa de si. Por um lado, sentem-se acolhidos pela instituição porque não ocupam mais um lugar na rede relacional comunitária em que estavam inseridos, recebendo cuidados essenciais à sua sobrevivência;6 por outro, se sentem marginalizados em relação a esse mesmo meio social, carentes do contato com os outros e de exercerem ativamente sua cidadania, liberdade de ir e vir, de se expressar, de tomar decisões etc.

    Poucos idosos entrevistados desenvolvem alguma atividade que lhes desperta prazer ou que lhes exige certa dose de esforço pessoal e perspectivas futuras. Aqueles que possuem algum afazer se encontram em claro contraste com uma estrutura estagnante, que cultiva a idéia de que o asilo é apenas um “lugar de descanso” e estar lá significa “estar fora do mundo”, não restando mais o que fazer.

    Vale ressaltar aqui que essa oposição – válidos e inválidos – foi uma das justificativas utilizadas no início do século XX no Brasil para a consolidação do asilo como instituição de assistência aos velhos “desamparados”, pessoas que, por terem suas condições físicas para o trabalho diminuídas, não poderiam mais realizá-lo da forma como até o momento tinham feito. 13

    Muitos idosos abraçam essa idéia de invalidez e mergulham num estado depressivo ao visionarem apenas as perdas e faltas constantes e procuram, então, se reafirmar a partir da própria doença.

    A partir desta pesquisa, podemos concluir que a percepção dos idosos asilados sobre a instituição asilar e sobre si mesmos é referida de forma heterogênea nas respostas às entrevistas feitas. Apesar de reconhecerem o processo de institucionalização por que passam, poucos o apontaram claramente, nomeando os aspectos positivos e negativos, como “a comida é que é ruim”, “o isolamento é a parte ruim”, “os cuidados médicos são bons”, entre outros. Procuraram, em geral, apresentar comparações entre a vida anterior à entrada no asilo e a vivida atualmente associadas a expressões indefinidas como “tudo mudou”, “muita coisa”, “nada é melhor”, “tudo é pior” etc., para demonstrar que percebiam as diferenças ocorridas em suas vidas, mesmo que silenciosa e passivamente.  

    NOTAS 

    a Graduada e licenciada em Psicologia. Universidade Estadual Paulista – Faculdade de Ciências e Letras de Assis. Assis, SP, Brasil. 
    b Professor Assistente no Departamento de Psicologia Social, Evolutiva e Escolar. Universidade Estadual Paulista – Faculdade de Ciências e Letras de Assis. Assis, SP, Brasil. E-mail: justo@assis.unesp.br
     

    AGRADECIMENTOS

    A todos os idosos que participaram da pesquisa, e a todos que, direta ou indiretamente, contribuíram para a realização deste trabalho  

    REFERÊNCIAS

    1. Ariès P. As idades da vida. In: ____. História social da criança e da família. 2 ed. Rio de Janeiro: Guanabara; 1981. p. 29-50. 

    2. Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70; 1977. 

    3. Beauvoir S. A velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1990. 

    4. Birman J. O futuro de todos nós. In: ____. Estilo e modernidade em Psicanálise. São Paulo: Ed 34; 1997. 

    5. Bosi E. Memória e sociedade: lembrança de velhos. 2 ed. São Paulo: T.A. Queiroz; 1987. 

    6. Canôas C. A condição humana do velho. São Paulo: Cortez; 1983. 

    7. Cruz M. O idoso e a estimativa do tempo. [tese]. São Paulo: Universidade de São Paulo, Instituto de Psicologia; 1987.  

    8. Davim RMB, Torres GV, Dantas SMM, Lima VM. Estudo com idosos de instituições asilares no município de Natal/RN: características socioeconômicas e de saúde. [acesso 20 abr. 2005]. Rev Lat Am Enfermagem 2004 maio/jun.; 12(3): 518-24. Disponível em:URL: http:// www.scielo.br 

    9. Debert G. A reinvenção da velhice: socialização e processos de reprivatização do envelhecimento. São Paulo: Fapesp; 1999. 

    10. FORNÓS, M. Experiencia de trabajo grupal en una instituición geriátrica. 1997. [acesso 20 abr. 2005]. Disponível em:URL:  http://www.campogrupal.com/textos.html 

    11. Garrett A . A entrevista, seus princípios e métodos. 5. ed. Rio de Janeiro: Agir;1967. 

    12. Goffman E. Manicômios, prisões e conventos. 6. ed. São Paulo: Perspectiva; 1999. 

    13. Groisman D. A infância do asilo: a institucionalização da velhice no Rio de Janeiro na virada do século. [dissertação]. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Medicina Social; 1999.  

    14. Jordão Netto A. A segregação do velho na sociedade. São Paulo: Conselho Estadual do Idoso; 1986.

     

    Recebido em: 14/3/2007
    Aceito: 10/7/2007

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    Doenças sexualmente transmissíveis e HIV/AIDS na opinião de idosos que participam de grupos de terceira idade

    The opinion of elders who attend third age groups about sexually-communicable diseases and HIV/AIDS

     

    Marinês Tambara Leitea

    Cristiano de Mourab

    Evelise Moraes Berlezic

     

    RESUMO

    As DSTs e o HIV/Aids são afecções que acometem grande parcela da população. Este estudo buscou identificar o conhecimento que idosos participantes de grupos de terceira idade possuem acerca das DSTs e HIV/Aids. Estudo quantitativo, transversal, realizado em 2006, sendo a coleta de dados por meio de entrevista. Participaram 52 idosos residentes em Ijuí/RS. Após codificação os dados foram analisados descritivamente. Estes mostram predominância do gênero feminino (61,54%), da faixa etária de 60 a 69 anos (73,08%), com ensino fundamental incompleto (59,61%), casado (40,38%). A maioria ouviu falar acerca dessas afecções, e as principais fontes de informação são: televisão (88,46%) e profissionais de saúde (51,92%). Quanto ao HIV, os métodos preventivos conhecidos são: uso de preservativos (73,07%) e ter somente um parceiro sexual (46,15%). Chama a atenção que 25% dos idosos desconhecem que uma pessoa com aparência saudável possa ser portador do HIV e 34,62% referem conhecer pessoas portadoras desta morbidade. Quando questionados sobre as DSTs que conheciam, Aids (63,46%), gonorréia (38,46%); sífilis (28,84%); cancro mole (3,46%); verruga genital (11,53%) foram mencionadas. Sobre a realização do teste para detectar o HIV, 71,15% deles informaram não ter feito. Também, 73,07% não se consideram detentores de risco para contrair estas morbidades, e 38,46% deles nunca fazem uso de preservativos nas relações sexuais. Estes dados mostram que as campanhas de prevenção não estão atingindo adequadamente esse estrato da população, constituindo-se em preocupação, pois muitos idosos têm vida sexual ativa.

    Palavras-chave: opinião pública; idoso; grupo social; doenças sexualmente transmissíveis; síndrome de imunodeficiência adquirida; Ijuí/RS 

    ABSTRACT

    STD and HIV/AIDS are affections that affect a huge part of population. This study tried to identify the knowledge of elder, who attend third age groups, have about STDs and HIV/AIDS. It is a quantitative, transversal research. Data was collected through interviews. The study was carried out in 2006, and 52 elderly people, living in Ijuí City, Brazil, took part in it. After codification, data were descriptively analyzed. Information shows predominance of females (61,54%), ages ranging from 60 to 69 years-old (73,08%), with no completion of elementary school (59,61%), and married (40,38%). Most of them have already heard about these affections, and the major information sources are: television (88,46%) and health professionals (51,92%). When the subject is HIV, known preventive methods are: the use of condom (73,07%) and having only one sexual partner (46,15%). It is interesting that 25% of the elderly ones do not know that a person with a healthy appearance can be an HIV bearer, and 34,62% say that they know people who bear this morbid disease. When they were asked about the STD they knew, they mentioned: Aids (63,46%), gonorrhea (38,46%), syphilis (28,84%), chancroid (3,46%), genital wart (11,53%); 71,15% informed that they did not do the test to detect HIV; 73,07% do not consider themselves as people in risk to contract these diseases, and 38,48% say they never use preservatives during intercourse. Data show that the prevention campaigns do not reach this part of population, what should be a concern, since many elders have active sexual life.

    Key words: public opinion; aged; social group; sexually transmitted diseases; acquired immunodeficiency syndrome; Ijuí city                 

    INTRODUÇÃO

    O aumento progressivo das doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e do vírus da imunodeficiência adquirida (HIV/Aids) na população idosa, revela que essa morbidade constitui um dos novos problemas de saúde pública. Em termos de Brasil, verifica-se que há progressiva elevação no número de casos notificados de Aids, havendo aumento significativo, nas últimas décadas, entre a população que se encontra na faixa etária superior a 60 anos, se comparada aos mais jovens, na qual há inclusive redução em algumas faixas etárias. Dados mostram que o percentual, entre os indivíduos do sexo masculino na faixa de 25-29 anos de idade, correspondia a 50,9% (taxa de incidência por 100.000 habitantes) em 1993, baixando para 36,6% em 2003 – uma redução de 28%.1

    O acréscimo, na faixa etária de 60 anos ou mais, ocorreu principalmente no sexo feminino que em 1993 era de 56 casos, passando para 321 casos novos em 2003 – um aumento de 473%. No sexo masculino, o aumento foi de 283 em 1993, para 577 casos novos em 2003, com aumento de 103%.1

    Esses indicadores são de grande impacto na sociedade, visto que as perspectivas demográficas apontam para um crescimento acelerado no número de idosos, em especial nos países em desenvolvimento, como o Brasil. Dados das Nações Unidas mostram que no mundo, entre 1970 e 2025, espera-se um crescimento em torno de 223% de idosos. E que, em 2025, o número total de pessoas com mais de 60 anos será de aproximadamente 1,2 bilhão, passando para dois bilhões em 2050, sendo 80% nos países em desenvolvimento.20

    Em concomitância a esse processo há ainda14 muitos mitos e concepções errôneos sobre os idosos, sobretudo em relação à sexualidade. Imagina-se que estes não sentem desejo sexual por uma grande variedade de razões, como: sexo não tem importância na velhice, os últimos anos devem ser sem sexo; o interesse por sexo é anormal entre idosos; quando institucionalizadas, as pessoas idosas devem ser separadas, de acordo com o sexo, evitando problemas aos funcionários e crítica das famílias e comunidade.

    É freqüente que os homens idosos procurem mulheres mais jovens como parceiras sexuais, porém considera-se ridículo quando mulheres idosas se envolvem, sexualmente, com homens mais jovens. Na realidade, o idoso continua tendo impulso e atividade sexual, embora haja alterações, devido às mudanças fisiológicas, expectativas socioculturais, problemas de saúde e medicações.

    Deve-se considerar que a estrutura e função do sistema reprodutor sofrem modificações, devido a mudanças hormonais, tanto no homem quanto na mulher, no decorrer da vida.14 Mas o ancião, saudável, ativo ou debilitado, possui necessidade de expressar sua sexualidade, pois esta é intrínseca do ser humano. A sexualidade compreende amor, calor, partilha e o toque entre as pessoas, não apenas o ato físico da relação sexual. A libido não diminui, mas a freqüência da atividade sexual pode ser reduzida. A mulher idosa que não compreende as alterações físicas que afetam a atividade sexual pode pensar que sua vida sexual está chegando a um fim natural com o início da menopausa, “por outro lado, o homem idoso descobre alterações na firmeza da ereção, tem menor necessidade de ejaculação em cada orgasmo ou maior período de recuperação entre cada intercurso sexual.”14

    Partindo destes dados, as questões relativas aos conhecimentos que idosos possuem acerca das DSTs e HIV/Aids apresenta relevância, tendo em vista a progressiva elevação no número de idosos em nosso país. A população idosa no Brasil tem aumentado, significativamente, passando de 4%, em 1940, para 9% da população total no ano de 2000. Essa ascensão é resultado da combinação da alta taxa de fecundidade, prevalente no passado em comparação com a atual, e da redução na taxa de mortalidade, aliadas ao avanço tecnológico e medidas de caráter preventivo.3

    Junto ao expressivo número de idosos, diversas demandas passam a emergir em termos econômicos, culturais, sociais e de saúde. Nesse sentido, a sociedade em geral busca alternativas com a finalidade de atender a esse contingente populacional. Particularmente, no que se refere aos aspectos sociais, mesmo que incipiente, passou-se a estruturar a formação de grupos com o objetivo de manter os idosos inseridos socialmente na comunidade na qual vivem. Comumente, os grupos são formados por pessoas idosas ou que estão numa faixa etária próxima à velhice, realizam encontros periódicos, freqüentemente, semanais. Cada grupo possui uma finalidade principal, porém todos objetivam exercitar a socialização e o lazer. Nas palavras de Zimerman,21 “o ser humano é gregário por natureza e somente existe, ou subsiste, em função de seus inter-relacionamentos grupais. Sempre, desde o nascimento, o indivíduo participa de diferentes grupos, numa constante dialética entre a busca de sua identidade individual e a necessidade de uma identidade grupal e social”.

    A participação dos idosos em grupos de terceira idade, especialmente naqueles que têm como finalidade primordial a dança (bailes), favorece a maior ocorrência de encontros afetivos, ampliando a possibilidade de o idoso continuar exercendo sua sexualidade. Além disso, o aumento do número da população de anciões, aliado à probabilidade de envelhecer com saúde, aponta para que exista um grande contingente de pessoas freqüentando grupos e, por conseguinte, tendentes a preservar o exercício da sexualidade.

    Hoje a inserção de idosos em grupos de convivência tem aumentado significativamente, na medida em que há acréscimo de indivíduos com 60 anos de idade ou mais. A imagem de uma velhice monótona, sofrida e estereotipada perde aos poucos sua força, a partir do momento em que os indivíduos passam a freqüentar espaços sociais, adquirem conhecimentos e compartilham seus saberes.10

    A possibilidade de conhecer novas pessoas, construir novas amizades, realizar atividades e exercícios físicos, divertir-se, entre outros, são motivos apontados pelos idosos para que passem a freqüentar um grupo de terceira idade. Enfim, diversas são as vantagens de estar inserido em determinado grupo. Entre elas, destaca-se a possibilidade de que os idosos voltem a construir laços afetivos. Isto ocorre principalmente entre os participantes de grupos cuja finalidade, além da socialização, é dançar (baile).

    A partir da concepção de que a terceira idade é uma etapa de independência, maturidade e tempo de usufruir, atribuições ligadas ao dinamismo, à atividade e ao lazer, os idosos passam a invadir progressivamente os espaços públicos, criando estratégias de sociabilidade que lhes permitem tecer novas relações sociais e fugir do isolamento.5

    Nesses espaços, muitos começam um novo relacionamento, passam a namorar e alguns realizam contrato nupcial. Essa situação pode ser considerada favorável para o conjunto de pessoas que freqüentam tal atividade, particularmente no que diz respeito ao exercício da sua sexualidade. Contudo, deve-se estar atento, uma vez que essa condição possibilita contato mais intimo, e se não forem observadas as medidas de precaução, poderá ocorrer a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis e/ou o vírus da imunodeficiência adquirida, de uma pessoa para a outra.

    Cabe lembrar que, no geral, especialmente as mulheres, o cuidado em relação ao sexo seguro vincula-se à possibilidade de uma gravidez, mas na velhice essa situação deixa de ocorrer. A partir desta concepção, na velhice parece haver maior liberação para o exercício da sexualidade sem quaisquer restrições em termos de prevenção, uma vez que os aspectos relativos às DSTs e HIV/Aids podem não constituir preocupação para essa parcela da população.

    OBJETIVO

                Identificar o conhecimento e as práticas de prevenção que idosos residentes no Município de Ijuí/RS, participantes de grupos de terceira idade, possuem acerca das DSTs e HIV/Aids.

    METODOLOGIA

    Pesquisa do tipo transversal, quantitativa, exploratória, descritiva, tendo como local de estudo o município de Ijuí/RS.

    População e amostra

    Constituem a população deste estudo, 268 idosos que freqüentam quatro grupos de terceira idade localizados no meio urbano, cuja finalidade principal é oferecer espaço de socialização, por meio da realização de bailes. Os grupos realizam encontros semanais de aproximadamente quatro horas, e têm como local a sede social da comunidade à qual pertencem, e em alguns casos são realizados em espaços alugados. Os critérios de inclusão da amostra foram: ter idade igual ou superior a 60 anos; estar participando de um dos grupos de terceira idade no município de Ijuí/RS e aceitar fazer parte da pesquisa.

    A amostra foi do tipo estratificada, casual, aleatória simples, sendo que foram entrevistados, no total, 52 idosos.

    Coleta dos dados

    A coleta de dados aconteceu em dia predeterminado pelo responsável do grupo, mediante entrevista com utilização de um questionário contendo questões fechadas, as quais abordam dados sociodemográficos, métodos preventivos e conhecimento sobre DSTs e HIV/Aids.

    Análise dos dados

    Após a codificação, os dados foram digitados em planilha software Excel, formando um banco de dados; as variáveis foram tabuladas e apresentadas por meio de figuras e tabelas.

                Aspectos éticos

    Os aspectos éticos relativos à pesquisa com seres humanos foram observados conforme prevê a Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.2 Além disso, o projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Unijuí, o qual foi aprovado pelo Parecer Consubstanciado nº 003/2006.

    APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS

    As questões relativas às doenças sexualmente transmissíveis e ao vírus da imunodeficiência adquirida constituem relevante problema de saúde para a população, haja vista sua grande incidência em todas as faixas etárias. Além disso, identifica-se que, nas últimas décadas, há um progressivo aumento dessas morbidades nas pessoas que se encontram com idade superior a 60 anos. O aumento da expectativa de vida, aliado ao envelhecimento saudável, tem propiciado para que grande parte da população mantenha os laços sociais, participando ativamente das atividades de lazer, especialmente destinadas para esse estrato populacional. Tal condição favorece a inclusão social, afastando a possibilidade de abandono e exclusão, situação que é freqüente entre os idosos que não possuem vínculos sociais.

    Os dados mostram que, quanto ao gênero, 61,54% são do sexo feminino e 38,46% do sexo masculino, demonstrando predominância de mulheres. Em relação a essa informação, diversas hipóteses explicam por que as mulheres vivem mais do que os homens no Brasil, além das explicações biológicas e genéticas habituais. Uma delas diz respeito às diferenças na exposição a risco de acidentes de trabalho, trânsito, doméstico, homicídio e suicídio, sendo quatro vezes mais freqüentes em homens do que em mulheres; a segunda hipótese está relacionada ao consumo de tabaco e álcool, favorecendo a ocorrência de doenças neoplásicas e cardiovasculares com maior freqüência entre os homens; a última diferença vincula-se à atitude em relação às doenças, em que as mulheres possuem maior aderência ao tratamento.19

    Em relação à idade, a distribuição ocorre entre as faixas etárias 65-69 anos, com 38,46% dos entrevistados; na idade de 60-64 anos o percentual é de 34,62%; na faixa de 70-74 anos se encontram 13,46% dos participantes; e com a idade superior a 75 anos, 13,46% da população idosa estudada. Percebemos que a maioria dos idosos se concentra na faixa etária de 60 a 69 anos, totalizando 73,07%. Este dado está em concordância com os dados apontados pelo Censo do IBGE de 2000,7 segundo o qual a maioria dos idosos se concentra nesta faixa etária, com percentual de 56,28%.

    Os dados relativos à ocupação mostram que 54% dos idosos estudados encontram-se aposentados, enquanto que 7,70% deles ainda realizam trabalhos como autônomos. Isto demonstra que os idosos atuais, ao se aposentarem, em vez de ficar em casa, correndo o risco de desenvolver sintomas depressivos ou outros males – pois se sabe que a fase de transição, depois de anos de trabalho, para a ociosidade, é muito complicada – estão freqüentando bailes de terceira idade. Nessa atividade, além de não se sentirem sozinhos, realizam atividades físicas e convivem socialmente.

    Esta assertiva está em consonância com o que Rodrigues e Rauth15 apontam sobre a aposentadoria como instituição social. Para elas, a aposentadoria “apresenta alguns aspectos contraditórios. Se, de um lado, alguns a vivem como um tempo de liberdade, desengajamento profissional, de possibilidade de realizações, de fazer aquilo que não teve tempo de fazer durante a vida ativa, de aproveitar a vida, de não ter mais patrão nem horários obrigatórios, por outro lado alguns a consideram como um tempo inútil, de desvalorização social, sem sentido, vazio, de nostalgia e de engodo

    Outra variável analisada é o nível de escolaridade, que, convertendo para o atual sistema de ensino, ficou assim distribuído: ensino fundamental incompleto, com um percentual de 59,61% dos entrevistados; ensino fundamental completo, com 17,32%; com ensino médio incompleto aparecem 3,84% dos idosos; o ensino médio completo foi mencionado por 1,92% dos participantes;o ensino superior foi realizado por 7,70% dos entrevistados; e 9,61% deles não possuem instrução formal.

    A ausência de instrução ou o pouco tempo de estudo dos idosos podem não afetar seu senso crítico ou sua capacidade em compreender certos fatos. Mas acreditamos que podem causar dificuldade no entendimento das campanhas relacionadas a DSTs, HIV/Aids, tema deste trabalho. Por isso, os meios utilizados para que a informação chegue até essa população deve ser de fácil compreensão e com vocabulário simples. No entanto, observamos que há o predomínio da orientação técnica, sem preocupação com o nível de compreensão e das condições socioeconômicas e culturais da pessoa que está recebendo a informação. As orientações possuem uma única via de transmissão, não importando se há compreensão – isto é, se há percepção do risco em contrair alguma afecção sexualmente transmissível e se é possível pôr em prática tal intervenção.

    Analisando a situação conjugal dos freqüentadores dos grupos, percebemos que 40,38% deles encontram-se casados, 36,53% viúvos(as), 17,30% separados(das) e 5,76% são solteiros(as). No que diz respeito particularmente à viuvez, para os idosos atuais, essa situação conjugal significa autonomia e liberdade. Este fato foi constatado na pesquisa, pois 36,53% dos idosos são viúvos(as), demonstrando que esse estado conjugal não impede as pessoas de usufruírem esta etapa da vida, se divertir, conhecer novos parceiros(as), fazer novos amigos – enfim, levar uma vida saudável e divertida, pois consideramos que a viuvez e a terceira idade não são o fim de um ciclo, mas o início de outro, com suas particularidades, idêntica a qualquer outra fase da vida humana.4

                Constata-se na pesquisa que a renda familiar da maioria dos idosos estudados que freqüentam grupos de terceira idade encontra-se entre um e quatro salários mínimos (SM). Os que recebem entre 1 a 2 SM são 32,69% dos idosos; os que percebem de 2 a 3 SM correspondem a 25%; e os que ganham de 3 a 5 SM são 26,91% dos entrevistados. Mas também há freqüentadores com renda inferior a um salário mínimo (7,70%), e um percentual semelhante recebe renda superior a cinco salários mínimos.

                Essas informações divergem, pelo menos em percentuais, dos dados encontrados no Censo de 2000 do IBGE,7 no qual as percentagens são as seguintes: com rendimentos abaixo de um salário mínimo estão 39,80% dos idosos brasileiros; os que apresentam renda entre 1-2 SM estão 15,20%; com 2-3 SM são 8,50% dos indivíduos desaa população; de 3-5 SM são 10,60% dos idosos e com mais de cinco salários mínimos encontram-se 20,90% do contingente idoso do Brasil.

                O rendimento dos idosos é um item importante a ser analisado, pois está diretamente associado às condições de vida. Atualmente, muitas famílias são sustentadas financeiramente com os proventos da aposentadoria da(s) pessoa(s), o que às vezes não é suficiente, tirando, em muitos casos, a oportunidade do idoso utilizar o benefício em seu proveito. Contudo, aqueles que possuem condições de manter parte do dinheiro para si conseguem ter maior probabilidade de possuir melhor qualidade de vida, com dignidade e auto-estima elevada, tendo reflexo também na expectativa de vida.

    Nos últimos anos, o rendimento salarial dos idosos tem aumentado, elevando a renda da população idosa em função da atual legislação, que prevê o “benefício da prestação continuada” como benefício assistencial para todo cidadão com idade superior a 65 anos. Essa resolução e a universalização da Seguridade Social, da ampliação da cobertura da previdência rural e da legislação da assistência social, estabelecidas pela Constituição de 1988,3 contribuíram para a melhoria das condições financeiras da população idosa. Segundo Camarano,3 já em 1998 a situação em relação à renda havia melhorado muito, uma vez que a proporção de idosos sem renda era de 12%, enquanto que em 1981 esse percentual era de 21%. Com essa ação diminuiu o número de pessoas idosas sem rendimento.

    Evidenciamos, ainda, que grande parte dos idosos pertence à religião católica (88,46%), enquanto que a segunda religião predominante foi a evangélica, com 9,62%. Este dado tem sua significância, uma vez que valores e crenças, entre eles a religião, constituem elementos que podem interferir na percepção de vulnerabilidade a DSTs e HIV/Aids, especialmente na adoção de métodos de sexo seguro, como é o caso da utilização de preservativos.

    Quanto à raça/cor, a maioria se autodenominou branca, com 82,68%, seguido pela negra e mulata, ambas com 7,70%. Esses índices coincidem com as da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), de 2004, a qual constatou que na Região Sul do Brasil, não somente entre idosos, mas na população total, 82,80% são da raça/cor branca, 13,30% parda, 3,40% da raça negra e 0,50% de outra.8

                Analisando os dados relativos à moradia, verifica-se que 75% dos participantes possuem casa própria, sendo que 42,31% residem com a(o) companheira(o); 32,69% moram com filho(a) e família; e 11,54% moram sozinhos(as). Segundo o IBGE, no Censo de 2000,7 62,40% dos idosos são responsáveis pelos domicílios brasileiros, representando 20% do total de moradias. E considerando os domicílios sob responsabilidade de idosos, 17,90% são de indivíduos que moram sozinhos.

    Ao serem questionados se já haviam ouvido falar sobre DSTs e HIV/Aids, na proporção de 82,69% e 98,07% respectivamente, responderam afirmativamente. No entanto, 9,61% não ouviram falar sobre DSTs e 1,93% mencionaram que nunca ouviram falar sobre HIV/Aids. Além disso, 7,70% dos idosos não lembraram de ter escutado algo sobre DSTs.

    Essa informação nos revela que os idosos, mesmo que não saibam as especificidades sobre as DSTs e HIV/Aids, ao menos já ouviram falar e sabem que tais morbidades existem. O acesso aos meios de comunicação e de informações, aliado à evolução cultural na sociedade atual, possibilitaram modificações comportamentais, permitindo maior esclarecimento e conscientização, em especial, entre os idosos.17

     FIGURA 01 - Distribuição dos idosos participantes de Grupos de Terceira Idade do Município de Ijuí/RS, quanto aos meios em que obtiveram informações sobre DSTs e HIV/Aids . Ijuí/2006.

     Fonte: Moura, Cristiano de. Pesquisa de campo. Ijuí, 2006.

     

    No que diz respeito aos meios pelo qual obtiveram informações sobre DSTs e HIV/Aids, a televisão foi a mais indicada (88,46%), seguida por profissionais de saúde (51,92%), rádio (48,07%), amigos e parentes (34,61%) e por meio de folhetos (23,07%). Como as campanhas referentes à área da saúde em geral são ainda direcionadas à população jovem e de meia idade, os estudos mostram que elas devam ampliar o leque de intervenção, no sentido de atingir também a população idosa. Outro foco de preocupação é o modo como está sendo abordado o tema DSTs e HIV/Aids, priorizando a população jovem e não contemplando a população de idosos. Além disso, é oportuno usar também uma linguagem adequada para que as pessoas da terceira idade possam compreender, assimilar e aderir aos meios de prevenção dessas morbidades.

    Contribui para isso o fato de que, na sociedade atual, a pessoa idosa é vista ainda de forma pejorativa, em situação de fragilidade, desvalorização, entre outros. Essa condição parece não motivar os responsáveis pela divulgação dos meios de prevenção das DSTs e HIV/Aids, para que tais informações atinjam o público formado por pessoas idosas. Além desse fato há o preconceito, freqüente, de que na velhice os idosos não exercitam sua sexualidade e, portanto, não se enquadram no grupo de pessoas consideradas vulneráveis.

                A “difusão de noções preconcebidas sobre a velhice envolve diversas áreas vitais, como cognição, saúde, sociabilidade, personalidade, sexualidade e capacidade de trabalho”.12 Restam muitos desafios em relação às campanhas de prevenção, pois, além da falta de profissionais capacitados, há descontinuidade das ações e inexistência de informações sobre a eficácia das campanhas “panfletárias” (distribuição de folhetos), já que neste caso as orientações são superficiais e, muitas vezes, não atingem a população idosa.13

     

               

    Os dados mostram que a população de idosos estudada possui conhecimento acerca da maior parte dos meios que podem ser utilizados com vistas à prevenção de DSTs e HIV/Aids. Na figura 02 podemos verificar os métodos que são conhecidos e mencionados pelos idosos para evitar DSTs e HIV/Aids. O uso de preservativo masculino foi indicado por 73,07%; seguido por ter um único um parceiro(a) sexual, 46,15%; evitar relações sexuais com profissionais do sexo, 36,53%; evitar relações sexuais com homossexuais e injeções aparece com os mesmos percentuais, 15,38%; não manter relações sexuais foi mencionado por 11,53% dos idosos; restringir o uso de transfusões sanguíneas foi apontado por 3,94% dos entrevistados; e 1,92% respondeu que não é possível evitar.

    No entanto, um a ponto a ser considerado em relação aos vínculos conjugais estáveis, idosos que possuem companheiro(a), para os quais há uma percepção de menor vulnerabilidade, pois entendem que não estariam expostos, uma vez que comumente mantêm um único parceiro(a). Nesta condição parece haver uma opção da pessoa idosa pelo não-uso de preservativos, pois possuem uma relação de confiança e compartilham da idéia de que é desnecessário adotar qualquer método de prevenção de DSTs e HIV/Aids. Quanto a esta situação, Lima11 expõe que quanto maior a confiança no parceiro, menor a percepção de vulnerabilidade à SIDA. Ressalta que o amor e a paixão produzem uma avaliação particularmente favorável da pessoa amada, induzindo a uma percepção segura em relação ao HIV/Aids. Nesse sentido, vale lembrar que muitas mulheres se recusam a estabelecer o uso do preservativo por questões de crenças religiosas, ou para não entrar em conflito com seu parceiro, instituindo uma quebra na confiança conjugal, uma vez que o homem, ao usar o preservativo numa relação estável, pode estar construindo uma situação de desconfiança, pois isto pode constituir um elemento questionador da fidelidade, sentimento importante, definidor e idealizado do casamento.

     

     

    Na figura 03 constam quatro variáveis em relação ao conhecimento de que os idosos possuem sobre HIV/Aids – se o idoso conheceu ou conhece alguém com HIV/Aids: 65,38% responderam que não e 34,62% afirmaram positivamente que conhecem; para 84,63% dos entrevistados, HIV/Aids não tem cura: enquanto que 9,61% responderam que sim, 5,76% não sabem informar. Chama a atenção que 96,16% dos idosos participantes referem que esta é uma doença que mata e 1,92% relataram que não ou não sabem. Pode-se inferir que algumas informações sobre HIV/Aids ainda não estão bem esclarecidas para os idosos, pois mesmo que a maioria tenha respondido que ela não tem cura, um percentual significativo de 9,61% respondeu que sim.

    Já para a variável “pessoas com aspecto saudável pode estar com o vírus”, 75% dos participantes consideram que sim, 19,24% não sabem e 5,76% disseram que não. No estudo sobre o conhecimento, atitudes e práticas na população brasileira de 15 a 54 anos, em relação ao HIV, realizado em 2004,18 foi encontrado um percentual de 92% de indivíduos que consideram que uma pessoa saudável pode estar infectada pelo HIV, no Brasil, independentemente  da idade.

                Atualmente, mesmo com o avanço nas pesquisas, ainda não foi descoberta a cura da Aids, o que evoluiu bastante foi o tratamento, com drogas cada vez mais potentes, que ajudam a manter e controlar o HIV e, com isto, tornar mais lenta a propagação do mesmo no organismo humano, melhorando a qualidade de vida e aumentando a sobrevida dos soropositivos em muitos anos. A despeito de não existir cura para a síndrome, “os indicadores de mortalidade por Aids sofreram alterações acentuadas com o advento da terapia anti-retroviral combinada, particularmente nos países em que a disponibilidade desses medicamentos é universal e gratuita, como no Brasil16

    O aumento da expectativa de vida das pessoas infectadas por um lado é excelente, e por outro, muito preocupante. Com maior tempo de vida e, nos casos em que o indivíduo portador se mantém com aparência saudável e assintomático, dependendo do estágio da doença, o risco de permanecer mantendo relações com outros parceiros sem proteção é grande, podendo aumentar a disseminação do vírus, especialmente nas situações em que o indivíduo desconhece que é portador do vírus.

                O que pode ser identificado é que alguns idosos parecem confundir o tratamento com a possibilidade de cura – ou seja, consideram que após o tratamento as pessoas ficam curadas. Tal fato deve ser esclarecido sempre que possível, pois com esse pensamento pode haver descuido maior no que se refere à prevenção por parte desses indivíduos.

                Muitas pessoas não possuem, inicialmente, sintomas que indiquem a contaminação pelo HIV, considerando que, a principio, surgem sintomas semelhantes a muitas patologias, como por exemplo, os da influenza, podendo demorar até mais de dez anos para aparecer os sintomas clássicos da doença. As manifestações desta morbidade incluem, entre outros, cefaléia, tosse, diarréia, gânglios inflamados, imunidade reduzida, diminuição do apetite e de peso, apatia, fadiga e cansaço. Além disso, o organismo fica susceptível a infecções repetidas, ocorrem lesões dérmicas, úlceras em mucosa oral, entre outros.9 Quanto a conhecer alguma pessoa que apresenta Aids, 34,62% dos idosos entrevistados referiram que sim. O dado pode demonstrar como essa patologia está próxima da população em geral, inclusive das pessoas idosas.

    O exercício da atividade sexual está presente entre os idosos, uma vez que a maioria dos participantes (61,56%) informou possuir uma parceira(o) sexual, enquanto 28,84% afirmam não manter contato sexual. Os idosos que mantiveram relações sexuais com duas ou três parceiras(os), 5,76% e 3,84% respectivamente, nos últimos seis meses, mesmo que seja um índice baixo, representam um grupo de risco, pois mesmo sabendo de alguns métodos de prevenção, não fazem uso dos mesmos.

    Um grande percentual de idosos (40,38%) não possui parceira(o) fixa(o), indicando a importância de uma boa orientação quanto à prevenção das DSTs e HIV/Aids, pois essa parte da população possui maior probabilidade de se expor, isto é, manter relação sexual com um maior número de pessoas, elevando as chances de contraírem essas morbidades. Nesse sentido, estudos epidemiológicos6,1 evidenciam que a multiplicidade de parceiros constitui um fator de risco para o contágio de DSTs e HIV/Aids.

    Quanto às DSTs que mais foram lembradas, 63,46% dos entrevistados apontaram o HIV/Aids; 38,46% a gonorréia; 28,84% referiram a sífilis; 13,46% o cancro mole; e 11,53% a verruga genital. Já quando questionados se haviam contraído uma dessas moléstias nos últimos seis meses, 1,92% deles declararam que sim, sendo gonorréia a doença citada.

    Na variável realização do teste de HIV pelos idosos e seus parceiras(os), os dados mostram que 17,30% realizaram, 71,15% não fizeram e 11,55% não sabem ou não lembram; já entre a(o) parceira(o), 9,61% realizaram o teste, 46,15% não o fizeram, 7,69% não sabem se a companheira(o) fez e 36,53% não informaram.

    A pouca procura pela realização do teste de HIV pode estar vinculada à concepção dos idosos, ao considerarem que não constituem um grupo vulnerável para essa patologia. Da população de todas as faixas etárias, o percentual de testes cresceu significativamente nos últimos anos, passando de 20%, em 1998, para 32,90% em 2005. Isso se deve, em parte, à incorporação do teste na rotina do pré-natal, o sugerindo que mulheres não-gestantes e homens não fazem parte dessa política.

    Um índice interessante foi o aumento da percentagem de realização de teste anti-HIV na faixa etária de 56-65 anos, que de 3,40%, em 1998, foi para 21,80% em 2005, entre os homens; e de 1%, em 1998, para 12,20% em 2005, entre as mulheres. Existem atualmente 322 Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) no país, incentivados pela campanha “Fique sabendo”, lançada em 2003 pelo Governo federal e ajudada pelo processo de descentralização do diagnóstico do HIV para a rede básica de saúde, que aumentou em 30% a procura pelo teste anti-HIV.13

                A percepção do risco em contaminar-se com DSTs e HIV/Aids, segundo os participantes da pesquisa, ficaram assim distribuídos: a maioria dos idosos (73,07%) acha que não possui risco de contrair DSTs e HIV/Aids; 19,23% disseram que têm alguma chance de adquirir doenças sexualmente transmissíveis e 7,70% dos idosos não sabem se estão expostos ao risco de se contaminarem. Dentre os que afirmaram possuir riscos para o contágio, 9,61% apontaram o não uso de preservativo ao manter relação sexual; 7,69% por possuir mais de uma(um) parceira(o) sexual; 3,84% porque a(o) companheira(o) tem outros(as) parceiros(as), o mesmo percentual para transfusão de sangue; e 5,76% dizem que há possibilidade de se contaminar por outros motivos.

    A maior parte dos idosos afirmou não possuir risco de contrair alguma DST ou HIV/Aids, sendo que os motivos que levaram esta parcela da população a ter tal pensamento foram os seguintes: usar preservativo (21,15%), possuir apenas uma(um) parceira(o) (38,46%); não estão expostos a contaminação, pois a companheira(o) não tem outros(as) parceiros(as) (9,61%); por nunca ter recebido transfusão sangüínea (3,84%); e 25% responderam possuir outros motivos para pensar que não têm possibilidades em ser contaminados por DSTs ou HIV/Aids. 

    CONCLUSÕES 

    Uma maneira de manter-se no espaço social é freqüentando os grupos de terceira idade, os quais desenvolvem inúmeras atividades, e dentre elas está a realização de bailes. Nesses ambientes, o relacionamento entre os homens e as mulheres é fortalecido. Muitos novos casais se formam. Alguns mantêm um vínculo duradouro, enquanto que, para outros, os encontros são esporádicos, favorecendo a troca de parceiros.

    Caracterizando os sujeitos do estudo verificamos que, quanto ao gênero, houve predomínio de mulheres com 61,54% dos participantes; em relação à idade, a maioria se encontra entre 60-69 anos, com 73,07% dos idosos; no que diz respeito à ocupação, identificamos que 86,54% se encontram aposentados; a maior parte do idosos 59,61% possui o ensino fundamental incompleto; a situação conjugal apresentou dados similares, com 40,38% casados e 36,56% viúvos; os dados relativos a renda, 57,69% dos idosos possuem entre 01-03 salários mínimos; religião, sendo a maioria católicos com 88,46%; da raça branca, 82,68% e 7,70%, negra. Quanto à moradia, 75% deles têm casa própria, 42,31% moram com companheira(o), 32,69% convivem com filho e família e 11,54% moram sozinhos.

    Quanto ao conhecimento sobre HIV/Aids, os participantes de nosso trabalho demonstraram possuir bom nível informações, mas alguns itens nos chamam a atenção, como o fato de uma pessoa de aparência saudável poder estar infectada pela patologia, 5,76% disseram que não e 19,24% responderam que não sabem. Isso representa um fator de risco, pois pode levar os idosos ao não-uso de preservativos nas relações sexuais com pessoas desconhecidas, mas que possuem boa aparência.

    A maioria dos idosos já ouviu falar de DSTs e HIV/AIDs, mas 73,07% informaram não possuir riscos em contrair alguma dessas morbidades, sendo que somente 21,15% usam preservativos. Esse percentual nos leva a crer que as campanhas de prevenção não estão chegando até este estrato da população. Pois sabemos que muitos idosos atuais têm vida sexual ativa, alguns com mais de uma parceira, e 38,46% deles nunca usam preservativos em suas relações, mesmo sabendo que é um método de prevenção, citado por 73,07% dos pesquisados. Vale salientar que neste estudo não se verificaram os motivos pelos quais os idosos, que admitem possuir risco de contrair o HIV/Aids (19,23%) e não fazem uso de preservativos.

    Contudo, percebe-se que os idosos não se consideram vulneráveis as DSTs e HIV/Aids. Por isso, consideramos que as campanhas de prevenção e as ações da equipe de enfermagem também devam dar atenção especial a esse fato e intensificar e adequar às informações, numa linguagem específica, para que essas pessoas possam compreender, assimilar e aderir aos meios de prevenção dessas morbidades.

    Também constatamos que a maioria das pessoas com idade acima de 60 anos nunca realizou teste de HIV, mesmo que alguns tenham relações intimas com mais de uma parceira e mantenham relação sexual com pessoas desconhecidas. Caso estejam infectados com alguma doença sexualmente transmissível pode ocorrer a disseminação a outras pessoas.

    Os resultados deste estudo nos permitem afirmar que os idosos que freqüentam grupos de terceira idade no município de Ijuí/RS possuem conhecimento acerca das DSTs e HIV/Aids, mas não fazem, na sua maioria, uso de métodos preventivos. E também não se consideram vulneráveis ao contágio para algumas dessas morbidades.

     

    NOTAS

    a Enfermeira, docente do Departamento de Ciências da Saúde da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – Unijui. Coordenadora do Grupo de Estudos em Saúde Mental e Gerontologia. Doutoranda no Programa de Doutorada do Instituto de Geriatria  Gerontologia da PUCRS. 

    b Enfermeiro, formado na Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – Unijui. E-mail: cmouraenf@yahoo.com.br 

    c Fisioterapeuta, docente do Departamento de Ciências da Saúde da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – Unijui. Doutoranda no Programa de Doutorada do Instituto de Geriatria  e Gerontologia da PUCRS. E-mail: evelise@unijui.edu.br

     

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    Recebido em: 18/12/2006

    Revisado: 18/7/2007

    Aceito: 20/8/2006

     
     

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    Promovendo a Saúde e Prevenindo a Dependência: identificando indicadores de fragilidade em idosos independentes

    Promoting Health and preventing dependency: identifying frailty signs among independent elderly 

    Renato Peixoto Verasa

    Célia Pereira Caldasb

    Flávia Dantas Coelhoc

    Maria Angélica Sanchezd

     

    RESUMO

    Objetivos: identificar indicadores de fragilidade capazes de gerar situação de dependência e de internação hospitalar em amostra de idosos de um Centro de Convivência. Métodos: avaliação da probabilidade de internação hospitalar através de um instrumento composto por oito variáveis e avaliação funcional, com utilização de instrumento composto de 11 testes rápidos para aferição do nível de capacidade funcional e entrevista estruturada para colher informações acerca das morbidades auto-referidas. Os dados estatísticos foram tratados de forma descritiva e analisados à luz de fundamentação teórica nos campos da Gerontologia e Saúde Coletiva. Resultados: Entre outubro de 2005 a setembro de 2006, foram entrevistados 430 idosos, dos quais foi retirada uma subamostra composta de 285 pessoas submetidas à avaliação funcional. Dentre os avaliados, 25% apresentaram queixa de memória, 32,2% apresentavam história prévia de depressão, 55,7% com diagnóstico de hipertensão e 30,5% relataram episódios de quedas no último ano. Conclusão: Ao final da avaliação breve, 10% dos idosos necessitavam de avaliação geriátrica com urgência, 45% apresentavam indicadores de fragilidade importantes, com necessidade de avaliação mais acurada e 28% se beneficiariam de uma avaliação para detecção precoce dos déficits funcionais e adoção de medidas de reabilitação, com o objetivo de prevenir a incapacidade funcional.

    Palavras-chave: Indicadores Básicos de Saúde; serviços de saúde para idosos; idoso débil; hospitalização; Saúde Pública  

    ABSTRACT

    Objective: to identify frailty indicators for dependency and hospitalization in a sample of independent seniors of an elderly Center. Methods: evaluation of the probability of hospitalization through an instrument composed by eight variables and functional evaluation with the use of an instrument composed of 11 tests and an interview structured to get information concerning self-referred morbidity. The statistical data were treated in a descriptive way and analyzed to the light of theoretical basis in the fields of the Gerontology and Public Health. Results: From October 2005 to September 2006, 430 elderly were interviewed. A subsample of 285 subjects was submitted to the functional evaluation. Among them, 25% presented memory losses, 32.2% presented previous history of depression, 55.7% have hypertension diagnosis and 30.5% related falls in the last year.  Conclusion: 10% of the seniors needed urgent geriatric intervention, 45% presented important frailty indicators needing a comprehensive assessment and 28% would benefit of rehabilitation measures in order to prevent functional incapacity.

    Key words: Health Status Indicators; health services for the aged; frail elderly; hospitalization; Public Health   

    INTRODUÇÃO 

    O envelhecimento populacional, um fenômeno observado em vários países, vem sendo alvo de preocupações nas várias esferas e implica mudanças nos diversos setores de atenção, seja público ou privado.   

    Este segmento etário não é homogêneo. Mais de 80% das pessoas idosas estão bem de saúde, mantendo sua independência e autonomia, podendo exercer todas as atividades próprias para uma pessoa de sua idade. Por outro lado, os 20% que formam o grupo dos menos saudáveis utiliza os serviços de saúde de forma muito mais intensa e suas doenças, na maioria das vezes, são crônicas, de longa duração, e requerem equipes de saúde qualificadas, exames sofisticados e de alto custo.25 

    Observa-se um esforço, sobretudo do setor privado, para equacionar uma situação que vem se tornando um problema que afeta diretamente os custos das operadoras de saúde suplementar. No entanto, ainda é precária a infra-estrutura para atender de modo eficiente às necessidades desse segmento populacional. Os problemas dos idosos são muitos e diversificados, afetando significativamente a qualidade de vida, produzindo estresse familiar e gerando enorme ônus financeiro.24  

    Diante deste cenário, o setor saúde ainda busca meios eficazes que possam equacionar adequadamente os problemas que acompanham o processo de envelhecimento. Uma das formas de alcançar sucesso nessa empreitada está relacionada à construção de novos modelos de atenção. Modelos estes que fujam da prática hospitalocêntrica e partam para a identificação precoce de problemas que podem ser tratados no âmbito ambulatorial.  

    A adoção desta nova prática requer uma visão ampla dos problemas que possivelmente poderão aparecer, caso não haja uma mudança intensa no modo de pensar a atenção à saúde do idoso. Os idosos que mais necessitam de atenção são aqueles que apresentam maior grau de fragilidade, ou seja, maior potencial de adoecer gravemente, de recorrer a sucessivas internações, de sofrer quedas e outros eventos mórbidos graves – enfim, aqueles com uma maior pluralidade de problemas nos campos médico, psíquico e socioeconômico. 

    A fragilidade reflete alterações fisiológicas da idade que não são específicas de doenças. Geralmente se apresenta na forma de sinais e sintomas como fraqueza, fadiga, perda do apetite, desnutrição, desidratação e perda de peso, além das síndromes geriátricas, tais como as anormalidades do equilíbrio e de marcha, o condicionamento físico precário, a confusão mental, a incontinência fecal e urinária, a depressão e a alta dependência.6 

    Um dos processos mais adequados, para responder a este problema está relacionado à prática de rastreamento e identificação de idosos com indicadores de fragilidade, qual seja, um modelo centrado na avaliação da capacidade funcional.24  

    Algumas situações, como a falta de profissionais habilitados, impedem um manejo adequado com essa população, sobretudo nos consultórios médicos, onde a atenção ao idoso se dá de forma fragmentada. Isto ocorre, sobretudo, pela dificuldade de se identificar corretamente os idosos com risco de adoecer gravemente, os idosos com risco de hospitalização e idosos susceptíveis de perder a capacidade de desempenhar as atividades de vida diária.  

    Este estudo se propõe a apresentar os dados de uma avaliação dos idosos de um Centro de Convivência e teve como objetivo identificar, entre os saudáveis, uma parcela acometida por problemas silenciosos, que são identificados somente com um instrumental e um olhar específico do campo da Geriatria. Tais idosos, possivelmente, serão aqueles que mais consumirão, e de forma inadequada, os recursos a eles oferecidos.  

    Os problemas silenciosos e visíveis apenas após uma avaliação funcional são aqueles que mais induzem os indivíduos a buscarem várias especialidades, porém, infelizmente, de forma fragmentada, o que certamente produzirá efeitos iatrogênicos e que, possivelmente, terão como desfecho as sucessivas internações hospitalares.

    MÉTODOS 

    Entre os meses de outubro de 2005 a setembro de 2006, 430 idosos ingressaram nas atividades de um Centro de Convivência da Zona Norte do Rio de Janeiro e foram submetidos à avaliação do risco de internação hospitalar, avaliação da capacidade funcional e um inquérito sobre morbidade auto-referida. Uma subamostra foi selecionada para apresentação dos dados referentes à avaliação funcional e morbidade auto-referida. 

    O estudo compreendeu três etapas: 1. avaliação do risco de admissão hospitalar; 2. avaliação do desempenho funcional; e 3. avaliação focada nos principais problemas para a análise dos indicadores de fragilidade. 

    As etapas 1 e 2 foram executadas por uma assistente social e uma enfermeira que, após treinamento, aplicaram instrumentos específicos da prática geriátrica para rastrear déficits funcionais e identificar riscos de internações hospitalares. 

    A etapa 3 foi executada por uma geriatra, que analisava a avaliação inicial e imediatamente realizava uma avaliação focada nos principais problemas detectados, com o objetivo de estabelecer condutas adequadas aos idosos com indicadores de fragilidade. 

    Na etapa 1, para avaliar a probabilidade de admissão hospitalar, foi aplicado um instrumento composto de oito variáveis analisadas em um pacote estatístico, com o objetivo de identificar aqueles idosos com maior risco de recorrer à hospitalização em decorrência de quadros agudos.4 

    Este conjunto de variáveis, denominado Triagem Rápida, passou por uma tradução direta a partir de seu original na língua inglesa e seu uso oferece algumas vantagens, como: ser de fácil e rápida aplicação, com duração média de dois minutos, e de fácil compreensão tanto para o entrevistador como para o idoso.12 

    Na etapa 2, para a avaliação do desempenho funcional, foi utilizado um instrumento que contempla onze áreas funcionais. São elas: visão, audição, função de braços e pernas, continência urinária, nutrição, estado mental, distúrbio do humor, atividades de vida diária, ambiente no domicílio e possibilidade de suporte social.11 Ainda nesta etapa eram colhidas informações acerca das principais patologias apresentadas pelo idoso. Estes eram argüidos sobre a presença ou não das seguintes condições: tonteira, perda visual, AVC, tremor, hipercolesterolemia, diabete mellitus, problema urinário, hipertensão arterial, catarata, perda auditiva, perda ponderal, glaucoma, esquecimento e distúrbios osteoarticulares.  

    Terminadas essas avaliações, o idoso passava a etapa 3, para uma consulta com a geriatra que, de posse desse conjunto de informações, apresentava a impressão diagnóstica, estabelecia condutas pontuais e o encaminhava, quando necessário, para uma avaliação geriátrica ampla em consultório especializado. 

    A pesquisa foi conduzida dentro dos preceitos éticos da Resolução de Helsinki e das normas da Resolução nº 196/1996, da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP). 

    RESULTADOS 

    Inicialmente será apresentado o Perfil sociodemográfico dos idosos avaliados. A seguir, os resultados serão apresentados de acordo com cada etapa do estudo: etapa 1. avaliação do risco de admissão hospitalar; etapa 2. avaliação do desempenho funcional; e etapa 3. avaliação focada nos principais problemas para a análise dos indicadores de fragilidade. 

    Perfil sociodemográfico dos idosos avaliados 

    As variáveis utilizadas neste perfil foram: idade, gênero, estado civil, escolaridade, bairro onde reside. As idades variaram de 53 a 90 anos, sendo 70 anos a média de idade do grupo. Quanto ao gênero, 86% eram do sexo feminino, proporção consonante com os demais espaços de convivência. Em geral, as mulheres são as que mais buscam essas atividades. 

    No que se refere ao estado civil, 64% encontravam-se nas categorias de viúvo, solteiro ou separado, o que chama a atenção para a necessidade de espaços de convivência capazes de evitar problemas como a solidão e o isolamento.  

    Quanto à escolaridade, a maioria (40%) encontrava-se no grupo daqueles que freqüentaram a escola por mais de 12 anos. No que se refere à população idosa do Brasil, isto representa um bom padrão de escolaridade, pois, segundo dados do IBGE, a maioria dos idosos do país possui baixo grau de instrução (menos de 4 anos de estudo). 

    No que se refere à área de residência, residem na Zona Norte nos bairros do Andaraí, Maracanã, Méier, Vila Isabel, Rio Cumprido e Tijuca – sendo este o bairro de maior concentração, com 40% dos idosos.  

    Etapa 1.  Avaliação da probabilidade de admissão hospitalar 

    A maioria não apresentou risco de admissão hospitalar. Dentre os idosos avaliados, 12% apresentaram risco que variou entre baixo, médio e alto. Intervir neste grupo implica diminuir o número de internações e, conseqüentemente, custos decorrentes da taxa de ocupação de leitos e taxa de permanência, que nos idosos é sempre maior que nos demais estratos etários. 

    Etapa 2. Avaliação do desempenho funcional 

    Para apresentar os dados referentes ao desempenho funcional, selecionamos as variáveis que mais se destacaram e podem ser visualizadas no gráfico 1: acuidade visual, acuidade auditiva, continência urinária, atividades da vida diária, nutrição, estado mental, distúrbios do humor, ambiente domiciliar e suporte social.  

    Gráfico 1 - Número de idosos que apresentaram comprometimento quando avaliadas as áreas de visão, audição, continência urinária, atividade de vida diária, estado mental, humor, estado nutricional e problemas no domicílio.

     

    Acuidade visual

    No que tange à perda visual, 13,6% apresentaram déficit no teste. Este problema foi freqüente entre os idosos, seja pelas alterações funcionais induzidas pelo envelhecimento, seja pela maior prevalência de doenças comprometendo a visão. 

    Nos EUA, para cada grupo de 1000 pessoas entre zero e 54 anos, 6,01 apresentam algum grau de perda visual. Entre 55 e 84 anos, esse número sobe para 104 pessoas em cada 1.000, e é de 216 pessoas em cada 1.000 indivíduos acima de 85 anos. A perda visual é a terceira causa de dependência para a realização de atividades de vida diária entre idosos nos EUA.26 

    Grande parte dessa perda visual não chega a ser diagnosticada e, portanto, não recebe tratamento, somando-se e agravando outras incapacidades funcionais. Dentre as alterações visuais devidas ao envelhecimento e as secundárias a outras patologias, as maiores causas de perda visual entre idosos são: degeneração senil da mácula, retinopatia diabética, glaucoma e catarata. 

    Perracini22 acrescenta que as complicações provocadas pela perda visual são numerosas e podem ter graves conseqüências médicas, além do forte impacto sobre a qualidade de vida do idoso. Incluem maior tendência a quedas, com todo o seu cortejo mórbido; intoxicações alimentares e mesmo envenenamentos pela dificuldade para ler rótulos e os prazos de validade de medicamentos. Ademais, pode favorecer a ocorrência de acidentes no domicílio, ao se tropeçar em tapetes e objetos baixos e não perceber desníveis e degraus. Também são muito comuns os acidentes na rua que ocasionam quedas e atropelamentos. 

    A menor velocidade para a leitura e diminuição da abrangência do campo visual, traduzidos como dificuldade para ler, levam à perda de interesse por uma atividade prazerosa e importante instrumento de integração social e atualização. Todos esses fatores favorecem a depressão, o isolamento social, agravam co-morbidades e disfunções já presentes. Um cuidadoso exame oftalmológico deve ser estimulado e repetido anualmente, para identificar e corrigir, sempre que possível, esse agravo.

    Acuidade auditiva

    A presbiacusia é a terceira causa de incapacidade funcional em idosos, com maior prevalência entre os homens. É um processo relacionado ao envelhecimento quando não tiver sido causado por acidente de trabalho ou doença.15 De grande importância dentre as afecções que acometem os idosos, gera sentimentos de menor valia e inadequação, levando ao isolamento social, à depressão, e assim como a deficiência visual, também é responsável pelo grande número de acidentes domésticos e na rua.   

    O mesmo autor sustenta que não há tratamento clínico ou cirúrgico para recuperação da audição. O uso de órteses e técnicas de reabilitação soluciona parcialmente o problema, pois nem todos os deficientes auditivos vão se beneficiar dos mesmos. Mesmo dentre aqueles que poderiam se beneficiar do uso das órteses, muitos não o fazem, seja pelo alto custo, pelo preconceito, pela dificuldade de lidar com os controles e pelo pequeno benefício em locais ruidosos. Com todas as dificuldades, o uso correto e bem orientado das órteses pode recuperar uma boa qualidade de vida para idosos totalmente isolados e deprimidos. 

    Continência urinária

    A incontinência urinária é uma das grandes síndromes geriátricas, freqüentemente negligenciada, subdiagnosticada e com alto grau de morbidade direta e indireta. Por ser uma situação que causa constrangimento, não costuma ser mencionada às equipes de saúde, tendo que ser ativamente buscada. O desconforto gerado determina isolamento social e perda da auto-estima.13,14,19  

    Os mesmo autores acrescentam que a incontinência urinária não tratada predispõe a infecções genito-urinárias que podem levar a uro-sepse, maceração da pele facilitando a candidíase e formação de escaras; interrompe o sono e predispõe a quedas, sendo um dos principais fatores que levam à institucionalização do idoso. 

    Existe tratamento eficaz, tanto clínico como cirúrgico, fato desconhecido por muitos idosos que sofrem as conseqüências danosas desse agravo quando poderiam ter uma vida mais saudável e de melhor qualidade pela intervenção correta. 

    Atividades de vida diária

    A independência e dependência não são condições individuais. São situações que estão relacionadas à existência de outra pessoa ou a alguma coisa. São condições que variam em seus aspectos gerais, tais como afetividade, finanças, estado físico e cognitivo. Por exemplo, uma pessoa pode estar temporariamente dependente de outra por alguma limitação física, ao passo que outra pode ser complemente dependente por inabilidade cognitiva.           

    O importante, porém, é não associar as sucessivas perdas, que comumente acometem os idosos, à perda de autonomia, visto que se trata de um conceito inerente à capacidade de tomar decisões. 

    A dependência é um dos maiores problemas do envelhecimento. Muitas vezes se configura em perda de espaço, de valores, de autodeterminação, etc. Geralmente, decorre da condição de fragilidade, ou seja, idosos mais vulneráveis às situações adversas e que afetarão o desempenho nas atividades de vida diária. 

    No grupo estudado, o percentual de idosos com comprometimentos nas atividades de vida diária era muito pequeno, porém necessariamente deveria ser avaliado de maneira abrangente, evitando assim a instalação de problemas maiores.

    Nutrição

    Entendida como um desvio do equilíbrio nutricional em um indivíduo, a desnutrição pode se caracterizar tanto pela falta como pelo excesso de um ou mais nutrientes no organismo.23  

    A nutrição é um importante determinante de saúde, adequada capacidade funcional física e cognitiva, vitalidade, qualidade de vida e longevidade. A quantidade e a variedade dos alimentos e a integração social promovida durante as refeições são importantes para o bem-estar psicológico das pessoas. Quando há restrições a uma dieta equilibrada, sobrevém a desnutrição, com os efeitos deletérios sobre a saúde e o bem-estar que acarreta. 

    A carência global ou de um dos nutrientes necessários a homeostasia provoca fragilidade, incapacidade funcional, agravação de co-morbidades existentes, queda da vitalidade e susceptibilidade a novas doenças, aumento da morbidade e da mortalidade. 

    A desnutrição por excesso inclui a hipervitaminose e a obesidade. Obesidade é a forma mais comum de desnutrição entre idosos independentes, e pode mascarar uma carência protéica que é relativamente freqüente, grave e induz a um pior prognóstico nos casos de acidentes, doenças agudas, cirurgias e fraturas. 

    As formas mais freqüentes de desnutrição no idoso são a obesidade, a osteoporose e a hipoproteica. Agravam as doenças cardíacas, o câncer, o AVC, o diabetes, e a osteoporose, doenças entre as dez principais causas de morte nos idosos. Contribuem para a desnutrição: a desinformação, a pobreza, a dificuldade para mudar hábitos alimentares errôneos, a presença de doenças crônicas, incapacidades funcionais, isolamento social, polifarmácia, depressão, distúrbios cognitivos e desregulação do mecanismo de controle do apetite. A abordagem da desnutrição se faz, entre outras coisas, com campanhas educativas e de esclarecimento, visitas regulares ao geriatra, para identificação de desnutrição e suas causas, e orientação nutricional para seu tratamento.  

    Estado mental

    Os testes de rastreio de declínio cognitivo têm o objetivo de detectar pessoas que possivelmente estão começando a apresentar perdas. Uma das razões importantes para a utilização destes em idosos é identificar em estágio inicial algum tipo de demência.7  

    A demência é hoje um dos grandes problemas de saúde pública e seu diagnóstico depende, além de uma avaliação clínica, do uso de testes que demonstrem o declínio da memória, da percepção, linguagem, atividades motoras, abstração e planejamento.1 

    Apesar de a doença poder acometer pessoas mais jovens, geralmente é após os 60 anos que este problema começa a se manifestar. A demência é uma doença, que apesar de todas as alterações que surgem, tem duração média de oito a dez anos após o aparecimento dos sintomas, podendo, em alguns casos, apresentar uma expectativa de até vinte anos. 

    Muitas vezes o diagnóstico da doença não acontece por falta de conhecimento deste processo por parte dos clínicos e, quando diagnosticada corretamente, pode evitar uma série de outros problemas, como a condução inadequada do quadro, o uso de medicação ineficaz, o atraso na adoção de medidas de suporte ao idoso e à família, que oneram sobremaneira o setor saúde. 

    Distúrbios do humor

    Um outro problema de igual importância na avaliação do idoso é a depressão, muita vezes, não diagnosticada. Os distúrbios depressivos são as formas mais freqüentes de alteração do humor em pessoas idosas. O reconhecimento desta patologia nos idosos é em geral difícil. Razão disto é o fato de que os sintomas são, erroneamente, confundidos com comportamentos esperados em pessoas idosas. Por outro lado, as deteriorações cognitivas podem dificultar o estabelecimento de um diagnóstico preciso.

    No teste de rastreio aplicado na amostra, 32% apresentavam estado sugestivo da doença, o que requer melhor avaliação para fechar um diagnóstico e estabelecer o tratamento. 

    Ambiente no domicílio

    Os problemas no domicílio, tais como escadas sem corrimão, iluminação inadequada e tapetes soltos, são em grande parte responsáveis pelos acidentes domésticos, podendo assim ocasionar quedas e problemas maiores, como as fraturas.21 

    Investigar estas condições é fundamental para a prevenção de problemas maiores que podem influenciar negativamente no desempenho das atividades de vida diária. Desta forma, a equipe fornecia orientações sobre proceder nestes casos. Nos idosos aqui avaliados, 34% relataram alguma alteração no domicílio. 

    Suporte social

    A ausência de suporte social hoje, em nosso país, parece constituir um grande problema, visto que não temos referências acerca dos recursos existentes para a população idosa. No estudo realizado, apesar de a maioria dos idosos contar com uma rede composta por familiares, 11,5% da amostra não contavam com este recurso. Isto vai incidir no uso indiscriminado de recursos e numa busca de atenção fragmentada e sem o devido acompanhamento.  

    Etapa 3. Avaliação focada nos principais problemas para a análise dos indicadores de fragilidade  

    Nesta etapa do estudo, a partir da morbidade auto-referida pelos 285 idosos, são elencados os principais problemas apresentados pelos sujeitos, a saber: hipercolesterolemia, tonteira, diabetes mellitus, hipertensão arterial, catarata, depressão, esquecimento, distúrbios osteoarticulares e quedas. A distribuição percentual desses problemas está representada no gráfico 2, e os problemas são discutidos a seguir. Nesta etapa também é apresentada Avaliação Geriátrica Global. 

    Gráfico 2 - Número de idosos que referiram problemas de hipercolesterolemia, tonteira, diabetes mellitus, hipertensão arterial catarata, história de depressão, queixa de esquecimento, queixas oestoarticulares e quedas.

     

    Hipercolesterolemia

    A hipercolesterolemia aparece em 45% dos idosos avaliados na amostra. Sua ligação com doenças cardiovasculares e síndrome metabólica enfatiza a importância do tratamento desta condição e a necessidade de acompanhamento regular para seu controle adequado. 

    Tonteira

    Tonteira é uma queixa muito freqüente entre idosos e pode estar relacionada a diversos fatores, dentre os quais efeitos colaterais de medicamentos e alterações no equilíbrio, devido a uma variedade de problemas como alterações vestibulares, deficiência de vitamina B12, alterações degenerativas da coluna cervical, déficits visuais e disfunções do sistema nervoso central. Sua prevalência varia de 4 a 30% dos indivíduos acima de 65 anos, sendo mais freqüente entre as mulheres. Está relacionada a diversos agravos entre os idosos, além de piorar a qualidade de vida, pelas limitações devidas ao medo de quedas, agravação de estados depressivos e piora da auto-avaliação da saúde e diminuição da participação em eventos sociais.16 No grupo estudado, a prevalência foi de 22,4%, valor que se encontra dentro da projeção estimada na literatura. 

    Diabetes Mellitus

    A diabetes mellitus, embora em menor número de casos, faz com que a alta morbidade que determina, se não for adequadamente tratada e acompanhada, a coloque como um dos principais agravos entre idosos avaliados. Nos EUA a prevalência de DM em indivíduos acima de 60 anos incluídos em estudo da ADA de 1997 foi de 25%; destes, aproximadamente 50% foram diagnosticados no momento do estudo. No grupo estudado, a prevalência foi de 14,7%.  

    Por não ter a apresentação clássica dos indivíduos mais jovens, pode passar longo período sem ser diagnosticada, o que favorece o surgimento de suas complicações, como retinopatia, nefropatia e neuropatia diabéticas, responsáveis por condições clínicas altamente desfavoráveis, perda da capacidade funcional, tratamentos onerosos e reinternações freqüentes e demoradas, por causa de suas complicações. Também está associada a maiores incidência e gravidade das infecções de repetição, hipertensão arterial e doença arterial coronariana.9,18 

    Hipertensão arterial

    A hipertensão arterial sistêmica está fortemente ligada à ocorrência de graves eventos cardiovasculares, como acidente vascular encefálico (maior causa de dependência e óbito na faixa etária acima dos 60 anos), doença arterial coronariana, insuficiência cardíaca congestiva, insuficiência renal crônica – todas doenças de alta morbidade, tratamento e acompanhamentos longos e altamente dispendiosos e que causam freqüentes reinternações.  

    Seu tratamento inclui, além de terapêutica medicamentosa, prática regular de atividade física, dieta para redução e/ou manutenção do peso adequado e acompanhamento freqüente dos níveis pressóricos.3,5 

    Na amostra avaliada, 56% dos idosos apresentaram quadro de hipertensão, muitos dos quais com uso incorreto de medicação ou com dose com necessidade de ajustes. 

    Catarata

    Uma das principais causas de diminuição da acuidade visual no idosos é a catarata, opacidade do cristalino que ocorre progressiva e lentamente com o avançar da idade, embora possa ter outras etiologias. No grupo estudado, a prevalência foi de 29,1%. 

    Como é um agravo lentamente progressivo, pode passar despercebido para o idoso, devido aos mecanismos de compensação de que ele, inconscientemente, lança mão. A opacidade do cristalino diminui a passagem de luz, levando à diminuição da acuidade visual, dificuldade de adaptação a ambientes de alta luminosidade, alteração da percepção das cores, perda da sensibilidade para o contraste e diminuição da percepção de distância e profundidade. Todas essas alterações são facilmente corrigidas através de cirurgia com implante de lentes artificiais, um custo bastante pequeno, se comparado aos custos das conseqüências de uma catarata não tratada.26  

    Depressão

    A depressão é um problema geralmente subdiagnosticado. O profissional deve estar atento ao comportamento apresentado pelo idoso, bem como aos demais aspectos biológicos e sociais que possam estar interferindo nas condições de sua saúde. 

    Dentre as morbidades auto-referidas, 12% da amostra chegaram com a história pregressa de depressão. Alguns em tratamento isolado, outros sem medicações; No entanto, nenhum estava sendo acompanhado por um geriatra. 

    Queixa de esquecimento

    As queixas de esquecimento são em geral, muito comuns nas pessoas idosas. Entretanto, tal situação acaba por passar despercebida na família e, em alguns casos pelo próprio profissional da área da saúde. No estudo realizado, 44,2% relataram o problema. 

    A queixa de esquecimento é tópico importante no campo da Geriatria, devendo ser investigada e avaliada tanto na clínica, quanto com o uso de instrumentos adequados. Uma queixa de esquecimento pode ser um sinalizador da instalação de declínio cognitivo ou de quadros mais importantes, como as demências.2  

    Queixas osteoarticulares

    Os problemas osteoarticulares são responsáveis pela perda de qualidade de vida, devido à dor crônica e de difícil resolução pelos métodos terapêuticos atualmente disponíveis. Mais de 80% dos indivíduos acima de 55 anos têm evidências radiográficas de osteoartrite, a mais freqüente das causas de queixas osteoarticulares. As osteoartrites de quadril e joelho são mais freqüentes em mulheres e são as mais limitantes das doenças crônicas. Dentre os fatores modificáveis associados estão excesso de peso, trauma, fatores mecânicos, fraqueza muscular, quantidade de massa óssea, baixos níveis de estrogênio e deficiências nutricionais.8  

    Tal problema também favorece o isolamento social, pela dificuldade de deambulação; perda da capacidade funcional levando à dependência; depressão pela dor crônica e limitação funcional com restrição da mobilidade; predisposição a quedas com todo o seu cortejo mórbido. No grupo avaliado, a queixa osteoarticular afetou 62% da amostra, o que requer uma avaliação adequada, como, por exemplo, testes de equilíbrio de marcha. 

    Quedas

    As quedas representam a principal causa de incapacidade entre os idosos.10 Entretanto, grande parte dos profissionais de saúde não se encontra preparada para enfrentar tal realidade, seja quanto à prevenção seja quanto à necessidade de assistência imediata e adequada após a ocorrência da queda.           

    A queda não deve ser vista como um evento independente ou isolado, e sim como um sintoma a ser investigado. Queda significa a perda do equilíbrio postural, decorrente de fatores individuais isolados (aspectos próprios do envelhecimento, associados ou não com aspectos patológicos) e/ou fatores de incapacidade de superar a instabilidade causada por fatores ambientais.20 

    Os mesmos autores sustentam que as quedas em indivíduos com 60 anos e mais de idade são tão freqüentes que têm sido aceitas como uma conseqüência inevitável, um efeito colateral “natural” do envelhecimento. Tal observação repousa no fato de ocorrer cerca de uma queda por ano em 30% dos idosos que vivem em casa, e 50% daqueles institucionalizados. Em torno de 47% das quedas ocorridas em idosos, surge algum tipo de lesão e, destas, de 36 a 51% são caracterizadas como lesões graves. A taxa de mortalidade desses agravos é significativa, pois no grupo de indivíduos com 65 anos ocorrem cerca de 50 óbitos por 100.000 habitantes / ano. Aos 75 anos, esse coeficiente sobe para 150 óbitos por 100.000 habitantes / ano e, aos 85 nos, eleva-se para 525 óbitos por 100.000 habitantes / ano. 

    Em 53% dos casos nos quais não há evidências de ferimentos, não se pode pensar em evento benigno, pois acarretam com freqüência eventos danosos ao idoso, relacionando-se, em especial, ao receio de uma nova queda, com perda de confiança para caminhar, gerando diminuição da mobilidade, por vezes forçada pelos familiares, profissionais de saúde, ou até mesmo auto-imposta. Limitam, dessa forma, suas AVD e AIVD, com sérios riscos à sua saúde física e mental.10            

    As fraturas são as lesões mais temidas, sendo que as de colo de fêmur representam a principal causa de hospitalização aguda por queda. A taxa de mortalidade em ano após a queda chega a 50% e metade dos que sobrevivem fica totalmente dependente. 

    No grupo avaliado, 30% relataram história de quedas no último ano, dentre os quais aproximadamente 7% com mais de três quedas em um ano. 

    Avaliação geriátrica global

    A Geriatria, segundo o Royal College of Physicians of London (1996) é o “ramo da medicina que cuida dos fatores clínicos, sociais, preventivos e de reabilitação, importantes na manutenção da saúde e da independência da população idosa, bem como do tratamento de suas doenças e incapacidades”. 

    A avaliação global pode ser entendida como uma busca ativa de problemas. Para tanto, vai requerer uma avaliação funcional na qualk poderão ser observadas as atividades básicas e instrumentais de vida diária, a mobilidade, o estado nutricional, uma avaliação psíquica que aborde as alterações de humor e uma avaliação do estado cognitivo. 

    Neste estudo, a Avaliação Geriátrica Global é a fase final da etapa 03. Essa atividade foi executada por uma geriatra, a partir da avaliação inicial (etapas 1 e 2) e focando os principais problemas detectados (etapa 3). Uma avaliação global neste grupo teria os seguintes objetivos: melhorar a acurácia do diagnóstico, otimizar o tratamento médico, melhorar o resultado das intervenções, melhorar a função e a qualidade de vida e reduzir o uso desnecessário de serviços, a fim de estabelecer condutas adequadas aos idosos com indicadores de fragilidade. 

    Dentre os idosos da amostra, apesar de apenas 10% apresentarem urgência na avaliação geriátrica, foi observado que em 83% a avaliação global poderia influenciar positivamente na conduta, através da indicação de possíveis redirecionamentos nos tratamentos. Uma vez que este estudo teve apenas um objetivo exploratório e por não ser este centro de convivência um espaço de intervenção, foi encaminhado ao médico responsável por cada idoso, um relatório desta Avaliação Geriátrica Global. 

    CONSIDERAÇÕES FINAIS 

    A avaliação realizada com os idosos faz parte de um novo paradigma na atenção ao idoso. Com este olhar, busca-se investigar de maneira integral o ser que envelhece acometido por múltiplas patologias. 

    A avaliação geriátrica, realizada de forma adequada, permite que se dê conta de um conjunto de fatores que se associam e levam à incapacidade funcional. Assim, avaliar o idoso com o foco nas questões que poderão se tornar um problema se constitui em chave para a otimização de recursos de toda natureza. 

    A reabilitação de funções e a atenção focada nos problemas que são buscados ativamente é fator preponderante para minimizar as condições desfavoráveis e o alto custo para a atenção a este estrato etário. 

    NOTAS

    a Médico, doutorado no Guy's Hospital da Universidade de Londres. Professor adjunto na UERJ, diretor da Universidade Aberta da Terceira Idade (UnATI). Pesquisador 1 do CNPq.  E-mail: veras@uerj.br 

    b Enfermeira, doutorado em Enfermagem pela Escola de Enfermagem Ana Ney da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-doutorado em Gerontologia pela Universidade de Jönköping, Suécia. Professora adjunta na Faculdade de Enfermagem da UERJ e vice-diretora na Universidade Aberta da Terceira Idade  (UnATI-UERJ). E-mail: celpcaldas@hotmail.com 

    c Médica, Hospital da Lagoa, Ministério da Saúde. E-mail: flacoelho@click21.com.br. 

    d Assistente Social, mestre em Psicopedagogia de La Educación pela Universidad de La Habana, especialidade Serviço Social do Idoso. E-mail: asanchez@terra.com.br 

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    Recebido em: 30/7/2007

    Aceito em: 03/9/2007

    ^rND^sAlmeida^nOP^rND^sAlmeida^nOP^rND^sBari^nM^rND^sFurberg^nCD^rND^sPsaty^nBM^rND^sApplegate^nWB^rND^sPahor^nMM^rND^sBoult^nC^rND^sDowd^nB^rND^sMcCaffrey^nD^rND^sBoult^nL^rND^sHernandez^nR^rND^sKrulewitch^nH^rND^sBrandão^nAP^rND^sBrandão^nAA^rND^sFreitas^nEV^rND^sMagalhães^nMEC^rND^sPozzan^nR^rND^sBuchener^rND^sWagner^rND^sCarameli^nP^rND^sBabosa^nMT^rND^sFraenkel^nL^rND^sFelson^nD^rND^sHalter^nJB^rND^sKing^nMB^rND^sLaches^nMS^rND^sFeinstein^nAR^rND^sCooney^nLM^rND^sDrckamer^nMA^rND^sMarattoli^nRA^rND^sTinetti^nME^rND^sLourenço^nRA^rND^sMartins^nCSF^rND^sSanchez^nMAS^rND^sVeras^nRP^rND^sMaciel^nAC^rND^sMercado Rodriguez^nC^rND^sMills^nJ^rND^sNanda^nA^rND^sBesdine^nR W^rND^sDizziness^rND^sNasri^nF.^rND^sOuslander^nJG^rND^sJohnson^nII TM^rND^sPaixão Jr^nCM^rND^sHeckmann^nM^rND^sPerracini^nMR^rND^sSullivan^nD^rND^sJohnson^nLE^rND^sVeras^nRP^rND^sLourenço^nRA^rND^sMartins^rND^sWatson^nG^rND^sAlmeida^nOP^rND^sAlmeida^nOP^rND^sBari^nM^rND^sFurberg^nCD^rND^sPsaty^nBM^rND^sApplegate^nWB^rND^sPahor^nMM^rND^sBoult^nC^rND^sDowd^nB^rND^sMcCaffrey^nD^rND^sBoult^nL^rND^sHernandez^nR^rND^sKrulewitch^nH^rND^sBrandão^nAP^rND^sBrandão^nAA^rND^sFreitas^nEV^rND^sMagalhães^nMEC^rND^sPozzan^nR^rND^sBuchener^rND^sWagner^rND^sCarameli^nP^rND^sBabosa^nMT^rND^sFraenkel^nL^rND^sFelson^nD^rND^sHalter^nJB^rND^sKing^nMB^rND^sLaches^nMS^rND^sFeinstein^nAR^rND^sCooney^nLM^rND^sDrckamer^nMA^rND^sMarattoli^nRA^rND^sTinetti^nME^rND^sLourenço^nRA^rND^sMartins^nCSF^rND^sSanchez^nMAS^rND^sVeras^nRP^rND^sMaciel^nAC^rND^sMercado Rodriguez^nC^rND^sMills^nJ^rND^sNanda^nA^rND^sBesdine^nR W^rND^sDizziness^rND^sNasri^nF.^rND^sOuslander^nJG^rND^sJohnson^nII TM^rND^sPaixão Jr^nCM^rND^sHeckmann^nM^rND^sPerracini^nMR^rND^sSullivan^nD^rND^sJohnson^nLE^rND^sVeras^nRP^rND^sLourenço^nRA^rND^sMartins^rND^sWatson^nG^rND^nJosiane de Jesus^sMartins^rND^nJordelina^sSchier^rND^nAlacoque Lorenzini^sErdmann^rND^nGelson Luiz de^sAlbuquerque^rND^nJosiane de Jesus^sMartins^rND^nJordelina^sSchier^rND^nAlacoque Lorenzini^sErdmann^rND^nGelson Luiz de^sAlbuquerque^rND^nJosiane De Jesus^sMartins^rND^nJordelina^sSchier^rND^nAlacoque Lorenzini^sErdmann^rND^nGelson Luiz De^sAlbuquerque

    Políticas públicas de atenção à saúde do idoso: reflexão acerca da capacitação dos profissionais da saúde para o cuidado com o idoso 

    Public politics for the elderly’s healthcare: reflection on the qualification of health professionals that care for the elderly

     

     

    Josiane de Jesus Martinsa

    Jordelina Schierb

    Alacoque Lorenzini Erdmannc

    Gelson Luiz de Albuquerqued

     

     

    RESUMO

    Este estudo tem o objetivo de refletir acerca do agir em saúde, a partir da articulação do Artigo 18 do Estatuto do Idoso com as atuais Políticas Públicas dirigidas à pessoa que envelhece em nosso país. Ressaltamos que o foco norteador da discussão centraliza-se na capacitação dos profissionais da saúde para o cuidado gerontogeriátrico. Tais profissionais são os responsáveis, direta e indiretamente, pela realização de um cuidado em saúde seguro, ético e com qualidade, sendo, portanto, agentes viabilizadores da efetivação das Políticas Públicas de Saúde dirigidas às pessoas idosas. É fundamental, também, o engajamento de toda a sociedade, com vistas à transformação da realidade dos idosos e humanização das relações entre viver e envelhecer. Assim, a reflexão sobre a questão do cuidado gerontogeriátrico, na perspectiva do Estatuto do Idoso, faz-se necessária na medida em que desvela perspectivas que se revestirão de cuidados seguros, éticos e com qualidade. Daí o grande desafio da equipe de saúde passa a ser a construção do cuidado integral, integrado e cidadão com a pessoa idosa; um novo modo de ser e agir em saúde vislumbrando a multidimensionalidade do ser que envelhece e do processo de envelhecimento humano.

    Palavras-chave: prática profissional; políticas públicas de saúde; equipe de assistência ao paciente; serviços de saúde para idosos ; geriatria; envelhecimento; estatutos  

    ABSTRACT

    This study aims to reflect on acting in health, based on the 18th Article of the Elderly’s Statute and the current Public Politics for the elderly in Brazil. We point out that this discussion is guided by health workers’ qualification in the geriatric care. Such professionals are directly and indirectly responsible for safe, ethical and qualified care, therefore they are agents that carry out effective public politics for the elderly. It is also important that the whole society be committed with the transformation in the elderly’s reality and with the humanization of relations between life and aging. So to reflect on the issue of geriatric care, in the perspective of the Elderly’s Statute, becomes necessary, since it discloses perspectives concerned with safe, ethical and qualified care. The great challenges of health teams are the construction of an integral care, integrated and elderly-friendly; a new way of being and acting in health, regarding the multi-dimensionality of the being that grows old and the process of human aging.

    Key words: professional practice health public policy; patient care team; health services for the aged; geriatrics; aging; bylaws (health law) 

    INTRODUÇÃO

    O envelhecimento, enquanto fenômeno biológico, apresenta-se em cada ser humano idoso de modo singular e único. Se quantificássemos o envelhecimento através dos decréscimos da capacidade de cada órgão, a velhice poderia ser interpretada como uma etapa de falência e incapacidades na vida. No entanto, enquanto processo natural e previsto na evolução dos seres vivos, percebe-se que a pessoa não fica incapacitada porque envelhece. Ou seja, a pessoa não necessita da totalidade de sua reserva funcional para viver bem e com qualidade. Desse modo, velhice não deve ser considerada como doença, pois as doenças mais comuns nessa etapa da vida são preveníveis, diagnosticáveis e tratáveis.

    O envelhecimento populacional brasileiro é um fato demográfico recente na história, apesar de a velhice estar presente desde os primórdios da humanidade. O avanço tecnológico possibilitou o “envelhecimento artificial da população, produzido por técnicas médicas e não pelo investimento de políticas públicas”. (p.139) 1

    Em todos os países do mundo é fato concreto a modificação do perfil etário, pois historicamente o homem nunca teve tanta chance de alcançar a terceira idade.7 Os fatores determinantes deste fenômeno são cada vez mais estudados e conhecidos, e nos permitem entendê-lo em sua complexidade e magnitude, merecendo ainda maior atenção daqueles que dedicam suas atividades profissionais em prol da promoção, proteção e recuperação da saúde do idoso. O número crescente de pessoas idosas resultou em problemas de ordem social, econômica e de saúde, os quais exigiram determinações legais e políticas públicas capazes de oferecer suporte ao processo de envelhecimento no Brasil, buscando atender às necessidades desse estrato populacional.

    No Brasil, o desafio para o século XXI é oferecer suporte de qualidade de vida para uma população com mais de 32 milhões de idosos, na sua maioria de nível socioeconômico e educacional baixo e com alta prevalência de doenças crônicas e incapacitantes.20 Contudo, para atenção adequada ao idoso, juntamente com a magnitude e a severidade dos seus problemas funcionais, é imperativo o desenvolvimento de políticas sociais e de saúde factíveis e condizentes com as reais necessidades das pessoas nessa fase da vida.

    Gordillho et al (p.138)10 enfatizam que “é importante considerar que as necessidades de saúde dos idosos requerem uma atenção específica que pode evitar altos custos para o Sistema de Saúde e, sobretudo, proporcionar melhores condições de saúde a essas pessoas”. No entanto, estas mesmas necessidades precisam ser adequadamente identificadas e incorporadas em novas práticas de saúde, para além do modelo biomédico essencialmente curativo e centrado no profissional, e não no cliente. Tais práticas requerem a voz e a participação ativa do idoso no movimento de construção e efetivação das leis e políticas sociais e de saúde que viabilizem o viver e envelhecer com qualidade.

    O Estatuto do Idoso,8 em seu Artigo 18, no Capítulo IV do direito à saúde, diz: “As instituições de saúde devem atender aos critérios mínimos para o atendimento às necessidades do idoso, promovendo o treinamento e a capacitação dos profissionais, assim como orientação a cuidadores familiares e grupos de auto-ajuda”.

    Algumas inquietações acerca das atuais políticas dirigidas ao idoso nos levam a indagar quais são as reais necessidades dos idosos, que critérios são utilizados para defini-las e como satisfazê-las adequadamente. De que modo os profissionais da saúde estão se preparando/capacitando para cuidar dos idosos, e, principalmente, se tem sido oportunizado aos idosos desenvolver autonomia e independência.

    Tais inquietações requerem a busca por mudanças estruturais e por políticas possíveis e factíveis, as quais responderão pela melhoria da qualidade de vida dos idosos. Há necessidade de desmistificar e elaborar novos conceitos acerca da velhice, ancorados na moderna ciência do envelhecimento para a construção de condições socioculturais propícias para uma velhice digna e prazerosa.

    Como num círculo, no qual não se pode identificar seu começo e seu fim, a demanda expressiva e crescente do contingente idoso e as necessidades de toda ordem deflagradas a partir desse fenômeno populacional geraram a necessidade de estudos, práticas e políticas que dessem conta desta realidade. Em contrapartida, tais necessidades e ações despertaram idosos conscientes e atuantes que não aceitam passivamente a relação de submissão à sorte e abandono do Estado, da sociedade e da família. São pessoas atuantes na comunidade, em grupos de convivência, associações, universidades da terceira idade, conselhos de saúde e outros modos de inserção e participação, forçando a sociedade a rever essa relação até então de anomia.

    Marilena Chauí (apud Bosi), em Memória e Sociedade - Lembranças de Velhos,(p.18)4 afirma que “ser velho é lutar para continuar sendo homem”, num esforço incansável para a manutenção da própria identidade e conquista de cidadania. Para os profissionais da saúde que cuidam do idoso e de sua família cuidadora, o ato de cuidar é também um momento de refletir acerca do próprio processo de envelhecimento, do processo de construção do ser e agir em saúde, de modo integral, integrado e cidadão.

    Neste sentido, este estudo tem o objetivo de refletir acerca do agir em saúde, a partir da articulação do Artigo 18 do Estatuto do Idoso8 com as atuais políticas públicas dirigidas à pessoa que envelhece em nosso país. Ressaltamos que o foco norteador da discussão está centralizado na capacitação dos profissionais da saúde para o cuidado gerontogeriátrico, uma vez que estes são responsáveis, direta e indiretamente, pela realização de um cuidado em saúde seguro, ético e com qualidade, sendo portanto agentes viabilizadores da efetivação das Políticas Públicas de Saúde dirigidas às pessoas idosas.  

    POLITICAS PÚBLICAS DE ATENÇÃO À SAÚDE DO IDOSO 

    A Política Nacional Idoso,17 a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa,19 e o Estatuto do Idoso8 são dispositivos legais que norteiam ações, sociais e de saúde, garantem os direitos das pessoas idosas e obrigam o Estado na proteção dos mesmos. Porém é sabido que a efetivação de uma política pública requer a atitude consciente, ética e cidadã dos envolvidos e interessados em viver envelhecendo de modo mais saudável possível. Estado, profissionais da saúde, idoso e sociedade em geral são todos co-responsáveis por esse processo.

    Agustini, em seu livro Introdução ao direito do idoso,1 apresenta a preocupação crescente da legislação brasileira no que diz respeito ao cidadão idoso, situando-os em relação aos seus direitos na velhice. A Constituição brasileira de 1988 foi a primeira a tratar o idoso e a velhice como um problema social, avançando para além da assistência previdenciária e assegurando a proteção na forma de assistência social. Entretanto, o autor é claro ao explicitar sua preocupação em separar o direito à velhice e a proteção à velhice. Entende o primeiro como uma variante do direito à vida e, portanto, mais abrangente e integral do que o direito social de proteção à velhice.

    O desafio lançado para todos aqueles implicados no processo de envelhecer, ou seja, aos seres humanos que pretendem vivenciar da melhor forma possível e desejável as etapas da vida, “é o de fazer com que as normas, que possuem validade formal e ética e que, portanto são legais e legítimas, passem também a ter validade fática e tenham eficácia”. (p.142)1

    A Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI)19 foi recentemente atualizada, considerando o Pacto pela Saúde e suas Diretrizes Operacionais para consolidação do SUS18 e reafirmando a necessidade de enfrentamento dos desafios impostos por um processo de envelhecimento ora caracterizado por doenças e/ou condições crônicas não-transmissíveis, porém passíveis de prevenção e controle, e por incapacidades que podem ser evitadas ou minimizadas. Dentre tais desafios ressalta-se “a escassez de equipes multiprofissionais e interdisciplinares com conhecimento em envelhecimento e saúde da pessoa idosa”.

    Sem dúvida, a velhice é uma fase do ciclo vital cuja especificidade demanda atenção em saúde especializada e requer, portanto, pessoal qualificado para o cuidado com essas pessoas. Nesta perspectiva, questões relativas à educação em saúde, à qualificação e capacitação dos recursos humanos e ao desenvolvimento de estudos e pesquisas na área permeiam as diretrizes que norteiam essa Política. Tais diretrizes estão articuladas intersetorialmente com ações de co-responsabilidade entre gestores do SUS, educação, ciência e tecnologia e outros setores.

    A PNSPI fundamenta a ação do setor saúde na atenção integral à população idosa e em processo de envelhecimento, conforme determinam a Lei Orgânica de Saúde nº. 8080/90* (Preservação da autonomia das pessoas na defesa de sua integridade física e moral) e a Lei nº. 8842/94,11 regulamentada pelo Decreto nº. 1948/96. Assegura os direitos dos idosos e busca criar condições para a promoção da autonomia, integração e participação dos idosos na sociedade. Cabendo ao setor saúde prover o acesso dos idosos aos serviços e às ações voltadas à promoção, proteção e recuperação da saúde. O foco central da PNSPI (p.3)19 é, “recuperar, manter e promover a autonomia e a independência dos indivíduos idosos, direcionando medidas coletivas e individuais de saúde para esse fim, em consonância com os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde. É alvo dessa política todo cidadão e cidadã brasileiros com 60 anos ou mais de idade.”

    Para a viabilização e concretização da PNSPI, é necessário, pois, conhecer e compreender como vem acontecendo o envelhecimento populacional brasileiro, bem como agir em parceria com o idoso, de modo a ir além do dispositivo legal, ir para a ação crítica e construtiva.

    Apesar da magnitude deste evento mundial que é o envelhecimento populacional, sentimos falta de investimentos em pesquisas e incentivos públicos e privados para dinamizar e otimizar as políticas para esse segmento da sociedade, tão carente de atenção na grande maioria das vezes.

    Assim como outros países, o Brasil tem-se defrontado com a questão do envelhecimento da população. Torna-se um desafio para o país o cuidado com os idosos e a responsabilidade das famílias e da sociedade.9

    A Lei n 8.842/94 (PNI)11 propõe que sejam incluídos nos currículos dos cursos superiores da área da Saúde conhecimentos de Geriatria e Gerontologia, visando à formação dos acadêmicos com competência para atender às demandas da clientela idosa e seus familiares, com objetivo maior de investimento na promoção de um envelhecimento saudável que efetivamente atinja a população em geral. 22

    De acordo com essa lei,11 cabe aos setores da saúde prover o acesso dos idosos aos serviços e às ações voltadas à promoção, recuperação e proteção da saúde. É necessário desenvolver a cooperação entre as esferas de governo e entre os diversos setores sociais e de saúde que atendem ao ser que envelhece. Para tanto, nessa política estão definidas as diretrizes que devem nortear todas as ações no setor saúde, e indicadas as responsabilidades institucionais para o alcance do propósito já explicitado. Além disso, orienta o processo contínuo de avaliação que deve acompanhar o desenvolvimento da PNSPI, mediante o qual deverá ser possível o eventual redimensionamento que venha a ser ditado pela prática.

    Para efetivar tal política, é necessário definir e/ou readequar planos, programas, projetos e atividades do setor saúde, que de modo direto ou indireto se relacionam com o seu objeto. É primordial a articulação entre Ministério da Saúde e as Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde, para sua operacionalização. Enfim, para que o mesmo alcance seus objetivos, as suas diretrizes essenciais necessitam ser cumpridas.

    O Pacto pela Vida18 é uma das prioridades, articuladas e integradas, assumido pelos gestores do SUS enquanto compromisso público da construção do Pacto pela Saúde. A saúde do idoso é parte desta prioridade, ao buscar a atenção integral e a implementação da PNSPI, em que novamente a preocupação com o preparo dos profissionais da saúde é traduzida em ação estratégica de um programa de educação permanente à distância, com conteúdos destinados ao processo de envelhecimento, à saúde individual e à gestão de serviços de saúde.

    Marziale12 afirma que, com o crescimento da população idosa, ocorreram mudanças relacionadas à desigualdade socioeconômica, afetando a estrutura etária da população e ocasionando problemas que necessitam de solução imediata que garantam ao idoso a preservação da saúde e condições de autonomia e dignidade. Para que essas situações sejam viabilizadas, urge “a necessidade de trabalhar o contexto social e humano do idoso em suas diversas interfaces”.(p.6) 13

    De acordo com a PNSPI (p. 9) 19

    “A prática de cuidados às pessoas idosas exige abordagem global, interdisciplinar e multidimensional, que leve em conta a grande interação entre os fatores físicos, psicológicos e sociais que influenciam a saúde dos idosos e a importância do ambiente no qual está inserido. A abordagem também precisa ser flexível e adaptável às necessidades de uma clientela específica. A identificação e o reconhecimento da rede de suporte social e de suas necessidades também fazem parte da avaliação sistemática, objetivando prevenir e detectar precocemente o cansaço das pessoas que cuidam. As intervenções devem ser feitas e orientadas com vistas à promoção da autonomia e independência da pessoa idosa, estimulando-a para o autocuidado. Grupos de auto-ajuda entre as pessoas que cuidam devem ser estimulados

    Procurando atender a tal necessidade e direcionar as ações com vistas a garantir às pessoas com 60 anos ou mais a proteção à vida e à saúde, foi sancionado pelo governo brasileiro o Estatuto do Idoso. Sendo assim, o Estado deve estar atento às suas próprias políticas públicas de saúde e priorizar atendimento digno aos idosos. É primordial que os profissionais da saúde estejam capacitados e cientes das peculiaridades que envolvem o agir em saúde frente às necessidades do ser humano que envelhece. Necessidades que são permeadas pelas subjetividades, objetividades e práticas em saúde condizentes com as singularidades do ser que cuida e do ser que é cuidado.

    No entanto, na prática verifica-se a escassez de recursos humanos especializados para cumprir as diretrizes essenciais, quais sejam, a promoção do envelhecimento saudável e a manutenção da capacidade funcional. Ainda encontramos idosos em longas filas de espera para agendamento de consulta médica especializada, bem como para exames e internação hospitalar.

    Para Bettinelli e Portella (p.108),3 “Somente a sociedade pode promover o avanço da luta pelos direitos dos idosos, pela dignidade do envelhecimento e pelo cumprimento das leis existentes. Sua contribuição não consiste só em denunciar o não-cumprimento das leis, mas acima de tudo em colocar-se como parceira do poder público na construção de ações, programas e projetos que resultem em apoio, proteção e assistência ao idoso

    A realidade do envelhecimento populacional no país demonstra que não há outro caminho, senão o investimento articulado em programas de atenção aos idosos. A recomendação para os idosos, sujeitos desse processo, é que se mantenham mobilizados na luta em prol dos seus direitos; que não esqueçam dos deveres a cumprir, sobretudo continuar dando o exemplo de luta e perseverança. “Ainda que lhes faltem as forças, que não lhes falte a palavra; ainda que lhes falte a voz, que não lhes falte a presença. Só assim mostrarão a todos que o envelhecer é como o pôr-do-sol que acontece a cada dia” Bettinelli e Portella (p.110),3

    É fundamental o engajamento de toda a sociedade, para que se consiga transformar a realidade dos idosos e humanizar as relações entre viver e envelhecer. Conforme afirma Braga (p.179),5 “Para que o Estatuto do Idoso seja, realmente, uma ferramenta de mudança social, será necessário que todos nós possamos adotá-lo em nossa vida cotidiana, tratando melhor e como cidadãos aos idosos com os quais travamos contato diário e não apenas esperarmos que o governo ou alguma instituição cuide deles. O estatuto regulamenta os direitos dos idosos e define as medidas de proteção para esta população.” 

    CAPACITAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE PARA O CUIDADO COM O IDOSO

    Para Nakatani et al.,14 na velhice, ter uma vida saudável, significa manter ou restaurar a autonomia e independência. Define-se a primeira como a capacidade de decisão, e a segunda, como a capacidade de realizar algo por meios próprios.

    Néri15 nos resume mostrando que dependência, independência e autonomia são, assim, condições que não se excluem e que muitas vezes se entrelaçam. Estão presentes em todo o ciclo vital, e assumem formas e valores impostos pelas pessoas e sociedade.

    Uma das alternativas mais importantes para assegurar a autonomia e independência do idoso, como também o envelhecer saudável, são as ações educativas para essa parcela da sociedade e profissionais da saúde. No modelo vigente ainda predomina, nos serviços brasileiros de saúde, o modelo assistencial que privilegia as ações curativas e centra-se no atendimento médico, segundo uma visão estritamente biológica do processo saúde-doença. Esse modelo condiciona a educação em saúde para ações que visam a modificar as práticas dos indivíduos consideradas inadequadas pelos profissionais, mediante a prescrição de tratamentos, condutas e mudanças de comportamento. Nesse modelo, ainda quando se propõem atividades chamadas participativas, particularmente a formação de grupos, sua organização prevê prioritariamente aulas ou palestras, praticamente inexistindo espaço para outras manifestações que não sejam dúvidas pontuais a serem respondidas pelos profissionais.6

    Atitudes paternalistas e assistencialistas podem gerar efeitos negativos para a autonomia dos idosos, pois desencadeiam a dependência do cuidado profissional.

    Para garantir a autonomia e independência do ser envelhecente, é imprescindível o preparo/capacitação dos profissionais da saúde, uma vez que estes estão envolvidos diretamente no cuidado. Tal capacitação implica despertar no profissional da saúde o reconhecimento do idoso cidadão. Ou seja, um profissional conhecedor da realidade social e de saúde desse estrato populacional, das tecnologias existentes, dos recursos disponíveis e dos dispositivos legais como instrumentos factíveis para o desenvolvimento de ações de saúde. O profissional deve estar preparado para reconhecer no idoso a potencialidade para o autocuidado, a necessidade de interdependência para o cuidado e a importância de preservar a autonomia.

    Importante destacar que o Pacto pela Vida firma o compromisso dos gestores do SUS e determina as prioridades na atenção à saúde da população. Neste pacto, no que tange à saúde do idoso, um dos itens preconizados se refere à formação e educação contínua dos profissionais da saúde que atuam no sistema de saúde brasileiro.18

    Dotar as instituições de saúde de profissionais qualificados e capacitados implica articulação intersetorial nas esferas públicas. “Preparar os recursos humanos para a operacionalização de um elemento básico de atividades, que incluirá, entre outras, a prevenção de perdas, a manutenção e a recuperação da capacidade funcional da população idoso e o controle dos fatores que interferem no estado de saúde desta população.” (p.148) 10

    Em estudo realizado por Gelain, Alvarez e Silva,9 os autores constataram dificuldades referentes à falta de preparo técnico-científico dos profissionais para prestação de cuidados à pessoa idosa.

     Pereira et al. (p.2) 16  ressaltam que “profissionais que trabalham com o processo de envelhecimento nas mais diversas áreas de saber (médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, terapeutas ocupacionais e outros) tentam proporcionar, em todos os níveis de atenção à saúde (primário, secundário e terciário), o bem estar biospsicossocial dos idosos, potencializando suas funções globais, a fim de obter uma maior independência, autonomia e uma melhor qualidade para essa fase de vida

    Reforça-se então a importância de profissionais qualificados para o cuidado ao idoso.

    Os profissionais da área da saúde podem ser reconhecidos como profissões de ajuda, ou seja, com uma ligação profunda e significativa entre profissional e cliente, que ultrapassa as simples trocas funcionais, mantendo um prisma de crescimento e evolução.

    A capacitação dos profissionais da saúde para o cuidado geronto-geriátrico é, ainda, incipiente em nosso meio, provavelmente “porque a velhice é um fato social relativamente novo entre nós. Mas, se não houver recursos humanos treinados especialmente para atendê-los, não haverá uma atenção integral, integrada, digna e eficaz”.(p.109)21 Enfatiza-se, então, que para a consolidação das políticas de saúde a capacitação é requisito primordial, pois, “novos saberes, provocam novos fazeres”. (p.110) 21

    A PNSPI, enquanto um instrumento a disposição do setor saúde, estabelece e prevê em suas diretrizes a capacitação dos recursos humanos envolvidos no cuidado ao idoso. Tal diretriz requer o envolvimento de todos os órgãos públicos, instituições de saúde, instituições formadoras e da própria sociedade na sua efetivação para além de um discurso ideológico, ou seja, sua efetivação na prática.  

    CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Ao abrigarmos a tese da especificidade e singularidade de cada ser humano, assumimos a condição de que políticas sociais e de saúde devem ser propostas para grupos populacionais, porém, considerando as necessidades e experiências de cada sujeito que delas participará. Assim, a velhice deve ser considerada no ciclo da vida não como uma doença, mas como um processo de viver envelhecendo, de conviver com intercorrências, as quais podem ser preveníveis e, em especial, tratáveis.

    A mudança dos perfis populacionais, no tocante à questão etária, tem feito com que os organismos oficiais modifiquem e reenquadrem seus programas, passando a considerar, a terceira idade uma das populações-alvo de qualquer política oficial.

    O Brasil, com uma crescente população de idosos, precisou desenvolver e empreender políticas que agregassem e incluíssem essa parcela significativa de nossa população. Assim, para reverter o modelo de atenção à saúde, centrado ainda nos sujeitos profissionais, deverá voltar-se mais propriamente para sua formação e capacitação – focando a atenção no idoso, na promoção da sua saúde, buscando minimizar a dependência e potencializar a autonomia, de modo a favorecer uma velhice com melhor qualidade de vida e saúde possível.

    Os programas sociais e de saúde devem buscar responder à necessidade premente de desmistificar os (pré)conceitos a respeito da velhice, ancorados na moderna ciência do envelhecimento, para a construção de condições socioculturais propícias para uma velhice digna e prazerosa. Assim, construiremos um país constituído de cidadãos, pessoas incluídas e acolhidas em políticas sociais e de saúde, não importando sua faixa etária.

    A reflexão acerca do cuidado geronto-geriátrico, na perspectiva do Estatuto do Idoso, prevendo o treinamento e a capacitação dos profissionais, bem como a orientação à família cuidadora e aos grupos de ajuda mútua, faz-se necessária na medida em que desvela perspectivas que se revestirão de cuidados seguros, éticos e com qualidade.

    A Política Nacional do Idoso, a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa e o Estatuto do Idoso, bem como o Pacto pela Vida, são instrumentos que garantem a proteção a esse grupo populacional, agregando-os na condição de cidadãos que, como os demais, merecem uma atenção digna e saudável, considerados parceiros ativos no desenvolvimento dessas políticas.

    A perspectiva é de que os sujeitos no processo de envelhecimento tenham como vivenciá-lo da melhor forma possível e desejável. Daí o grande desafio da equipe de saúde passa a ser o cuidado com a pessoa idosa, vislumbrando a especificidade e a multidimensionalidade do ser que envelhece e do processo de envelhecimento humano.

    A questão social e de saúde do idoso, face à sua dimensão, exige uma política ampla e expressiva que suprima ou, pelo menos, amenize a cruel realidade que espera aqueles que conseguem viver até idades mais avançadas. Exige, principalmente, uma política que seja factível. Após tantos esforços realizados para prolongar a vida humana, seria lamentável não se possibilitar as condições adequadas para vivê-la com dignidade.

    O avanço da expectativa de vida saudável gera perspectivas de desenvolvimento para a fase tardia do ciclo de vida, o que significa que o perfil biopsicossocial do ser humano passa a exigir novos enfoques culturais, sociais e de saúde.  

    Notas

    a Enfermeira, mestre em Enfermagem, docente no Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade do Sul de Santa Catarina. Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Enfermagem  da Universidade Federal de Santa Catarina - Florianópolis, SC, Brasil. Responsável pela elaboração, redação, revisão e análise do artigo. E-mail: josiane.jesus@gmail.com 

    b Enfermeira no Hospital Universitário da UFSC, mestre em Enfermagem. Doutoranda no Programa de Pós-graduação em Enfermagem  da Universidade Federal de Santa Catarina - Florianópolis, SC, Brasil. Responsável pela elaboração, redação, revisão e análise do artigo. E-mail: nina.schier@gmail.com 

    c Enfermeira, docente no Departamento de Enfermagem da UFSC, doutora em Filosofia da Enfermagem, coordenadora do GEPADES. Universidade Federal de Santa Catarina - Florianópolis, SC, Brasil. Trabalhou na revisão final do artigo. E-mail: alacoque@newsite.com.br 

    d Enfermeiro, mestre em Ciências da Enfermagem, doutor em Filosofia de Enfermagem. Docente do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina - Florianópolis, SC, Brasil. Trabalhou na revisão final do artigo. E-mail: gelsonalbuquerque@yahoo.com.br               

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    Recebido em: 03/10/2006

    Revisado: 06/6/2007

    Aceito: 29/8/2007

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    Qualidade de vida e estratégias de enfrentamento em idosos com incontinência fecal: uma revisão da literatura 

    Quality of life and coping strategies of elders with fecal incontinence: a literature review 

     

    Juliana Magalhães Machado Barbosaa

    Rosângela Corrêa Diasb

    Leani Souza Máximo Pereirac

     

    RESUMO

    O objetivo desta revisão foi apreciar criticamente a literatura sobre a avaliação da qualidade de vida (QV) e das estratégias de enfrentamento em idosos com incontinência fecal (IF), tendo como referencial o envelhecimento populacional brasileiro e o aumento da incidência de doenças crônicas que comprometem o bem-estar dos idosos. Foi realizada pesquisa nas principais bases de dados e a qualidade metodológica das publicações foi avaliada. A perda involuntária de fezes gera conseqüências físicas, sociais, emocionais e econômicas, sendo mais prevalente em idosos e mulheres. Recentemente, a avaliação de medidas centradas no paciente, incluindo a QV e as estratégias de enfrentamento foram apontadas como fundamentais. A qualidade de vida de idosos com IF pode ser avaliada através de instrumentos genéricos, como o WHOQOL e de instrumentos específicos, como o FIQL e o GIQLI. Alguns estudos têm indicado variáveis que podem se associar a um maior ou menor comprometimento da QV, mas ainda há escassez de trabalhos com idosos incontinentes. Embora já existam instrumentos de avaliação genérica das estratégias de enfrentamento disponíveis para uso no Brasil, nesta revisão, não foram encontradas pesquisas sobre a forma de enfrentamento da IF na população em geral ou entre os idosos. Esta revisão confirma a necessidade de mais estudos sobre como a IF afeta os idosos e como os mesmos lidam com essa disfunção.

    Palavras-chave: idoso; qualidade de vida; incontinência fecal; envelhecimento da população;  revisão [tipo de publicação]   

    ABSTRACT

    This review aims to make a critical appraise of literature on quality of life (QoL) assessment and coping strategies in elders with fecal incontinence (FI), taking into account the Brazilian population aging and the increasing incidence in chronic illnesses that yield elderly well-being compromises. Data-based search was done and the methodological quality of papers was appraised. The involuntary fecal loss generates physical, social, emotional and economic consequences, which are more prevalent in the aged and women. Recently, patient-reported outcomes, including QoL and coping strategies, had been pointed out as essential. Elderly QoL with IF can be measured either by generic instruments, such as the WHOQOL, or by specific ones, such as the Fecal Incontinence Quality of Life and the Gastrointestinal Quality of Life. Some studies have indicated that variables can be associated to major or minor QoL outcomes, but there still be scarcity of works with incontinent elders. Although there were instruments for the evaluation of generic coping strategies suitable for use in Brazil, this review found no research on coping strategies, neither for elders with IF, nor for the general population and among elderly groups. The present review stresses the need for more studies to appreciate how FI effects the elderly population and how they cope with the consequent dysfunctions.

    Key words: aged; quality of life; fecal incontinence ; demographic aging;    review [publication type]   

    INTRODUÇÃO

                O Brasil começou seu processo de envelhecimento populacional a partir de 1960, decorrente de uma associação entre a queda significativa da mortalidade e o rápido declínio da fecundidade.8,23 Em 2000, o Brasil possuía 8,6% de sua população composta por pessoas com mais de 60 anos* representando quase 15 milhões de idosos. As perspectivas indicam que até 2020, o Brasil deverá ter mais de 30 milhões de idosos, que constituirão cerca de 13% da população.27 Sob o aspecto da saúde, os idosos possuem mais doenças, que são normalmente crônicas, usam mais medicamentos, consultam mais médicos e sofrem mais internações hospitalares.23,34 Os comprometimentos típicos dessa faixa etária foram agrupados como Síndromes Geriátricas, que compreendem a incontinência, as instabilidades e quedas, a demência, a depressão e a imobilidade.34 A incontinência pode ser subdividida em incontinência urinária (IU) e incontinência fecal (IF).16 O aumento no número de idosos e a conseqüente necessidade de cuidado especializado colocam o envelhecimento bem-sucedido como uma meta a ser atingida em todas as áreas de saber e justificando estudos para a compreensão das condições incapacitantes nessa população, inclusive da IF.16,23

    A IF é definida como a incapacidade de manter o controle fisiológico do conteúdo intestinal em local e tempo socialmente adequados.30,37,48 O termo incontinência anal (IA) é utilizado para englobar tanto a perda involuntária de material fecal quanto de gases.74

    A incontinência é uma condição grave tanto para o paciente quanto para seus cuidadores.11,16,35 Embora não aumente significativamente a mortalidade, a IF pode trazer conseqüências físicas, incluindo lesões de pele, infecções urinárias, alterações nutricionais e inatividade física; significativos custos econômicos, referentes ao uso de proteção, diagnóstico, cuidados especializados, reabilitação e medicamentos; e resultados psicossociais, relacionados à perda de independência, isolamento social e impacto emocional.26,29,38,45 Todas essas conseqüências podem afetar a vida diária, a saúde geral e a qualidade de vida de pacientes incontinentes.26,49,65,74 Entre os idosos, a incontinência é apontada ainda como a segunda causa mais comum de institucionalização.26,32,65

                A prevalência dessa condição é variável e pode ser bem maior que o divulgado.11 O problema pode ser sub-relatado porque os pacientes são relutantes em mencionar essa condição aos profissionais de saúde, tanto pelo constrangimento quanto pelo desconhecimento das possibilidades terapêuticas.16,35,39 Em idosos, o sub-relato pode estar associado ainda à percepção de que a IF é resultado do processo de envelhecimento e de que nada poderia ser feito para evitá-la ou tratá-la.35 Em estudo realizado no Reino Unido,16 54% dos idosos com IF nunca tinham relatado esse problema a seus médicos e só 14,6% dos adultos incontinentes de uma cidade australiana procuraram o médico por este motivo.30 A prevalência depende ainda da utilização do conceito de IF ou IA, considerando a freqüência mínima e duração da perda para inclusão nos estudos, parâmetros que variam entre os diversos estudos.29,30,39,45,65

                Para a população em geral, Kalantar et al. encontraram uma prevalência da IF de 11,2% na população de uma cidade australiana, sendo 55% do sexo feminino, com média de idade de 53 anos e associação significativa entre IF e idade dos participantes (p=0,003; χ2=11,75).30 Nelson et al. em estudo com pessoas da comunidade de uma cidade americana, relataram que 2,2% da população geral tinham incontinência a gases, líquidos ou fezes. Deste total, 30% eram idosos e 63% eram mulheres, dois fatores apontados como fortemente relacionados com a ocorrência de IA.39

                Entre os idosos institucionalizados e hospitalizados, a ocorrência desse problema pode atingir 17 e 47%, respectivamente.11 Na população brasileira, estudo realizado no Ambulatório de Geriatria do Hospital das Clínicas de São Paulo encontrou prevalência de 10,9%.35 Com relação à prevalência da IF entre os idosos residentes na comunidade, os resultados dos estudos também variam. Perry et al. relataram que a ocorrência da IF aumentava com o aumento da idade, atingindo 2% dos idosos com mais de 80 anos.45 Stenzelius et al. encontraram relato de perda fecal em 16,9% dos idosos com mais de 75 anos64 e Kok et al. relataram que entre idosos residentes em uma cidade holandesa, 4,2% daqueles entre 65 e 84 anos e 16,9% dos que tinham mais de 85 anos apresentavam IF.32 Em idosos comunitários no Reino Unido, Edwards & Jones encontraram uma prevalência de 3% da IF.16

                Quando ocorrem simultaneamente IF e incontinência urinária, tem-se uma condição denominada incontinência dupla.35,65 Edwards & Jones encontraram 1% dos 2.818 idosos comunitários entrevistados apresentando relato de incontinência dupla16 e Meschia et al. relataram que 24% das 881 mulheres com incontinência urinária participantes da pesquisa também tinham IA.36 Teunissen et al. em estudo com 5.748 idosos residentes na comunidade, encontraram prevalência de 6% para a IF e 3% para a incontinência dupla, e estes valores se elevaram com o aumento da idade em homens e mulheres.65

                A manutenção da continência anal depende do funcionamento normal do intestino, especialmente do reto e ânus, e dos músculos do assoalho pélvico, que incluem os esfíncteres anais interno e externo e o músculo elevador do ânus.11,29,48 O reto funciona como um reservatório do conteúdo fecal, sendo que sua distensão desencadeia um relaxamento reflexo do esfíncter anal interno e a passagem de parte desse conteúdo para o canal anal, mecanismo conhecido como reflexo retoanal inibitório. A mucosa ricamente inervada da parede anal permite a percepção da presença e da consistência do conteúdo fecal, através do reflexo de amostragem. O desejo de adiar a defecação é então concretizado através da contração voluntária dos músculos esfíncter externo e elevador do ânus, que permitem o retorno do bolo fecal ao reto e seu armazenamento.

    O sistema nervoso autônomo medeia a contração tônica do esfíncter anal interno durante a continência e seu relaxamento durante a defecação, através do controle simpático e parassimpático, respectivamente. Os músculos estriados do assoalho pélvico são controlados pelo sistema nervoso somático, através do nervo pudendo. Além do controle reflexo medular, os estímulos podem ascender pela coluna lateral até o córtex motor parassagital, tornando-se conscientes e sendo afetados pela ação do lobo frontal e suas conexões.2,11,29,71 A manutenção da continência sofre influência ainda das oscilações emocionais, decorrentes da ação dos sistemas límbico e nervoso autônomo sobre os mecanismos de controle da defecação e das variações dos hormônios sexuais que influenciam o trofismo e a vascularização dos músculos estriados. 31

                Desta forma, uma série de diferentes condições pode afetar os mecanismos citados acima: mudança na consistência das fezes, decorrente, por exemplo, do abuso de laxativos e de doenças inflamatórias do intestino; redução da complacência retal, incluindo a retirada cirúrgica, tumores e doenças do colágeno; alterações da sensibilidade anal, como na tabes dorsal e nas neuropatias periféricas; comprometimento do controle neurológico central, como nos acidentes vasculares encefálicos e nas demências; e anormalidades no mecanismo esfincteriano, como ocorre nas lesões obstétricas, desordens neurológicas desmielinizantes e doenças inflamatórias.2,11,29,31

                Com o envelhecimento, ocorre degeneração do esfíncter anal interno, que pode causar redução progressiva das pressões de repouso.11,71 Também pode ocorrer redução da complacência retal, da sensibilidade anal e atrofia muscular do assoalho pélvico associadas ao aumento da idade. Esta última acarreta redução das pressões de contração e se associa ao descenso perineal e ao aumento da latência do nervo pudendo.29,71 A presença de impactação fecal, comum nos idosos, pode afetar a sensação anal e a complacência retal, além de causar laceração muscular e incontinência por transbordamento.11,71 A IF em idosos poderia estar associada ainda aos comprometimentos cognitivos e físicos, que podem dificultar o acesso e a localização do banheiro, causar desinibição social e incapacidade de evacuar sozinho.71

                A avaliação e o diagnóstico da IF incluem a avaliação clínica, constituída pelos sinais, sintomas e exame físico; e os exames complementares, incluindo a manometria anorretal, a retossigmoidoscopia, a defecografia, a eletromiografia anorretal, a ultra-sonografia endoanal e a latência motora terminal do nervo pudendo.11,29,31,71

                    O exame físico, dividido em inspeção, palpação e testes especiais, busca identificar anormalidades estruturais nos mecanismos de controle da defecação, como por exemplo, prolapsos, hemorróidas, cicatrizes, fibroses, impactação, sinais de hipoestrogenismo, além de indicações de anormalidades neurológicas. Inclui também a avaliação da capacidade de locomoção e posicionamento para defecar e das condições da musculatura pélvica estriada, tais como força, resistência, elasticidade e tonicidade muscular.2,11

                    A história clínica é geralmente focada nos sinais e sintomas que caracterizam o funcionamento intestinal, tais como: freqüência e duração das perdas e das evacuações, consistência das fezes, presença de urgência, diarréia, flatulência, constipação e uso de proteção. Inclui ainda um relato da história cirúrgica e de doenças em outros sistemas que podem se relacionar com a ocorrência de incontinência, uso de medicações, hábitos alimentares, avaliação do estado mental e emocional.2 Vários autores têm proposto um sistema de quantificação que considere a intensidade e a freqüência da perda, através de uma graduação numérica da gravidade.29,45,50,70 As escalas Índice da Incontinência Anal12,29,52,74 e Fecal Incontinence Severity Index50 são as mais utilizadas nos ensaios clínicos.

                Recentemente, a adoção de medidas centradas no paciente vem sendo discutida como fundamental para documentar como as doenças afetam os indivíduos e como as intervenções afetam as mesmas. A qualidade de vida e as estratégias de enfrentamento são formas de avaliar este efeito das doenças e vêm ganhando relevância nas publicações recentes. Portanto, o objetivo deste estudo foi revisar como a incontinência fecal afeta a qualidade de vida e que estratégias os indivíduos idosos usam para lidar com ela.   

    METODOLOGIA 

                Foi realizada busca nos bancos de dados informatizados MedLine, Scielo, LILACS, PEDro, Cochrane, PsycINFO, sobre qualidade de vida e estratégias de enfrentamento em idosos com incontinência fecal. Foi usada como estratégia de busca: “quality of life” explode; “coping” explode; “elderly” ou “older” ou “aging”; “fecal incontinence”. As referências bibliográficas das pesquisas consultadas também foram usadas como levantamento de publicações referentes ao tema, bem como indicação de especialistas, associações profissionais e anais de eventos associados ao tema. As publicações foram selecionadas pelo título e/ou resumo. Não foi definido limite de data, idioma, tipo de estudo ou duração da IF.

                A qualidade metodológica dos estudos foi avaliada conforme proposto por Sackett et al., e aquelas que não atenderam aos pressupostos mínimos foram excluídas.53 

    RESULTADOS E DISCUSSÃO

                Avaliação da Qualidade de Vida

                    O construto qualidade de vida foi definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como “a percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”, tendo sido reconhecido como importante para a tomada de decisões clínicas, aprovação de novas intervenções, avaliação de programas e alocação de recursos.67 Esse construto é caracterizado pela subjetividade, multidimensionalidade e bipolaridade.24. 43,61

    Nos últimos anos, o resultado das intervenções passou a ser avaliado considerando também a percepção dos pacientes em relação a seu bem-estar e expectativas, inclusive nos aspectos físico, social, emocional e ocupacional.5,43,74 A avaliação da qualidade de vida tem sido discutida e apontada como um indicativo ético, profissional e econômico da otimização do diagnóstico e da eficiência do tratamento.5,15,24,43,49,67 Neste contexto, a utilização da avaliação de qualidade de vida nos aspectos que são relacionados ou afetados pela presença de doenças ou de tratamentos passou a ser denominada qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS).15,61 Para a OMS, a avaliação da QVRS é essencial para a promoção e o cuidado de saúde numa concepção holística, em que o bem-estar do paciente é o objetivo principal.67 Este conceito é apontado como um conjunto de medidas dos níveis da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), proposta pela OMS.15

    Rockwood discute a diferença da visão que o clínico e o paciente têm da IF.48 Para o primeiro, o foco é a função esfincteriana e os resultados no controle da mesma, sendo estes divididos em primários (fisiológicos e comportamentais) e secundários (afetivos, sociais e cognitivos). Para o paciente, diversos aspectos da sua vida são influenciados pela disfunção esfincteriana, e medir este ponto de vista pode favorecer a busca de resultados centrados no paciente.

    Para avaliar a QVRS, torna-se necessária a disponibilidade de medidas quantificáveis e reprodutíveis do impacto funcional, emocional e social da doença avaliada.5,12,54 Instrumentos genéricos e específicos de avaliação da qualidade de vida têm sido citados na literatura. Os questionários genéricos podem favorecer uma melhor comparação entre diferentes doenças, populações ou grupos, mas podem ser menos sensíveis para detectar mudanças menores ou mais específicas.14,48,49 Os instrumentos específicos permitem avaliar particularmente o impacto da IF nos aspectos que podem ser mais influenciados por ela e, portanto, que podem demonstrar mudanças mais significativas.14,48 A combinação dos dois tipos de instrumentos pode favorecer uma avaliação de diferentes aspectos da qualidade de vida.24

    Para escolher o instrumento genérico a ser utilizado nos pacientes, é preciso considerar que a IF não causa dor e incapacidade física. Portanto, instrumentos de avaliação da qualidade de vida global podem ser mais apropriados que aqueles que avaliam a QVRS. Neste caso, opções de questionários genéricos já validados para a população brasileira poderiam ser o WHOQOL-100, o WHOQOL-BREF e o WHOQOL-OLD, indicados pela OMS.19,20,42 Seguindo metodologia rigorosa, foi desenvolvido o World Health Organization Quality of Life instrument (WHOQOL-100). Com seis domínios, divididos em 24 facetas e pontuado numa escala do tipo Likert, o WHOQOL-100 pode ser muito extenso para determinadas aplicações, o que levou ao desenvolvimento de sua versão abreviada, o WHOQOL-BREF.20,67 (THE WHOQOL GROUP, 1995; FLECK et al., 2000).

    O WHOQOL-BREF possui 26 questões, que compõem os domínios físico, psicológico, relações sociais e meio ambiente, e pode ser auto-administrado, assistido ou aplicado pelo examinador. Foi adaptado para a língua portuguesa por Fleck et al., apresentando propriedades psicométricas satisfatórias.20,67 Recentemente, o WHOQOL Group desenvolveu um instrumento para avaliar a qualidade de vida em idosos (WHOQOL-OLD), considerando que instrumentos adequados para avaliar populações jovens podem não ser apropriados a esse grupo.21,42

    Caso se prefira avaliar a QVRS, as versões do Medical Outcomes – Short Forms com 3640,48,74 2052 e 1213,18 itens são citadas na literatura para avaliação da qualidade de vida genérica de indivíduos com IF. O SF-36 foi traduzido e validado para a língua portuguesa por Ciconelli et al.10 Trata-se de um questionário muldimensional, composto por 36 itens, divididos em 8 domínios: capacidade funcional, aspectos físicos, dor, estado geral de saúde, vitalidade, aspectos sociais, aspectos emocionais e saúde mental. Seu resultado é apresentado na forma de um escore final que varia de 0 a 100, sendo zero o pior e 100 o melhor estado de saúde.10 Embora suas propriedades psicométricas sejam satisfatórias e apesar de sua ampla utilização, alguns problemas na aplicação do SF-36 em idosos têm sido documentados: porcentagem significativa de itens perdidos, efeito chão e teto para alguns domínios e baixa responsividade às mudanças na condição de saúde.4,63

    Duas escalas têm sido mais freqüentemente citadas nos estudos para avaliação da QVRS de indivíduos com IF: o Gastrointestinal Quality of Life Index (GIQLI)17 e a Fecal Quality of Life Scale (FIQL).49 A primeira avalia a QVRS de pacientes com doença gastrointestinal, independentemente do acometimento ou do órgão envolvido, sendo apontado por alguns autores como um instrumento intermediário entre os genéricos e os específicos.12 O GIQLI possui 36 questões com perguntas referentes ao efeito de diversos problemas, sintomas e doenças gastrointestinais na qualidade de vida. É pontuado em uma escala Likert de 5 pontos, com um escore total que representa a soma das respostas de cada pergunta.17 Possui propriedades psicométricas adequadas e é utilizado em estudos sobre qualidade de vida e incontinência fecal.12,52,54 Não foram encontrados estudos publicados sobre sua validação e adaptação para uso no Brasil.

    O FIQL, indicado pela American Society of Colon e Rectum Surgery, foi desenvolvido para avaliar a QVRS de adultos com IF e foi validado para a população brasileira por Yusuf et al.74 O FIQL é composto de 29 questões, divididas em quatro domínios – estilo de vida, comportamento, depressão e constrangimento, pontuados de 1 a 4. Tanto o instrumento original quanto a versão para uso no Brasil apresentam propriedades psicométricas adequadas.49,74 É um instrumento específico, de linguagem simples, com tempo viável para aplicação, com boa aceitação e utilização na literatura.74

                Os instrumentos específicos para avaliação da QVRS em indivíduos com IF consideram que o efeito dessa condição na qualidade de vida é semelhante em diferentes populações. Com relação à IF, as expectativas, experiências e estilo de vida são diferentes entre uma jovem mãe e um homem idoso. Dessa forma, o enfrentamento e o efeito dessa disfunção na qualidade de vida das diversas faixas etárias devem ser pesquisados. Diante do exposto, os instrumentos propostos para medir a IF precisam ser sensíveis às necessidades do grupo estudado.48 Não foram encontrados, na literatura pesquisada, instrumentos validados para a avaliação da qualidade de vida de idosos com IF. O contínuo desenvolvimento e refinamento de instrumentos específicos de avaliação da QVRS incluem desenvolver novos instrumentos para avaliar populações específicas ou construir módulos diferenciados de acordo com a população.48

                    Em 2001, Rothbarth et al.52 avaliaram 35 mulheres com IF decorrente de trauma obstétrico, com média de idade de 54 anos, através do GIQLI, do Short Form – 20 (SF-20) e do Índice da Incontinência Anal. Os autores encontraram valores significativamente menores no GIQLI e no SF-20 que os valores de referência para a população em geral, indicando impacto da incontinência para a qualidade de vida dessas pessoas. No Brasil, Santos & Silva56 aplicaram a Escala de Qualidade de Vida de Flanagan em 41 pacientes com IA e reportaram efeito dessa condição sobre a QVRS, especialmente no domínio relações com outras pessoas. Esses autores encontraram correlação significativa entre o escore de QVRS e a idade, a renda familiar, o sexo e o arranjo familiar.

                    O efeito da IF sobre a qualidade de vida dos idosos tem sido pouco investigado na literatura. O’Keefe et al. observaram que a presença de outras doenças crônicas não influenciou o efeito da IF sobre os escores de QVRS.40 Nos idosos incontinentes, os escores de qualidade de vida poderiam sofrer a influência de fatores associados à própria incontinência, como a gravidade, freqüência e o uso de proteção ou de fatores mais gerais, como uso de medicamentos, doenças associadas, atividades realizadas e suporte social. Entretanto, nem o efeito da IF sobre a qualidade de vida de idosos, nem os fatores associados a este efeito estão claramente definidos na literatura. 

                Chang propõe um modelo conceitual de como as desordens gastrointestinais podem afetar a QVRS.9 De acordo com o autor, variáveis relacionadas à doença, principalmente a gravidade dos sintomas, presença de dor e urgência são somados ao impacto psicossocial da mesma para determinar como a qualidade de vida será afetada. Os fatores psicossociais podem incluir: efeitos adversos da vida anteriores à doença, estresse na vida atual, características psicológicas, estratégias de enfrentamento e falta de apoio social. Essa interação poderia ser afetada ainda por sintomas extra-intestinais, como a fadiga.

                Com base nos estudos revisados, os seguintes fatores poderiam se relacionar com a qualidade de vida de idosos ou adultos incontinentes fecais: sexo12,65; idade45,56; escolaridade14; emprego e condições de trabalho74; arranjo familiar16,39,56; constipação intestinal35; gravidade dos sintomas da IF3,7,33,38,50,70,74; tempo de duração dos sintomas12; condições de saúde associadas40, ansiedade e depressão26,38,74; incontinência urinária14,18; atividade sexual38,74; resultados da manometria anorretal.33,38 

    Estratégias de Enfrentamento

    Qualquer mudança na vida gera algum nível de estresse, cujos efeitos podem ser positivos, quando melhoram o desempenho da pessoa, ou negativos, quando ameaçam a capacidade do indivíduo no ambiente. A reação às mudanças varia de pessoa para pessoa e até no mesmo indivíduo, conforme o período de vida. As habilidades desenvolvidas para lidar com as situações de estresse e se adaptar a elas são denominadas estratégias de enfrentamento, em inglês coping. Elas são definidas como esforços cognitivos ou comportamentais intencionais para controlar (vencer, tolerar ou reduzir) demandas internas ou externas específicas que são avaliadas como excedendo ou fatigando os recursos da pessoa.1,57,68

                A escolha da estratégia de enfrentamento depende do repertório individual, de experiências anteriores, do agente estressor e do contexto, incluindo o gênero, as condições de saúde, o tipo e a condição de controle do estressor, as crenças, as habilidades para solucionar problemas, o relacionamento conjugal, as habilidades e suporte social e os recursos materiais.1,57 Dependendo da qualidade e da disponibilidade desses recursos, o se indivíduo torna mais vulnerável ou mais resistente aos efeitos adversos do estresse.1

                De acordo com a Teoria de Estresse e Enfrentamento,22 o enfrentamento pode ser centrado no problema, com a função de controlar ou alterar o problema causador do estresse, através de seu manejo ou modificação, ou centrado na emoção, para adequar a resposta emocional ao problema, normalmente quando a condição não pode ser modificada.1,57,68 O primeiro pode ser direcionado externa ou internamente, como a resolução de conflitos interpessoais e um pedido de ajuda a terceiros, ou a solução de problemas e planejamento. O enfrentamento centrado na emoção pode usar estratégias somáticas ou emocionais, como uso de cigarros ou tranqüilizantes, assistir à televisão ou praticar atividade física.1 As duas formas de enfrentamento podem estar inter-relacionadas, já que uma estratégia pode ter efeitos indiretos na outra, ocorrendo numa relação dinâmica e recíproca.68

    Outra classificação tem sido citada: o enfrentamento focado na aproximação ou no afastamento (approach x avoidance), cada um deles subdivididos em cognitivo ou comportamental. A aproximação refere-se a um enfrentamento ativo do agente estressor no sentido de alterá-lo ou eliminá-lo, enquanto o afastamento utiliza estratégias para evitar ou ignorar o problema.51 O componente cognitivo do enfrentamento é definido como um esforço para mudar a percepção de um evento e o componente comportamental é considerado como qualquer tentativa de alterar a situação. A aproximação cognitiva consiste em estratégias de atenção usadas para reestruturar o problema de forma mais favorável; já no afastamento cognitivo, as estratégias refletem tentativas de minimização do evento estressante. A aproximação comportamental inclui as estratégias desenvolvidas para uma ação concreta visando a atingir diretamente a situação, e o afastamento comportamental, estratégias para buscar alternativas que favoreçam a aceitação da situação.51

                Há diferentes formas de identificar e medir o enfrentamento; dentre elas, as medidas do estilo de enfrentamento, que se referem principalmente à personalidade e maneira típica de cada indivíduo lidar com o estresse e as medidas das estratégias de enfrentamento, que visam a compreender o que as pessoas fazem ou pensam em situações estressantes.57

    Dois questionários para avaliar as estratégias de enfrentamento foram validados para uso no Brasil: o Inventário de Estratégias de Coping59 e a Escala Modos de Enfrentamento de Problemas.62 O primeiro é um questionário com 66 itens, envolvendo pensamentos e ações que as pessoas utilizam para lidar com um evento estressante específico, em escores que variam da zero a três de acordo com a freqüência em que a estratégia foi utilizada. Esta escala é subdividida em oito domínios: confronto, afastamento, autocontrole, suporte social, aceitação de responsabilidade, fuga e esquiva, resolução de problemas e reavaliação positiva.22 Foi adaptada para o português em 1996, por Savoia et al.,59 que descreveram algumas de suas propriedades psicométricas. O Inventário de Estratégias de Coping é amplamente utilizado na literatura nacional e internacional, tanto em doenças psiquiátricas quanto numa variedade de doenças viscerais e em diferentes grupos de pacientes, tipos sociais e profissionais.47,58,60

    A escala Modos de Enfrentar Problemas possui 57 itens, divididos em oito domínios: focalização no problema, pensamento positivo, busca de apoio social, religiosidade, esquiva, pensamento fantasioso/deliberativo, autoculpa e culpabilização dos outros. As respostas são pontuadas numa escala do tipo Likert de 4 pontos. As respostas são divididas em foco no problema e na emoção. Os estudos brasileiros utilizando essa escala reportam algumas limitações psicométricas que ainda precisam ser esclarecidas.62

    É importante discutir ainda os desfechos decorrentes da estratégia de enfrentamento.51 Uma meta apontada por Pucheu et al. para a pesquisa das estratégias de enfrentamento de uma doença é identificar que mecanismos de enfrentamento geram melhor convivência ou resolução de um problema específico.46 De acordo com Roesch & Weiner, mudanças nos indicadores de saúde somática ou psicológica podem resultar da forma de enfrentamento adotada, sendo citados: a redução do estresse emocional, refletido em medidas de depressão ou estresse; a resolução do conflito ou situação estressante; o funcionamento social normal; a redução das reações psicológicas ou bioquímicas; o retorno às atividades pré-estresse; e a manutenção de uma auto-avaliação positiva.51

    Alguns autores têm apontado ainda que atitudes que favorecem uma melhor aderência ao tratamento ou desfechos mais favoráveis em doenças específicas podem ser consideradas estratégias de enfrentamento mais adaptativas.44,46 Determinadas estratégias de enfrentamento podem ainda mediar a relação estressor-doença, favorecendo o controle ou o agravamento da doença, o que, segundo Roesch & Weiner, reforça a importância da avaliação dessas estratégias em diferentes doenças.51 Em pacientes com câncer, determinadas estratégias de enfrentamento favorecem uma redução da morbidade e da mortalidade relacionada à doença, após ajustamento com outras variáveis.47

    A relação entre qualidade de vida e enfrentamento é discutida por Xavier et al., que consideram que a qualidade de vida depende da interpretação emocional que o indivíduo dá aos fatos e eventos.73 No campo da saúde física, tal relação se refletiria na grande variabilidade com que as pessoas lidam com suas capacidades de enfrentar as limitações físicas e doenças, e seria baseada nas percepções e valores que cada um dá à sua condição de saúde. Portanto, duas pessoas com a mesma condição de saúde poderiam ter QVRS muito diferentes, devido a seus aspectos subjetivos e à forma como encaram a doença.6

    Na insuficiência renal crônica, o enfrentamento focado no problema não se associou à qualidade de vida, e o enfrentamento focado na emoção apresentou correlação negativa com os escores mentais da escala de QVRS, enquanto as condições clínicas da patologia não se associaram aos escores de QVRS.46 Uma metanálise realizada em 200151 demonstrou que indivíduos que consideraram sua doença como sendo controlada internamente, instável e controlável usaram estratégias de enfrentamento focadas na aproximação ou na emoção e estavam mais bem ajustados que indivíduos que consideravam sua saúde controlada por fatores externos ou casuais e a doença incontrolável e estável. Esse resultado sugere uma relação entre a estratégia de enfrentamento adotada e o lócus de controle da saúde, que se refere às crenças do indivíduo quanto a quem controla sua condição de saúde. Tal medida pode ser atribuída a fatores internos à pessoa, à fatores externos ou ao acaso.72

                    O enfrentamento pode variar com a idade e com as mudanças das condições de vida e das experiências.73 Em idosos, o enfrentamento do próprio envelhecimento parece depender de fatores objetivos da vida da pessoa e da interpretação subjetiva de sua condição. Portanto, as variáveis internas, como suas atitudes emocionais diante dos fatos da vida, e as variáveis externas, como os recursos ambientais e financeiros, poderiam determinar uma qualidade de vida positiva ou negativa na velhice.73 Trentini et al. avaliaram de forma qualitativa como os idosos enfrentam as condições crônicas de saúde, sendo identificadas como principais estratégias: ter fé em Deus, buscar ajuda da família e de outras pessoas, trabalhar, freqüentar grupos de idosos, cuidar da estética e do corpo, buscar tratamento médico e rejeitar as perdas naturais conseqüentes do envelhecimento.68

    Na IF, Miner aponta que as estratégias de enfrentamento adotadas podem incluir ficar sempre próximo ao banheiro, utilizar roupas extras e apropriadas para que o absorvente não fique nítido, de cor escura para não permitir a visualização de manchas e fáceis de retirar, além de carregar roupas sobressalentes para o caso de trocas.38 Entretanto, na literatura pesquisada, não foram encontradas pesquisas sobre as estratégias de enfrentamento utilizadas por idosos com IF, nem suas possíveis relações com a qualidade de vida desses pacientes. 

    CONCLUSÃO

                A discussão das questões levantadas anteriormente está de acordo com a tendência atual da intervenção baseada em evidências, cujas justificativas se baseiam em estudos de boa qualidade metodológica sobre as medidas de avaliação e intervenção utilizadas na prática clínica. Antes da proposição de uma intervenção para minimizar os efeitos de uma doença sobre a vida de um paciente, é necessário compreender as alterações que essa doença causa nas estruturas e funções do corpo, bem como seus efeitos sobre as atividades e a participação social de um indivíduo e suas relações com a família e o ambiente.25,42,55,69

                A avaliação dos construtos discutidos pode contribuir para a compreensão da relação entre os níveis propostos na CIF em idosos com IF e direcionar uma sistematização do processo de avaliação que pode contribuir para uma intervenção mais efetiva e para enriquecer o corpo de teorias das profissões envolvidas no cuidado de idosos incontinentes.25,34,42,69

    Esta revisão confirma a necessidade de mais estudos sobre o modo como a IF afeta os idosos e como os mesmos lidam com essa disfunção. Uma possível adaptação psicológica e comportamental à incontinência, traduzida pelas formas de enfrentamento da doença pelos idosos e pela aceitação da mesma como inerente ao processo de envelhecimento, confirma a necessidade de uma investigação mais detalhada da questão.14

    Nesta revisão de literatura não foram encontrados trabalhos que avaliem a associação das medidas qualidade de vida e estratégias de enfrentamento em idosos incontinentes para fezes. Um adequado dimensionamento do problema pode contribuir para que os vários profissionais que prestam assistência ao idoso, se não forem capazes de restabelecer a continência, possam direcionar suas abordagens terapêuticas para o restabelecimento da qualidade de vida e para uma melhor forma de enfrentamento dessa condição.  

    NOTAS

    a Fisioterapeuta , Especialista em Gerontologia pela SBGG e pela PUC-MG, Mestre em Ciências da Reabilitação (UFMG). Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional – Departamento de Fisioterapia, Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte – MG, Brasil 

    b Fisioterapeuta, Especialista em Gerontologia pela SBGG, Doutora em Ciências da Reabilitação (UNIFESP). Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional – Departamento de Fisioterapia, Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG, BrasilE-mail: rcd@ufmg.br  

    c Fisioterapeuta, Especialista em Gerontologia pela SBGG, Doutora em Ciências Biológicas (UFMG). Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional – Departamento de Fisioterapia. Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG, BrasilE-mail: leanismp.bh@terra.com.br 

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    Recebido em: 01/12/2006

    Aceito: 18/6/2007

    ^rND^sAntoniazzi^nAS^rND^sDell’Aglio^nDD^rND^sBandeira^nDR^rND^sBarbosa^nJMM^rND^sMarques^nLM^rND^sBarbosa^nJMM^rND^sBrazier^nJE^rND^sBuss^nPM^rND^sCarr^nAJ^rND^sGibson^nB^rND^sRobinson^nPG^rND^sCavanaugh^nM^rND^sHyman^nN^rND^sOsler^nT^rND^sChaimowicz^nF^rND^sChang^nL^rND^sCiconelli^nRM^rND^sCooper^nZ^rND^sRose^nS^rND^sDamon^nH^rND^sDamon^nH^rND^sDumas^nP^rND^sMion^nF^rND^sDugan^nE^rND^sEbrahim^nS^rND^sEdwards^nNI^rND^sJones^nD^rND^sEypasch^nE^rND^sFialkow^nMF^rND^sFleck^nMPA^rND^sFleck^nMPA^rND^sFleck^nMPA^rND^sChachamovich^nE^rND^sTrentini^nCM^rND^sFolkman^nS^rND^sGarrido^nR^rND^sMenezes^nPR^rND^sGuyatt^nGH^rND^sFeeny^nDH^rND^sPatrick^nDL^rND^sHerbert^nRD^rND^sHeymen^nS^rND^sJohanson^nJK^rND^sLafferty^nJ^rND^sJorge^nJMN^rND^sWexner^nSD^rND^sKalantar^rND^sHowell^nS^rND^sTalley^nNJ^rND^sKamm^nM^rND^sKok^nALM^rND^sLehur^nPA^rND^sLima-Costa^nMF^rND^sBarreto^nSM^rND^sGiatti^nL^rND^sLopes^nMC^rND^sMeschia^nM^rND^sMesselink^nB^rND^sMiner^nP^rND^sNelson^nR^rND^sO’Keefe^nEA^rND^sPereira^nMEMSM^rND^sAraújo^nTCCF^rND^sPerry^nS^rND^sPucheu^nS^rND^sReynolds^nP^rND^sRockwood^nT^rND^sRockwood^nTH^rND^sRockwood^nTH^rND^sRoesch^nSC^rND^sWeiner^nB^rND^sRothbarth^nJ^rND^sSailer^nM^rND^sSampaio^nRF^rND^sMancini^nMC^rND^sFonseca^nST^rND^sSantos^nVLCG^rND^sSilva^nAM^rND^sSavoia^nMG^rND^sSavóia^nMG^rND^sBernik^nM^rND^sSavóia^nMG^rND^sSantana^nPR^rND^sMejias^nNP^rND^sScazufca^nM^rND^sKuipers^nE^rND^sSchwartzmann^nL^rND^sSeidl^nEMF^rND^sStadnyk^nK^rND^sCalder^nJ^rND^sRockwood^nK^rND^sStenzelius^nK^rND^sTeunissen^nTAM^rND^sTrentini^nM^rND^sUstun^nTB^rND^sVaizey^nCJ^rND^sWald^nA^rND^sWallston^nKA^rND^sStein^nMJ^rND^sSmith^nCA^rND^sXavier^nFMF^rND^sYusuf^nSAI^rND^sAntoniazzi^nAS^rND^sDell’Aglio^nDD^rND^sBandeira^nDR^rND^sBarbosa^nJMM^rND^sMarques^nLM^rND^sBarbosa^nJMM^rND^sBrazier^nJE^rND^sBuss^nPM^rND^sCarr^nAJ^rND^sGibson^nB^rND^sRobinson^nPG^rND^sCavanaugh^nM^rND^sHyman^nN^rND^sOsler^nT^rND^sChaimowicz^nF^rND^sChang^nL^rND^sCiconelli^nRM^rND^sCooper^nZ^rND^sRose^nS^rND^sDamon^nH^rND^sDamon^nH^rND^sDumas^nP^rND^sMion^nF^rND^sDugan^nE^rND^sEbrahim^nS^rND^sEdwards^nNI^rND^sJones^nD^rND^sEypasch^nE^rND^sFialkow^nMF^rND^sFleck^nMPA^rND^sFleck^nMPA^rND^sFleck^nMPA^rND^sChachamovich^nE^rND^sTrentini^nCM^rND^sFolkman^nS^rND^sGarrido^nR^rND^sMenezes^nPR^rND^sGuyatt^nGH^rND^sFeeny^nDH^rND^sPatrick^nDL^rND^sHerbert^nRD^rND^sHeymen^nS^rND^sJohanson^nJK^rND^sLafferty^nJ^rND^sJorge^nJMN^rND^sWexner^nSD^rND^sKalantar^rND^sHowell^nS^rND^sTalley^nNJ^rND^sKamm^nM^rND^sKok^nALM^rND^sLehur^nPA^rND^sLima-Costa^nMF^rND^sBarreto^nSM^rND^sGiatti^nL^rND^sLopes^nMC^rND^sMeschia^nM^rND^sMesselink^nB^rND^sMiner^nP^rND^sNelson^nR^rND^sO’Keefe^nEA^rND^sPereira^nMEMSM^rND^sAraújo^nTCCF^rND^sPerry^nS^rND^sPucheu^nS^rND^sReynolds^nP^rND^sRockwood^nT^rND^sRockwood^nTH^rND^sRockwood^nTH^rND^sRoesch^nSC^rND^sWeiner^nB^rND^sRothbarth^nJ^rND^sSailer^nM^rND^sSampaio^nRF^rND^sMancini^nMC^rND^sFonseca^nST^rND^sSantos^nVLCG^rND^sSilva^nAM^rND^sSavoia^nMG^rND^sSavóia^nMG^rND^sBernik^nM^rND^sSavóia^nMG^rND^sSantana^nPR^rND^sMejias^nNP^rND^sScazufca^nM^rND^sKuipers^nE^rND^sSchwartzmann^nL^rND^sSeidl^nEMF^rND^sStadnyk^nK^rND^sCalder^nJ^rND^sRockwood^nK^rND^sStenzelius^nK^rND^sTeunissen^nTAM^rND^sTrentini^nM^rND^sUstun^nTB^rND^sVaizey^nCJ^rND^sWald^nA^rND^sWallston^nKA^rND^sStein^nMJ^rND^sSmith^nCA^rND^sXavier^nFMF^rND^sYusuf^nSAI^rND^nRenato^sVeras^rND^nRenato^sVeras^rND^nRenato^sVeras

    Uma conjuntura favorável à consolidação da área do envelhecimento humano

     

    A expectativa de vida aumentou dramaticamente nas décadas passadas. Segundo os dados mais recentes do IBGE, relativos ao ano de 2006 e divulgados em dezembro de 2007, a expectativa média de vida dos brasileiros cresceu um pouco mais no ano passado e chegou a 72,3 anos. Um ano antes era de 71,9 anos. Na comparação com 1980, a taxa melhorou 15,7 por cento em relação à média de 62,52 anos registrada então. Infelizmente, as desigualdades e heterogeneidades são marcas do nosso país, e muitos brasileiros ainda não chegam à maturidade.

    Por outro lado, podemos afirmar, sem chance de erros, que teremos muitas idosas, moradoras nos grandes centros urbanos, dentre aquelas com melhor nível educacional e boas condições socioeconômicas, atingindo a marca dos 100 anos de vida. Fato que até bem pouco era rara exceção. Embora seja definitivamente uma das maiores conquistas da humanidade, a extensão deste limite permanece controversa. Mais do que isso, ainda não são conhecidas as conseqüências de uma expectativa de vida ainda mais longa para a sociedade.

    Trata-se de um tema multifacetado e complexo, motivo de grande interesse de novos estudos e pesquisas. O envelhecimento da sociedade tem acentuado as desigualdades entre países desenvolvidos e em desenvolvimento e as implicações sociais e em saúde se tornam desafios colossais para os atuais cenários políticos e sociais. Em agosto de 2007, por iniciativa da Associação Mundial de Demografia e da Universidade de St. Gallen, Suíça, um grupo de especialistas de todos os campos do conhecimento se reuniu em torno do tema “Envelhecimento Populacional Mundial e Gerações”. As conclusões deste encontro mostram não apenas a dimensão da Gerontologia como também a sua complexidade. Segundo os relatórios, já se configuram várias novas questões na área da previdência social e da saúde, na necessidade de inovação, na criação de um novo mercado de trabalho, no estilo de vida, entre outros temas. O que significa muito trabalho e muitas oportunidades de contribuição para o desenvolvimento de políticas públicas, para a área de Saúde Coletiva e para o bem-estar da população idosa brasileira.

    Nesse último editorial do ano de 2007, a Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia se mostra atenta a estes fatos e aos desafios que se apresentam. Com a característica visão de futuro da UnATI/UERJ, instituição que hospeda esta Revista, este cenário nos incita a superar as dificuldades e a olhar de forma bastante positiva as perspectivas futuras.

    Alguns fatos marcantes na política de saúde do país reforçam este otimismo. A Agência Nacional de Saúde Suplementar vem pouco a pouco se consolidando, seus quadros dirigentes mais qualificados foram mantidos nos seus postos e, neste ano, a ANS recebeu o reforço do Professor Hesio Cordeiro, um dos expoentes da Saúde Pública brasileira e pessoa muito atenta às transformações da área da saúde. O Professor Hesio ficará a frente da diretoria que cuida dos Projetos de Inovação e Pesquisa junto ao Setor Suplementar da Saúde. E o Ministério da Saúde, sob a administração do Ministro Temporão, aluno e discípulo de Hesio, está redirecionando as prioridades de saúde com foco na gestão qualificada e na utilização apropriada dos parcos recursos que o setor possui.

    Desse modo, a conjuntura político científica é bastante favorável ao desenvolvimento da produção do conhecimento na área do envelhecimento humano. Portanto – neste ano em que a UnATI/UERJ vem desenvolvendo estudos com o apoio do Ministério e da Agência e em que a produção científica da área do envelhecimento humano, expressa nos textos publicados pela Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, amplia-se com foco nas questões apresentadas nas conclusões de St. Gallen e nas diretrizes contemporâneas dos dirigentes maiores do Brasil na área da saúde – temos muito a esperar para 2008. Além disso, a UnATI inicia também um novo momento, com o explícito apoio do Governo do Estado e da nova Reitoria da UERJ eleita para o próximo quadriênio, que participou, desde a inauguração, deste exitoso projeto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

    Sabemos de todos os desafios à frente e estamos confiantes e motivados, pois o cenário do ano que entra apresenta um ambiente de circunstâncias muito favoráveis e de perspectivas alvissareiras. Um feliz 2008 para todos.

     

    Renato Veras

    Diretor da UnATI/ UERJ e editor da RBGG

     

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    Consumo de medicamentos por idosos atendidos em um centro de convivência no noroeste do Paraná, Brasil

    Medicine consumption by the elderly assisted at a day care center for older people in northwestern Paraná, Brazil

     

    Hellen Regina Fanhania

    Orlando Seiko Takemurab

    Roberto Kenji Nakamura Cumanc

    Flavio Augusto Vicente Seixasd

    Oséias Guimarães de Andradee

     

    Resumo

    O objetivo deste trabalho foi avaliar o consumo dos medicamentos, por idosos de um centro de convivência, relacionado aos aspectos de seu uso racional. Para isso foram realizadas visitas domiciliares, com entrevista baseada em um questionário estruturado. O resultado das 72 entrevistas mostrou que os idosos tinham baixa escolaridade, 66% pertenciam ao sexo feminino, e a faixa etária de maior prevalência foi a de 60 a 75 anos (81%). A hipertensão foi a doença crônica mais freqüente (54%), seguida de diabetes mellitus e artrite/reumatismo (17 e 15%, respectivamente). Quanto ao consumo de medicamentos, 89% faziam uso de algum tipo de medicamento, dos quais 73% eram medicamentos prescritos por médicos e 27%, não. Apesar de 83% dos 231 medicamentos utilizados estarem corretamente indicados, 43,3% destes eram inadequadamente consumidos com relação ao seu tempo de utilização. Os anti-hipertensivos foram os medicamentos mais citados (20%), seguidos dos antinflamatórios não-esteroidais (19%), diuréticos (10%) e fitoterápicos (9%). Os dados obtidos nesta pesquisa indicam que os idosos, além de serem grandes consumidores de medicamentos, usam freqüentemente múltiplos medicamentos, o que gera risco à sua saúde. Esta pesquisa evidencia a importância de orientações adequadas para promover o uso racional de medicamentos e para evitar seu uso inadequado.

    Palavras-chave: uso de medicamentos; automedicação;  meia-idade;  idoso; Centros de Convivência e Lazer; escolaridade; visita domiciliar; promoção da saúde; Paraná 

    Abstract

    This work aimed to evaluate medicine consumption by old-aged people at a day care center, relating aspects of its rational use. For this purpose, home visitation was carried out, followed by interview based on a structured questionnaire. The results of the 72 interviews show that the elderly presented low schooling, 66% among the female gender. The most prevalent age group was 60 to 75 years old (81%). Hypertension was the most frequent chronic disease (54%), followed by diabetes mellitus and arthritis/rheumatism (17 and 15%, respectively). As for the medicine consumption, 89% were using some kind, where 73% were doctor prescribed medicines and 27%, not. In spite of 83% of the 231 used medicines being correctly indicated, 43.3% of them were improperly consumed as for their utilization period. The antihypertensive were the most cited medicine (20%), followed by nonsteroidal anti-inflammatory (19%), diuretics (10%) and phytotherapics (9%). The data obtained in this research indicate that the elderly, besides being medicine great consumers, frequently use multiple medicines, which represents health risks for them. This research evinces the importance of adequate orientations to promote the rational use of medicines, avoiding their inadequate use.

    key words: drug utilization; self medication; middle aged; aged; Centers of Connivance and Leisure;  educational status; home visit; health promotion; Paraná 

    Introdução

                O crescimento da população idosa, em números absolutos e relativos, é um fenômeno mundial e está ocorrendo em nível sem precedentes. Em 1950, eram cerca de 204 milhões de idosos no mundo; quase cinco décadas depois, em 1998, este contingente alcançava 579 milhões de pessoas, um crescimento de quase oito milhões de pessoas idosas por ano.17 O aumento da longevidade e a redução das taxas de mortalidade, nas últimas décadas do século passado, mudaram o perfil demográfico do Brasil. Os brasileiros com mais de 60 anos representam 8,6% da população e esta proporção chegará a 14% em 2025 (32 milhões de idosos).17

    O crescimento na população idosa não tem sido acompanhado na mesma proporção por estudos epidemiológicos sobre este grupo. Até recentemente, os inquéritos de saúde realizados no Brasil excluíam esta população ou tratavam todos aqueles com ≥ 60 ou ≥ 65 anos de idade como se fosse um grupo homogêneo.21

    A Política Nacional do Idoso, no Artigo 2º, considera idoso, para os efeitos desta lei, a pessoa maior de 60 anos de idade28. No Brasil, com a Lei no 10.741, de 1º de outubro de 2003, o estatuto do idoso confere direito assegurado às pessoas com idade igual ou superior a 60 anos.11

    O uso inapropriado de medicamentos por idosos tem-se tornado um problema, tanto do ponto de vista humano quanto econômico.34 Portanto, o conhecimento do perfil de utilização de medicamentos pela população geriátrica é fundamental para o delineamento de estratégias de prescrição racional de fármacos entre esse segmento etário.9 Dentro dessa realidade, é necessário haver estudos específicos com grupos etários de idade avançada por parte de profissionais da área da saúde. A investigação sobre as condições que permitam a promoção e a proteção da saúde na velhice, bem como as variações que a idade comporta, reveste-se de grande importância científica e social.13

                O objetivo deste trabalho foi caracterizar o perfil de idosos em um centro de convivência e avaliar o consumo dos medicamentos por estes indivíduos e aspectos relacionados ao seu uso racional. 

    Metodologia

    Delineamento e caracterização do local do estudo

    Esta é uma pesquisa descritiva, do tipo transversal, realizada por meio de visitas domiciliares aos associados do Centro de Convivência para Idosos - Prefeito Durval Seiffert, local de entretenimento, lazer, realização de palestras e prestação de serviços que se destina ao atendimento à saúde de pessoas com idade a partir de 50 anos, localizado na cidade de Umuarama, Noroeste do Paraná, no período dos meses de outubro a dezembro de 2005. 

    Definição da amostra e seleção da amostra

    A partir da lista de associados, foram selecionados inicialmente idosos com idade igual ou superior a 60 anos (272). A seleção da amostra realizou-se com a busca de endereço dos idosos por meio do cadastro de associados, agrupando-os pelos endereços residenciais em toda área do município de Umuarama – PR. Todos os domicílios foram visitados e, no caso de ausência dos moradores, foram realizadas duas novas tentativas em diferentes dias e horários. As perdas foram registradas como mudança de endereço ou participantes não-encontrados, óbitos, idosos que não aceitaram participar da pesquisa, e aqueles que relataram não tomar nenhum medicamento, resultando numa amostra efetiva de 72 idosos entrevistados (n=72). Esse número amostral representa, dentro da população de 272 indivíduos, uma freqüência de 50% com intervalo de confiança de 95% e erro de amostragem de 10%, conforme análise realizada por meio do programa Epi info (CDC, 2005)5, o que é aceitável em termos estatísticos.16,39,35

    O projeto foi realizado de acordo com os Princípios Éticos na Experimentação Humana adotados pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), e Resolução nº 196/96 do Ministério da Saúde, e foi previamente aprovado pelo CEPEH/UNIPAR - Comitê de Ética em Pesquisa envolvendo Seres Humanos da UNIPAR, Universidade Paranaense, Umuarama – PR. 

    Coleta de dados

                Após os devidos esclarecimentos quanto aos objetivos e procedimentos da pesquisa, a participação dos idosos foi voluntária e a coleta de dados realizada mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

                Foi solicitado aos participantes que reunissem todos os medicamentos, embalagens e/ou receitas, existentes na casa, incluindo aqueles que não estivessem em uso.

    Em seguida, procedeu-se à realização de entrevista, utilizando-se como instrumento de coleta de dados, questionário estruturado com perguntas abertas e fechadas adaptadas de Fanhani et al., 2004.12 A entrevista incluiu também questões abertas, com a anotação das principais características da utilização dos medicamentos. Foram avaliados: dados pessoais do entrevistado, indicadores da condição de saúde, utilização de serviços de saúde e aspectos sobre a automedicação. Na pesquisa foram incluídos medicamentos sintéticos e fitoterápicos. As plantas medicinais utilizadas na forma de chás, medicamentos homeopáticos, florais e medicamentos importados foram excluídos da pesquisa.

                Os dados dos medicamentos utilizados obtidos junto aos entrevistados foram devidamente tabulados e analisados. A análise do uso correto dos medicamentos utilizados pelos idosos foi realizada por meio de pesquisa farmacológica, tendo como referência os dados descritos no dicionário terapêutico Korolkovas e França.18 As respostas são apresentadas em total de entrevistados e de número de medicamentos encontrados (n=231). 

    Resultados e Discussão

    Na pesquisa, houve predomínio de mulheres na população estudada. Os dados revelaram que 66% dos indivíduos entrevistados (n=47) foram do sexo feminino. A predominância de mulheres, em estudos populacionais com idosos, foi também relatada em outros estudos.4,34,19 Este fato pode se dar por causa da maior longevidade das mulheres em relação aos homens, fenômeno que tem sido atribuído à menor exposição a determinados fatores de risco, notadamente no trabalho insalubre; menor prevalência de tabagismo e uso de álcool; diferenças quanto à atitude em relação a doenças e incapacidades e, por último, maior cobertura da assistência gineco-obstétrica.10,29

    Com relação à idade dos participantes da pesquisa, 40 deles estavam na faixa etária de 60 a 70 anos (56%), 18 na faixa de 71 a 75 anos (25%), seis participantes na faixa etária de 76 a 80 anos (8%), e oito entrevistados com idade superior a 80 anos (11%).

    A redução da taxa de fecundidade ocorreu paralelamente a uma queda de taxa de mortalidade e, como conseqüência, houve aumento significativo da expectativa de vida da população brasileira, que passou de 33,7 anos no início do século passado para aproximadamente 71 anos em 2002.38 Os processos de urbanização e planejamento familiar que marcaram a década de 1960 acarretaram significativa redução da fecundidade, que resultou em aumento da proporção de pessoas com 65 anos ou mais.14, 6

    No que se refere à escolaridade dos entrevistados, 23 idosos declararam-se não-alfabetizados (32%), 30 afirmaram possuir ensino fundamental incompleto (41%) e dez participantes responderam ter completado o ensino fundamental (14%). Com relação ao ensino médio, 4% dos entrevistados informaram não ter concluído (n=3) enquanto que 6% dos pesquisados concluíram o ensino médio (n=4). Entre os entrevistados, apenas n= 2 responderam possuir ensino superior completo (3%).

    A distribuição de escolaridade dos idosos corresponde aos baixos níveis educacionais vigentes no país. Dados do IBGE17 informam que nas décadas de 1930, até pelo menos nos anos de 1950, o ensino fundamental ainda era dirigido a segmentos sociais específicos, o que poderia justificar que a baixa escolaridade dos idosos poderia ainda estar correlacionada também com a maior presença de problemas de saúde nesse segmento da população. Em estudo realizado por Lyra,24 foi observado que a maioria dos idosos (61,0%) que apresentavam baixa escolaridade (fundamental incompleto/ analfabeto) tinha cinco vezes mais chance de ter problemas de saúde. O baixo nível de escolaridade associado a fatores socioeconômicos e culturais contribui para o aparecimento da doença, considerando-se que esses fatores podem dificultar a conscientização das pessoas para a necessidade de cuidado com a saúde ao longo da vida, adesão ao tratamento, limitando a ação de fatores de risco.

    Quando analisados os gastos monetários mensais com medicamentos, foram estipulados intervalos de gastos variando de menos de R$ 30,00 até mais de R$ 90,00. A proporção de idosos que relataram gastos mensais acima de R$ 90,00 com medicamentos foi de 42% dos entrevistados (n=30), enquanto que 15 entrevistados (21%) relataram gastarem mensalmente menos que R$ 30,00, e 12 (17%) afirmaram ter gastos na faixa de R$ 31,00 e R$ 60,00 mensais com a aquisição de medicamentos.

    Nesta pesquisa, foi observado que 54 entrevistados (75%) recebiam até 03 salários mínimos (R$ 300,00 = salário vigente, à época, no país), enquanto que 32% dos idosos recebiam renda de R$ 600,00 (02 salários mínimos). Em pesquisa realizada por Lebrão e Laurenti,20 foi observado que a renda dos idosos era de 2,1 salários mínimos, com um comprometimento de renda de cerca 15% em medicamentos. Segundo esses autores, o gasto tornou-se preocupante, considerando que a maioria dos medicamentos utilizados foi para o controle de hipertensão arterial, condição crônica para os quais o serviço público deveria fornecer tratamento gratuito. Essa observação reforça a necessidade de políticas no país, para melhorar o acesso da população idosa aos medicamentos.

    Na tabela 1, é mostrado que o acesso aos serviços do SUS pelos entrevistados é relativamente alto, quando comparado à utilização dos serviços privados, em que 65% (seis a dez vezes a cada dez consultas) dos entrevistados freqüentemente utilizavam assistência pública. Por outro lado, 27% dos entrevistados (seis a dez vezes a cada dez consultas) utilizavam os serviços privados ou planos de saúde.

    A proporção de indivíduos filiados a planos privados de saúde foi semelhante ao percentual encontrado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PNAD, 1998 (26,9%),21 e maior que aqueles encontrados no estudo realizados em Bambuí-MG (19,3%).22

    A população idosa é grande usuária de serviços de saúde. Em países desenvolvidos, o uso desses serviços entre pessoas com ≥ 65 anos é de três a quatro vezes maiores do que seu tamanho proporcional na população, quando comparadas a outras faixas etárias, reflexo da alta prevalência de várias doenças e incapacidades físicas entre os idosos.31 

    Tabela 1 - Acesso dos idosos do centro de convivência a serviços de saúde, Umuarama, Pr, 2005. 

     

     

    PÚBLICA

    n

    %

    Nunca (0)

    10

    14%

    Raramente (1-2X:10)

    9

    13%

    Regularmente (3-5X:10)

    6

    8%

    Quase sempre (6-7X:10)

    15

    21%

    Sempre (8-10X:10)

    32

    44%

    Total

    72

    100%

     

     

    PARTICULAR / PLANOS DE SAÚDE

    n

    %

    Nunca (0)

    30

    42%

    Raramente (1-2X:10)

    15

    21%

    Regularmente (3-5X:10)

    7

    10%

    Quase sempre (6-7X:10)

    6

    8%

    Sempre (8-10X:10)

    14

    19%

    Total

    72

    100%

    Os valores referem-se ao número de acessos aos serviços públicos ou privados considerando-se dez consultas realizadas. 

    As doenças cardiovasculares são freqüentes em idosos, e são responsáveis por altas taxas de morbimortalidade neste grupo etário. A hipertensão provoca alterações patológicas nos vasos sanguíneos e hipertrofia no ventrículo cardíaco esquerdo. É uma das principais causas de acidente vascular cerebral, além de doenças coronárias, como infarto do miocárdio, insuficiência cardíaca e insuficiência renal.3

    Há uma correlação entre a hipertensão arterial com doenças crônicas metabólicas, como o diabetes. O risco de morte conseqüente às afecções cardiovasculares em diabéticos é três vezes maior que nos pacientes que não sofrem dessa doença.33

    No presente estudo, quando os entrevistados foram questionados sobre o diagnóstico de doenças crônicas, a hipertensão foi a mais freqüente (54% dos entrevistados n=39), em que 40% deles tiveram o diagnóstico feito há mais de cinco anos (tabela 2). A alta prevalência da hipertensão, em idosos, também foi observada por Lebrão e Laurente20 e Lima-Costa21. Além da hipertensão, a prevalência de diabetes mellitus e artrite/reumatismo foram relatadas por 17 e 15% dos entrevistados, respectivamente.

    Com o envelhecimento, há o aumento da prevalência de doenças crônico-degenerativas, entre elas: as doenças cardiovasculares, osteoarticulares e diabetes.15, 27

    A multiplicidade de doenças num mesmo idoso é fato muito freqüente. Em um inquérito domiciliar, realizado no município de São Paulo, mais de 80% dos idosos entrevistados relataram apresentar pelo menos uma doença crônica e 10% destes idosos possuíam, no mínimo, cinco patologias relatadas.29 

    Tabela 2 – Doenças coexistentes em idosos do centro de convivência, Umuarama, Pr, 2005. 

    Freqüência 

    Doenças

    n

    Nunca    n

       (0)

    1 a 4    n

    anos

      5 a 8

     anos                                a

    9 a 12    n     

     

    anos

    13 ou

    mais

    Total   

    %

    a) Hipertensão                

    33

      46%      10

     14%     12

      17%        02

        3%     15

      20%

    100

    b) Infarto do miocárdio  

    68

      94 %     04

       6%     00

         0%         00

         0%     00

       0%

    100

    c)Acidente vascular cerebral 71

      98%      01

       2%     00

         0%         00  

         0%     00

       0%

    100

    d) Angina                       

    65

      91%      05

       7%     01

        1%        01

         1%     00

       0%

    100

    e) Diabetes                   

    60

      83%      04

       6%     02

        3%        01

         1%     05

       7%

    100

    f)Artrite/reumatismo  61  85%       04    6%     03     4%        01      1%    03