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Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia

versão impressa ISSN 1809-9823

Rev. Bras. Geriatr. Gerontol. v.14 n.4 Rio de Janeiro  2011

 

Representação social do idoso do Distrito Federal e sua inserção social no mundo contemporâneo a partir da Internet

Social representation of the elderly in the Distrito Federal and their social inclusion in the modern world from the Internet

Maria Aparecida Santana FerreiraI; Vicente Paulo AlvesI

IPrograma de Pós-Graduação em Gerontologia, da Universidade Católica de Brasília. Brasília, DF, Brasil.

Correspondência / Correspondence


RESUMO

Sendo o estudo do uso da internet pelos idosos um tema recente na gerontologia, este artigo relata uma pesquisa que levou em consideração a inserção dos idosos na sociedade das tecnologias de informação e comunicação (TIC) a partir da teoria da representação social dos idosos, que residem no Distrito Federal e acessam a internet. Tem como objetivo discutir e analisar a construção das representações sociais dos idosos residentes no Distrito Federal sobre a internet, na busca de verificar se os idosos estão acompanhando as profundas transformações da sociedade das tecnologias informacionais e comunicacionais. Como procedimento metodológico adotou-se a observação, a entrevista semi-estruturada, o programa ALCESTE para a análise de conteúdo, que conta a quantidade de unidades de contexto elementares (UCE), que correspondem à idéia de frase mais calibrada em função do tamanho do texto, avaliada em número de palavras analisadas e conforme a ordem de prioridade. Verificou-se que há um rompimento da visão negativa de que a velhice é uma fatalidade e um tempo de solidão, porque novas possibilidades se abrem para os idosos com a internet, que pode inseri-los no mundo contemporâneo, permitindo-lhes criar novos laços de amizade e novas interações sociais.

Palavras-chave: Idoso. Internet. Envelhecimento. Conhecimento em informática. Representação Social.


ABSTRACT

Being the study of Internet use by the elderly a recent theme in gerontology, this article reports a study that took into account the inclusion of the elderly in the society of information technology and communication (TIC) from the theory of social representation of the elderly, who residing in the Federal District and access the Internet. Aims to discuss and analyze the construction of social representations of elderly residents in the Federal District on the Internet, searching to verify that the elderly are following the profound social transformations of informational and communicational technologies. The methodology adopted is observation, semi-structured interview, the program ALCESTE for content analysis that counts the number of elementary context units (UCE), which correspond to the idea of phrase more calibrated according to the size of text, measured in number of words and analyzed according to the order of priority. It was found that there is a disruption of the negative view that aging is a fatality and a time of loneliness, because new possibilities are opened for the elderly with the Internet, you can enter them in the contemporary world, allowing the to create new links new friendships and social interactions.

Key words: Elderly. Internet. Aged. Computer Literacy. Social Representation.


INTRODUÇÃO

Em uma realidade em que o processo de envelhecimento se apresenta de forma acelerada e a introdução das novas tecnologias sinaliza o surgimento de um tempo histórico, a mobilização em prol da inclusão digital do idoso se torna uma necessidade premente. Centrado na questão da inserção digital dos idosos, esse relato de pesquisa tem como objetivo discutir e analisar a construção das representações sociais dos idosos residentes no Distrito Federal sobre a internet na busca de verificar se os idosos estão acompanhando as profundas transformações da sociedade das tecnologias informacionais e comunicacionais (TIC) que impactaram suas vidas de forma a ultrapassar fronteiras e transformar a tecnologia em uma alavanca para a inclusão social dos mesmos, conforme se pode perceber nas pesquisas anteriores de estudiosos como Kachar,1 Christ et al.,2 Garcia,3 Brito & Faleiros4 e Guedes & Cárdenas.5

Esse trabalho justifica-se em razão de sua relevância social e acadêmica que possibilita abrir outras visões de mundo, que desvele o preconceito existente contra os idosos, auxiliando-os a buscar nas TIC novos caminhos e/ou possibilidades de continuar a aprender, melhorar suas formas de entender a qualidade de vida, o pertencimento a uma sociedade tecnológica e à capacitação para defesa de seus direitos por meio da internet, levando-os a enfrentar e derrubar esses preconceitos sociais, políticos e culturais que insistem em perdurar na sociedade atual.

Para entender como a internet é percebida e representada pelos idosos residentes no Distrito Federal e como ela oportuniza a compreensão de comportamentos e sentimentos para com estes, recorremos à representação social, idealizada por Moscovici,6 enquanto um corpus organizado de conhecimento, de origem parcial da ciência ou do universo reificado. Elaborado segundo Lopes et al7 por determinado grupo sobre um objeto social relevante, que ao exercer as funções de direcionar comportamentos e facilitar a comunicação entre os membros do grupo que a compartilha gera desconforto, sendo incorporado ao conhecimento comum e assumindo lugar no universo consensual por meio da arte de conversação, diálogos e imagens criadas e propagadas. Para alcançar seu objetivo, o estudo lançou mão do método realizando uma abordagem qualitativa e estudos exploratórios que poderiam dar informações sobre a dimensão e a possibilidade de conhecer o fenômeno representações sociais dos idosos residentes no Distrito Federal sobre a internet. A abordagem qualitativa aqui utilizada permite que os sujeitos pesquisados possam ser observados quanto ao comportamento, à emoção, suposições e outros aspectos que podem influenciar na compreensão do tema objeto da pesquisa. A coleta de dados se dá a partir da observação, entrevista semi-estruturada e dos dados quantitativos (software ALCESTE), que é considerado um dos marcos no desenvolvimento de métodos de análise lingüística, na análise de conteúdo no campo da psicologia social. O ALSCESTE é um método estatístico textual que procura identificar a organização típica do discurso dos entrevistados, gerando diversos gráficos que podem ser compreendidos a partir de análise de conteúdo, que conta a quantidade de unidades de contexto elementares (UCE), que correspondem à idéia de frase mais calibrada em função do tamanho do texto, avaliada em número de palavras analisadas e conforme a ordem de prioridade.

O Idoso e a Internet

Para Czaga8 e Christ et al2 muitos idosos na sociedade tecnológica informacional e de comunicação vivem no admirável mundo da internet. Estefenon et al9 e Kachar1 complementam citando que a internet é a versão atual do "lugar vivo de verdade" ou da "janela para o mundo", é onde eles se conhecem, paqueram, jogam, se comunicam, compram, apropriam, empoderam, exploram sua independência. Atravessou fronteiras, barreiras por meio da www, sites, e-mail, orkut, webcam, computador, vídeos e tantos outros produtos, acessórios e instrumentos que fazem parte do sistema de informação mundial. Nesse ambiente virtual o idoso absorve informações. Nessa realidade virtual ele é absorvido, pode trabalhar a sua ansiedade, confusão, tristeza, alegria.

Zimerman10 e Machado & Azevedo11 complementam corroborando que as ferramentas de comunicação e informação disponíveis na internet se apresentam para todos aqueles que se mantém com o pensamento "jovem" pela busca constante de conhecimento, não importando a sua idade cronológica e sim a troca de experiências, conhecimentos e vivências disponíveis nas comunidades virtuais e e-mail.

Teoria das Representações Sociais

Para Moscovici6 as representações sociais constituem como uma série de opiniões, explicações e afirmações que são produzidas a partir do cotidiano dos grupos, sendo a comunicação elemento primordial neste processo. Considerada "teoria do senso comum", por serem criadas pelos grupos como forma de explicação da realidade, a representação social formaliza uma "(...) modalidade de conhecimento particular que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre indivíduos" (p. 26).

Jodelet12 conceitua representação social como uma forma de conhecimento social que forma um saber histórico, cultural, geral, objetivo e prático que é elaborado e compartilhado por meio de valores, códigos e idéias de forma a contribuir para a construção de uma realidade comum.

As representações sociais sistematizadas por Abric13 se formam a partir do momento em que o novo conhecimento integra a saberes anteriores, fazendo-se novo algo assimilável e compreensível (função do saber), situando indivíduos e grupos no campo social, permitindo-lhes a elaboração de uma identidade pessoal e social (função identitária) e orientam comportamentos ou práticas "obrigatórias" na medida em que definem o que é aceitável em um dado contexto social (função de orientação) e permitem justificar a posteriori, os comportamentos e as tomadas de posição preservando e mantendo a distância social entre grupos (função justificadora).

Os processos fundamentais para a estruturação das representações sociais por um grupo foram identificados por Moscovici14 na formulação dos conceitos que se dão por objetivação e ancoragem.

A objetivação consiste em uma atividade imaginativa que dá forma ou figura ao conhecimento de um objeto. É o processo que torna concreto o que é abstrato, que materializa a palavra, que transforma o conceito em objeto e os torna intercambiáveis. Na realidade, ela substitui o conceito pelo que é percebido, o objeto pela sua imagem, a imagem torna-se o objeto e não sua representação. A imagem é sempre uma simplificação, necessariamente deformada do conceito que lhe deu origem.

A ancoragem se refere às significações que intervêm nas relações simbólicas existentes no grupo social que representa o objeto. Doise15 propõe uma análise da ancoragem das representações sociais a partir de uma classificação em três modalidades: 1) A ancoragem do tipo psicológico, que diz respeito às crenças ou valores gerais e podem organizar as relações simbólicas com o outro; 2) A ancoragem do tipo psicossociológico, que inscreve os conteúdos das representações sociais na maneira como os indivíduos se situam simbolicamente nas relações sociais e nas divisões posicionais e categoriais próprias a um campo social definido; 3) A ancoragem do tipo sociológico, que se refere à maneira como as relações simbólicas entre grupos intervêm na apropriação do objeto.

Esses dois processos, objetivação e ancoragem, são complementares, ainda que aparentemente opostos: enquanto um busca criar verdades óbvias para todos e independentes de todo determinismo social e psicológico; o outro, ao contrário, refere-se à intervenção de tais determinismos à gênese e transformação dessas verdades. O primeiro cria a realidade em si, o segundo lhe dá significação.

METODOLOGIA

Para que se pudessem levantar maiores detalhes de como são as representações sociais da internet pelos idosos, propõe-se a partir do ponto de vista de Minayo16 uma abordagem qualitativa baseada em estudos exploratórios, quando não se tem informações sobre o tema a ser investigado e se deseja conhecer seu fenômeno. De acordo com Richardson et al,17 Brito & Faleiros4 e Guedes & Cárdenas5 a escolha da amostra (100 idosos) obedeceu a critérios como não ser analfabeto, acima de 65 anos e residir no Distrito Federal. A coleta de dados consistiu na realização de observações participantes e entrevistas semi-estruturadas. Na análise do conteúdo dos dados coletados foram empregados os passos sugeridos por Bardin18 e Moraes19 como identificação e transformação do conteúdo em unidades, classificação das unidades encontradas em categorias, descrições das categorias e interpretação à luz de referencial teórico pertinente e pelo software ALCESTE (sigla francesa para Analyse Lexicale par Contexte d'um Ensemble de Segments de Texte), que é considerado um dos marcos no desenvolvimento de métodos de análise linguística, na análise de conteúdo no campo da psicologia social.20 Essa pesquisa longitudinal abrangeu o período de agosto de 2008 a agosto de 2009 e respeitou a Resolução 196/96 do Ministério da Saúde, onde todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A pesquisa foi registrada sob o Nº. CEP/UCB 29/2008 no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Católica de Brasília.

RESULTADOS

Para se obter os resultados da pesquisa foram inseridos no software ALCESTE 100 textos das entrevistas realizadas com os idosos. O ALCESTE constatou 17.273 formas de expressão que foram reduzidas a 911 formas distintas e 303 formas finais. A divisão do texto se fez por meio de 558 Unidades Contextuais Elementares (UCE), que são expressões organizadas e articuladas entre si em relação ao sentido do contexto analisado. Foram classificadas 481 UCE, correspondente a 86,20% das 558 iniciais. O próprio software estabelece os critérios de inclusão e de exclusão das UCE, ao escolher a significância das palavras, dentro das classes através da prova de associação do qui-quadrado (x2), razão de se haver excluído 77 UCE e trabalhar com o total de 481, que para o cálculo dos percentuais a seguir corresponderá a 100%. As UCE se encontram articuladas entre as classes 1, 3 e 4 e as 2 e 5. A Classe 1 compreendeu 96 UCE com 19,96% das mesmas. A Classe 2 contava com 95 UCE e 19,75%. A Classe 3, com 128 UCE e 26,61%. A Classe 4, com 40 UCE e 8,32% e a Classe 5, com 122 UCE e 25,36%.

A análise executada pelo software do total de UCE que o corpus tinha, proporcionou a formação de cinco classes de vocabulário, conforme foi mostrado acima na tabela 1.

A partir dessa classificação geral partiu-se para análise de cada uma das classes. Sendo assim, na análise da Classe 1 destacou-se, conforme o Quadro 1, a Classificação Hierárquica Descendente, onde o ALCESTE apresentou as palavras mais significativas dessa classe, segundo o x2 (qui-quadrado) presente, que foi utilizado como critério para a escolha das palavras mais importantes da classe, dada a sua função de demonstrar a capacidade de agregação de cada um das palavras. Assim, quanto maior o valor do x2, mais importante é a palavra para a construção do sentido de cada classe, fazendo com que as palavras com mais peso no texto apareceram em primeiro lugar e as com menos peso, por último.

Nestas classes aparecem, predominantemente, variáveis referentes ao discurso dos idosos com mais de sessenta e cinco anos, residentes no Distrito Federal, com renda média de 4,5 salários mínimos, aposentados ou pensionistas e que utilizam a internet. Nos itens abaixo vemos o discurso dominante nessa classe, em que os sujeitos idosos relatam que o uso da internet contribui para a atualização e retorno da pessoa idosa ao mercado de trabalho. E que os assuntos que mais lhes interessam na internet são serviços, política, programas culturais, economia e educação.

Observa-se no Quadro 1 as frases selecionadas pelo ALCESTE como significativas do discurso das classes a partir de algumas Unidades de Contexto Inicial (UCI) e UCE selecionadas. Na classificação ascendente da Classe 1, por meio de maior ou menor aproximação das correlações, encontramos uma forte associação entre "atualização", "aposentado", "retorno ao mercado de trabalho", demonstrando nessa Classe que o idoso apresenta no seu discurso uma necessidade de se sentir útil e produtivo, buscando, portanto, na internet dados para essa concretização.

Na Classe 2 encontramos 95 UCE selecionadas, sendo que 19,75% das UCE correspondem também ao discurso dos idosos que falam de sua identidade social, que difere da Classe 1, quando se referem mais ao fato e à justificativa de se acessar a internet. Referem-se a seu envolvimento com a internet, evidenciando a sua capacidade de trabalhar, e referindo a sua experiência como principal qualidade para retornar ao mercado de trabalho. Nesta classe observa-se que o envolvimento com a internet é relevante para que se sintam socialmente reconhecidos.

É um discurso diferente do apresentado na Classe 1, pois aqui o idoso fala da sua participação na sociedade, de sua identidade, sonhos e autonomia.

Na Classificação Hierárquica Ascendente verifica-se forte associação entre sentimentos, capacidade e escolha. Na associação feita pelo ALCESTE entre as palavras, quanto mais nos distanciamos do eixo para a direita, mais podemos ver associações que se articula em dois grandes blocos. Uma delas, articula o envolvimento com a internet e a outra com a sua situação relacional.

Assim, na fala dos autores idosos, de fato (incluindo as Classes 1 e 2) observa-se um discurso sobre a utilização da internet como justificativa e explicação.

A Classe 3 comporta 128 UCE, sendo que 26,61% traduzem o discurso dos idosos entrevistados que fazem referências a si mesmos, às suas saúdes físicas e psicológicas em conjunção com os recursos que não gostam na internet. Percebemos que há entre os idosos a prevalência de problemas de saúde como diabete, artrose, fibromialgia e hipertensão arterial.

A questão que emerge da análise dessa Classe é de que a realidade do idoso e sua fala estão realmente sendo adequadas ao perfil levantado até aqui (veja Quadro 1).

A Classe 4 compreende 40 UCE selecionados no corpus da pesquisa e 8,32% por UCE. Traduz no discurso dos idosos entrevistados o significado da internet para eles. Entre as palavras mais significativas selecionadas pelo ALCESTE encontram-se, em primeiro lugar "grupo". As palavras desta classe como "passeios" e "aventura" reforçam a importância da internet na vida dos idosos entrevistados.

Na Classe 5 aparecem, predominantemente, as variáveis referentes ao discurso dos idosos em que eles consideram um hábito saudável o uso da internet, com vistas à melhoria da sua qualidade de vida. Afirmam satisfação ao utilizarem a webcam e acessarem a conta bancária pela internet.

Na análise fatorial feita pelo ALCESTE, as coordenadas mostram que há uma similitude entre as Classes 4, 5 e 2 e uma separação entre essas e a 3 e 1. Na Classe 1 observa-se a contribuição da internet na melhoria da qualidade de vida dos idosos. Na Classe 2 evidencia-se a construção da identidade social do idoso com o seu envolvimento com a internet como necessidade de ser sentir útil, vivo, produtivo e socialmente reconhecido. A Classe 3 delineia-se a partir do perfil do idoso entrevistado. Na Classe 4, verifica-se o interessante significado que os idosos atribuem à internet. A Classe 5 sinaliza a concretude do uso da internet na melhoria da qualidade de vida.

No Gráfico 1, observamos no quadrante à esquerda no alto a Classe 5 e mais abaixo a Classe 4. No Quadrante à esquerda abaixo a Classe 2. No Quadrante à direita acima vemos a Classe 3 e no Quadrante à direita abaixo vemos a Classe 1.

Pelas coordenadas gráficas, percebe-se que há uma forte relação entre as Classes 4 e 5 e uma relação frágil entre as Classes 1 e 3, levando-se em conta que existe um valor de 0,12 na intersecção das Classes 2 e 4, 0,22 das Classes 2 e 5 e 0,8 entre as Classes 4 e 5.

O Perfil do Idoso do Distrito Federal

São apresentados aqui os resultados decorrentes da aplicação da entrevista semi-estruturada junto aos idosos, acima de 60 anos, de ambos os sexos e residentes no Distrito Federal, na intenção de traçar o perfil dos idosos participantes, assim como conhecer suas representações sociais sobre a internet.

A maioria dos idosos entrevistados foi na faixa etária compreendida entre 75 e 80 anos, conforme descrito na tabela 2, com um número significativo de mulheres (63%), corroborando com o fenômeno da feminização já percebido pelos dados censitários, reforçando a predominância do gênero feminino na população brasileira. Brito & Faleiros4 e Guedes & Cárdenas5 argumentam que essa tendência relaciona-se com a maior expectativa de vida das mulheres.

Com relação ao estado civil, viúvos ou viúvas têm um maior número (41%) em razão das perdas que se acentuam nesse processo de envelhecimento, embora o número de casados e divorciados/separados seja surpreendentemente o mesmo (30%). Poucos são os que não possuem nenhum companheiro(a) e se declararam solteiros (9%), relatando uma origem familiar repletas de privações materiais e afetivas.

Independente do estado civil, há alguns idosos que moram sozinhos (12%), mas o restante do grupo reside com a segunda ou quarta geração: 30% dos idosos moram com seus cônjuges, 18% com parentes e 35% com os filhos. Os dados do Censo de 2010, realizado pelo IBGE21 mostram que esses números estão aumentando nos lares brasileiros, pois 59,5% dos idosos residem com os filhos e 9,1% com os netos.

A quantidade de filhos (vivos) que esses idosos tiveram é alta, sobressaindo a faixa dos 6 a 9 filhos (42%), seguido pela faixa anterior (de 4 a 6 filhos) com 18%. Empatados estão as primeiras faixas (nenhum filho a 2 filhos e de 2 a 4 filhos) com 15%.

A renda do grupo, apesar de diversificada, varia desde os que ganham até um salário mínimo até os estão acima de 4 salários mínimos; 40% são aposentados, 38% pensionistas, 12% exercem atividade econômica e 10% recebem o benefício da Previdência Social. Observa-se que 38% dos idosos ganham mais de 4 salários mínimos, no entanto há 27% que estão entre os que ganham até um salário mínimo.

Camarano,22 Brito & Faleiros4 e Guedes & Cárdenas5 afirmam que mais 60% da população idosa brasileira mantêm os lares com filhos e netos em idade economicamente ativa. A renda dos idosos era responsável pela manutenção da casa e da sobrevivência da família.

Em relação à escolaridade dos idosos entrevistados, observa-se os dados da tabela 2, que dos cem entrevistados, 21% são graduados, 10% tem mestrado ou doutorado, 19% especialização, 14% segundo grau, 16% primeiro grau, 15% primeiro grau incompleto e 5% sem escolaridade.

Todos os idosos entrevistados utilizavam a internet, que lhes abre oportunidades para relações inter e intra-pessoal e intergeracional, proporcionando inclusive uma série de benefícios significativos, como conhecer pessoas da sua idade, compartilhar objetivos, esforços, desilusões, alegrias e opiniões.

Nesse sentido, o circulo de amizades e relações do idoso também é ampliado, contribuindo para romper situações de solidão, para fazer novos amigos, ampliar os temas de conversação e os assuntos nos quais pensam. Por outro lado, o encontro intergeracional supõe uma injeção de ânimo que ajuda a esquecer ou amenizar os problemas pessoais.

A internet faz com que o idoso, inconscientemente, encontre formas diferentes de enfrentar a vida e de entusiasmar-se com algo simples e acessível, tornando-se tolerante, aberto, compreensivo e, sobretudo, mais animado para viver de maneira plena, intensa e divertida, rompendo monotonias e rotinas domésticas, bem como relativizando os problemas pessoais e familiares, contribuindo para uma melhoria na vida.

A internet faz com que o idoso, inconscientemente, encontre formas diferentes de enfrentar a vida e de entusiasmar-se com algo simples e acessível, tornando-se tolerante, aberto, compreensivo e, sobretudo, mais animado para viver de maneira plena, intensa e divertida, rompendo monotonias e rotinas domésticas, bem como relativizando os problemas pessoais e familiares, contribuindo para uma melhoria na vida.

DISCUSSÃO

Após leitura cuidadosa do corpus coletado, procedeu-se à categorização das respostas obtidas. As unidades textuais da entrevista foram divididas e apresentadas nas categorias, subcategorias e elementos de análise encontrados na pesquisa que estão abaixo descritas.

Categoria Benefícios

Consiste em mostrar, a partir dos discursos dos idosos, as contribuições da internet na melhoria de sua qualidade de vida. Nela acoplaram percepções dos idosos entrevistados relacionados aos benefícios proporcionados pela internet. A possibilidade de ser inserido socialmente no mundo contemporâneo fez com que idosos buscassem mais esse meio de comunicação.

Subcategorias benefícios

Potencial Intelectual: Para Teles24 na tecnologia, os idosos se apropriam do conhecimento e da informação, se permitindo revelar o que pensam, pensar o que sentem e gostarem do que fazem, e com isso desvelarem os potenciais adormecidos, esquecidos, negligenciados por eles mesmos. Observamos na fala do entrevistado a seguir a recuperação e retenção de informações, assim como melhoria da habilidade mental:

Com a internet parece que minha mente voltou a funcionar. Penso mais, converso mais, lembro de coisas com mais facilidade (Sujeito M, 78 anos).

Socialização: Peixoto25 argumenta que na fala dos idosos há transparência das contribuições da internet na vida deles: umas, relacionadas a espaço de encontros, convivência, solidariedade, conversações e trocas de experiências, outras, ao ato de se conhecer, de conhecer o outro, de entrar em contato consigo mesmo, com o novo, com o diferente. Expressou-se assim um dos pesquisados:

O dia todo fico sozinha, e com a internet eu não penso na minha solidão, pois entro em contato com um ou outro. Tem sempre gente pra conversar (Sujeito Z, 68 anos).

Qualidade de vida: A qualidade de vida é definida pela OMS26 como a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e do sistema de valores no qual o indivíduo vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações que trazem consigo. Para tanto, Néri27 enfoca os desafios conceituais e práticos enfrentados pelos idosos na busca de sua qualidade de vida. Nessa perspectiva, muitos dos idosos entrevistados fazem uso da internet para a promoção da sua saúde física, mental e de bem-estar social. Dessa forma, um dos idosos entrevistados comentou:

Com a internet, minha qualidade de vida melhorou muito. Me sinto útil, ajudo os outros passando minhas experiências pra eles. Eu sinto bem com isso (Sujeito E, 90 anos).

Categoria Sentimentos

Toda e qualquer palavra que denota emoções quando usada, pode ser classificada como sentimento, desde que possua uma forma verbal. Estes sentimentos (estas decições ou disposições mentais) são aqueles que serão sentidos no corpo.

Subcategorias sentimentos

Satisfação: A internet apresenta-se como uma atividade que permite o gozo, conforme explana Both.28 Essa satisfação foi afirmada por um idoso participante da pesquisa:

Durante o tempo em que estou na internet, eu não penso em nada, só em navegar na internet; e minha filha, como fico satisfeita, você nem imagina! (Sujeito G, 78 anos)

Gratidão: Bello29 observa que o sentimento de gratidão pela capacidade de realização e auto-realização, de aprender e ensinar pode ocorrer por meio da internet. Assim agradeceu uma das entrevistadas:

Sou grata por conhecer gente como ela pela internet...(Sujeito J, 89 anos)

Alegria: Para Aldê30 a internet reforça a característica pessoal advinda do despertar para a vida, na busca de novos caminhos, novas formas de ver a vida. Uma idosa manifestou:

A internet é tudo pra mim, é alegria, é participação, é vida! Posso ficar o tempo todo e não me canso de acessá-la (Sujeito Z, 78 anos).

Empatia: Para Andrade,31 ao manifestar a capacidade humana de perceber, figurar e reconfigurar suas relações consigo mesmo, com os outros e com o mundo, o idoso reitera e estabelece novas relações, combinando novas possibilidades de integração do velho com o novo, real com o sonho, do eu com o outro:

Sei que por meio da internet posso aprender mais com a dor do outro. Com a dor do outro me fortaleço, e colocando-me no lugar do outro sinto que posso ajudar mais (Sujeito D, 70 anos).

Categoria Significados

Desde tempos remotos, o ser singular se faz presente, significando e resignificando atos, ações, eventos e acontecimentos. Mais do que fazer, construir, o sujeito idoso é um ser formador de opinião, de significados e de representações. Ele é capaz de estabelecer relações, experiências, vivências e lhes dar um significado.

Companhia: A internet permitiu o não isolamento social, emocional próprio do processo de envelhecimento. Segundo Teixeira32 foi dado ao idoso por meio da internet a condição de não sentir-se isolado:

Hoje, eu tô cheia de colegas e quem sabe até de amigos, só porque um dia acessei o orkut e o msn (Sujeito B, 80 anos).

Competência: Almeida33 traduz competência em habilidade humana de fazer coisas, de transformar materiais da natureza para os mais diferentes propósitos e de se transformar. Entrevistado afirmou que:

A internet me fez sentir competente naquilo que eu sei fazer, me proporcionou leitura, prazer, paixão em ajudar alguém (Sujeito P, 71 anos).

Inserção Digital e Social

Nunes34 ressalta que o conhecimento sobre o computador e a terceira idade passou a ser símbolo da cultura contemporânea, independentemente da área de especialização, influenciando no desenvolvimento e redirecionamento de uma nova cidadania societária e solidária. Kachar1 reforça citando que a internet é uma ferramenta de possibilidades para se inserir socialmente o idoso. Testemunhou um dos entrevistados:

A internet pra mim é muito importante (...) tenho como entrar em contato com outras pessoas, me informar, fazer algo sem sair de casa (Sujeito W, 80 anos).

É importante apontar as limitações desse estudo uma vez que foi realizado apenas no Distrito Federal. O número de idosos que utilizam a internet vem crescendo a cada dia, conforme pesquisa realizada pelo SESI/Fundação Perseu Abramo,35 o que poderia interferir nos resultados finais desse estudo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na pesquisa sobre a representação social do idoso do Distrito Federal e sua inserção social no mundo contemporâneo a partir da internet foi possível entender e aceitar uma representação social da velhice como algo natural e, correlativamente, uma representação da internet como um correio eletrônico, digital e interativo num contexto histórico global de sociedade do bem-estar.

O idoso e a internet, segundo esta representação dominante entre os idosos pesquisados, rompe com a visão solidamente arraigada de que a velhice é uma fatalidade e um tempo de solidão. Essa representação apareceu aqui como um novo paradigma na área da gerontologia, que possibilita afirmar que a internet pode inserir o idoso socialmente no mundo contemporâneo, abrindo-lhe novas possibilidades de criar laços de amizade e interações sociais.

O grande desafio dessa pesquisa foi o de mostrar que é possível capacitar o idoso nessa sociedade tecnológica e informacional, de forma que se possa inseri-lo numa ampla, complexa e intricada rede digital e social. O que, em última instância, implica entender e admitir que se o processo de envelhecimento está aumentando, é preciso também que se cresça o número de idosos inseridos digitalmente na sociedade tecnológica e informacional.

REFERÊNCIAS

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Correspondência / Correspondence

Vicente Paulo Alves
Universidade Católica de Brasília
Programa de Pós-Graduação em Gerontologia - Campus II
SGAN 916 Avenida W5
70790-160-Brasília, DF, Brasil

E-mail:vicente@ucb.br

Recebido: 19/4/2010
Revisado: 15/6/2011
Aprovado: 28/8/2011